quarta-feira, 14 de novembro de 2018

ENTREVISTA: COMO EU ESCREVO

José Nunes tem um projeto incrível chamado Como Eu Escrevo, que apresenta o processo criativo de escritores, acadêmicos e juristas (Juristas? José cursa Doutorado em Direito na UnB. Ah!).

O arquivo está à disposição e já tem centenas de entrevistas. O propósito é oferecer inspiração às pessoas com dificuldade para escrever. Aplausos para José Nunes. Compartilhar ideias é mesmo uma excelente maneira de enfrentar os desafios da escrita.

Tive o prazer de responder às perguntas do projeto. A entrevista abaixo foi publicada em comoeuescrevo.com/eduardo-a-a-almeida


Se você ainda não leu meu livro mais recente, encomende seu exemplar aqui: Testemunho Ocular. Ou entre em contato comigo e receba o livro com dedicatória: edualmeida@artefazparte.com

 
1. Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Quem me desperta é minha filha de 8 meses, quase sempre entre 6h e 6h30. Às vezes mais cedo. A essa hora, minha esposa já saiu para trabalhar. Lavo a louça da noite anterior, troco fralda, dou mamadeira e tomo café com a nenê no colo, tentando fazendo com que ela pare de puxar a toalha da mesa e jogar tudo no chão. Brincamos até às 9h, quando a deixo no berçário. Só então a escrita tem início.

2. Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Sempre escrevi melhor de manhã, quando a mente ainda está fresca. É meu período criativo favorito. Também gosto de ler e estudar nesse horário. Sinto que, depois do almoço, a cabeça vai dormir e deixa o restante corpo a fazer trabalhos mais mecânicos como pagar contas, responder emails, revisar textos. À noite estou exausto, raras vezes consigo botar uma boa frase em pé.

Não tenho um ritual propriamente dito, mas gosto de abrir espaço na mesa de trabalho, que quase sempre está atulhada de livros e anotações, esqueço o celular em algum canto da casa e tento não ligar o computador. Gosto de silêncio e caneta-tinteiro. São poucas as ocasiões em que consigo realizar isso tudo porque sempre existe alguma tarefa banal a convocar minha atenção e a abalar o mundinho ideal. Mesmo longe o telefone toca. Chega um email urgente. Tenho que resolver qualquer coisa na rua. Além disso, estão subindo um prédio atrás do outro em meu bairro, e já são anos que passo as manhãs a ouvir serras elétricas, martelos, bate-estacas, entre outros prenúncios do caos.

3. Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Escrevo quando é possível e quase sempre incentivado pelo prazo que se esgota. São os prazos que ditam as prioridades. Preciso entregar a coluna do jornal, depois tenho que ler o livro para resenhar, não posso esquecer de revisar o artigo acadêmico, e então, ou antes, ou assim que puder, preciso desenvolver os itens deste e daquele projeto, preparar a aula, enxugar a palestra, enviar o orçamento.

A literatura sobrevive em meio a isso tudo porque é mais forte, atravessa as ordenações, me arranca da cadeira ou da cama, nas madrugadas, e me obriga a desenhar palavras no papel. Minha meta diária é terminar alguma coisa, seja o que for, contanto que termine e abra espaço para algo mais. Não é comum eu escrever à toa. Mas quando tenho um projeto na cabeça, ele volta e meia me requer, sugere ideias, atira a agenda longe para ocupar o tempo possível e, com sorte, o impossível também.

4. Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Costumo acumular ideias, interesses, imagens. Então sento e escrevo de uma só vez. Acontece de nascer um texto que escapou de todas as anotações, como se tivesse se contorcido por entre elas. Outras vezes o texto é uma costura de notas que, a princípio, não tinham nada em comum. Às vezes a pesquisa leva anos, outras vezes o texto aparece sem qualquer pesquisa que esteja diretamente relacionada com ele. Mas é claro que toda obra se realiza a partir dos materiais reunidos ao longo da vida, tivessem ou não um propósito específico. Isso varia conforme o tipo de texto. Ensaios costumam exigir muitas notas, leituras, diálogos. Textos ficcionais, por outro lado, saem à revelia do planejamento. Não é difícil escrever; difícil é arranjar as condições para que a escrita se realize.

5. Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

A escrita só destrava quando escrevo. Antes de começar, o texto parece impossível. Entretanto uma palavra solicita outra, um sentido sugere outro, e assim o processo anda. Às vezes desanda e o texto nasce torto, requer muita plástica ou a lixeira, a depender de quão grave é seu estado. Não costumo forçar demais a barra. Se um texto não quer nascer, gesto um pouco mais, escrevo outro para compensar. Quando vier, será saudável.

As expectativas, por sua vez, podem ser minhas ou dos outros. Dou atenção às expectativas em textos de não ficção, cuja ideia a ser transmitida deve ser mais precisa. No caso de textos artísticos, a expectativa é tanto uma ilusão quanto uma violência. Ilusão porque não se pode prever a reação do leitor. Violência porque, quando se acredita em tal previsão, o escritor está determinando um perfil, um público-alvo, um preconceito. O leitor não deve ser reduzido nem menosprezado assim. Textos que preveem seus receptores são publicitários.

Um projeto precisa se manter vivo durante sua realização, tenha uma página ou cinco mil. Sua longevidade não tem a ver com longitude. Se o projeto estiver vivo, consigo trabalhar nele quanto tempo for preciso. Se morreu, escrever uma só linha será doloroso e, no fim das contas, uma falácia. O melhor teste de vitalidade ainda é a gaveta: pego o texto inconcluso e o guardo. Se volta e meia a gaveta se mexer, gritar, liberar algum feromônio, é meu dever retomá-lo.

6. Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Uma coluna de jornal, por exemplo, é reescrita por volta de três vezes antes de ser publicada. Adoro mostrar rascunhos ou ao menos contar a ideia a alguém para saber sua opinião, embora nem sempre consiga, por razões variadas.

Textos acadêmicos são reescritos algumas vezes também, mas nunca estão de fato finalizados porque as ideias vão se transformando, novas associações são tecidas, novas leituras levam a diferentes concepções etc.

Contos, romances, poesias são reescritos muitas vezes, lidos por amigos, compartilhados aos pedaços. Meu livro Testemunho Ocular foi lido por uma dezena de cúmplices antes de ser publicado, em especial os escritores do coletivo Discórdia, do qual faço parte. Eles comentaram os textos, sugeriram mudanças, compartilharam impressões de leitura. Alguns contos do livro vinham sendo reescritos há anos, outros eram recentes.

Meu primeiro romance, que deve ser publicado em 2019, teve sua versão inicial escrita dez anos atrás, e desde então foi reescrito uma porção de vezes. Já foi lido por vários amigos, algumas versões foram inclusive premiadas, mas só agora estou prosseguindo com a publicação.

A vontade de publicar logo e me livrar do texto é imensa. Ainda bem que outras tarefas me ajudam a controlá-la. Enquanto isso o livro fica se rebelando dentro da gaveta.

7. Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Sempre gostei de escrever as primeiras versões à mão e só depois digitá-las. O manuscrito é mais lento, e esse tempo colabora com o pensamento. Sem contar que é muito mais fácil desenhar setas no papel, rabiscar, tracejar etc. É uma artesania que depois ganha outros contornos quando passa ao computador. Essa fase seguinte privilegia o ritmo, a técnica, a revisão.

Neste ano de 2018 estou integrando o Núcleo de Dramaturgia do SESI - British Council. Entrei ali com a proposta de experimentar modos diferentes de fazer. Tenho escrito as peças diretamente no computador. É um processo estranho, com prós e contras que ainda estou avaliando. Tem sido uma boa oportunidade para tentar e errar.

8. De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?

As ideias vêm do mundo. Elas ganham forma escrita e recaem no mundo. É ingenuidade pensar que têm origem na “profundidade do ser”, no “interior obscuro”, nesses lugares de teor expressionista. O mundo nos atravessa e, com sorte, conseguimos sustentar uma ideia ou outra, quase como uma peneira a sustentar uma pedra maior, que não poderia atravessá-la sem provocar um rombo.

Os hábitos que cultivo são todos relacionados a manter essa abertura na relação com o outro. Leio sobre assuntos variados, interesso-me pelas demais artes, prefiro caminhar entre as pessoas a dirigir minha bolha espacial. Gosto de ouvir histórias.

9. O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

Com muito esforço fui desconstruindo algumas idealizações e apurando o senso crítico em relação às criações. Aprendi técnicas de escrever, revisar e apreciar. Mas principalmente quis conhecer melhor as potências estéticas e políticas das artes, suas relações com as pessoas, as organizações sociais, os regimes de ver, pensar e dizer. Ainda há tanto para aprender!

Se pudesse voltar àqueles escritos antigos, eu diria para não deixarem a satisfação durar tempo demais. É vital que um texto satisfaça seu autor porque ninguém consegue sobreviver em constante frustração. Mas a satisfação precisa ruir para assinalar um movimento. Não se trata de evolução, mas de pulsação; não se trata de fazer melhor numa escala qualitativa trazida de fora, mas de fazer de um jeito que renove o próprio fôlego, os pensamentos, os interesses. Se um texto antigo ainda me satisfaz, alguma coisa em mim não saiu do lugar desde que o escrevi, e isso é perigoso.

10. Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Difícil identificar quais projetos ainda quero fazer, mas de alguma maneira eles já foram iniciados. A pesquisa e a criação precedem o projeto, que vem apenas dar forma a elas.

Nos próximos anos pretendo lançar um estudo sobre a Estruturação do Self, trabalho derradeiro da artista Lygia Clark, que comecei a pesquisar durante o mestrado. É uma proposta instigante que inventou um lugar entre a arte e a clínica, e que infelizmente é pouco conhecida. Passados vários anos das minhas primeiras investigações, sua obra ainda pulsa.

Eu gostaria de ler um livro que provocasse em mim um corte radical, como os cortes que Lucio Fontana fazia em suas telas. Será que ainda não existe? Deve estar por aí, eu é que preciso encontrá-lo.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

DESAPRENDER A DIZER


Por diversos motivos, volto de tempos em tempos à aula inaugural de Roland Barthes no Colégio de França, oferecida em 1977 e publicada no Brasil na forma de um livrinho. Desta vez eu quis relembrar sua denúncia sobre o fascismo da língua, que sempre achei muito ousada. Para o semiólogo, a língua é fascista não porque impede de dizer, mas justamente pelo contrário: ela obriga a dizer. E, sempre que proferida, a língua se põe a serviço de um poder.

Fui relembrar essas ideias por incentivo de Peter Pál Pelbart, uma das nossas vozes filosóficas mais instigantes, que mencionou Roland Barthes durante a palestra sobre a “Experiência nômade da escrita”, oferecida no Sesi-SP como evento de abertura do Ciclo de Dramaturgia deste ano. Eu queria – ou melhor, eu precisava de – algumas palavras que me ajudassem a pensar outro fascismo, recorrente na política atual, que de política preserva bem pouco na medida em que mina debates e sustenta autoritarismo de variadas ordens. Se a campanha dos candidatos foi um horror, a atuação dos eleitores foi pior: ignorante, violenta, impositiva etc.

“Por toda parte, de todos os lados, chefes, aparelhos maciços ou minúsculos, grupos de opressão ou de pressão: por toda parte, vozes ‘autorizadas’, que se autorizam a fazer ouvir o discurso de todo poder: o discurso da arrogância”, diz Barthes com a sua lucidez tão característica.

Seremos solicitados a nos acostumar com esses autoritarismos nos anos que vêm. Para mim é impossível, aviso de antemão. Para outros milhões de brasileiros também será.

Como escapar do fascismo anunciado? De acordo com Barthes, a linguagem humana é sem exterior, só podemos sair dela pelo preço do impossível. Entretanto o autor oferece uma alternativa: se é impossível escapar do fascismo que a todo instante obriga a dizer, podemos trapacear a língua. “Essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem” é o que Barthes chama de literatura.

Ele aproveita para explicar que a força de liberdade da literatura não depende do engajamento político do escritor, que afinal é um déspota entre tantos outros, nem mesmo do conteúdo doutrinal de sua obra, mas do trabalho de deslocamento que exerce sobre a língua.

Eu estava, como sempre, encantado com seus pensamentos. E pretendia chamar atenção para o engano comum que tenho observado ao meu redor: a confusão entre a obrigatoriedade de dizer e a liberdade de expressão. Trata-se de um engano grave. Pois liberdade de expressão não é o direito de dizer tudo o que vem à cabeça; isso na realidade quase sempre configura um aprisionamento, que é próprio do tal fascismo da língua. O que se diz, no caso, são meras fórmulas, repetidas à exaustão; violências normalizadas, discursos prontos que colonizam o sujeito que fala, notícias falsas e lógicas escusas a corromperem todo o sistema de comunicação. Trata-se, enfim, de enclausurar a própria expressão, sufocar a vida, abrir a mão da potência de não dizer.

A verdadeira liberdade de expressão é muito mais difícil de exercer. Pois implica libertar a própria expressão das amarras já subjetivadas que impregnam, deturpam e modulam os discursos. Implica destituir o governo que se impõe sobre o dizer e o faz delirante.

Se é de fato impossível, é ainda a utopia que a literatura deve perseguir. E não apenas ela: cada um de nós precisa aprender a desarmar a própria língua, desarticular o próprio discurso e escapar dessa condição de cativo.

Vou preenchendo meu caderno com notas, apoiando-me numa aula que se atualiza desde a França de décadas atrás e me ajuda a pensar o Brasil de hoje. Lá para o fim do livro, deparo-me com a seguinte frase: “o que pode ser opressivo num ensino não é o saber ou a cultura que ele veicula, são as formas discursivas através das quais ele é proposto”.

É nesse momento que encontro palavras para botar ordem em minhas próprias inquietações. E afirmar, em primeiro lugar, que suprimir das nossas escolas conteúdos urgentes – como a consulta pública do Senado que sugere criminalizar o debate sobre questões de gênero – é impedir que a diferença seja visível e problematizada por estudantes que têm plena capacidade de aprender com ela. Estudantes inteligentes que não precisam dessa censura disfarçada de tutela.

Em segundo lugar, e também relacionado a outra consulta pública, é preciso desfazer a ilusão da tal “escola sem partido”, a qual é por princípio impossível. Ao contrário de mais restrições, que tendem apenas a gerar mais violências, impedir debates e autorizar opressões, é preciso dar voz a todos os que desejam falar. De maneira que, novamente pela diferença, seja possível experimentar a força arrebatadora da democracia e a resistência ao fascismo dos discursos autoritários.

Com sorte, todos nós teremos a chance de atingir o ápice da maturidade do ensino, que para Roland Barthes é a experiência de desaprender. Eu, ainda distante de tamanha sabedoria, só tenho a concordar com ele e, humildemente, agradecer o privilégio de sua aula e toda a abertura que ela oferece.

domingo, 4 de novembro de 2018

COLETIVO DISCÓRDIA NA FEIRA MIOLO(S) 2018


O coletivo de criação literária Discórdia, do qual faço parte, foi selecionado para a Feira Miolo(s) 2018, um dos mais importantes eventos de publicações independentes do país, realizado pela editora Lote 42 e pela Biblioteca Mário de Andrade (São Paulo/SP).

Entre editoras, artistas e outros coletivos (são cerca de 150 expositores), estaremos lá com nossos zines, artes gráficas e livros. Faremos inclusive o lançamento de uma coletânea de contos. Imperdível!

Visite nossa banca e conheça a literatura do Discórdia. O evento é gratuito, basta chegar e se perder entre os livros.

Sábado, 10 de novembro de 2018, das 11h às 23h
Local: Biblioteca Mário de Andrade
Rua da Consolação, 94, São Paulo (pertinho do metrô Anhangabaú)

Confirme sua presença no Facebook e convide seus amigos para o evento: Discórdia na Miolo(s) 2018