sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CONJETURA DA IMPOSSIBILIDADE

muito possivelmente é
seria impossível ainda
que desejável seja,
por mais próximo esteja
ao alcance das mãos
atadas

improvável que pareça
a ciência exata joga a toalha,
cobre de artifícios
sua própria falta
de inventividade
criativa

ato possível sim
a imaginação não nega
tampouco arrega à regra,
permite-se a si mesma
sem medo de errar
aceita

o incerto do impossível
tão real quanto alguma ficção,
fixação que solta a mente
do concreto rés do chão

convém pesar a verdade
na não-escala da abstração

       [para o infinito]

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

"Em Kafka, a instituição é um mecanismo que obedece a suas próprias leis que foram programadas não se sabe mais por quem, nem quando, que não têm nada a ver com os interesses humanos e que são portanto ininteligíveis."

[Kafka só não é brasileiro porque é universal.]

"Os mecanismos psicológicos que funcionam no interior dos grandes acontecimentos históricos (aparentemente inacreditáveis e desumanos) são os mesmos que regem as situações íntimas (inteiramente banais e muito humanas)."

Milan Kundera, A arte do romance
sim, fui muito ridículo
poucas vezes
na vida
– fui suficientemente ignorante
quase sempre
motivo de conforto, frustração
às vezes dá raiva
assim
"O que nos salva da civilização ocidental?"

Georg Lukács [pensando nos possíveis resultados da 1ª Guerra Mundial]

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

SOU BENEDITO

"Se fiz bem, vamos manter silêncio;
Se fiz mal – vamos rir então
E fazer sempre pior,
Fazendo pior, rindo mais alto
Até descermos à cova.
(...)
Creiam, amigos, a minha desrazão
Não foi para mim uma maldição!"

       Entre amigos, Nietzsche, 1886


sou benedito
       pelo mau compreendido

uma vês que
       está

       falado mas não se houve
       ah mas não se tem
       dado que não cessente
       visto que não se crê

       fidedigno de ser
       não fosse feito
       – mesmo eu –
       safaria-o

amem! e até mais ver!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ANJO: DESTERRITORIALIZADO

ambíguo.
nem deus nem santo nem diabo
nem bom nem mau nem homem
nem carne nem sopro nem espírito
nem macho nem fêmea nem gênero

nem ser nem estar
sem eira nem beira

nem adulto nem criança
nem eros nem querubim

nem voo nem pé
tanto faz como tanto fez

nem meu nem seu
nem todos, imprecisão

nem guarda nem canta nem cai
nem lá nem cá nem acolá
nem céu nem inferno nem lugar
nenhum

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

a linguagem faz ser
o que não é
– definível, exata
sombra nem imagem
fora da linguagem
desformada está.

a linguagem facínora
obrigatoriamente é
sentido
contra o sensível,
dá forma
em troca da alma.

domingo, 14 de dezembro de 2014

descobri minha paranoia
finalmente!
há anos venho tentando
persegui-la
encontrá-la
defini-la
determiná-la
apreendê-la
cercá-la por todos os lados
para que seja só minha
– minha paranoia,
ademais ninguém


nãnãni nãnãnão

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Rooms by the Sea (1951), de Edward Hopper

incessante transgressão, ultrapassamentos
daquilo que somos, do humanismo
que nos cola a pele, gruda
como cracas no casco, dificulta
o movimento, atrasa
a navegação.
Como se desprender?
do que impregnou, da tradição
das águas que sustentam o
barco ao mesmo tempo em
que o mantém no lugar?, mesmo
com a sensação de que flutua livre-
mente? com sua carga histórica ativa
– histérica! – ainda
desconhecida? Pesada demasia-
damente pesada.

para Peter Pál Pelbart, pela aula de poesia.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

(Há pouco, no metrô:)

- Minha mãe disse, você lembra seu pai, com esse cabelo! Que ótimo, mãe, vou cortar, respondi.
- Ela gostou um dia.
- Gostou, mas hoje deve odiar.

(Pronto, pode continuar o romance.)

domingo, 7 de dezembro de 2014

SABEDORIA DO ROMANCE

É o que o escritor Milan Kundera defende, uma sabedoria própria do romance, percebida e contada por narrativas, quase sempre em desalinho com os grandes avanços científicos e muitas vezes mais pertinentes do que eles. Tal saber viria da observação do mundo e da perspicácia de captar nele não as luzes mas as trevas – para usar esta expressão do filósofo Giorgio Agamben. Ou seja, a sensibilidade do romancista seria capaz de apreender dilemas contemporâneos que ainda não vieram à tona, porém agem às escondidas e nos afetam sem que nós saibamos, sem que estejamos aptos para distingui-los.

"Descobrir o que somente ele pode descobrir é a única razão de ser de um romance". Essa ideia é desenvolvida nos diversos textos que compõem A arte do romance, primeiro livro de "não-ficção" de Kundera. Estão nele reflexões obtidas a partir da sua experiência como escritor, as quais não se propõem como teoria, mas como "confissões". Entre elas, a tal sabedoria do romance foi a que mais me chamou a atenção. Claro, olhando para minha biblioteca particular, dando-me conta de que dois terços de todos os livros que li são romances, não tenho como discordar, nem mesmo se quisesse.

Posso afirmar que foi com romances que descobri as coisas mais complicadas: a insuficiência das relações humanas; a inexatidão/enganação da História; a força transgressora, profanadora e transformadora do humor; a necessidade urgente da desmilitarização em todos os seus sentidos; o devir minoria; a penetração da política na banalidade da rotina; o fascismo da língua; a estrutura ficcional que sustenta a dita "realidade".

Nada disso é exclusividade da minha experiência como leitor – pelo menos da Modernidade em diante, boa parte dos pensadores se dedicam a analisar e até mesmo a produzir literatura, romances em especial. Filósofos, sociólogos, etnógrafos, educadores, políticos, psicólogos, artistas de outros campos – de alguma maneira eles flertam com a sabedoria possível daquela forma literária tão impregnada na cultura geral.

Uma das sabedorias que Kundera destaca é a da incerteza – a incrível capacidade que o romance oferece de contrariar a lógica e os dogmas, de mostrar que o julgamento e a busca da verdade se esfacelam perante a relatividade do mundo dos homens. É o que nos faz acreditar nas perguntas porém jamais nas respostas; a jamais sermos guiados apenas pela razão, uma vez que ela levará – necessariamente – a uma ilusão absolutista. Relatividade que manterá sempre em dúvida a moral de Anna Karenina, de Tolstói; K., de Kafka; Capitu, de Machado. E que colocará em questão a moral em si. "O romance é o paraíso imaginário dos indivíduos. É o território em que ninguém é dono da verdade". Ele dá a ver a ambiguidade de que somos feitos.

O romance oferece aberturas. Linhas de fuga. Desvios. Oferece a possibilidade de inventar lugares para que modos de existência de todo tipo ocupem, encontrem outros, dialoguem. Lugares oriundos de fraturas do mundo, para citar novamente Agamben, que por sua vez chega a essa ideia por um poema de Osip Mandelstam.

A vontade de abertura do pensamento caracteriza o romance como transgressor de uma ordem social pautada na obediência, na servidão e no assujeitamento; desse ideal iluminista que acredita cegamente na democracia da maioria e que pretende assegurá-la pelo terrorismo de Estado. Não à toa foi uma pilha de livros que vimos queimar toda vez que um regime totalitarista assumiu o poder.

A dissidência provém da sua inquietação. "O romance não pode mais viver em paz com o espírito de nosso tempo: se ainda quer continuar a descobrir o que não foi descoberto, se ainda quer 'progredir' como romance, ele só pode fazê-lo contra o progresso do mundo".

Vale ressaltar que o romance não se apresenta como manual, não tem a pretensão de salvar nem de corromper, por mais que algo consiga ser aprendido com ele. A noção de verdade lhe escapa. Sua memória falha. Seu sentido para a existência humana é irônico. Talvez por isso sua sabedoria é menosprezada quando comparada à ciência.

Kundera alerta que "não se pode julgar o espírito de um século exclusivamente segundo suas ideias, seus conceitos teóricos, sem levar em consideração a arte e especialmente o romance. O século XIX inventou a locomotiva, e Hegel estava certo de ter apreendido o próprio espírito da História universal. Flaubert descobriu a tolice. Ouso dizer que essa foi a maior descoberta de um século tão orgulhoso da sua razão científica".

A tolice que Flaubert denunciou permanece em nosso cotidiano. Uma tolice moderna que não significa ignorância ou falta de informação, mas o "não pensamento das ideias recebidas", ou seja, a nossa preguiça concordante, consensual, superficial, agressiva, confortável. Tolice que determina um padrão de comportamento dominante, que aceita esse padrão, independente de idade, gênero ou classe social.

Admiro o romance pelas suas tentativas de retratar um contemporâneo que não fica parado para ser observado em detalhes, portanto impossível de ser descrito com exatidão. Pelo contrário, ele jamais adquire forma verossímil.

Como Kundera explica, "o romance não examina a realidade mas sim a existência. A existência não é o que aconteceu, é o campo das possibilidades humanas, tudo aquilo que o homem pode tornar-se, tudo aquilo de que é capaz. Os romancistas desenham o mapa da existência descobrindo esta ou aquela possibilidade humana. (...) Existir, isso quer dizer: 'ser-no-mundo'. É preciso portanto compreender o personagem e seu mundo como possibilidades".

sábado, 6 de dezembro de 2014

O HOMEM PENSA, DEUS RI

"François Rabelais inventou muitos neologismos que em seguida entraram para a língua francesa e para outras línguas, mas uma dessas palavras foi esquecida e podemos lamentá-lo. É a palavra agélaste; ela é tomada do grego e quer dizer: aquele que não ri, que não tem senso de humor. Rabelais detestava os agélastes. Tinha medo deles. Queixava-se de que os agélastes eram tão 'atrozes contra ele' que esteve a ponto de parar de escrever, e para sempre.

Não existe paz possível entre o romancista e o agélaste. Não tendo nunca ouvido o riso de Deus, os agélastes são convencidos de que a verdade é inequívoca, de que todos os homens devem pensar a mesma coisa e que eles mesmos são exatamente aquilo que pensam ser. Mas é precisamente ao perder a certeza da verdade e o consentimento unânime dos outros que o homem torna-se indivíduo. O romance é o paraíso imaginário dos indivíduos. É o território em que ninguém é dono da verdade, nem Anna nem Karenin, mas em que todos têm o direito de ser compreendidos, tanto Anna como Karenin.

(...)

A erudição de Rabelais, por maior que seja, tem portanto um outro sentido que a de Descartes. A sabedoria do romance é diferente daquela da filosofia. O romance nasceu não do espírito teórico mas do espírito do humor. Um dos fracassos da Europa é jamais ter compreendido a mais europeia das artes – o romance; nem seu espírito, nem seus imensos conhecimentos e descobertas, nem a autonomia de sua história. A arte inspirada pelo riso de Deus é, por sua essência, não tributária mas contraditória das certezas ideológicas."

KUNDERA, Milan. A arte do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp. 147-148.

sábado, 29 de novembro de 2014

todo fim de texto
me convida a voltar,
ler de novo
desde o início
outro texto
recém-criado
se existe
a vontade de negar
aquela existência
é
necessário
admitir que está
no mundo

[ignorar, apagar.
de onde vêm
tais vontades?
de que sentimentos
se alimentam?]

a existência de qualquer
algo específico, talvez genérico
incômodo discordante,
por demais concordante

[só vira questão
quando bate a crise]

excessos da existência
não sei por quê
da negação

deveria saber
por que privá-la de tudo?
a decisão espera por nós.
o juízo é nosso, infelizmente
a sentença é nossa
alçada

seja qual for
o motivo de tamanha violência
a existência ainda existe
resiste
continuará existindo
quando nós não mais

[tamanha importância tem
o nosso próprio ser
e estar]
lugar tão pequeno revelou-se
labirinto em que conhecer
significava se perder

[para Bem Diante dos Meus Olhos, um livro porvir]

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A SABEDORIA DA INCERTEZA

“O que quer dizer o grande romance de Cervantes? Existe vasta literatura a esse respeito. Há os que pretendem ver nesse romance a crítica racionalista do idealismo obscuro de Dom Quixote. Outros veem nele a exaltação do mesmo idealismo. Ambas as interpretações são errôneas porque pretendem encontrar na base do romance não uma interrogação, mas um preconceito moral.
      O homem deseja um mundo onde o bem e o mal sejam nitidamente discerníveis, pois existe nele a vontade inata e indomável de julgar antes de compreender. Sobre essa vontade estão fundadas as religiões e as ideologias. Elas não podem se conciliar com o romance a não ser que traduzam sua linguagem de relatividade e de ambiguidade no próprio discurso apodíctico e dogmático. Elas exigem que alguém tenha razão; ou Anna Kariênina é vítima de um déspota obtuso, ou então Karenin é vítima de uma mulher imoral; ou K., inocente, é esmagado pelo tribunal injusto, ou então por trás do tribunal se esconde a justiça divina e K. é culpado.
      Nesse ‘ou – ou então’ está contida a incapacidade de suportar a relatividade essencial das coisas humanas, a incapacidade de encarar a ausência do Juiz supremo. Devido a essa incapacidade, a sabedoria do romance (a sabedoria da incerteza) é difícil de aceitar e de compreender.”

A arte do romance 
Milan Kundera

terça-feira, 4 de novembro de 2014

creio,
entretanto,
no porém.

todavia até
certo ponto
convém considerar
que não devo, nego
afirmo acaso pudesse.

ora! que nada.
nesse meio tempo subo
no muro observo
ambos os lados
um de cada olho,
outro a contrassenso
afastando a luz
com a palma
da mão daqui
até o infinito
e além

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

poucas vozes contam a História
algumas sem nome
outras tantas sem rosto
muitas sem palavras
cantam historietas
as mais diversas

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

terça-feira, 21 de outubro de 2014

ENQUANTO É TEMPO

o ócio se diz
criativo
porém tardio
tanto
que enquanto
o espero
entedio

nada concreto portanto
quero
inventar somente
do fundo do tédio,
do fruto da mente
a via

que venha insolente
criatura
tão logo puder
– sem ódio
contraproducente –
cria!
antes que eu
me vá

ausente.



O tempo é uma ficção. A gente o inventa como convém e às vezes o sustenta por mais inconveniente que tenha se tornado. Essa estrutura de jornadas de trabalho, de descanso aos finais de semana, trinta dias de férias, idade para aposentadoria, isso tudo foi inventado recentemente, da Modernidade para cá, e aos poucos quer ser reinventado. Talvez porque a estrutura simplesmente não funcione mais, em especial nas grandes cidades, onde a alta carga horária, as longas distâncias e a dificuldade de deslocamento determinam que outras atividades sejam realizadas enquanto se deveria dedicar à produção. Consultas médicas, pagamento de contas, correio, burocracias, estudo, questões pessoais, compras em geral, manutenção da casa, entre outras.

Surgem aqui e ali algumas tentativas de adaptação: home office, horários alternativos, banco de horas, jornadas reduzidas e mais focadas etc. Assim como há demandas oriundas das novas tecnologias que embaçam a fronteira entre folga e prática profissional, provocando o exercício de atividades fora do período determinado: whatsapp, emails, internet em geral, que mantêm todo mundo conectado e põem em questão as velhas relações trabalhistas entre empregadores e proletários. Afinal, em que momento estamos trabalhando? Quando deixamos realmente de trabalhar?

Transforma-se até mesmo o conceito de trabalho: ao invés da produção quantitativa, resquício da Revolução Industrial, há também o qualitativo, que não se mede com facilidade e prova seu valor por outras vias, opera por outros sistemas.

Claro que isso não se aplica nem reflete dilemas de todas as categorias ou de todas as cidades, mas, no geral, há demandas por novas organizações de tempo. Isso não é difícil perceber.

Existe o tempo natural, relativo ao nascer do sol, à movimentação dos planetas, às estações do ano, às luas e marés. Por sua vez, existe também o tempo cultural, do relógio que nem sempre conseguimos acompanhar.

Em São Paulo, por exemplo, levo entre trinta minutos e duas horas para chegar ao escritório, conforme as situações adversas que fazem da rotina algo imprevisível. O tempo cultural, atualmente, é inventado para sobreviver neste mundo de excesso: jornadas em que se troca o dia pela noite, supermercados 24h, bancos 30h, finais de semana utilizados para solucionar pendências remanescentes dos dias úteis e assim por diante. A escola dos filhos é incompatível com o horário dos pais, que precisam se desdobrar. O atraso deixa de ser exceção. O comércio passa cada vez menos tempo fechado.

Às vezes o estresse surge mais por conta da desconexão dos tempos do que pela quantidade de tarefas. Surge também a ansiedade por viver algo antecipadamente, por se adiantar aos problemas. Somos dominados pelo imediatismo: a necessidade de fazer primeiro, de chegar antes da concorrência, de ser inédito sempre.

Exploramos o máximo do tempo. E somos explorados em contrapartida. Panetones começam a ser vendidos cada vez mais cedo, perdem o simbolismo e se tornam um produto de consumo como outro qualquer. Frutas de época agora estão disponíveis durante o ano inteiro. As luzes da granja são usadas para acelerar o crescimento dos frangos, coitados. O homem transforma o tempo conforme convém ao momento, sem muita noção das consequências.

Essa correria traz uma nova ordem. O consenso parece impraticável, e a busca é por espaço para o dissenso. Ao invés de forçar métodos do passado, precisamos reinventar o presente. Pode ser que dê certo. Só não sabemos até quando.

Descobri que em alguns lugares virou moda a prática do nadismo: um tempo que as pessoas reservam para não fazerem nada, ou seja, uma tentativa meio paradoxal de resistirem aos excessos do dia a dia. Paradoxal porque tem hora marcada para acontecer. Imagino uma agenda lotada, na qual um dos compromissos é não fazer nada durante uma ou duas horas por semana. Ou seja, uma agenda ainda mais lotada porque o fazer nada é outro compromisso assumido. Uma tentativa ilusória de liberdade que acrescenta um novo nó à corda da escravidão.

Com ou sem nadismo, os prazos a cumprir continuam implacáveis. A sabedoria popular diz que tudo tem seu próprio tempo. Pode ser que sim. Será que temos paciência para esperar?

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A ESQUERDA DE DELEUZE



– O que é ser de esquerda para você?

 – Vou lhe dizer. Acho que não existe governo de esquerda. Não se espantem com isso. O governo francês, que deveria ser de esquerda, não é. Não é que não existam diferenças nos governos. O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências da esquerda. Mas não existe governo de esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo. Se me pedissem para definir o que é ser de esquerda, ou definir a esquerda, eu o faria de duas formas. Primeiro, é uma questão de percepção. A questão de percepção é a seguinte: o que é não ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, em que se vive em um país rico, costuma-se pensar em como fazer para que essa situação perdure. Sabe-se que há perigos, que isso não vai durar e que é muita loucura. Como fazer para que isso dure? As pessoas pensam: "Os chineses estão longe, mas como fazer para que a Europa dure ainda mais?" E ser de esquerda é o contrário. É perceber… Dizem que os japoneses percebem assim. Não veem como nós. Percebem de outra forma. Primeiro eles percebem o contorno. Começam pelo mundo, depois o continente europeu, por exemplo, depois a França etc., até chegarmos à Rue de Bizerte e a mim. É um fenômeno de percepção. Primeiro se percebe o horizonte.

– Mas os japoneses não são um povo de esquerda…

– Mas isso não importa. Estão à esquerda em seu endereço postal. Estão à esquerda. Primeiro vê no horizonte e sabe que não pode durar, não é possível que milhares de pessoas morram de fome. Isso não pode durar mais. Não é possível essa injustiça absoluta. Não em nome da moral, mas em nome da própria percepção. Ser de esquerda é começar pela ponta. Começar pela ponta e considerar que estes problemas devem ser resolvidos. Não é simplesmente achar que a natalidade deve ser reduzida, pois é uma maneira de preservar os privilégios europeus. Deve-se encontrar os arranjos, os agenciamentos mundiais que farão com que o terceiro mundo… Ser de esquerda é saber que os problemas do terceiro mundo estão mais próximos de nós do que os de nosso bairro. É de fato uma questão de percepção. Não tem nada a ver com a boa alma. Para mim, ser de esquerda é isso. E, segundo, ser de esquerda é ser ou devir minoria. Não deixar devir minoritário. A esquerda nunca é maioria enquanto esquerda. Por uma razão muito simples: a maioria é algo que supõe, até quando se vota, não é só a maior quantidade que vota para tal coisa, mas a existência de um padrão. No Ocidente, o padrão de qualquer maioria é: homem, adulto, macho, cidadão. Ezra Pound e Joyce disseram coisas assim. O padrão é esse. Portanto, irá obter a maioria aquele que, em determinado momento, realizar esse padrão. Ou seja, a imagem sensata do homem adulto, macho, cidadão. Mas posso dizer que a maioria nunca é ninguém. É um padrão vazio. Só que muitas pessoas se reconhecem nesse padrão vazio. Mas, em si, o padrão é vazio. O homem macho etc. As mulheres vão contar e intervir nessa maioria ou em minorias secundárias a partir de seu grupo relacionado a esse padrão. Mas, ao lado disso, o que há? Há todos os devires que são minoria. As mulheres não adquiriram o ser mulher por natureza. Elas têm um devir mulher. Se elas têm um devir mulher, os homens também o têm. Falamos do devir animal. As crianças também têm um devir criança. Não são crianças por natureza. Todos os devires são minoritários. Só os homens não têm devir homem. Não, pois é um padrão majoritário.

– É vazio.

– O homem macho adulto não tem devir. Pode devir mulher e vira minoria. A esquerda é o conjunto de processos de devir minoritário. Eu afirmo: a maioria é ninguém e a minoria é todo mundo. Ser de esquerda é isso: saber que a minoria é todo mundo e que é aí que acontece o fenômeno do devir. É por isso que todos os pensadores tiveram dúvidas em relação à democracia, dúvidas sobre o que chamamos de eleições. Mas são coisas bem conhecidas.

[transcrição da entrevista com Gilles Deleuze disponível no vídeo]

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A TRANSDISCIPLINARIDADE E A MODERNIDADE

"Não é dar a receita que fecharia o real numa caixa, é fortalecer-nos na luta contra a doença do intelecto – o idealismo – que crê que o real se pode deixar fechar na ideia, e que acaba por considerar o mapa como o território, e contra a doença degenerativa da racionalidade, que é a racionalização, a qual crê que o real se pode esgotar num sistema coerente de ideias."

ROQUE THEOPHILO
A Transdisciplinaridade e a Modernidade

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

sábado, 4 de outubro de 2014

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

HOMEMFOBIAS

polícia mata
duas pessoas
e meia
toda noite
em SP

(deixa a outra
metade
para o dia
seguinte)

enquanto
a outra
mata
todo dia
em SP

porque volta
e meia
policia
também

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

ÚLTIMAS PALAVRAS ANTES DAS ELEIÇÕES

Domingo, votarei em causa própria. Votarei num índio para senador, numa tetraplégica para deputada federal e num gay para deputado estadual. Não sou índio, tetraplégico ou gay. Mas acredito que quem defende essas causas precisa de espaço na política. E não adianta votar em candidato que promete colocá-los no colo e cuidar com carinho. Que promete ajudar. Eles não precisam de dó. Precisam de espaço. Estão lutando por uma sociedade mais justa. Se conseguirem, minha causa própria estará satisfeita.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

DISSOLUÇÃO | FELIPE GÓES

O texto abaixo foi escrito na ocasião da mostra Dissolução, individual de Felipe Góes realizada pela Central Galeria de Arte entre 3 de outubro e 8 de novembro de 2014. Ele se originou na entrevista concedida pelo artista durante os preparativos da exposição.

Pintura 204 (2013)

 A pintura de Felipe Góes é um fazer que por vezes se confunde com desfazer. Que revela ausências. Pois as camadas de tinta, de tão sutis, acabam por remover parte do que já estava antes. Esse gesto delicado desemboca num embate árduo, em que incluir é retirar, pintar é apagar, criar é desconstruir, recordar é esquecer.

Suas paisagens são inventadas. “Ideias de paisagem”, como o artista costuma dizer. São sugeridas e sugestivas. Não partem de um esboço ou de uma imagem pré-concebida – elas se fazem diretamente na tela, no gesto poético, no ato criador. Não existe objetivo a ser alcançado; a finalidade é o próprio percurso, o próprio fazer da arte. Essa profusão de pensamentos e sentimentos que se materializam na pintura não termina, ela continua na seguinte, como se todas fossem uma única, dividida em etapas, numa pesquisa não linear, numa errância.

Pintura 195 (2013)

Esta mostra na Central Galeria apresenta criações recentes, produzidas durante o último ano. Elas enfatizam o processo de dissolução da tinta, das imagens e da própria atitude do pintor nos tempos atuais. Em vez de imagem definitiva, resta nelas um registro de intenções, ou seja, um instante do processo criativo que o artista decidiu preservar. Algumas intenções se concretizam, outras ficam sugeridas, muitas se esgotam e desaparecem.

As pinturas habitam esse território ambíguo, frágil e poético da efemeridade. Ao invés de afirmarem verdades, dispõem-se como espaço para incoerências. Paisagens abertas onde o espectador pode se perder; que põem em questão a cultura e a natureza, procurando não as diferenças entre elas ou as exclusões, mas suas ambiguidades, seus pontos de contato e embaçamento.

Pintura 205 (2014)

É difícil apreendê-las. No sentido de que não cabem numa definição, não significam nada exatamente. A apreensão é tão difícil quanto indesejada – elas preferem ser experimentadas, vivenciadas.

Quando percebemos nelas uma paisagem, imediatamente somos afastados da matéria pictórica; quando nos atentamos à tinta que escorre pela tela, a paisagem se esvai, levando com ela toda pretensão de certeza.

Pintura 208 (2014)

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Convite para exposição DISSOLUÇÃO, de Felipe Góes

Todos estão convidados para a abertura da mostra Dissolução, de Felipe Góes, na Central Galeria de Arte, para a qual eu dei uma singela contribuição. Na próxima quinta-feira, a partir das 19h. Encontro vocês lá!


"A tinta diluída. A memória difusa. O significado que quase vem à tona antes de mergulhar novamente no desconhecido. Figuras que se desfazem até flertarem com a abstração, até revelarem do que são constituídas: manchas de cor, pinceladas imprecisas, criações e dissoluções. As pinturas de Felipe Góes habitam esse território ambíguo, frágil e poético da efemeridade. Quando percebemos nelas uma paisagem, imediatamente somos afastados da matéria pictórica; quando nos atentamos à tinta que escorre pela tela, a paisagem se esvai, levando com ela toda pretensão de certeza, instigando quem se dispõe a olhar." Eduardo A. A. Almeida

sábado, 27 de setembro de 2014

VERDADE, UMA ILUSÃO

Jovem triste num trem (1911),
de Marcel Duchamp
Posso entrar? Posso entrar aqui? Posso entrar? Posso? Posso entrar?

Entrou. Continuou falando alto. Palavras soltas, frases desconexas. Difíceis de entender, se fosse o caso. Talvez não quisesse ser entendido. Talvez não fizesse questão da lógica.

Posso sentar? Posso? Posso sentar aqui? Posso sentar, posso?

Sentou. No chão. Bloqueando a porta do metrô.

Conheceu assim a maior parte dos distintos cidadãos que voltavam para casa naquela noite fatídica, e tentavam entrar no vagão sem pisotear o sujeito meio sentado meio deitado bem no meio da passagem. Desviavam dele, escapavam pelas bordas. Afastavam-se.

Os mais distraídos eram surpreendidos por um aperto de mão.

Aqui. Não tenha medo. Não tenha medo de mim. Não. Aqui. Aqui. Não tenha. É. Precisa ter medo não.

Chegou a beijar a mão de alguns. A fazer uma espécie de reverência. Teve quem se abaixou para cumprimentá-lo melhor. Teve quem retribuiu o carinho. Teve gente sem graça. Teve gente que se espremeu para longe, preferindo não se envolver.

Ele ficou a balbuciar daquele jeito esquisito, atropelando a língua, desconstruindo a linguagem em linguajares, falando consigo mesmo. Prestei atenção. Reconheci algumas palavras e fiquei intrigado. Permaneci com os olhos pregados no livro que trazia comigo. Não queria parecer indiscreto. Os ouvidos, entretanto, sondavam aquele homem sentado no chão do trem, que entre uma frase e outra insistia em cumprimentar os demais passageiros, mesmo quem já tinha sido cumprimentado antes.

À minha frente, num assento de uso preferencial, estava outro homem, com cerca de quarenta anos de idade. Sua expressão desaprovava o comportamento extravagante do primeiro sujeito – que, para ser sincero, incomodava mesmo. Ele simplesmente não conseguia ficar quieto.

Tentou cumprimentar o homem no assento preferencial. Ficou com o braço estendido no ar e só obteve uma risada sarcástica como resposta.

Nesse momento, minha discrição já tinha sido deixada de lado junto com o livro, e eu prestava atenção em tudo que acontecia ao redor. As frases estranhas se multiplicavam pelo vagão. Cada vez que eu reconhecia uma palavra, ficava mais e mais surpreso, mais e mais curioso.

Passaram algumas estações. Não sei dizer quantas.

Posso sair? Posso? Posso sair aqui? Sair? Posso? Hã?

Saia de uma vez!, foi a sugestão do homem no assento preferencial, dada com o mesmo tom cruel da risada que a precedeu.

O falador não ouviu. Deixou o trem momentos antes de a porta bater, quando o alarme já perdia o fôlego, só para dramatizar ainda mais a cena. Imediatamente o homem no assento preferencial tomou a palavra.

Cachaça é a pior droga que existe. Está aí, ao alcance de todos. Acaba com as pessoas. Destrói famílias. A cachaça é a pior droga que existe, todo mundo tem acesso, é só ir ali e comprar.

Cheio de razão, falava com a mulher sentada ao seu lado, que decidiu dar ouvidos e repetia suas frases como um papagaio. Também balançava a cabeça afirmativamente, concordando.

O homem queria proibir a cachaça, era evidente. Tão evidente quanto a eficácia da solução. Afinal, ninguém usa outras drogas, uma vez que estão proibidas. Não existe sonegação de impostos, pois é proibidíssima. Abuso de poder idem. Pirataria e corrupção nem se fala, foram extintas assim que oficialmente proibidas. Conclui-se que: proibir é a solução para os nossos problemas.

Ao menos era o que pronunciava o homem do assento preferencial. O que não sabia é que não se tratava de cachaça nem de droga nenhuma; o sujeito falador estava num estado psicótico. Sequer cheirava a álcool. A história da cachaça foi um delírio preconceituoso. Talvez uma crise de abstinência moral.

Outra coisa que o homem não percebeu, talvez porque ignorava as línguas, é que o balbuciar do falador se dava em francês e alemão. Que entre duas frases desconexas havia citações de Os sofrimentos do jovem Werther – não domino a língua, mas reconheci os personagens. E que aquele som gutural repetido infindavelmente se referia a Goethe. Goethe. Goethe.

Não à toa, o acontecido pareceu espetáculo de ficção. Que o homem no assento preferencial ignorou, percebendo nele apenas aquele seu discurso embrutecido, ao qual se acostumou ao longo do tempo e que ganhou o absolutismo da verdade. Discurso que se ouve, aceita e reproduz sem dificuldade. Que nasce da ignorância e gera mais ignorância. Gera violência. Intolerância. E não ajuda ninguém, afinal.

A cena no metrô também reforçou a suspeita de que, mais grave que certas psicoses é a neurose de se achar dono da verdade, como se a posse dela trouxesse algum tipo de riqueza. Como se essa riqueza comprasse um lugar na sociedade.

Conforme Giorgio Agamben nos alerta (em Ideia da prosa), "toda verdade última formulável num discurso objetivante, ainda que em aparência feliz, teria necessariamente um caráter destinal de condenação, de um ser condenado à verdade".

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

"Escrever, então, passa a ser uma responsabilidade terrível. Invisivelmente, a escrita é convocada a desfazer o discurso no qual, por mais infelizes que nos acreditemos, mantemo-nos, nós que dele dispomos, confortavelmente instalados. Escrever, desse ponto de vista, é a maior violência que existe, pois transgride a Lei, toda lei e sua própria lei."

Maurice Blanchot
A conversa infinita 1: A palavra plural

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A CARNE

Pode entrar que a carne
é friboi
Anúncio de açougue?
Não. De uma loja de prazeres
no Largo da Batata

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

EDUCAÇÃO PARA QUÊ?

Impossível dizer que o Brasil passa por uma crise na educação, nós vivemos a crise, já que ela existe há tempos, talvez desde o início do sistema público de ensino. Apenas sua intensidade se transforma. Ao invés de passar, a crise se estabeleceu; hoje é instituída, banalizada, tanto que as próprias políticas se adequaram a ela (cotas raciais, Bolsa Família etc.). São pacotes oferecidos como solução e que, por ora, apenas remediam sem atuarem na raiz do problema, enterrada a fundo na cultura brasileira. Inclusive, não é sem razão acreditar que outros dos nossos pontos fracos sejam frutos dessa questão educacional. Já formamos algumas gerações nessas escolas despreparadas, que produzem cidadãos embrutecidos, desacreditados, sem espírito crítico ou mínima bagagem intelectual; passivos no que diz respeito a seus direitos e violentos no que se refere a seus deveres. Escolas que não acolhem nem acompanham a formação, apenas processam alunos com a finalidade de passá-los adiante. Porque falta infraestrutura, capacitação de professores, planos de carreira, segurança, programas de incentivo aos estudantes, materiais didáticos, uniformes, acompanhamento psicossocial etc. Em suma, falta praticamente tudo. São todas assim? Não. Porém as boas escolas públicas são exceções. Infelizmente.

No Estado de São Paulo, a crise chegou às universidades. Nos vários anos em que frequento a USP, já vivenciei algumas greves, porém nenhuma tão exigente quanto a atual. Acreditar que o problema é o 0% de reajuste nos salários oferecido pelo reitor é tão ingênuo quanto dizer que as manifestações de 2013 solicitavam apenas a redução de R$ 0,20 no preço das passagens. A questão salarial cresceu, e no momento presente todo o sistema da instituição está sendo revisto. Se não mudar, não voltará a operar, e com isso todos perderiam muito. Inclusive você, leitor.

As reivindicações são claras: abertura das contas, auditoria, diálogo, administração competente, maior participação dos docentes, alunos e funcionários nas decisões, reajuste salarial conforme padrão em outras categorias, melhores condições de trabalho, infraestrutura adequada e, talvez mais importante, autonomia.

USP, UNESP e UNICAMP se encontram hoje subjugadas pelo Estado. Quando deveriam, sim, dispor de autonomia, já que a universidade pública seria uma instituição livre dos interesses econômicos e políticos. Ela precisa de autonomia para tomar decisões administrativas e para colocar em debate assuntos que possam prejudicar o próprio governo ou o mercado. Pois um dos seus princípios é a reflexão crítica.

Nesse ponto, concordo com Jacques Derrida, que almeja a uma universidade sem condição, ou seja, de entrega completa a seus próprios interesses, autônoma para discordar e propor mudanças: "lugar em que nada está livre do questionamento, nem mesmo a figura atual e determinada da democracia; nem mesmo a ideia tradicional da crítica, como a crítica teórica, nem mesmo ainda a autoridade da forma 'questão', do pensamento como questionamento". Sua imunidade deveria ser inviolável, de modo a sustentar esse potencial de resistência e dissidência que lhe é tão caro.

Ele sabe que se trata de um ideal, portanto um lugar que se afasta na medida em que nos aproximamos. O ideal é um horizonte, mas não por isso deve-se boicotar sua busca – se não o alcançamos, ao menos fazemos descobertas no percurso.

Fala-se em privatizar a universidade pública, e quem fala desconhece que o direito à educação é assegurado pela Constituição. A educação é um direito, não um serviço oferecido pelo Estado. Fala-se em privatização por conta dos altos custos de mantê-la pública. Mas não se admite que, privatizada, a universidade se voltaria ao mercado, e que sua prioridade de pesquisa e reflexão seria substituída pela capitalização. Sua liberdade para existir sem finalidade clara – ou seja, como espaço de criação de possíveis e incubação de devires – seria corrompida pelo sistema produtivo que domina o lado de fora.

Como escreveu Marilena Chaui, "se quisermos tomar a universidade pública por uma nova perspectiva precisamos começar exigindo, antes de tudo, que o Estado não tome a educação pelo prisma do gasto público e sim como investimento social e político, o que só é possível se a educação for considerada um direito e não um privilégio, nem um serviço". Não devemos, portanto, nos livrar do custo, mas auditar as contas, exigir uma administração responsável e, se o dinheiro não for suficiente para sustentar a universidade pública – cujo trabalho cresceu de maneira desproporcional a ele nas últimas duas décadas –, devemos aumentar a quantia. Vale lembrar que a USP, sozinha, soma mais de 100 mil pessoas entre alunos, docentes e funcionários – é maior do que várias cidades ao seu redor.

A greve não é somente para os grevistas. É para a sociedade e também para o Estado. Sua organização é muito mais complexa do que se imagina, e compreendê-la é essencial para produzir uma crítica relevante. Os interessados se reúnem em núcleos diversos dentro de suas faculdades e laboratórios; num sistema representativo, propõem e discutem cada pauta em assembleias. Nada é feito ao acaso; pelo contrário, o processo demanda tempo justamente por sua seriedade. E precaução.

Foto de Renata Buelau

Isso não significa que os grevistas sempre utilizem mecanismos compatíveis com os tempos atuais. Quando paralisam as atividades, por exemplo, assemelham-se aos operários de fábricas, e se aproximam do sistema produtivo do qual tanto querem se distinguir. Em outras palavras, a universidade usa um recurso da organização privada para exigir que seus direitos de instituição pública sejam preservados. Um paradoxo que precisa ser repensado.

O mesmo vale para os casos em que grevistas impedem os colegas de acessarem seus locais de trabalho. É uma hipocrisia porque utilizam da opressão quando estão, justamente, reivindicando o fim da opressão por parte da reitoria e do Estado, além de maior abertura ao diálogo. Quando ouço notícia assim, lembro do grafite deixado numa das paredes durante a invasão da reitoria da USP em 2011, que mostrava um tirano[ssauro] e a frase: "Ocupe a reitoria que há dentro de você".

São apenas dois exemplos. E já sugerem que a maneira como se faz greve deve ser reinventada para que seja compatível com o contemporâneo. É dever da universidade repensá-la, assim como é dever da sociedade e do Estado manter a autonomia desse território de questionamento.

Por fim, quero esclarecer que, ao fazer greve, a universidade ainda executa o que Derrida considera sua essência: a elaboração reflexiva, a produção do saber e a publicação dos frutos desse esforço. E que, conforme escreveu Elizabeth Araújo Lima, devemos "pensar os lugares da produção de conhecimento não apenas como lugares de transformação de conhecimento em mercadorias e de exploração da subjetividade de todos os que dele participam, mas também e especialmente como lugar de novas formas de conflito e novas formas de luta".

A universidade pública deve ser estranha ao [jogo de] poder, livre dessas relações condicionais de soberania e dominação. Se traz exigências de um lado, enfrenta intransigências do outro. Pois a política que falta hoje deveria vir do governador Geraldo Alckmin, que empossa os reitores e, após meses de greve, ainda não se dispôs a conversar. Em tempos de eleição, preferiu evitar o risco da polêmica.

Cabe a nós, nas urnas, indicar a que vem a educação, e como vem, para evitar outra volta no círculo vicioso da crise. Porque, sem ela, jamais resolveremos os demais problemas do Brasil.

Mais informações: Sintusp e Adusp

sábado, 6 de setembro de 2014

A CRÍTICA COMO ATO CRIADOR

Se a crítica não for espaço de criação, não tem razão de existir; nestes dias em que a mediação, esse espaço institucionalizado do poder, já não opera mais.

Se a crítica insistir no jogo da tradição, se quiser medir forças, faz-se desnecessária.

Isso nada tem a ver com concordar ou discordar, apoiar ou combater; tem a ver com sustentar lugares de resistência, ser relevante diante das questões atuais. Tem a ver com fazer/criar sentidos sem qualquer lógica ou finalidade. Fazer junto. Viver junto.

Fazer crítica é fazer arte. Ou não é nada.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

EXCESSO (DE INDIFERENÇA)

"Estamos anestesiados.
Jeanne Marie Gagnebin, em sua conferência no seminário 'Vida Coletiva' da 27ª Bienal de São Paulo, utiliza-se das análises do sociólogo alemão Georg Simmel para dizer que o excesso de estímulos, demandas e exigências leva o homem moderno a desenvolver mecanismos para se proteger da quantidade imensa de informações a que é submetido diariamente e não sucumbir física e intelectualmente. Esses mecanismos de proteção tomam a forma de uma atitude de indiferença e frieza, e dão lugar a uma sociabilidade marcada pela indiferença em relação ao outro. Uma indiferença que muitas vezes torna-se o primeiro grau de um sentimento de hostilidade para com o outro. É preciso nos darmos conta de que a indiferença diante do que acontece em nosso próprio território, com nossos colegas, nossos estudantes, é uma faceta da indiferença mais geral, que nos anestesia e que desenvolvemos para poder continuar."

Elizabeth M. F. Araújo Lima
(Se) Ocupar (d)a Universidade

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

LIMITE

"A poesia se converte em religião para aquele que chegou ao limite do despossuimento da fala. Quando o mundo vai se desvanecendo e indo embora, quando os outros vão ficando estranhos e o insondável vira o nosso cotidiano companheiro, tudo o que desejamos é um religamento; um maçarico amoroso que solde novamente nossa pertença quebrada e nos retire deste divórcio de suspensão.

Quando todas as outras prosas vão morrendo e se gastando, só a poesia pode nos acordar e reintroduzir-nos na vitalidade e na trama do tempo...

Mas a poesia deve então instaurar um novo mundo, pois o antigo já não tem mais sentido para nós... já perdemos a familiaridade... e sonhamos com uma nova espessura do tempo – o tempo feito de outra tecitura."

Sabedoria do Nunca
Juliano Garcia Pessanha

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O MAPA E O TERRITÓRIO

É bom caminhar pela cidade grande. Lentamente. Deixar o trem passar só para aguardar o seguinte na plataforma, talvez o outro, talvez mudar de ideia e voltar às ruas. Resistir à correria, ao empurra-empurra, ao impulso enérgico que contagia. Ao canto de sereia da metrópole. Sem perceber, estamos agindo da mesma maneira que nos incomoda, sofrendo os mesmos males, alimentando o mesmo estilo de vida. Então, diminuir o passo é uma forma de resistência. Buscar outro ritmo. O descompasso. Deslocar-se por linhas diversas, percursos e percalços. "Caminhando", propôs Lygia Clark. Fazendo escolhas. Transformando os arredores com a beleza do gesto mais singelo; fazendo poesia com a matéria-prima mais abundante no mundo.


Difícil caminhar sem trajeto pré-definido, sem mapa ou GPS. Oferecer-se à experiência, colocar-se à disposição do acaso. Aceitar que a errância é também uma possibilidade. Perambular não por meio do mapa; mas, sim, traçar o mapa enquanto perambula. Linhas de força, linhas de fuga, linhas flexíveis. Cartografando.

Impõe-se a nós a necessidade do projeto, que é maior que tudo e quer dominar, quer ditar as regras do viver. Vale contrapor a esse fazer – obra, sentido, comunicação – o agir. "Sem finalidade, o agir é puro agir, e se se quer atrelar o agir ao ritual, onde ele recupera sentido e querer, já se desprendeu daquilo que o caracteriza, embora muitas vezes ele o lembre", escreve Peter Pál Perbart (em O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento). A atitude criativa, fluida; o ato de criação.

* * *

Quem dera botar todo o ódio do mundo no papel; toda a violência, a intolerância, a brutalidade. A guerra, os usos e abusos do poder, que se justificam por uma causa qualquer, por uma lógica de dominação. Retirar do mundo e trancafiar no papel, fazer disso uma ficção assumida. Só o papel aguenta o fardo, só ele sabe lidar. Porque não sustenta aquela lógica, não passa o ódio adiante, não combate a intolerância com mais intolerância; ele transforma a realidade dura em literatura.


Esta não existe para salvar o mundo – palavras de salvação, sacralizadas, acabam servindo a mil causas próprias. Não se trata de fazer literatura para salvar o mundo, mas para apreendê-lo, registrar quem somos, considerar possibilidades sem medo. Comunicar pontos de vista sem entrar no mérito da verdade ou da mentira, sem autoria ou autoridade; contra o absolutismo, afeito ao absurdo. A literatura em que acredito não oferece dogmas, e sim a chance de se ver livre deles. Um convite à emancipação. Como disse Iberê Camargo (em A gaveta dos guardados), "a necessidade cria a linguagem. O imperativo da regra mata a criação".

* * *

"A resistência é um modo de ser. É uma forma/força de estar imerso no movimento, é perceber-se como acontecimento corporal ativo, é a única possibilidade de tornar-se ação criativa de arte. A resistência é a dobra do ser. E essa dobra é a insistência na diferença, no outro, na produção de singularidades múltiplas", escreve Ericson Pires (em As produções de arte atuais).

Vale lembrar que resistir não significa combater mudanças ou pregar a tradição. Ao contrário, trata-se da atitude viva de provocar deslocamentos, desviar-se do lugar-comum e oferecer poesia ao mundo. Resistir ao automatismo, ao pensamento fácil, à sedução do novo e também ao conforto da tradição. Ampliar as perspectivas críticas. Resistir, com atitude contemporânea, às forças que corrompem as vontades/demandas do agora. Criar suas próprias linhas de força. Resistir pelo ato de ser; existindo.

* * *


É muito bonito o trabalho de Guillermo Kuitca exibido na Pinacoteca do Estado de São Paulo, especialmente seus mapas. Trajetos que levam a lugar algum; plantas baixas de habitações que se transformam em pistas de aeroporto; cidades retiradas de seu lugar para recompor a paisagem; mapas de assentos no teatro que se dissolvem. Territórios resignificados por meio da ferramenta que, em geral, os enrijece e reduz. "Mapas são tanto abstrações como figurações", diz o artista. "Para mim, eram mais um dispositivo para se perder do que para se orientar". São ficções nas quais se acredita – indubitavelmente – porque se fantasiam de realidade. Em geral, acredita-se mais no mapa do que no registro dos próprios sentidos; mais nos mapas do que na experiência vivenciada no território. São ficções assim como uma pintura, que correspondem a algo sem que o espectador necessariamente o alcance. Quem nunca se perdeu ao passar os olhos por um quadro? Quem nunca obedeceu ao GPS à risca, até ele recalcular a rota, enganar-se, mudar de ideia e levar o carro para outro destino? Quem nunca, confiando no destino, foi surpreendido pelo acaso?

Costumo planejar viagens com cuidado, atento a cada detalhe. Porém as recordações que sobrevivem são aquelas de quando o roteiro foi deixado de lado e o improviso pediu licença para atuar.

[IN]DIREITO

“Ela é ignorante comigo, me dá o direito de ser ignorante também”, foi a frase que ouvi de um ignorante assumido ontem à noite, domingo, quase 22h, no caixa do supermercado. O cliente se dirigia à atendente e a quem mais pudesse ouvir. Um homem de camisa social. E maluco, só podia ser. Já o tinha visto gritar com o filho quando o moleque pegou e atirou um produto de volta na prateleira. “Não, caro ignorante, nada disso”, tive vontade de responder. “Se por acaso ela foi ignorante, isso lhe dá o direito de reclamar com o gerente e, no limite, não voltar a comprar aqui. Caso seguíssemos essa sua lógica do olho por olho, o mundo se tornaria uma enorme imbecilidade”. Inclusive, a alta frequência de cenas desse tipo já sugere que o mundo está pequeno demais para a quantidade de ignorância que sustenta. Tive vontade mas não disse, porque nunca se sabe até onde vai a ignorância alheia.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

"O esgotamento do possível é o esgotamento de um certo possível, aquele 'dado de antemão', o repertório de possíveis que nos é ofertado em forma de múltipla escolha a cada dia. (...) Para Deleuze, tal esgotamento nada tem de negativo, é apenas condição para alcançar outra modalidade de possível, o possível como o 'ainda não dado', o possível 'a ser inventado', e a ser inventado numa situação de 'impossibilidade', portanto, de 'necessidade."

Peter Pál Pelbart
O Ato de Criação
[em O Avesso do Niilismo - Cartografias do Esgotamento, p. 297]

terça-feira, 29 de julho de 2014

"Agamben lembra que a mídia nos oferece fatos desprovidos de sua possibilidade, ela nos dá, portanto, um fato em relação ao qual somos impotentes. A mídia gosta do cidadão indignado, mas impotente, o homem do ressentimento. Em contrapartida, um certo cinema projeta sobre aquilo que foi (o passado, o impossível) a potência e a possibilidade. Repetir uma imagem no cinema teria essa função, restituir a possibilidade daquilo que foi, torná-la novamente possível, a exemplo da memória, que restitui ao passado sua possibilidade. Mas o cinema também exerce a potência da interrupção, e, ao subtrair uma imagem ao fluxo de sentido para exibi-la enquanto tal, como no caso de Godard ou Debord, introduz-se uma hesitação entre a imagem e o sentido, a exemplo do que faz a poesia. O cinema, em todo caso, reintroduz a possibilidade, des-cria a realidade, na contramão da mídia e da publicidade."

Peter Pál Pelbart
O Ato de Criação
[em O Avesso do Niilismo - Cartografias do Esgotamento, p. 296]

segunda-feira, 28 de julho de 2014

JORNAL DE LITERATURA

Entrei no vagão do metrô com o jornal em punho porque a viagem seria curta e o artigo era longo. Uma entrevista, na verdade, depois transformada em artigo pelo editor, que queria mostrar suas asinhas. Duas páginas inteiras de cima a baixo. Um jornal de literatura, claro. Porque somente jornais de literatura são capazes de publicar duas páginas inteiras sobre literatura. Nestes tempos em que apenas a exceção da exceção – no caso eu, personagem profunda – leria tanto a respeito de ler e escrever, ou sobre pessoas que leem e/ou escrevem. Enfim, pessoas dedicadas à nobre arte da literatura, que quase não existe mais. Em extinção por abandono e maus tratos, é essa a minha opinião. Pois bem, eu voltava de uma longa palestra sobre literatura, estava cansada, precisava me concentrar se quisesse acabar logo com aquela perda de tempo.

Os assentos estavam ocupados, todos eles, porque assim acontece no drama. Então me posicionei estrategicamente de lado, com as pernas tão abertas quanto as páginas do jornal – sem perder a compostura, obviamente –, com objetivo de evitar sobressaltos. Não suporto perder a linha e ter que retomar do princípio.

Ainda na primeira frase do primeiro parágrafo, logo após o título, ouvi um homem se introduzir na história. Penetramente.

Cê vem de onde memo?

Falava com voz afetada, meio gutural. Achei que estava bêbado, seria típico, mas depois notei certo problema de saúde, talvez deficiência nas cordas vocais. Tirei os olhos do jornal. A pergunta se direcionava a uma mulher de jeito bastante humilde, tadinha, que viajava perto da porta. Respondeu baixinho. Vim do Jardim Paulista, vou pro Brás.

Não se conheciam, era evidente. Ele solto; ela encolhida, constrangida. Ele estava exatamente no centro do vagão, dependurado como um babuíno, os dois braços agarrados ao tubo de metal preso no teto, mal se apoiando nos pés, balançando de um lado para o outro conforme o trem o conduzia. Balançando de modo irritante. Sem modos, para ser sincera.

Recomecei a leitura do artigo. Cê vem de oooonde memo?, quis saber o sujeito pela segunda vez, e me deixou inclinada a perguntar se era surdo ou bobo. Não poderia responder, fosse o que fosse; além do mais, achei prudente manter distância. Talvez estivesse provocando a coitada. Tenho medo de confusão. Já vi um pouco de tudo acontecer nos últimos anos, o nível desceu demais. Inclusive no metrô, que já não é como costumava ser. É bom ficar atenta. Sempre atenta.

Incomodada com a situação, a mulherzinha olhou ao redor e falou mais alto, um alto ainda acanhado: vim do Jardim Paulista. Vou pro Brás. E se recolheu novamente, abraçando a bolsa com a força que dispunha, e que não era muita. Escondeu-se atrás do nó.

Desviei os olhos para não parecer enxerida. Brááááss..., repetiu o sujeito, com calma, lentamente, ruminando as vogais, em especial as vogais abertas. Como se sonhasse com ninfas bailando no paraíso. E o paraíso fosse o Brás. E aquela mulher fosse uma ninfa, talvez. Que visão doida. Sua voz soava ainda mais grave.

Nesse ponto, minha única certeza era que não conseguiria concluir a leitura a tempo, uma vez que sequer havia começado, e compreender isso me fez sentir uma impertinência. Tentei apressar os olhos.

Linha um...

Cê vai pro Brás, é?

Sim, Brás.

Cê mora lá?

Linha um.

Moro.

Do Jardim até o Brás...

É.

Jornal de Literatura, linha um.

Que tem no Brás?

Moro lá. Não tem nada.

Nada?

Literatura!

Nada especial.

Bráááás. Não conheço o Bráááás.

É... Eu sim.

Jesus! Literatura!

Cê faz isso todo dia?

...

O caminho...?

É, faço.

Jardim Paulista. Até o Brááás.

Concentração, concentração, concentração.

U-hum.

É.

Vamos lá, você consegue. Linha um.

Eu não. Eu não conheço o Brááás.

Deixei a cabeça cair, derrotada. Espiei. A mulher disfarçava o olhar do homem, que atravessava sua pele até as entranhas. Atravessava a bolsa, o constrangimento, os bons costumes, a vontade de chegar logo em casa. Ele ria. Eu quase podia ver sua saliva escorrer pelos cantos da boca, fazendo espuminha. Ainda tinha receio de que fosse um psicopata, desses da TV. Que seguisse a pobre mulher pela estação e sabe-se lá que tipo de atrocidade cometeria.

Literatura!

Tenho visto muitos casos assim, de lunáticos agressivos. É essa sociedade de hoje, essa correria, solidão, essa virtualização das relações sociais. Eles agem sem razão aparente. Estão todos soltos por aí.

O sistema de som do trem anunciou a chegada à estação Brás. Achei que saltitaria de alegria; a mulher, entretanto, não esboçou qualquer reação, fingiu não prestar atenção no homem que a encarava. Sabia lidar com esse tipo de gente; a infeliz devia passar por isso todo santo dia, supus. Todavia, desceu do trem, caminhou sem pressa pela plataforma, sem olhar para trás. Sem pressa mas com firmeza. Decidida.

O esquisitão continuou dependurado. Tive a impressão de que lhe escapuliu um tchau indeciso, ou talvez fosse imaginação minha. Pensei que agora se voltaria para mim. Não aconteceu. Dei graças a Deus por ter bastante gente no metrô, mesmo àquela hora. A mulher sumiu de vista sem averiguar se aquele sujeito a seguia. Achei corajosa, num primeiro momento. Achei-a irresponsável depois, sem consciência do perigo. Por fim, pensei que talvez estivesse sendo paranoica.

Tentei reiniciar a literatura. Quer dizer, a leitura. Tentei reiniciar a leitura do Jornal de Literatura. Artigo longo, linha um, aqui.

Ora, o homem estava apenas puxando assunto, certo? Eu que fiquei assustada. O que me assustou? Sua deficiência de fala? O descontrole do tom da voz? Ou ele puxar assunto com uma moça qualquer no metrô, na frente de todo mundo, com tamanha indiscrição. Esse seu descabimento.

Tirei os olhos do jornal, botei-os no homem, sujeitinho curioso, que continuava a balançar para lá e para cá, para lá e para cá, para lá...

Despertei com um solavanco. Não tinha como saber. Não é uma atitude comum, ainda mais nos dias de hoje. Não estou acostumada a essas coisas! O mundo está perdido, même.

Não era problema meu, na verdade. Só me dizia respeito o que o escritor, do qual eu não gostava nem um pouco, pensava da literatura; isso sim me interessava, só para poder criticá-lo depois, com fundamento. O homem deficiente que procurasse sua turma.

Jornal de Literatura, linha um.

Queria me concentrar. Só que fiquei repassando, de cabeça, aquela história toda. Que se fazia ali mesmo, numa composição do metrô.

Maldita literatura contemporânea.

Chegou minha estação. Só iria até aquele ponto.

Dobrei o jornal com delicadeza, coloquei-o na bolsa, tomando cuidado para que a tinta preta não sujasse o forro. Saltei na plataforma. O trem levou meu personagem para longe, eu acho. Aquele ser infinitamente superficial.

domingo, 20 de julho de 2014

"Se esta não lhe agrada, não lhe convém, pegue outra, coloque outra no seu lugar. (...) Há apenas palavras inexatas para designar alguma coisa exatamente."

Gilles Deleuze
Diálogos, p. 13

sábado, 19 de julho de 2014

IDEIA PARA PERSONAGEM

Eu o faria assim, obsessivo: alguém que deseja proibir tudo, convicto da ordem e progresso; pior: que os tem como lema e dele não abre mão. Não abre mão de nada, de uma opinião sequer, por mais bruta que pareça [aos outros]. Um sujeito que acredita na rigidez do sistema, na proibição como medida educativa, na punição severa como remédio contra inadequação social, na supressão de direitos por um bem maior; um sujeito como tantos.

Daria a ele o nome de Cristiano, em referência a certo moralismo que, com frequência, se torna um problema e ajuda a esconder faltas de quem o pratica. Não revelaria o sobrenome, bastaria dizer que é oriundo de família tradicional(ista); ou, ainda, que possui no currículo uma sólida base familiar. Prefiro assim porque mais gente pode se identificar, até quem não se afeiçoa ao sentido figurado.

Cristiano é um homem de palavra. Sério, trabalhador. Certo do que é certo e mais certo ainda do que é errado. Divide o mundo em duas metades: o bem e o mal, a direita e a esquerda, o ataque e a defesa, a verdade e a mentira, amigos e inimigos, pretos e brancos; levanta um muro entre elas, um muro alto; defende-o com unhas e dentes e verbos imperativos. Vê facilidade nisso. Não consegue perceber nuances, ambiguidades, perspectivas. Tampouco está interessado. Homem determinado não muda de opinião no meio do caminho.

Acredita que violência gera violência. Ao mesmo tempo em que afirma a necessidade da guerra contra o terror. Tem certeza de que é um problema crônico onde vive – digamos que seja no Brasil, a título de exemplo. Esse problema não se resolve com revisões do sistema policial, judiciário e carcerário; resolve-se com a Rota na rua, o exército nos morros, bombas nas manifestações, trava de bicicleta no pescoço. Resolve-se com diminuição da maioridade penal e, Deus lhe perdoe, com pena de morte também. Pronto, falou. Porque não pode dar moleza pra vagabundo, entende?

Acredita que tudo seria melhor com respeito e educação. Só mantém uma arma de fogo em casa porque nunca se sabe, né? Não dá pra confiar.

Aceita o homossexualismo contanto que fique longe; entre amigos, permite-se dizer isso de um jeito um pouquinho diferente, que mal não faz, imagine! Dá risada. São apenas umas verdades.

Não se envolve com política porque é um ninho de vespas, ninguém ali presta. Não acompanha essas coisas, é responsabilidade daquele sujeito em quem votou nas últimas eleições, o do partido de sempre, reeleito pela quinquagésima vez. Também não entende nada de justiça, mas tem certeza de que houve mamata no veredicto do mensalão. Porque é sempre assim. Acha que só se faz política com partido e colarinho branco.

Reconhece que a educação vai mal, mas não compreende o motivo, pois seus filhos estudam em escola particular. O SUS é uma lástima, mas não sabe quanto, pois paga plano de saúde. Apoia reivindicações de menor custo nos transportes contanto que não atrapalhem o trânsito, que é caótico. Muitos não têm onde viver? Virem-se!; ele já se resolveu comprando – com muito esforço, diga-se de passagem – um apartamento num bairro tranquilo. Sua razão vagueia ali nos finais de semana, é gostoso; só não vai longe para não se cansar. Políticas públicas/sociais são graves sim; graves problemas dos outros. Não tem nada a ver com isso, nadinha. E, mimimis à parte, tudo se resolveria com mais verba e vergonha na cara.

É o que falta para o povo: vergonha na cara. Tem certeza, deu na TV. Mas Cristiano é homem de muita esperança. Tem certeza também que, um dia, Deus sabe quando, o Brasil há de entrar nos eixos. Um dia ele vai acordar no paraíso; o melhor país do mundo, o mais evoluído. Como num passe de mágica. Porque nossa economia é forte. Porque somos abençoados e bonitos por natureza.

O governo ditará o que pode e o que não pode, facilitando nossas vidas; bem paternalista, preocupado, como nos bons tempos de antigamente, quando se trabalhava em prol da nação, quando ninguém ficava inventando moda. O povo vai obedecer porque é consciente e civilizado. Não pode vandalismo, não pode vaiar presidente, não pode greve; não pode perguntar, exigir, criticar. Não pode reclamar quem não tem solução melhor para apresentar. Não pode nada, entendeu bem? Assim é melhor; sem tentação não há pecado.

Meu personagem Cristiano seria absurdo, estereotipado; tão próximo da realidade que duvidaríamos se é realmente ficcional ou se o cotidiano é que parece uma grande invenção. Tipo novela das nove. Já pensou que legal?

terça-feira, 15 de julho de 2014

"O significado originário, a referência etimológica do termo 'personagem' nos ajuda a ver isso: persona, termo latino de onde deriva o vocábulo atual, guarda a memória da palavra grega para máscara – artefato utilizado no teatro para caracterizar, de modo convencional, as expressões e os afetos dos atores. Logo, personagem nem sempre indicou um indivíduo único e irrepetível, mas uma função, um lugar convencional a ser ocupado por sujeitos que representassem, de modo sintético, pessoas de uma determinada classe ou condição social (como ocorre nas comédias da Antiguidade Clássica, por exemplo) ou personagens alegóricos, que figuram a própria condição humana (como o caso do próprio Dante Alighieri, protagonista da Divina Comédia). Se pensarmos historicamente, veremos que a ênfase dada ao indivíduo (e aos personagens marcados como sujeitos únicos e em tudo diferente dos demais) é um fato recente, datando do início da Era Moderna (séculos XV e XVI)."

Gustavo Silveira Ribeiro
Cândido, 35, junho/2014

sábado, 12 de julho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (POSFÁCIO)

Talvez você tenha sido amada também, embora não tenha se encontrado nestes relatos. Talvez eu não me recorde, talvez não deva falar. Talvez tenhamos nos visto apenas uma, duas, muitas vezes. Talvez não o bastante. Talvez a gente ainda não se conheça. Talvez não o suficiente. Talvez pareça que me apaixono fácil, mas não é verdade; a maioria dos casos foi puro platonismo. Talvez eu ainda ame você. Talvez nem mesmo eu saiba. Talvez ainda venha a amá-la. São as incertezas, essas imprecisões e indecisões, que fazem do amor uma aventura viva, pulsante, tão memorável. Tanta gente se dedicou ao amor ao longo da História! Tanta gente se dedicou 'simplesmente' a amar, às suas próprias histórias de amor. Não sou, nem de longe, pessoa apropriada para dar voz aos grandes anseios e mistérios da humanidade. Tenho meras lembranças. Meia dúzia de recordações. Que talvez sejam verdade, talvez não. Seja como for, são obras da minha cabeça. Talvez do coração.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (12)

Enquanto realizava as pesquisas para o mestrado, caí de amores pela artista que permanecia no foco das minhas atenções. É natural que o interesse gere mais interesse. Não seria nada excepcional caso ela não estivesse morta há trinta anos. Mesmo assim eu me sentia próximo, folheando seus escritos, descobrindo suas obras, assistindo aos seus filmes. Era como se pertencesse ao seu mundo, um pouquinho que fosse. O qual, de tão encantador, me fez apaixonar.

Uma certeza que tive, talvez a única certeza que se permita ter, é que o amor não cabe no tempo, no espaço, numa língua ou numa cultura específica. Ele avança fronteiras. E reside aqui e ali consecutivamente, em ambos os territórios, independente da nossa vontade. Numa ambiguidade sedutora.

Lygia tinha temperamento difícil. Discordávamos com frequência. Porém sua obra causava fascínio e admiração, então eu deixava as desavenças de lado para me dedicar inteiramente aos elogios. Conheci o universo pelo seu ponto de vista. Pensei as relações humanas segundo a sua perspectiva. Cada aspecto seu emergia e me transformava. Não tinha outra maneira de agradecer senão agregando pontos positivos às suas memórias.

Foi muito difícil deixá-la. Contudo, era preciso. Voltar as costas, seguir adiante. Trouxe uma parte preciosa comigo. Não suas pinturas e esculturas, que até valem um bom dinheiro. Trouxe experiência de vida. Fé na liberdade. Vontade criativa. Não tem dinheiro que compre essas coisas. Aliás, o dinheiro nem sabe o que significam.

Toda vez que me deparo com uma nova pesquisa sobre arte, sei como Lygia pensaria. Ou pelo menos eu imagino com tamanha convicção que faço realidade da ficção. E vice-versa. De todo modo, é sempre ela que vem. Sempre em primeiro lugar. Como um amor do passado que eu jamais esqueci.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (11)

Não tenho condições de esmiuçar o grande amor da minha vida porque ele não cabe aqui; eu teria que escrever um romance, talvez uma trilogia, como está na moda. Nem mesmo assim... a literatura não daria conta, é muita responsabilidade. Além do mais, o amor é nosso, tem a nossa cara, o nosso jeito; duvido que interesse aos leitores.

Posso compartilhar apenas uma lembrança, que no fim das contas resume bem o casamento. Uma cena. Assim:

Eu quero sanduíche, Juliana quer sopa. Inclusive, ela quer que eu tome sua sopa também. Levo meia hora persuadindo-a de que podemos muito bem jantar juntos com ela tomando a sopa e eu comendo o sanduíche. Gera um atrito mas ela concorda. Preparamos os pratos, sentamos para jantar. E ela come o meu sanduíche.

Rimos. Tomo a sopa, que estava gostosa, até.

Passamos então a planejar o cardápio do dia seguinte.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (10)

Já amei mulher casada. Sim, já. Para melhor ou para pior, acredito que ela me amou também, e ficou esperando um movimento meu para reviver o universo em seu estado de caos. Não seria um ato fugidio, ou ato falho, isso nunca me interessou; seria aposta das grandes, daquelas que põem tudo em risco. Acredite, milhares de possibilidades passam pela cabeça de quem ama nessas condições. Porém as cartadas nem sempre são decididas ali, na cabeça, e algumas daquelas possibilidades por vezes se tornam fato.

Eu estava solteiro na época, sem namorada nem nada. E achava inconcebível não poder amá-la porque um dia, num passado não tão distante, Giovana decidiu se comprometer por toda a vida. Não fazia sentido. Era tão jovem! Tão jovem quanto eu. E, no limite, restava a nós somente uma parcela da vida para sermos felizes.

Sabe, a traição é sempre questão de egoísmo. Não é um moralista que fala, ok? Penso isso friamente. Pode ser que a mudança compense, afinal; não dá para estabelecer uma regra. Mesmo assim, quando a jogada dá certo e os envolvidos ficam bem, ainda me parece egoísmo. Por causa do desejo de romper uma relação somente para iniciar outra. Porque essa outra seria supostamente melhor. Pura tentação. Uma cilada que pode terminar mal. Enfim, é amor. E amor não tem mesmo fundamento, de nada adianta querer justificá-lo.

Fato é que hoje o casado sou eu. Só quando me comprometi é que pude entender o poder do rito. Não foi antes, não foi quando achei que convinha casar. Foi na hora do sim. Compreendi que não se trata de abrir mão de outros amores. Mas, sim, de me dedicar inteiramente ao meu; aquele que provou valer a pena.

Ainda, uma aposta. Que beco sem saída!

Veja bem, sem arrependimentos, continuo a amar mulher casada. A minha.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (9)

Já tentei amar com objetivo de esquecer outro amor. Foi patético; óbvio que não deu certo. Porque não se anula um amor com outro, assim como não se divide o amor em dois. Amor apenas soma. Se o resultado não confere, sinal de que algo na equação está errado – convém rever os elementos.

Insisti durante um tempo. Pouco, na verdade. Para minha sorte, Júlia percebeu e não se deixou enganar. Foi mais esperta, pois eu nem sabia que a enganava. Aliás, enganava a mim, a ela e a meu outro amor, o verdadeiro.

Nossa relação, na qual eu depositava uma quantia incontável de esperança, ingênuo que fui, rompeu de uma hora para a outra, tamanha a sua inconsistência. Desandou. Até nisso eu me enganava.

Investi meu espírito na ciência do amor, por mais incompatíveis que fossem, a princípio. Jamais consegui explicar a razão. De algum modo, acredito que ela compreendeu. Não precisou da lógica, apenas do sentimento. Achei-a forte, decidida. Foi gentil comigo. E desapareceu.

Fiquei livre para me dedicar ao amor primeiro, aquele que eu tentava esquecer sem sucesso, que originou toda a discórdia. Também ele não deu certo, coisa que eu sabia desde o início. Repassei cada uma das suas questões, revisei os dados, adicionei pontos positivos, subtraí pontos negativos, contei demais com conjuntos vazios. Procurava uma resposta esclarecedora. A solução era sempre igual. Tratava-se de um amor impossível.

domingo, 29 de junho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (8)

A primeira vez que chorei por amor foi aos dezoito anos. Foi também a primeira vez que amei de verdade. Porque existem amores e amores; isso eu fui descobrindo com o tempo. Não que os outros sejam falsos – é que o amor verdadeiro tem algo de especial. Difícil defini-lo. Só que a gente sabe quando é.

Esse amor veio misturado com uma vontade de descoberta, uma paixão à primeira vista, uma situação delicada e uma amizade insustentável. Aconteceu logo que ingressei na faculdade. E quatro anos conflituosos se seguiram. Posso afirmar que a disciplina mais complexa de toda a graduação foi amar. Quando finalmente aprendia a lição, era mais uma vez posto à prova, e custava muito a me recuperar. Ainda hoje acho que o tema é uma irregularidade em meu currículo. Jamais irei dominá-lo. Jamais ficarei à vontade com ele.

Como obra do destino, conheci meu amor no primeiro dia de aulas. Não é bonito? Melhor dizendo: eu a vi no primeiro dia; a gente só se conheceria mais tarde. Estava sentada num banco, entre as árvores, solitária. Um fichário aberto sobre o colo, concentrada na leitura. Nunca esqueci a cena. Cheguei a questioná-la numa oportunidade, ela não se lembrava. Deve ter ficado ali por um instante só; instante que tomei para mim.

O destino continuou a me seduzir. Ao perceber que estávamos na mesma turma, tive certeza de que Inês seria o amor de minha vida. Essas certezas que a gente tem... põem todo o resto em questão. Não demoramos a conversar. Nem a descobrir uma ligação muito forte.

Mas eu era lento. Inexperiente. Inseguro. E ela carregava um pretenso caso desde o colégio, que germinou nas brechas que deixei. Nas minhas falhas. Quando me dei conta, éramos amigos muito próximos, de um jeito como nunca tinha experimentado, e ela namorava outro, talvez enquanto aguardava minha tomada de decisão. Pode ser fantasia minha, claro. Mesmo assim, sei que não era amor que a unia ao namorado. Ao menos não naquele início. Era uma aposta às cegas.

Simplifico a relação, falando desse jeito. É muito difícil resumir quatro anos tão intensos, tão cheio de altos e baixos. Tampouco acredito ser necessário. Minha falta de iniciativa era inocente demais, e acabei culpando o bom caráter por não deixar com que abrisse meu coração a uma amiga comprometida. Eu não queria lhe provocar transtornos, então optei por guardar todos para mim. Não achava justo. Por uma questão moral, talvez. Acho que foi essa a desculpa que encontrei para aceitar a situação. Ou para tentar superá-la.

A ligação que tínhamos pendeu para o meu lado. Ela me tratava com frieza para conter meus ânimos acalorados. Sonhei, sofri. Amadureci.

Lembro que aprendi a tocar Beija Flor, do Cazuza, porque era sua música favorita. Passei a gostar da música também. Forcei encontros, deixei-a constrangida, exigia o que ela não podia dar, exagerava na dose de proximidade. A demasia foi um problema. Porque o amor transbordou. Amei-a intensamente sem poder avançar um limite tênue – e opressor. O excesso acabou por desgastar o amor.

Chorei a primeira de diversas vezes, como se chorar esvaziasse a reserva de lágrimas. Descobri que o amor pode ser tão grave quanto delicado; as duas coisas ao mesmo tempo. Ele atravessa tormentas mas falece num sopro de vaidade. Numa atitude não assumida. Numa hesitação. Num ímpeto não correspondido. Basta uma palavra errada e sua solidez se esfacela.

No meu caso, não houve palavra alguma, esse foi o problema. O que restava para ser dito, o que não estava subentendido, já não tinha vitalidade. A angústia, insuportável; ergueu uma barreira entre nós. Nem a amizade podia vencê-la. Carregamos o fardo até a colação de grau. Depois não tivemos como manter contato. Exceto, talvez, em parcas tentativas de fulminar algo tão mal resolvido. Um email, uma lembrança.

Encontrei-a uma vez mais, alguns anos depois. Foi um encontro necessário. Somente para saber se pudemos superar a nós mesmos. Foi um encontro divertido. Que logo esqueci.

Nem todo amor verdadeiro dá frutos. Assim como nem toda certeza sobrevive ao tempo. É preciso aceitar isso. Nada é absoluto. Aliás, o amor não precisa disso para existir. Nós é que impomos tamanha ingratidão a ele. O amor não precisa de condição. Precisa, sim, ser incondicional.

Este deveria ser um dos meus relatos mais comoventes, dado o que significou em minha vida, porém não dou conta dele agora nem consigo descrevê-lo conforme gostaria, sem soar brega. Era para ser o relato mais sincero também. Mas está cheio de linhas duvidosas, caminhos discutíveis, pontos de vista não correspondentes aos fatos. Uma trama maliciosa. Ainda que buscasse somente um final feliz.

Acontece que os finais felizes são os mais manipulados. Os mais distantes da vida comum. Porque nenhum amor acaba bem. Não tem como acabar e continuar bem. Ao contrário, é a felicidade que dura enquanto houver amor.

Quando o fim traz a sensação de bem estar, estou certo de que é porque o amor já não existia. Ao menos não o amor verdadeiro.

sábado, 28 de junho de 2014

Iasnaia Poliana, esposa de Leon Tolstói, passava a limpo o que o marido produzia diariamente. Diz a lenda que era a única capaz de decifrar sua caligrafia. Copiou o imenso romance Guerra e Paz sete vezes, já que o escritor tinha compulsão por revisões e retrabalhos. O processo se estendeu por cinco anos. Ao ponto de seu editor escrever: "Só Deus sabe o que o senhor está fazendo. Se continuar assim, vamos recompor e corrigir eternamente. Qualquer um pode lhe dizer que metade das mudanças que o senhor faz são desnecessárias. No entanto, elas causam uma diferença apreciável nos custos da composição tipográfica. Eu pedi ao tipógrafo que lhe mande uma conta separada, só das correções. Pelo amor de Deus, pare de rabiscar".

quarta-feira, 25 de junho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (7)

Houve amores – poucos, admito – que dispensei. Amores que não podia corresponder. Aprendi com eles. Inclusive, acredito que aprendi a ser mais amoroso quando não correspondia a alguém que me amava. Aprendi também a lidar melhor com a situação contrária, quando eu propunha o amor e nada obtinha em contrapartida – isso sim aconteceu um punhado de vezes, diga-se de passagem.

O primeiro desses amores veio de uma amiga e me pegou de surpresa. Eu jamais a imaginara naquelas condições, e quando descobri já me amava – ou queria amar – havia tempos. Ela 'gostava' de mim, como costumávamos dizer. E eu meio que gostava também, só que não do mesmo jeito. Aliás, não sei se gostava, fosse do jeito que fosse.

Não foi por maldade, entenda bem. Eu somente não conseguia vê-la assim. Nunca disse nada diretamente, foram os amigos em comum que intermediaram a conversa toda. A amizade se transformou, claro. E não durou muito tempo mais. Amar tem suas dádivas e seus pesares. Sem rancor, entretanto. Hoje, sou grato pelo que Ângela me ensinou. Espero que me tenha do mesmo modo.

[REPENSANDO] ARTE FAZ PARTE

Este blog é um caderno de exercícios. Um apanhado de relatos. Um acúmulo de notas esparsas. Uma reunião de esboços sem relação aparente. Uma coleção de textos já publicados. Ineditismos e imediatismos também. Uma experiência. Um acaso. Uma ficção. Uma obrigação não formalizada, talvez um método de produção e organização. Homenagem e citação. Trama. Uma viagem. Um lugar para habitar. Um meio de existir no mundo. Uma vontade. Uma despretensão. Uma veia literária. Um ponto de encontro. Uma reunião de pensamentos. Uma linha de errância. Um objeto/objetivo sem finalidade. Um ensaio. Uma passagem. Uma brecha. Um mundo paralelo. Uma ambiguidade, com certeza. Um alter ego. Uma perspectiva. Várias. Uma provocação, pode ser. Uma abertura à discussão. Uma bagunça sem pé nem cabeça, lugar onde se perder. Limiar. Entrame. Ausência. Um cuidado, uma curadoria; uma cuidadoria. Um sinal de vida. Uma força. Um contratempo. Arte, por que não?

segunda-feira, 23 de junho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (6)

Patrícia foi mais uma admiração do que propriamente um amor; contudo não acho estranho citá-la aqui. Frequentamos os mesmos lugares durante anos. Sei que ela me admirava também, ainda que não tenhamos trocado mais do que meia hora de papo. Era gordinha e divertida, estava sempre sorrindo. Seu bom astral contagiava. Ficou um tempo sumida. Voltou esquelética, indiferente, nem parecia a mesma pessoa. Vieram dizer que estava anoréxica. Mas por quê? Que bobagem é essa?

Deixei de frequentar aqueles lugares. Isso faz anos. Não tive mais notícias dela. Procurei-a diversas vezes depois, nas redes sociais de que participei, sem jamais encontrá-la. Seu sobrenome era bastante incomum, não deveria ser tão difícil. Também não tive coragem de perguntar aos poucos conhecidos que compartilhávamos, e com quem não tinha tanta intimidade assim. Receio que a doença a matou. Seria uma perda lastimável. Fico triste por imaginar isso, e me dou conta de que falo dela com verbos no passado. Pretérito imperfeito.

Eu gostaria que Patrícia estivesse bem. De verdade. É tudo o que me resta.

sábado, 21 de junho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (5)

Ainda no colégio, tive uma paixonite por uma garota que, se muito, foi amiga minha durante um período breve. A história se resumiria a isso caso eu não tivesse descoberto – anos mais tarde e meses após o ocorrido – que ela falecera num acidente de carro. Tinha o quê?, dezoito, dezenove anos? Foi ela que fez da morte algo factível. Quer dizer, que me apresentou a possibilidade de morte para jovens da minha idade e, no limite, para mim mesmo. Até então, morrer era uma verdade distante. Não pertencia à minha realidade.

O namorado dirigia. Pegaram um caminhão de frente na estrada. Disseram que foi ultrapassagem em local proibido. Para ser sincero, nunca quis saber se foi mesmo. Não queria explicação. Pensei em culpar o namorado, já pensei em culpá-la por namorá-lo, só que isso não leva a nada, exceto a mais arrependimento por nunca ter levado a cabo minha vontade e, com sorte, modificado sua trajetória. Bom, talvez não dependesse de mim. Éramos crianças. E essa culpa só vem acompanhada de remorso. Ninguém precisa dela.

Ainda hoje sinto que Ingrid está viva. De vez em quando, com intervalos de tempo sempre mais longos, me percebo lembrando dela, do seu perfil esguio, sua postura ereta de bailarina. Aos poucos, sua imagem vai desaparecendo. Era uma garota bonita, embora sorrisse pouco. Sempre lhe desejei um futuro próspero. Eu queria vê-la dançar, coisa que fazia tão bem. Dançar num palco grandioso. E ver a plateia aplaudi-la de pé.

Sim, penso nela de vez em quando. É como se estivesse dançando por aí, em algum teatro da cidade. Um lugar próximo de mim. Como se a notícia não tivesse passado de um mal entendido. Como se não houvesse nada com que se preocupar. Bastaria isso. Um desencontro. Um desencontro de informações. Um encontro, talvez. Bastaria.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

LEMBRANÇAS DE MEUS AMORES (4)

É curioso falar de sonho porque traz à tona outro amor breve da minha adolescência; amor fugaz e inseguro como eu era na época. Falo de uma amiga num grupo de amigos em que os amores e as desilusões se revezavam. Amávamos e nos desamávamos tanto que o grupo se desfez assim que chegamos à faculdade, e cada um seguiu seu próprio rumo sem remorso ou coisa do tipo.

Mas eu falava de sonho. Foi mais um pesadelo, na verdade, que me acordou com uma sensação esquisita. Eu estava na cobertura de um prédio muito alto; tão alto que só enxergava as luzes da cidade à distância lá embaixo. As ruas eram como rugosidades num tapete. Até o sol estava baixo, deixando tudo numa atmosfera crepuscular. Não havia outros prédios como aquele, talvez sequer houvesse prédios naquela cidade que se esticava além do limite dos meus olhos. O que havia era gente. Muita gente comigo, no topo da torre, e eu não conhecia ninguém, eram tão estranhos quanto o contexto. Estavam todos em pânico e eu não sabia o motivo, mas também ficava em pânico por causa deles. Eu também tinha medo. Do quê? Lembro de olhar para baixo e ver fumaça. O prédio pegava fogo e nós estávamos refugiados no topo sem ter como ir mais para cima. Esperávamos socorro num lugar que o socorro jamais alcançaria. Estávamos no limite entre o céu e a terra.

Reclinado no parapeito, vi outro prédio igualzinho àquele em que eu me encontrava. Tão alto quanto. Não sei se já estava ali ou se apareceu de repente. Então não era apenas um, mas dois prédios maiores do que a humanidade; duas torres isoladas do mundo, da realidade profana das ruas.

O prédio vizinho também tinha fogo, eu podia ver um buraco enorme bem no meio dele, por onde saíam labaredas e uma espessa coluna de fumaça.

No sonho, eu conseguia ver mais um monte de gente na cobertura do prédio vizinho, na mesma situação desoladora. Apesar da distância, eu podia ver Paloma, uma das amigas do grupo do colégio, sozinha no meio daquela gente toda, tal como eu. Tentei gritar, ela não ouviu. Uma, duas vezes. Não deu para fazer mais nada.

Logo em seguida o chão cedeu sob meus pés e eu caí com ele; uma queda interminável. Passavam pessoas, blocos de concreto, estilhaços de vidro, fogo. Tudo voava em torno de mim enquanto caíamos. As pessoas gritavam; eu permanecia impassível, com enorme frio na barriga enquanto o prédio se desmanchava. Uma cena dantesca. Ainda sinto frio na barriga só de pensar.

Lembro também de olhar para o lado e ver o prédio vizinho repetir os movimentos do meu, como um mergulho sincronizado em direção ao inferno. Acho que foi ao vê-lo que compreendi o que acontecia comigo.

Por algum milagre, eu sobrevivia. Caminhava pelos escombros, branco de pó, respirando fuligem em meio a uma escuridão de pedras, ferro retorcido e objetos quebrados. Procurava Paloma. Por algum milagre eu a encontrava. Estava meio inerte, meio soterrada. Completamente atordoada. Eu a resgatava. E o pesadelo terminava.

Acordei com uma sensação esquisita, como disse. Ignorei-a por uns dias, esperando passar. Não aconteceu. Eu sabia que não passaria. Alguma coisa me dava esse pressentimento Chamei então Paloma num canto, expliquei que só contaria o sonho porque ela estava nele e eu não sabia direito o que significava. Fiz isso num tom muito sério. Até demais para um adolescente. Ela ouviu sem dar a menor bola. Me devolveu a mesma mistura de tristeza e receio que se oferece a um lunático. Voltei para casa angustiado. Era tudo o que podia fazer.

Cerca de três meses depois, um ataque terrorista derrubou as Torres Gêmeas de Nova York. Vi os prédios queimarem e desabarem na TV. Fiquei em choque. Nunca mais esqueci a sensação. Nunca deixei de senti-la quando o assunto retornava.

Lembro-me de ir até Paloma e descarregar nela toda a minha aflição. Não disse que aconteceria? Eu sabia. Avisei você. Eu sabia que se realizaria.

Não fui grosso, apenas um pouco afetado. Falei baixo para ninguém ouvir. De qualquer maneira, nenhum colega prestava atenção em outra coisa que não o noticiário.

Paloma também ficou assustada. Não sei o que pensava. Não voltou a falar comigo, embora tenhamos estudado juntos durante o resto do ano. Eu não queria falar tampouco. Sequer na formatura nos cumprimentamos.

Jamais soube se ela contou a história para outra pessoa. Eu a guardei todinha para mim. Até agora.

terça-feira, 17 de junho de 2014

UM PONTO ALÉM DO CONTO

Uma coisa aparentemente chata muito me fascina: a trajetória da Estética no século XX. Trajetória conturbada, que começa com a ingenuidade das vanguardas europeias e sua crença na transformação do mundo por meio da arte, no sentido de "melhorá-lo". Fosse pela negação da beleza clássica, fosse pela pesquisa das formas, das impressões da natureza no homem ou das expressões da natureza humana. Essa ingenuidade acabou dilacerada pelas guerras, quando descobrimos os horrores de que nossa própria natureza é capaz. Tanto que, ao término do primeiro conflito mundial, apareceram as manifestações dadaístas: provocadoras, absurdas, de certo modo até violentas. Estavam em desalinho com os valores clássicos e também com os revolucionários; sem chão, sem esperança, perdidas nas brumas da desilusão. Porque a "missão" do Modernismo falhara – seus esforços foram subjugados. Não havia salvação moral para quem matava sem piedade. Muito menos salvação por meio da arte.

O pouco que restou daquela vontade transformadora sobreviveu menos de duas décadas, sucumbindo de vez nos campos de concentração, nos bombardeios maciços e nas frentes de batalha da segunda grande guerra. "É isto um homem?", pergunta Primo Levi no título do livro em que relata sua passagem por Auschwitz, de onde só era possível sair por um lugar: a chaminé.

Aqueles traumas, entre tantos outros, interromperam o que havia de criativo e jovial na humanidade. Isso nunca pôde ser retomado.

Quando o artista pop Roy Lichtenstein anuncia, na década de 1960, que a arte "não transforma, apenas forma", ele revela outra concepção de Estética, então em voga. Não se acreditava mais no potencial transformador da arte, mas no construtivo, no sentido de que ela poderia erigir numa nova realidade. Estamos falando dos Estados Unidos pós-guerra, da sua chamada Era de Ouro; país vitorioso, pleno de dinheiro e oportunidades, que desde aquela época fabricava cultura em enormes corporações e a exportava para o mundo inteiro. Nós, brasileiros, compramos toneladas do estilo de vida americano. Sonhamos o American Dream. Trouxemos para cá seus automóveis, fizemos estradas para eles transitarem; construímos Brasília inspirados na razão matemática, nas técnicas de engenharia recém-desenvolvidas, na ordem como método de obter progresso. O trabalho estético, por sua vez, afastou-se da natureza do homem e se direcionou à forma plástica; o espiritual na arte perdeu espaço para superfícies modulares, minimalismos e equilíbrio visual pela repetição de padrões.

Alegra-me saber que, no contemporâneo, esse ideal não se sustenta mais. Filósofos e artistas dedicados a compreender nossos modos de existência não acreditam em transformação ou formação pela arte, mas em desformação. Quer dizer, trabalham o esfacelamento dessas estruturas sólidas que foram sedimentando ao longo do século XX, multiplicando-as em singularidades infinitas. Estrutura familiar, social, governamental, militar, religiosa; hierarquias de todo o tipo, cânones, verdades absolutas que, sacralizadas como estão, já não servem mais, ou seja, não condizem com o nosso dia a dia. Pertencem a outro plano. E, dada sua incompatibilidade com a vida contemporânea, precisam ser revistas, reinventadas, desfeitas, profanadas; reorganizadas para voltarem a operar, se ainda forem pertinentes. Destituir as instituições. Deixar a rigidez mais elástica. Manipular o intocável conforme melhor convier.

Há resistência, entretanto. Embrutecimento. Teimosia. Inclusive nas vontades de mudança. Porque muitas vezes essas vontades apenas retomam procedimentos obsoletos e dão outra volta às mesmas reviravoltas. Quando, na realidade, o que se deseja é sair do circuito; linhas de fuga, trajetos de errância em vez do conforto das certezas.

Exemplo dessa resistência está no filme Malévola [se você não viu, talvez seja melhor interromper a leitura para não ter o final revelado]. Quando o vilão morre, o mal é extirpado e os heróis viverão felizes para sempre – conforme protocolo da Disney –; a princesa é coroada e o povo se reclina a seus pés. Povo que não era povo. Reino que não era reino. Quem se lembra do início da história? Quando os seres mágicos viviam felizes e saltitantes, antes da chegada do homem, que os corrompeu e os infligiu os horrores da sua estrutura sociopolítica. Até então, as fadas e seus amigos viviam com harmonia, pois ninguém era mais privilegiado. Depois, conheceram a ambição, a tentadora ascensão social, a possibilidade da dominação do outro.

No dito "final feliz", os produtores optaram por recriar o conflito principal – o jogo de poder – que provocou todo o drama, envelopando-o de "sonho de princesa". Os personagens não precisavam de governantes, porém os aceitaram, mesmo sabendo que renderiam futuras crises. No geral, é o que costumamos fazer em nossas vidas: permanecer atados ao círculo vicioso que se critica, opõe e autoalimenta.

Perguntaram se gostei do filme. Essa revisão inteira passou pela minha cabeça e a resposta foi negativa, claro. Não gostei. Achei uma pena que não reinventaram a fábula de modo que fizesse sentido no contemporâneo: que provocasse deslocamentos, ruídos; que correspondesse às questões mais urgentes.

A Estética segue seu rumo pelos caminhos mais imprecisos. Enquanto o filme encalhou num daqueles pontos retrógrados em que os blockbusters adoram se firmar.