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quinta-feira, 21 de junho de 2012

VERGONHAS À MOSTRA


Um homem para no meio da rua, olha para cima, aperta os olhos contra o céu. Outro chega perto, fica olhando também, perguntando-se se é possível. Ele já tinha ouvido histórias assim, e agora uma delas acontece bem na sua frente. Dali a pouco, uma mulher grita: Pula não! Pronto, era o que faltava para a balbúrdia começar. Pula não, homem!, imploram uns. Pula sim, aconselha outro, porque sempre tem um espírito de porco no meio. Chamam os bombeiros, é a maior confusão. Por fim, o suicida fica lá, parado como estátua. Pelo simples fato de que é uma estátua mesmo, colocada no beiral do edifício pelo artista inglês Antony Gormley.

Várias estátuas, na verdade, espalhadas pela cidade de São Paulo, a maioria delas no alto dos prédios. Suas silhuetas observam os passantes formigarem com indiferença pelas ruas. Elas compõem a exposição Corpos Presentes, em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil.

Quando percebe a farsa, a multidão se dispersa. A nova realidade já não tem tanta urgência. Brincadeira sem graça! Cada pessoa segue seu rumo. Mas há quem vire para dar uma última conferida. Para ter certeza. Porque nunca se sabe, né?

Por sua vez, quem adentra o CCBB se depara com diversos outros homens peladões, feitos de ferro fundido, pesando cerca de 630 quilos cada. Estão caídos no chão, amontoados no saguão, pendurados de cabeça para baixo por cabos de aço que descem do andar superior.

As crianças fazem a festa, imitando as posições retorcidas das estátuas, sem preconceitos com a arte, sem grandes expectativas para frustrar. Os adultos também participam, claro, tirando fotos, relutando e fazendo piada. A mostra provoca a imaginação. Porém, quando se descobre que as estátuas são cópias moldadas diretamente no corpo do artista, há quem o julgue um pervertido. Precisa mostrar tudinho assim?

(Porque uma deusa grega pode, mas o inglês contemporâneo não.)

Já devo ter escrito meia dúzia de vezes no Correio Popular sobre o complicado embate entre realidade e ficção. Porque a ficção é algo bem próprio da arte. Antes, porém, está infiltrada em nosso cotidiano de maneira tão profunda que sequer a percebemos. Sim, toda verdade não passa de uma ficção bem apresentada, na qual a gente escolhe acreditar.

Não tem nada a ver com mentira. A ficção não possui o mesmo teor pejorativo, tampouco se opõe à ideia de verdade. "Em vez de falsificar, ela alarga e potencializa o mundo. Em vez de mentir, ela inventa novas maneiras de dizer as coisas do real", escreveu José Castello no jornal literário Rascunho. É verdade, nós ficcionamos o tempo todo. Quando contamos aos amigos uma peripécia de adolescente, quando damos um parecer na reunião da empresa, quando ensinamos nossos filhos que é errado colar na prova. Trata-se de uma característica inerente ao ser humano, simplesmente um registro distinto de compreensão do mundo. Tanto que, para o filósofo Jacques Rancière, a realidade precisa ser ficcionada para ser compreendida. É por causa disso que a arte, em geral, consegue lidar com questões fundamentais da nossa existência sem recorrer à tarja preta ou aos grupos de controle. Um romance, uma música ou uma escultura possibilitam descobertas tão ricas quando qualquer experimento científico. Talvez até mais.

Só que, às vezes, somos muito racionais para perceber a infinita ironia da ficção. Queremos a verdade incontestável, tintim por tintim, sem digressões, como se isso fosse possível. É só ela que aceitamos. Juro, temos necessidade de significado imediato, racional, explicado, comprovado e justificado. Números! Pesquisas! As emoções não valem nada quando comparadas à lógica esclarecida. Assim, o mundo passa despercebido por nossos sentidos.

No texto anterior, falei sobre o artista Hervé Fischer que, vestido de farmacêutico, conversava com transeuntes numa praça de São Paulo e receitava pílulas para todo tipo de problema, por mais absurdo que fosse. Pílulas para obter um bom emprego, para aprender a dançar, para reaparecer cabelo na careca. Eram bolinhas de isopor, embaladas num saquinho plástico e etiquetadas com a frase "A vida está nas pílulas!" Só que muita gente acreditou. Foi difícil, Hervé precisou explicar que era apenas uma provocação artística, com objetivo de fazer o sujeito refletir sobre os próprios problemas e buscar uma solução. Porque a realidade deve ser ficcionada para ser compreendida.

Ainda assim, tenho certeza de que alguns acabaram tomando as bolinhas de isopor. Nunca se sabe, né? Talvez até arranjaram emprego, aprenderam a dançar e recuperaram o cabelo. Eu acredito. É o tal efeito placebo, que, para desespero dos médicos, às vezes cura desenganados. Porque a ficção age misteriosamente dentro de nós, nesse corpo tão incrível e desconhecido que acabamos considerando indecente; que banalizamos e rechaçamos por receio de lidar com a realidade nua e crua.

Aqui tem um making of interessante da mostra, para quem não pode vê-la pessoalmente:

terça-feira, 29 de maio de 2012

ALGO A DECLARAR?

 A gente se olha no espelho e, por mais contorcionismo que faça, não consegue enxergar certas partes do próprio corpo. São as partes que somente os outros podem ver. Tem também a questão psicológica: cada pessoa se supõe assim, só que os outros a veem assado. Caso consiga vencer a pretensão, o egoísmo e as verdades individuais, essa pessoa provavelmente se dará conta de que seus semelhantes têm razão. Uns se acham legais, mas são malas sem alça. Outros se acham prestativos, porém os amigos os consideram invasivos. E assim por diante. É a sina que carregamos: ser, no mínimo, duas pessoas diferentes, muitas vezes excludentes. Difícil é reconhecer o lado obscuro. Mais difícil ainda é conseguir mudá-lo.

O desconforto de ser friamente descrito por alguém pode ser também bastante revelador. Vivenciei situação semelhante há poucas semanas, nos seminários que o artista francês Hervé Fischer ofereceu no Museu de Arte Contemporânea da USP. Sua estratégia foi perspicaz: fez uma análise cultural e sociológica do Brasil, colocando a plateia em conflito consigo mesma. Com propriedade, ele apontou aquilo que nosso espelho não revela – ou que preferimos ignorar. Mostrou um país cujo tempo social é orientado para o futuro – o que seria ótimo, caso não fosse sintoma da nossa falta de opção. Porque, segundo Hervé, os mitos fundadores do povo brasileiro são frágeis demais para sustentar sua vontade construtiva.

Faz sentido. A Argentina, por exemplo, tem como herói nacional o general San Martín, o libertador. Não existe uma única cidade por lá que não possua uma praça com esse nome. San Martín é representado com imponência sobre um cavalo alto, com a espada em riste, lembrando a quem passa por ali que os argentinos são herdeiros de imensa bravura e patriotismo. Um sentimento tão vivo que quase podemos tocá-lo.

O brasileiro se apoia em quê? Na corrupta corte portuguesa, no índio preguiçoso, no negro subjugado, na natureza e no Pelé. Uau. Não houve uma grande revolta, uma grande conquista, grandes feitos do povo. Parece que tudo veio fácil demais.

Não me refiro ao que aconteceu de fato, mas à maneira como tudo entrou para a história – ou como nós compreendemos essa história. Já tentaram levantar o moral de Tiradentes, não deu em nada. O recente filme Xingu, de Cao Hamburger, também serve de termômetro: apesar da produção encantadora, obteve bilheteria medíocre. Porque ninguém quer ver história de índio, principalmente quando meia dúzia de super-heróis fantasiados tenta salvar o planeta das forças do mal.

Ao falar de heroísmo brasileiro, lembro da pintura belíssima de Pedro Américo, em que Dom Pedro I proclama nossa independência às margens do riacho Ipiranga. Uma falácia que ninguém comprou. Pois há sempre quem levante a mão para dizer que não foi bem assim, o imperador estava montado numa mula e precisava correr para o mato a cada cinco minutos por causa de uma diarreia comprometedora. Sim, ele rejeitou o trono português almejando outro mais apropriado às suas necessidades imediatas.

Enfim, são mitos, ou seja, histórias que antecedem o presente e nas quais deveríamos nos inspirar. O povo brasileiro não sabe o que é isso – ou não procura saber. Por falta de opção, se coloca como arauto do futuro.

A análise de Hervé Fischer parece uma afronta. Afinal, quem esse francês pensa que é para vir aqui nos esnobar?

Sua proposta foi, aos poucos, ficando evidente: provocar para gerar debate e, com sorte, alguma consciência sobre nossa situação atual. São os princípios da sua "escola interrogativa", nascida do extinto Coletivo de Arte Sociológica. Os seminários de Hervé, mais do que palavrórios, são experimentos artísticos – uma prática com caráter sócio-pedagógico.

 Não é a primeira vez de Hervé no Brasil. Na década de 1970, em meio à ditadura militar, ele já havia realizado um ciclo de conferências no mesmo MAC/USP, além de uma performance na Praça da República, em São Paulo, chamada Farmácia Fischer e Cia. A tal performance já mostrava, quase 40 anos atrás, a natureza da sua arte: vestido de farmacêutico, com uma barraquinha armada num dos locais mais movimentados do país, o artista conversava com os passantes, ouvia seus males e receitava pílulas metafóricas de tomada de consciência. Pílulas para aturar o vizinho, para alimentar esperança, para obter sucesso profissional, para arranjar marido, para o Corinthians vencer a Libertadores etc. A farmácia acabou fechada pela polícia, como toda manifestação dita subversiva.

Nos seminários recentes, pude perceber que aquele propósito continua a guiar seu trabalho. Hervé elabora questões para as pessoas refletirem sobre a própria situação e buscar melhorias.

Num livro de 1981, ele escreveu: "Há cada vez menos sentido em transformar o mundo. O que há de novo é questioná-lo". Certo, tudo nos leva a crer que o Brasil é o país do futuro. Pois a única coisa que Hervé Fischer fez foi perguntar: por quê? O que nos incomoda, talvez, não seja a ousadia da questão, mas a percepção de como a nossa resposta é frágil.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

TEMPO AO TEMPO



A arte da panificação nos ensina muito sobre a vida. Sim, fazer pão, esse hábito tão antigo e banal, comum a tantos povos. Quem se acostumou a comprar o pão prontinho na padaria não tem ideia do caminho que ele percorreu até chegar ali. Mas não convém contar todo o seu ciclo de vida, desde os campos de trigo até a mesa. Quero me concentrar na experiência de produzi-lo na cozinha de casa. Misturar os ingredientes na ordem e quantidade certas, acrescentar o fermento e sovar a massa. Depois, deixá-la crescer. Sovar novamente, deixá-la crescer. E repetir o processo quantas vezes forem necessárias. Dizem que, quanto mais você malha, mais leve a massa fica. Não sei se é verdade. Posso afirmar que o padeiro, este sim, fica mais leve. Trata-se de uma espécie de meditação. Entre sovar e aguardar, dedicamos uma tarde inteira a um pão que será consumido em poucos minutos. Compensa? Suponho que sim. Afinal, fazemos isso há milhares de anos. Alguém já teria percebido se fosse desperdício de tempo.

A panificação requer paciência, cuidado, carinho e dedicação. Tudo isso modifica o sabor do produto. Fazer pão artesanalmente é, na verdade, fazê-lo e refazê-lo uma série de vezes até que esteja bom o suficiente para ser levado à mesa e servido aos amigos. A partilha do sensível.

O mesmo se aplica a diversas outras práticas, e é por isso que considero a panificação uma ótima referência. Escrever é uma delas. Um grande escritor declarou certa vez que escrever é reescrever. Concordo. A qualidade do texto vem daí. A fluência, a maciez, o sabor, a vontade de ler um pouquinho mais. Escrever e reescrever, sovar e deixar crescer, fazer ajustes, misturar bem para que a alquimia aconteça.


Comentei semanas atrás que estou escrevendo meu primeiro romance. Comecei em dezembro do ano passado, e, na verdade, ele já está todo escrito. Duas vezes escrito. Será uma história breve, que coloquei no papel e depois passei a limpo. Deu um trabalho imenso. Agora, esse segundo rascunho está descansando. Já faz um mês que não mexo nele. Tenho certeza de que, quando for sová-lo de novo, ele terá crescido e revelado todo o potencial que eu não podia ver quando o guardei na gaveta. Para mim, reescrever é essencial. Assim como a paciência entre os intervalos de descanso das provas, quando as ideias fermentam.

Em 1929, o pintor Cândido Portinari embarcou para Paris, onde passaria os dois anos seguintes a visitar museus e galerias. Ele usufruía do Prêmio de Viagem da Academia Nacional de Belas Artes, conquistado após muito trabalho. Os vencedores iam à Europa estudar – beber direto da fonte, como se diz, uma vez que os capítulos da história da arte costumavam começar ali. Portinari, entretanto, optou por não frequentar qualquer tipo de curso. Ele apenas consumia, com olhos vorazes, a obra dos grandes mestres do passado.

Apesar da enorme cobrança por parte do governo e da crítica de arte do Brasil, o pintor voltou de lá com somente três pequenas naturezas-mortas. Trancou-se, então, em seu ateliê e pintou quarenta quadros ao longo de seis meses, muitos dos quais são considerados os seus melhores. Como se os números não bastassem, Portinari deu início à temática social e regionalista em nossas artes plásticas, retratando os retirantes, a miséria, a fome etc. Ao invés do nacionalismo ingênuo e sonhador dos primeiros modernistas, ele revelou aos brasileiros a verdadeira alma do país.


A partir de então, tornou-se um dos artistas mais importantes da nossa história. Obteve reconhecimento internacional, especialmente nos Estados Unidos – novo pólo modernista –, e produziu muito.

A enorme quantidade de encomendas não o impedia de passar três meses do ano em sua cidade Natal, a singela Brodósqui, nos quais visitava amigos, ajudava na reforma da igreja, ficava observando o tempo passar. Isso não quer dizer que ele não fazia nada – na verdade, Portinari aguardava suas ideias fermentarem. Garantia assim, nos meses seguintes, generosas fornadas de arte deliciosamente fresca. Pinturas de que só ele acertava o ponto, recheadas de talento, nas quais, ainda hoje, nós podemos nos esbaldar.

*As imagens de sanduíche que ilustram este texto são paródias criadas pela artista Brittany Powell. Elas se referem, na ordem, a obras de 1) Piet Mondrian, 2) Christo e Jeanne-Claude e 3) Jackson Pollock.

domingo, 25 de março de 2012

AS MARCAS

Eu estava junto com quatro ou cinco psicóticos, aguardando o médico chegar. Alguns iam e vinham como pessoas absolutamente sadias. Me passou pela cabeça que, se um desavisado cismasse, poderia me internar. Como eu provaria que não sou louco? Pensamento tolo, do qual me envergonho agora, mas que na ocasião pareceu plausível. Até porque não há internação no Espaço Aberto ao Tempo (EAT) – instituição carioca responsável pelo tratamento psiquiátrico de aproximadamente quatrocentas pessoas –, todos vêm para realizar as atividades programadas, comer, tomar remédios, etc., e vão embora ao fim do dia. Eu tinha combinado de conversar com o psiquiatra responsável, que colaboraria com minha pesquisa. Ele chegaria logo.

O problema era esse: Lula Wanderley estava atrasado. E eu estava perturbado, esse era outro problema. Sentado no meio do mato que cresce à porta da instituição, com um cachorro vira-lata averiguando minha procedência enquanto um louco berrava para o além, consultei o relógio. Mal passava das onze e o dia já tinha me chocado de diversas maneiras.

Naquela manhã, eu acordara numa confortável cama de hotel entre Ipanema e Copacabana. Após tomar um café substancioso, caminhei até a estação de metrô e peguei o trem em direção à Central do Brasil. Foi ali que o mundo começou a se transformar. O Rio dos turistas e famosos ficava para trás; seus restaurantes conceituados, as praias badaladas, as roupas de marca. Fiz baldeação para a Supervia, que leva ao subúrbio. Parecia que alguém varrera toda a sujeira da plataforma para dentro do vagão, o que eu sabia não ser verdade, pois o piso lá fora continuava repleto de latinhas, papéis e embalagens plásticas.

Desembarquei no bairro Engenho de Dentro e subi alguns quarteirões em direção ao IMAS Nise da Silveira, onde fui recepcionado por um guarda. Ele me indicou o caminho para o Museu de Imagens do Inconsciente, que contém obras de arte criadas por doentes mentais. Tive que atravessar o hospital inteiro. Coisa mais triste. Tudo abandonado, caindo aos pedaços; portas empenadas, grades enferrujadas, azulejos quebrados, pintura mofada. Marcas do descaso do governo, talvez de má administração também. Vi doentes nas janelas me seguindo com olhos melancólicos e percebi que curar-se, naquele lugar, era o mesmo que sobreviver.

Visitei o museu, cujas obras são impressionantes pela técnica, a fluência da imagem, o poder de sugestão e a biografia de seus criadores. Tão impressionante que a doutora Nise, sua fundadora, foi acusada de levar trabalhos de artistas "de verdade" ao acervo na calada da noite. Pena que hoje ele seja tão subutilizado. Quem se interessa por aquelas marcas de tinta sobre tela?

Chegara a hora de conhecer as salas de terapia e os ateliês do EAT. Depois de quarenta minutos de espera, Lula Wanderley subiu a rampa de acesso do instituto acompanhado de um paciente. Vinham conversando. O clima do lugar mudou por completo, esse é o poder da sua presença; os rostos ficaram mais coloridos, vieram sorrisos, pude respirar de novo.

O doutor, também artista, me conduziu pelos ateliês de pintura, escultura, música e bijuteria, entre outros. Os pacientes me recebiam com alegria, queriam saber quem eu era, o que fazia, tudo. Mostraram suas criações com orgulho de quem as produz com amor e esperança. Me ofereceram o próprio almoço.

A mais tagarela das mulheres foi explicando tudo a seu modo, e mostrou, na parede, uma placa de madeira com dizeres bonitos sobre criação, magia e vida. "Fui eu que escrevi", afirmou. "Escrevi há dezesseis anos".

Ainda hoje o arrepio me percorre o corpo só de lembrar. Dezesseis anos, talvez mais, frequentando aquele lugar?

Também conheci um homem que, com plena satisfação, mostrava aos colegas um crachá de cozinheiro. Tinha sido contratado para exercer a profissão no cais. Faria centenas de refeições por dia. Lula me revelou que, quando chegou ali, o homem sequer podia se mover. Catatônico. Após o tratamento com a Estruturação do Self, proposição terapêutica da artista Lygia Clark, ele voltava ao trabalho.

Caminhamos mais um pouco pelas instalações, depois pelos jardins do hospital. Conversamos sobre a situação de pobreza em que aquela ideia tão rica se encontra. Ela agoniza, na verdade. Difícil dizer quanto tempo ainda sobreviverá. E pensar que foi exatamente naquele lugar, mais de meio século antes, que a reforma psiquiátrica brasileira se tornara referência mundial.

À noite, no hotel, tentei compilar as anotações feitas durante o dia, mas não consegui. Não conseguia fazer nada. As impressões em meu caderno não faziam sentido. Fiquei pensando na realidade das pessoas que conheci, em como são ignoradas por governo, família e sociedade, em como se agarram ao pouco que têm e produzem arte encantadora. Para onde retornam todas as noites? Que tipo de mundo insano lhes aguarda do lado de fora do hospital? O que significa, para eles, deixar o ateliê de criação e adentrar um quadro de desolação?

Eu sabia, logo que o despertador soara, que a excursão seria marcante. Só não imaginava que essas marcas não me deixariam mais.

Links intessantes:

Museu de Imagens do Inconsciente

Reportagem sobre a exposição que visitei (com vídeo ótimo)

Enquanto preparava este post, encontrei por acaso o trailer abaixo. Não assisti ao documentário de Rodrigo Séllos e Rená Tardin, mas já fiquei contente por ele existir. Clique para conhecer, com imagens, um pouco mais sobre o EAT.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

COMO É QUE CHAMA O NOME DISSO?

Foi uma coincidência muito bacana. Estávamos conversando sobre literatura e uma amiga disse que tinha vontade de ler o romance Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, do brasileiro Marçal Aquino, simplesmente porque gostava do título. Eu também. Desde que me deparei com ele na prateleira da livraria, fiquei tentado a levá-lo para casa. É um título com tamanho poder de persuasão que me seduziu de imediato.

Como é que chama o nome disso?, quis saber o filhinho de Arnaldo Antunes. Uma questão tão pertinente que acabou virando título de um dos livros do pai. Tudo tem um nome. Acho incrível essa necessidade de batizar para identificar. Não que seja um problema, claro que não. É apenas curioso.

Algumas vezes, os nomes são pivôs de polêmicas. O artista francês Marcel Duchamp foi mestre em criar títulos assim, que chegaram a gerar mais discussão do que as próprias obras. Por exemplo: nos primórdios do modernismo, ele pintou uma figura robótica multifacetada e a chamou de Nu descendo uma escada. Os organizadores do Salão onde ela seria exibida, em Paris, ficaram horrorizados: o nu era um gênero clássico da arte pictórica. Consideravam aceitável aquela aparência caleidoscópica, que mal permitia uma apreensão lógica da figura – até porque o cubismo já ditara a moda e não convinha se manifestar contra. Pregar um retorno à tradição era batalha perdida. Mas a pintura de Duchamp estava mais para sacrilégio. Porque o nu se reclinava sobre o divã, deixava os raios de sol o acariciarem na relva, purificava-se nas fontes de água cristalina – mas jamais se sujeitaria a algo tão profano quando descer uma escada.

Parece frescura, mas fazia parte das reviravoltas da época. Propuseram então ao jovem artista que "apenas" mudasse o nome da obra. Atiçaram o demônio. Contrariado, ele pôs o quadro debaixo do braço e saiu do Salão dizendo poucas e boas. Em breve, seu Nu descendo uma escada seria aclamado no Armory Show de Nova York. E a arte moderna invadiria de uma vez por todas a América. Sim, Duchamp sabia dar nome aos bois. Começava também a identificar os melhores pastos para criá-los.

Os títulos das pinturas modernistas foram a última coisa que se rendeu ao abstracionismo. Chegávamos ao cúmulo de ver borrões coloridos chamados flores na janela – ou qualquer coisa do tipo – apenas para serem aceitos como arte legítima – e não como produto de insanidade. Dilema que também ficou no passado, para nossa sorte. Pois Kandinsky e Mondrian, entre outros, passaram a batizar seus experimentos, por exemplo, como Composição com branco, amarelo e vermelho ou Improvisação XI. Abstratos em todos os sentidos. Finalmente, tinham vencido a barreira da figuração, que dominara o pensamento ocidental durante milênios.

Dar nome à cria não é tarefa fácil. Os textos desta coluna, muitas vezes, ficam dias aguardando o título adequado. Precisa ser curto, interessante, instigar a leitura sem resolver o assunto numa só tacada, etc. Ser conciso é um problema amplo demais – sim, um verdadeiro paradoxo.

E vai além: tenho um romance em processo de confecção, por assim dizer, cujo primeiro risco já foi concluído e, agora, espera acabamento. Ele recebeu dois títulos por enquanto. Um foi descartado logo, o outro permanece sob avaliação. Parece que serve, este remanescente; entretanto, preciso criar muitos mais para comprová-lo.

Em uma das visitas que fez ao suíço Alberto Giacometti, o crítico James Lord descobriu uma escultura maravilhosa largada com displicência sob a escada, no canto do ateliê, e quis saber como o artista podia fazer aquilo com tamanha obra-prima. "Se for boa mesmo, se tiver essa força expressiva que você diz, ela aparecerá por si própria", respondeu Giacometti. Suponho que o mesmo vale para o título do livro. Se for bom o bastante, sobreviverá. Caso contrário, da mesma maneira como alguns casais grávidos trocam o nome planejado assim que a criança nasce – só porque bateram os olhos na Maria e ela tinha cara de Beatriz –, eu também escreverei um novo título quando a gestação da narrativa estiver concluída. Quem sabe?

Sobre o romance de Marçal Aquino, que iniciou essa divagação toda, confesso que demorei anos até o comprar e ler. Sou facilmente seduzido, só que custo a ceder, não tem jeito. Tais como o título estampado na capa, as páginas subsequentes são poéticas, intrigantes e escritas com muito talento. O nome, no entanto, surgiu de uma passagem breve – meio esdrúxula até –, que nem tem essa relevância toda. Só que ela combina perfeitamente com a história, sugere sentimentos ao invés de explicitá-los, instiga, contém um lirismo tão marcante quanto a sensibilidade do autor ao tratar desse assunto inexplicável chamado amor. Vou repetir porque vale a pena: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Um título único, que cumpre o papel com louvor. Uma beleza rara. Faz jus ao romance, justifica a paixão à primeira lida que acometeu a mim e à minha amiga. Dá vontade de ler. Ou seja, é bom como todo título deveria ser. Não à toa, ocupa lugar de destaque. No caso, mais do que merecido.

Imagens, na ordem:
1. Nu descendo uma escada (1912), de Marcel Duchamp
2. Improvisação XI (1910), de Wassily Kandinsky
3. Composição com branco, amarelo e vermelho (1936), de Piet Mondrian

domingo, 5 de fevereiro de 2012

MELHOR QUE A ENCOMENDA


O livro é melhor que o filme, o filme é melhor que a peça, a peça é melhor que o livro. Como é? Sim, sempre que ouço esses comentários, ouso perguntar por quê. Quero entender o que faz uma pessoa esculhambar e a outra elogiar. Muitas vezes, ambos citam os mesmo motivos, positiva e negativamente. É incrível. Por isso, o gosto se discute sim, foi o que Daniel Piza me ensinou. Todo mundo pode – e deve – criticar. Mas exige-se algum conhecimento para o comentário ser produtivo. "Porque sim" e "porque não" não são respostas, como já esclarecia o personagem de Marcelo Tas às crianças do Castelo Rá-Tim-Bum. Tudo tem explicação. Achismo é bom, mas argumentação é melhor ainda. Quem "gosta porque gosta", na verdade, não conhece a si próprio, enquanto quem "gosta e ponto final" nem merece entrar na conversa. Em matéria de gosto, a discussão não acaba nunca.

Agradar a todos é uma tarefa impossível. Muitos leitores já deixaram esta crônica no primeiro parágrafo. Faz parte. O importante é perceber que sempre é possível aprender com o que nos propomos a experimentar, gostando ou não. "A peça é melhor do que o filme". Por quê? Talvez porque a dinâmica dos atores, ao vivo, acrescenta significado ao texto, ou porque o ambiente do teatro acolhe melhor a proposta. "Mas o livro... é melhor ainda!" Por quê? Pode ser que, na adaptação, o roteirista foi obrigado a cortar passagens complexas ou subjetivas demais. Ou porque o espectador imaginava um personagem assim e o diretor o fez assado. Ou simplesmente porque essa pessoa prefere degustar a história no conforto do seu sofá a engoli-la de uma só vez, no cinema, sentada perto de um grupo de aborrescentes que não para de falar. E sem direito a pausa para xixi.

Adaptar obras de uma linguagem para outra, sejam quais forem, é sempre um trabalho arriscado. Exige cuidado para selecionar o material, entender como ele se comporta no novo formato, excluir cenas ou inventar diálogos para complementar.

No meio do ano, deve estrear um filme nacional chamado E aí, comeu? Um filme de grande circulação, feito com celebridades e boa produção. Foi adaptado de uma peça bastante popular, escrita pelo veterano Marcelo Rubens Paiva. Já deu para perceber o tamanho da encrenca, né? Imagine lidar com a expectativa desse público!

Conversei sobre isso com o roteirista responsável pelo projeto, Lusa Silvestre, que tem no currículo o premiado Estômago. Para o roteiro original render na telona, ele teve que criar novos pontos na trama, aproveitando que o cinema permite saltar entre os cenários com rapidez e, de certo modo, até exige esse vai e vem para evitar a monotonia. Lusa também precisou cortar passagens que o público do teatro aceita numa boa, mas que deixaria constrangido quem busca entretenimento durante a semana, na sessão da tarde. Estamos falando de um blockbuster, então essas escolhas são feitas com critérios bem definidos.

Vale lembrar que a adaptação é sempre uma leitura particular da obra em questão. O filme V de Vingança, por exemplo, foi feito a partir da história em quadrinhos de Alan Moore. Pois este não apenas detestou o filme como saiu falando mal na imprensa. Tudo bem, ele tem o direito. Admito que o filme não alcança a profundidade psicológica da HQ, mas transmite a ideia e é muito mais deslumbrante. Cada linguagem tem seus prós e contras.

O clássico Jules e Jim, de François Truffaut, é também adaptação do romance modernista de Henri-Pierre Roché. O filme começa mais ou menos na página 50 do livro. Por quê? Opção do diretor. Para ele, aquele pedaço renderia um bom filme. Não precisava contar a história toda, ficaria cansativo. Chamamos isso de recorte – a tal leitura particular que privilegia determinado aspecto da obra, podendo agradar o espectador ou não. Isso não significa, por si só, que a escolha está certa ou errada, ou que foi bem ou mal feita. Trata-se de uma adaptação, e toda obra assim lida também com a expectativa de quem conhece a original.

Se você gosta do assunto e quer pesquisar mais a respeito, eu indico o filme A liberdade é azul, do polonês Kieslowski. Nele, a personagem vivida pela atriz Juliette Binoche perde o marido num acidente de carro. Compositor renomado, ele escrevia uma sinfonia para a comemoração do aniversário da Revolução Francesa. Faltava apenas um pouquinho para terminar e o cara bateu as botas. A esposa, junto com o assistente, tentará finalizar a composição em seu lugar. Resta a ela superar os seguintes conflitos: como se modifica a criação alheia? Até que ponto ela lhe pertence? É possível adaptar sem interferir ou desrespeitar a original?

É um filme lindo, sensitivo e delicado. Porém, se ele não agradar, nem pense em me culpar. Pergunte-se o motivo. Como disse antes, o gosto se discute sim, e tudo deve ser questionado se o propósito é aprender. Melhor do que gostar de uma obra é ter disposição para experimentá-la.

A crítica está aí para ajudar, mostrando outros pontos de vista – apesar de muita gente achar que criticar é sinônimo de falar mal, inclusive profissionais da área. Esse tipo de crítica sim é perda de tempo.

Seja como for, assista ao filme que sugeri. Depois, me diga se gostou ou não. E por que, claro.


(imagens, na ordem: ANT73, ANT 64, ANT54 e ANT13, todas de 1960, por Yves Klein)

domingo, 8 de janeiro de 2012

FELIZ ANO NOVO (COM MARGEM DE ERRO DE 10 ANOS PARA MAIS OU PARA MENOS)


"Quando o mundo estiver acabando, venha para o Uruguai. Aqui ele ainda dura uns dez anos mais". Foi o que me disse o gerente de uma excelente vinícola de lá, localizada nos arredores de Montevidéu. Estávamos passeando pela propriedade. Ele me contava a história da empresa, do sistema de viticultura e de elaboração do vinho. Nas últimas três ou quatro décadas, uma grande quantia de capital estrangeiro chegou às vinícolas do Chile e da Argentina, resultando no salto de qualidade que colocou esses países na elite do circuito internacional, a ponto de competirem com nomes consagrados da Europa. No Uruguai, a tecnologia, os estudos científicos e os especialistas chegaram apenas no começo da década de 1990, e o país ainda está se profissionalizando. A promessa é grande, já que ali se produz vinho em dezesseis das dezenove províncias, ou seja, praticamente no território todo. Eles possuem ainda uma vantagem: a uva Tannat encontrou no Uruguai seu solo e clima favoritos, rendendo os melhores vinhos dessa variedade, que é bastante difícil de produzir.

Tudo isso para dizer que os nossos vizinhos não compartilham da mesma ansiedade política e econômica que sentimos por aqui, em especial nas metrópoles do Estado de São Paulo, de onde falo com maior conhecimento de causa. Aqui, trabalha-se praticamente o tempo todo, a correria diária resulta num trânsito caótico, tudo é lotado, a cultura do excesso impera e, num ciclo infinito de causa e consequência, o estresse, a falta de educação e o canibalismo corporativo se tornaram comportamento padrão. Não, lá eles leem jornais em cafés charmosos no trajeto para o escritório, caminham pela orla, voltam para casa antes de escurecer e saem à noite para papear com os amigos.

A senhora gorda e sorridente que me recebeu nos campos de outra vinícola, no interior do país, olhou para toda aquela tranquilidade natural ao seu redor, entre parreiras e oliveiras carregadas de frutos, e confirmou: não trocaria sua vida por nada. Os tais dez anos de atraso de que o gerente da primeira vinícola falou, de repente, me pareceram dez anos de avanço – uma década a mais de vida muito bem aproveitada.

Foi essa aparente incompatibilidade que me chamou a atenção em Joaquín Torres García, o artista plástico mais influente da história do Uruguai. Nascido em 1874, mudou-se para a Espanha dezesseis anos depois, viveu em diversos países-chave durante a efervescência do modernismo (França, Itália e Estados Unidos) e retornou à então provinciana Montevidéu em 1934, aos sessenta anos de idade, "com a ideia de fundar um importante movimento de arte construtiva que, enraizado numa profunda tradição universal, fosse, também, a expressão de uma arte própria, não apenas para o Uruguai, mas para toda a América". Palavras do catálogo da ótima retrospectiva de sua obra, que se encontra em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

De volta à origem, Torres García fez exposições, publicou livros, ministrou palestras, editou revistas especializadas e até mesmo criou uma associação de artistas modernistas, a AAC (Associação de Arte Construtiva); em outros termos, tentou sacudir o lugar para colocá-lo no circuito internacional de arte, polinizando conhecimento e incentivando a produção de seus conterrâneos.

Digo "tentou" sacudir porque, uma década mais tarde, em fins de 1940, o artista profere sua conferência de número 500 desde o retorno a Montevidéu. Nela, "expressa seu desânimo diante da impossibilidade de concretizar as ambições com que havia chegado ao Uruguai e decide que a AAC vai ser transformada, simplesmente, num espaço de estudo da Arte Construtiva".

Torres García falece em 1949. Seu legado, no entanto, alcança o sucesso que ele tanto almejara: suas ideias foram o estopim para tudo aquilo que o país vem produzindo desde então, mais ou menos como aconteceu no Brasil com Tarsila do Amaral, Mario e Oswald de Andrade, entre outros dos nossos modernistas.

Torres García apresentou o futuro àquele país que "vive com uma década de atraso". Ele queria estar à frente de seu tempo e levar o Uruguai inteiro consigo, fazendo "do sul o seu norte", como defendia. Talvez, na ocasião de sua morte, ele tenha achado que o projeto fracassara. Hoje, porém, podemos afirmar que a arte contemporânea uruguaia é fruto do seu ímpeto idealista – uma conquista digna das maiores honrarias.

É bobagem afirmar que um país está atrasado em relação a outro assim, de maneira tão generalista; pior ainda é sinalizar a diferença no calendário. A afirmação que ouvi na vinícola era apenas uma piada, ironizando o estilo de vida praticado pelos uruguaios. Afinal, por mais visionários que sejamos, demoramos a nos adaptar às novidades – boa parte das crises existenciais que hoje em dia afetam a humanidade provém desse processo.

Sinceramente, acredito que a obra de Torres García nos ensina muito, não apenas sobre arte, mas também sobre a relação dela com a vida: buscar sempre inovar, crescer, desenvolver... mas também curtir ao máximo o momento presente. São meus planos para 2012.

*As imagens que ilustram esta crônica são do manuscrito New York (1921), de Joaquín Torres García. Clique para ampliá-las.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A SACOLINHA VERMELHA DO PAPAI NOEL

  
Fico imaginando a reação da criança ao abrir cada um dos pacotes e explorar o conteúdo, sorrindo com os amigos, colocando as roupas sobre o corpinho para ver se servem, procurando o brinquedo que deve estar ali, no meio daquela algazarra. Sempre há um brinquedo, uma caixa de bombons, um conjunto de roupas e um par de sapatos. É o que a instituição responsável pela tutela dessas crianças carentes pede a quem se dispõe a "adotá-las" no Natal.

As tais sacolinhas se popularizaram na agência onde trabalho. Este ano, foram mais de cinquenta, o que significa mais de cinquenta tentativas de proporcionar um Natal minimamente digno a alguém com condições menos – ou nada – favorecidas.

Entre os presentes, eu sempre acrescento dois, que considero imprescindíveis: um livro e uma cartinha. A presença de livros foi determinante em minha vida, e acredito que eles também podem ajudar essas crianças a superar as dificuldades que hoje se colocam para elas, seja por adquirirem o gosto pela leitura (sempre uma experiência positiva), seja pelo conteúdo (aprendizado e visão crítica), seja pelo convívio social que advém dali (emprestando o livro, lendo em conjunto com amigos ou ouvindo um adulto contar a história).


Em uma resenha de 1924, o filósofo alemão Walter Benjamin comenta que as crianças têm um apreço peculiar por todo tipo de detritos, onde quer que eles surjam – na construção de casas, na jardinagem, na carpintaria, na confecção de roupas. Com esses detritos, elas constroem o mundo como lhes aprouver. Os elementos dos livros infantis também seriam exemplos dessa matéria-prima tão rica, que dá sentido à vida e nos impele a estabelecer parcerias com ela, contornando criativamente as reviravoltas, admirando suas ilustrações e inventando finais felizes.

Meus brinquedos mais interessantes foram a folha de papel em branco e as caixas de papelão. Com tinta, tesoura, cola e lápis de cor, tudo era possível, desde orbitar a Lua até desenterrar tesouros do fundo do mar. O papelão se transformava em carro, armadura, cabana ou rio. Lembro-me de como era gostoso brincar sem que outras preocupações interrompessem a fantasia, e suponho que, quanto tiver filhos, conseguirei recuperar um pouco da minha própria infância.

Por enquanto, fico com as crianças carentes. E com Walter Benjamin, que, em outros dois textos, agora de 1928, analisa a história cultural do brinquedo. Ele conta que a casa de bonecas, o cavalinho de pau e os soldadinhos de chumbo – entre muitos outros "papais" dos robôs articulados, sonorizados e iluminados de hoje, do videogame e dos bebês de plástico que mamam, choram e fazem cocô – surgiram em oficinas de entalhadores de madeira ou de fundição de metal e demoraram séculos para se popularizarem, assim como para serem produzidos por indústrias específicas.

O filósofo chama nossa atenção para algo que, em sua época, já era preocupante: os sonhos de consumo que os adultos projetam nas crianças direta ou indiretamente, pela publicidade ou pelas visitas ao shopping, e que as transformam em consumidores mirins cheios de decisão. Para ele, a bola, o bambolê e a pipa são tanto mais verdadeiros quanto menos dizem aos pais, ou seja, quanto mais atraentes, no sentido usual, mais se afastam dos instrumentos de brincar.


O filho de uma amiga adora os tupperwares da mãe, mais do que qualquer um dos brinquedos caros que não lhe faltam. Eu o vejo pular, manobrar os potinhos, fazer sons com a boca e se divertir num incrível mundo interior, e percebo que é disso que Benjamin fala – esses seriam os brinquedos de verdade, que instigam a curiosidade e a criatividade.

Os videogames também pertencem a essa categoria, ainda que os pais tradicionalistas não concordem. Porque, no meu modo de ver, os grandes vilões de hoje são: 1) os brinquedos que brincam sozinhos, deixando a criança apenas a acompanhar com os olhos suas estripulias pré-programadas; e 2) a precocidade, que faz meninos e meninas sentirem vergonha de brincar. Agora, se o futebol eletrônico parece mais interessante do que o pebolim ou o botão, é apenas porque essa é a realidade em que vivemos. Isso não significa que a atividade lúdica na frente da TV é pior do que aquela realizada em torno da mesa, do tabuleiro, na rua... O mundo mudou e, às vezes, a brincadeira só precisa de uma compensação. E de compreensão.

Até porque os próprios adultos estão sempre na frente da tela da televisão, do computador e do celular. Então, como vamos exigir que as crianças ajam diferente? Se algo nessa história permanece intacto é o fato de que continuamos a ser o maior exemplo para elas.

Uma observação bacana de Walter Benjamin é que "a ideia determina o brinquedo", não o contrário. Quer dizer, a imaginação da criança transforma o brinquedo a seu bel-prazer, fazendo um carrinho de plástico correr no deserto ou no autódromo, falar e fazer amigos. Por isso, quando um adulto briga com a criança porque ela está brincando "errado", o errado ali é ele próprio, cortando as asinhas daquela imaginação de um jeito tão mesquinho. Brincadeiras saudáveis devem sempre ser incentivadas, não importa o que diz o manual de instruções.

Com livro e brinquedo, eu tento avivar a magia do Natal em uma criança. Para mim, esse é o verdadeiro significado da data, independentemente de religião – sua origem cristã se diluiu na cultura comum e, hoje, qualquer pessoa pode aproveitar a oportunidade para melhorar o mundo, nem que seja um pouquinho só, presenteando alguém com esperança, carinho e alegria.

Ora, pensando friamente, isso é o mínimo que devemos fazer para devolver à sociedade um pouco do que ela nos permitiu conquistar. Mais do que bondade ou moralismo, contribuir para a felicidade de todos é uma obrigação social. Afinal, estamos nessa juntos.

Sim, eu acredito em Papai Noel. Pois os livros infantis, os brinquedos e a filosofia estão aí para comprovar: basta imaginar – e se dedicar – que toda fantasia se realiza.

*Ilustrações: 1) Ponte de Charing Cross (1906), de André Derain; 2) Ponte de Charing Cross (1906), de André Derain; 3) Catedral de São Paulo vista do Tâmisa (1906), de André Derain.

domingo, 30 de outubro de 2011

VIAJAR É O MELHOR REMÉDIO

Já ouvi estrangeiros perguntarem se o Brasil é um país doente, dada a quantidade de drogarias à disposição. Em alguns bairros, temos uma a cada dois ou três quarteirões, às vezes mais. Se nossas doenças não extrapolam o normal, ao menos hipocondria e ansiedade, essas sim, temos que admitir. Por quê? Onde estão o samba, o futebol e as mulatas? Será que, com a melhora econômica, esses prazeres banais deram lugar ao estresse do mundo contemporâneo? Ou, ainda, será que as crises político-sociais foram substituídas por crises existenciais?

Estive recentemente no Uruguai, e o que mais me fascina num país estrangeiro é o cotidiano dos nativos, muito mais do que os pontos turísticos. Gosto de caminhar pelas ruas, entrar nas lojas, estar no meio da multidão, pegar seus ônibus e metrôs, experimentar seus cafés no meio da tarde e folhear seus jornais nos bancos da praça. Inserir-se na realidade alheia abre os horizontes de nossos próprios universos.

Foi durante essa viagem que reparei como farmácias são escassas por lá, principalmente quando comparado com São Paulo. E, já que a procura por remédios é pequena, elas vendem outros produtos não convencionais, tais como vinhos, perfumes, cosméticos, livros e brinquedos. Achei o fato curioso. Meio estranho, inicialmente, mas faz sentido. Afinal, esses também são produtos com propriedades curativas: compartilhar uma garrafa de vinho com amigos e familiares faz um bem social danado; cuidar da própria beleza melhora a autoestima e cura a depressão de si e dos outros; ler um bom romance na frente da lareira, ou na poltrona da varanda, ou debaixo dos cobertores, ou na grama do parque, naquela tarde de domingo ensolarada, ou na praia, ou em qualquer outro lugar propício ao relaxamento pode até causar dependência, mas uma dependência boa que não pede moderação. E brincar... é remédio para todas as idades, quem não sabe se divertir não pode dizer que vive de verdade.

O comércio de um país reflete a cultura dos habitantes. Os indícios são fáceis de perceber. Em Montevidéu, há praticamente uma livraria por quarteirão. Não são megastores como as nossas, pelo contrário, são pequenas e entulhadas, mas devem vender muito mais literatura, porque têm livros nas prateleiras ao invés de televisores, computadores, câmeras fotográficas, papelaria, jogos de videogame e iPods.

Cafés também se encontram aos montes, sempre movimentados. Ali, folheia-se revistas, reúne-se amigos e até se trabalha, enquanto a correria permanece do lado de fora. Não vi um só hipermercado – frutas e verduras são compradas frescas diariamente, durante o retorno para casa, em quitandas amistosas. O pão é comprado na padaria. O queijo, no laticínio. A massa, na mercearia. E, em cada um desses lugares, o produto vem acompanhado de uma conversa gostosa com os donos, que prometem reservar alcachofras firmes ou uma penca de bananas maduras para quando voltarmos no dia seguinte.

Parece provinciano e retrógrado quando, na verdade, é um estilo de vida inteligente. Em vez de perderem duas, três ou mais horas por dia no trânsito, as pessoas caminham pela orla depois do trabalho. Não vi nenhuma academia, embora, no geral, os uruguaios sejam magros e cordiais. Museus, em compensação, tem um monte, e por mais esquisito que pareça eles também são frequentados pelo povo, que conhece e respeita a cultura local, e não somente por turistas. Basta ver os prédios antigos espalhados pela cidade, nem sempre bem cuidados, mas preservados como marcos de uma história que convém não esquecer. Existem edifícios modernos no Uruguai? Sim, claro, shopping centers bonitos também, com moda atual e alta tecnologia, só que eles não são construídos em cima do passado.

Se você ainda acha que prédios velhos, lojas familiares e andar a pé são coisa de terceiro mundo, vou dizer que me deparei com o mesmo na Itália, por exemplo, desde as cidadezinhas do interior até Roma. E eles não precisam convencer ninguém da riqueza material e cultural do país. Para mim, está claro que esse estilo de vida é uma opção consciente.

Agora, sabe o que eu mais encontrei no Uruguai? Brasileiros. Sim, nós estamos em todos os cantos, nas ruas, nas empresas, nos noticiários, nos restaurantes e nos pontos turísticos, basta prestar atenção que você ouve alguém falando português. Inclusive, conheci diversas pessoas que estudam nossa língua para nos atender melhor. Se os visitamos com essa frequência é porque gostamos do que eles têm a oferecer. Pois bem, será que não poderíamos trazer um pouco daquela cultura na bagagem, no lugar de jaquetas de couro e doce de leite?

É claro que a realidade do Brasil é muito distinta, incomparavelmente maior e complexa, e que não se pode tirar os costumes de um país e aplicá-los, ipsis litteris, a outro. Mas, para mim, viajar significa observar, aprender e mudar. Se você permitir, a experiência transforma sua maneira de lidar com o mundo.

O Brasil não se resume a samba, futebol e mulatas, não queremos ser conhecidos apenas por isso. Mas, então, o que mais somos? Será que essa dúvida não indica a origem de uma crise existencial? Talvez, se derrubássemos menos prédios históricos, se acompanhássemos a política de perto, se perdêssemos menos horas no trânsito, se caminhássemos mais pelas ruas, se tomássemos mais vinho com quem gostamos, se conversássemos mais sobre assuntos relevantes, se comprar pão fresco para o café de domingo rendesse o mesmo prazer do que sapatos caros no shopping, se ler um livro ou visitar um museu não fosse tão importuno, se fizéssemos piquenique no parque ao invés de ver Faustão na TV, talvez tivéssemos uma noção melhor da nossa própria identidade, aprenderíamos a encarar os perigos de se expor à tendência globalizante e superaríamos o paradoxo de pertencer ao grupo sem perder a singularidade. Não teríamos, assim, que remediar com calmantes, analgésicos e antidepressivos as angústias desse futuro tão promissor.

 
 
 
 
 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ÁGUA MOLE, PEDRA DURA

Era para ser uma pintura rápida, um esboço a óleo sobre tela que, nas palavras do retratado, levaria uma ou duas horas para ser concluído. Alberto Giacometti e James Lord eram amigos, e aquilo tinha como propósito apenas a diversão de ambos. Um disse que queria, o outro respondeu que faria e pronto, estavam combinados. Só que a persistência do artista para obter um resultado satisfatório – entre suas tormentas existenciais e ameaças de abandono do projeto – levou o modelo a posar durante catorze dias não-consecutivos. Isso mesmo, catorze sessões de duas a quatro horas cada! Esse processo criativo foi registrado pelo escritor num divertido diário, que, além de revelar detalhes sobre a obra de Giacometti e sobre sua concepção de arte, também nos leva a pensar em nossas próprias vidas, em como reagimos às adversidades, na relevância de nossos planos e no que, afinal, nos faz felizes.

E tem mais: durante esse tempo todo, o artista pintou apenas a cabeça do amigo. Pintou e repintou, pintou e repintou, concentrando-se somente nela. Considerava a tarefa impossível, mas continuava tentando. Ao fim de cada sessão, os dois olhavam a tela e notavam certo avanço, mas no dia seguinte o pintor apagava tudo e recomeçava do zero. “Estou destruindo você”, dizia. James Lord se angustiava. Com o tempo, porém, aprendeu a dar de ombros e assentir: “É você quem manda”. Seu respeito pelas escolhas do mestre beirava à devoção. Em troca, Alberto lhe ensinou que cada passo adiante é sempre uma luta contra as próprias crenças, e que a superação depende também de muita cessão, além da tradicional força de vontade.

Em setembro de 1964, dinheiro e fama já não eram problemas para ele. Suas obras podiam ser vistas mundo afora e agradavam tanto o público quanto a crítica. O artista já tinha até mesmo conquistado o Grande Prêmio de Escultura da Bienal de Veneza, o mais importante de sua carreira. Ainda assim, persistia na empreitada, blasfemava que não entendia nada daquilo, que deveria desistir de uma vez por todas, pois jamais conseguiria fazer alguma coisa bem feita. As glórias do passado não iludiam seus olhos nem transbordavam sua autoconfiança. Todo dia era um novo dia, e isso ficou evidente durante a pintura do retrato. Seu temperamento exagerado pedia toda a paciência de James Lord. No entanto, ao ler o diário, publicado propositadamente sob o ambíguo título de Um retrato de Giacometti, ele chega a ser hilariante.

Pois bem, qual é a relação disso tudo com a nossa busca por felicidade? No livro A arte da vida, o filósofo Zygmunt Bauman afirma que a vida é uma obra de arte e que “devemos, tal como qualquer outro tipo de artista, estabelecer desafios que são difíceis de confrontar diretamente; devemos escolher alvos que estão muito além de nosso alcance, e padrões de excelência que, de modo perturbador, parecem permanecer teimosamente muito acima de nossa capacidade de harmonizar com o que quer que estejamos ou possamos estar fazendo. Precisamos tentar o impossível”.

Alberto Giacometti parece ter sido a encarnação perfeita dessa proposta. Em um momento de desânimo, chegou a prometer os milhões de sua poupança a alguém que pintasse “aquela maldita cabeça” por ele.

“Tenho certeza de que, por essa quantia, muitos o fariam”, comentou o modelo na ocasião, ao que o artista prontamente retrucou: “Não fariam à minha maneira”. Não se tratava apenas de uma saída irônica. Ele realmente assumia a tarefa como um desafio pessoal e precisava cumpri-la a qualquer preço. A razão da sua arte consistia em representar o mundo da maneira como ele se mostrava a seus olhos, e só com muito suor conseguia executá-la – o dinheiro não lhe valia de nada.

No citado livro, Bauman faz uma comparação interessante entre renda e felicidade, mostrando que, após serem atendidas as exigências básicas para se viver com dignidade, o nível de felicidade continua estagnado, mesmo que a renda se multiplique exponencialmente. Em outras palavras, o crescimento econômico só influencia a felicidade das pessoas até certo ponto.

No geral, continuamos acreditando que comprar nos deixa mais felizes. Bauman alerta para o perigo de se cair no conto do publicitário, que sempre apresenta uma nova etapa nessa busca. Prolongando o caminho, nunca atingimos o fim. E, durante a jornada, acabamos nos esquecendo de coisas mais importantes, que o dinheiro não compra.

Uma delas é o desafio que se impõe a cada dia e nos obriga a superar obstáculos para realizarmos um bom trabalho, digno de orgulho próprio, exatamente como fazia Giacometti. Trata-se de uma satisfação cada vez mais rara. Confrontando-se com problemas que pareciam insolúveis, ele reinventava a si e a sua arte. Possivelmente foi essa incessante busca que o fez, além de um talento mundialmente reconhecido, um homem feliz. A persistência, como sugere o ditado, leva à realização. O diário de James Lord é testemunha disso e, por que não?, serve de manual para uma vida melhor, em que tanto a arte quanto a felicidade estão ao alcance de todos.

sábado, 3 de setembro de 2011

BEM DIANTE DOS OLHOS

Perto do meu trabalho havia uma casa antiga, daquelas com hall de entrada envidraçado que dava para a rua – uma das poucas construções do tipo que conseguira sobreviver aos prédios espelhados e às franquias de estacionamento. Um casal de velhinhos passava as tardes ali, cada um em sua cadeira de balanço, fizesse chuva ou sol. Eles observavam, simplesmente. Sempre que eu cruzava o local, virava o rosto para conferir e lá estavam os dois, observando o movimento. A cena continha um lirismo particular. Agora, ao terminar a leitura do conto A janela de esquina do meu primo, ela me voltou à lembrança. Já explico por quê.

Trata-se da narrativa derradeira do alemão E. T. A. Hoffmann, publicada entre abril e maio de 1822, dois meses antes de seu falecimento, aos 46 anos, vitimado por uma doença degenerativa muito semelhante a do protagonista, que o impedia de andar e escrever.

Sem dúvida, o teor autobiográfico do texto é irrefutável. Merece destaque, entretanto, o relato que faz da vida social metropolitana daquela Berlim em plena transformação.

O personagem que dá título ao conto, escritor de certo renome, então condenado a passar os dias observando a vida acontecer através da janela de seu apartamento, tenta ensinar ao primo como enxergar a modernidade que se apresenta logo adiante, na feira livre do outro lado da rua.

O frenesi, o efêmero, o senso de civilidade, o comércio, os tipos urbanos, a burguesia em ascensão, as relações sociais e a nítida diferença entre classes – tudo isso aparece no conto de Hoffmann. Talvez o autor tenha sido o primeiro a explorar tais temas com tamanho afinco, embora a façanha ficasse mais conhecida com Edgar Allan Poe (O homem da multidão, 1840) e Charles Baudelaire (O pintor da vida moderna, 1863).

"Falta-lhe a disposição mais elementar para poder seguir os passos de seu primo digno e paralítico, ou seja, um olho! Um olho que realmente enxergue! Aquela feira do mercado não lhe oferece senão a visão de um colorido e alucinante amontoado de gente se movendo num afã insignificante. Há, há! Ao contrário de você, meu amigo, vejo desenrolar-se um cenário variado da vida burguesa e meu espírito (...) inventa um esboço após o outro, cujos contornos mostram-se com frequência impregnados de malícia." 
 
Ilustração de Daniel Bueno para edição da Cosac&Naify

Com uma luneta em mãos, o escritor paralítico consegue se aproximar da multidão que se acotovela na praça, caminhar entre as pessoas e as observar uma a uma, em detalhes. Munido de olhos atentos e muita imaginação, passa a preencher as lacunas proporcionadas por esses breves encontros, inventando premissas e desenlaces, modificando a realidade por meio da ficção, recriando o mundo como lhe parece mais conveniente.

É um artifício que permite ao autor desenvolver os mais diversos assuntos, incluindo alguns bastante proféticos. Hoffmann denuncia, por exemplo, o preconceito com estrangeiros e a repulsa que a miscigenação de culturas provoca nos mais ingênuos, que desejam manter a identidade local intacta. Antecede, portanto, em quase dois séculos os anseios da globalização e as diferentes fobias sociais que, infelizmente, ainda constatamos nas cidades de hoje.

Há também o anonimato e o conflito paradoxal de se misturar à massa sem perder a individualidade, questões-chave do modernismo europeu. Observando pela janela o mundo em transformação, os atores do conto nos introduzem uma problemática que renderia reflexões por, no mínimo, mais cem anos.

"Essa janela é meu consolo, aqui a vida alegre ressurgiu para mim e eu me sinto reconciliado com o movimento incessante que me proporciona. Venha, primo, dê uma olhada para fora!"

O apartamento ocupado por Hoffmann ficava acima da taverna Lutter & Wegner, que ele tanto frequentou

Terminada a leitura, lembrei imediatamente do casal de velhinhos lá de perto do trabalho, que ficava a observar a vida acontecendo através do vidro do alpendre. Não sei o que houve com eles. Passei um dia e não estavam lá, nem no outro, nem no seguinte. A casa acumulou poeira, a janela embaçou, as cadeiras de balanço desapareceram. Então, numa tarde como outra qualquer, um trator colocou tudo abaixo. No lugar, montaram um fast food especializado em yakisoba.

Há diversos prédios comerciais nas proximidades, o restaurante vive lotado. Eu mesmo almoço lá de vez em quando, naqueles dias de pressa em que tenho muito a escrever e prazo curto para terminar. O conto de Hoffmann me fez perceber que, mergulhado nessa realidade alucinante, fico impedido de ver – e de compreender – o que acontece ao meu redor. Na maior parte do tempo, minha vida é uma reação instintiva aos constantes estímulos externos. E só.

Lembrei do simpático casal de velhinhos que ficava a observar o frenesi cotidiano através da janela e, inspirado pelo conto recém-lido, passei a me perguntar que tipo de futuro eles enxergavam ali.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

QUEM SOU EU, AFINAL?

Quando Rodrigo de Moraes, editor assistente do Caderno C, perguntou se eu não teria uma foto minha para estampar esta coluna, desencadeou, sem querer, uma série de pensamentos existencialistas que culminaram na batidíssima questão: quem sou eu, afinal?

Exagero? Ora, um pouco de exagero nunca é demais, e a verdade é que eu não sou muito afeito a exibir o rosto por aí, preferindo sempre me ocultar atrás do codinome Edu Almeida. Por quê? Para ser sincero, não sei. "O que sou e o que escrevo são uma coisa só. Todas as minhas ideias e todos os meus esforços, eis o que sou.", disse C. G. Jung certa vez, e eu sempre levei a sério os pensamentos daquele simpático velhinho suíço, tanto que essa sua frase consta em meu blog desde que o criei. Além do mais, acho que nunca confiei no modo como a imagem lida com o conteúdo, principalmente quando ela precisa sustentar o enorme peso de uma identidade. Não basta, percebe? A imagem reduz tudo a um instante, um ponto de vista, uma gama de cores. Não precisa nem se tratar de uma pessoa, pode ser uma paisagem mesmo, daquelas que você fotografou na sua última viagem de férias – a imagem, no máximo, sugere a sensação do lugar; jamais será o lugar propriamente dito, visto e experimentado.

Convenhamos, nosso comportamento está intimamente atrelado à visão, então é natural que a imagem fale mais alto. Veja só o grau de confiança que uma testemunha ocular recebe, no caso de um crime, por exemplo, enquanto uma testemunha olfativa viraria motivo de piada. Só que os olhos também se enganam. O mesmo vale para os nossos preconceitos. De repente, alguém não vai com a minha cara e deixa de ler a coluna só por causa da foto. Uma imagem, mil palavras, sabe como é... Acontece direto comigo. Se não gosto de um sujeito à primeira vista, ele precisará de muita lábia para me convencer do contrário, ainda mais porque acredito cegamente em meu sexto sentido.

No caso do jornal, havia também uma questão prática: que foto usar? Essa é muito antiga, naquela estou despenteado, naquela estou acompanhado, esta outra tem fundo difícil de recortar, tem sorriso torto, olho fechado... que lástima! Sem contar que eu adoro tirar fotografias e, na maioria das vezes munido de câmera, acabo não aparecendo em nenhuma. Enquanto isso, milhões de anônimos entulham seus perfis de redes sociais com todo o tipo de retrato, sem vergonha de serem felizes. É mesmo um desprendimento admirável.

Vão dizer que é frescura, mas sou publicitário, sei que o poder da imagem é comprometedor. Ele resume você a uma falsa realidade: um instante específico, um olhar perdido, um estilo de roupa, uma luz, um peso e uma altura que, como tudo na vida, estão sempre em mutação. Quer dizer, a imagem é necessariamente uma ilusão. Não se pode confiar nela.

Já fui vítima desse poder e tentei ludibriá-lo. Comecei a escrever cedo, jovem o bastante para que não me atribuíssem o devido crédito. Então, eu deixava a barba crescer, para disfarçar, vestia roupas sóbrias, tentava parecer mais velho manipulando a imagem que faziam de mim. Funcionava – ou, pelo menos, eu achava que sim. No escritório, era a mesma coisa: eu tinha subordinados com mais tempo de carreira e, na época, acreditava que hierarquia era determinada pela data de nascimento. Não revelava a idade de jeito nenhum, deixava o povo confabular. Coisas da juventude, não há como ocultá-las.

Não se trata de mania pessoal. Em regra, as pessoas não gostam de aparentar, digamos assim, o "grau de experiência". Tenho amigos e amigas lindos que se acham decrépitos só porque já passaram dos trinta. Ou dos quarenta. Ou dos cinquenta, que seja. Uma pena.

Outro dia, uma dessas amigas fez um ensaio fotográfico para guardar como recordação – ou "para a posteridade", como gosto de pensar. Teve direito a cabelo, maquiagem, figurino e photoshop. Me diverti à beça com os elogios decorrentes: "Nossa, as fotos ficaram lindas. Nem parece você!" Ela estava entusiasmadíssima, preferi não polemizar. Mas achei um paradoxo absurdo alguém ficar linda na foto justamente porque deixou de parecer consigo mesma. É assim que a história da humanidade vai sendo escrita.

Eu ri, na ocasião, e depois sofri do mesmo mal. Na falta de alternativas, resolvi improvisar um retrato novo para esta coluna e, devido ao resultado pouco animador, pedi a um amigo que fizesse leves retoques. Apagar uma espinha, corrigir olheiras, ajeitar uns fios de cabelo que saíram do lugar bem na hora do clique. Coisinhas assim, fugazes. Ele foi lá e, pelo bem da amizade, me recompôs. Portanto, se você quiser saber como sou, de verdade, direi que pareço com o cara aí do alto, só que mais real.

Meu próprio pai, que nunca foi disso, teve que renovar o RG e, quando viu a foto tirada lá, na hora H, ficou desconsolado. Aquele senhor grisalho, de óculos, era velho demais para ele. Calúnia! Cancelou o RG, fez a foto em outro lugar e voltou no dia seguinte rejuvenescido.

Isso me lembrou mais um caso, que conto agora para terminar de vez com o papo furado. Está mais para uma lenda do rock, não sei até que ponto é verdade, mas dizem que Neil Young, depois de gravar um primeiro disco muito bom e assinar contrato para outro, acabou processado pela gravadora porque, no segundo, já não se parecia mais com o Neil Young original. É mole? Sei lá quem ganhou o páreo... Como é que se comprova a própria autenticidade?

Pois bem, eu continuo mesmo acreditando no bom e velho Jung. Sou o que escrevo, muito mais do que aparento, e vou ser um novo eu a cada frase, a cada pensamento, a cada inspiração, mesmo que a foto da coluna permaneça a mesma. Se ela não agradar, peço que coloque o polegar em cima e ignore. Para saber de verdade quem eu sou, continue a me acompanhar aqui, mensalmente. Aos pouquinhos, vou revelando interesses, trocando ideias, puxando papo. Entre o ser e o nada, vamos, juntos, descobrindo nossas verdades mais profundas.

sábado, 9 de julho de 2011

EDITOR DA NOSSA HISTÓRIA


Não faz muito tempo, a Edusp e a Com-Arte lançaram um livro com o título de Paula Brito – Editor, Poeta e Artífice das Letras. Trata-se de uma coletânea de ensaios a respeito da produção desse que é considerado o primeiro editor do Brasil – ou, como o definiu Machado de Assis, "o primeiro editor digno deste nome que houve entre nós". Uma publicação importante, já que a história da nossa literatura é tão conhecida quanto o final de um livro inacabado. Pois bem, eu lia uma reportagem a respeito e alguma coisa parecia desconexa ali, só não sabia dizer o quê. Caminhando distraidamente pela página, demorei a perceber que era a foto, estampada bem no centro, que me inquietava: o tal editor era negro.

Estamos falando de outro Brasil, acontecido praticamente duzentos anos atrás. Francisco de Paula Brito nasceu em 1809, num Rio de Janeiro escravocrata e precário, dependente de Portugal em quase todos os sentidos. Nossas primeiras tipografias tinham sido inauguradas apenas um ano antes, com a vinda da família real, e publicar qualquer coisa por aqui era difícil, perigoso e praticamente inútil, já que a maior parte da população não sabia ler.

Toda história promissora começa mesmo com um drama. De origem humilde, descendente de escravos e autodidata, esse negro conseguiu um feito incrível para sua época e condição: levou uma vida dedicada às letras, tornou conhecida nossa produção literária de meados do século XIX e fez de A marmota um dos principais periódicos da primeira fase da imprensa nacional.

Apelidado de "artífice das letras", Francisco também era poeta, ainda que tenha se destacado não por conta de seus escritos, mas de seus escritores: Machado de Assis, Casimiro de Abreu, José de Alencar e Basílio da Gama, entre outros – nomes que, ao contrário do seu, vivem pipocando por aí.

Editar obras desse porte não é tarefa para qualquer um. Quando me dei conta do significado, a façanha me pareceu inacreditável. E mais inacreditável ainda é um herói do nosso povo ficar esquecido durante tanto tempo.

O Brasil é mesmo um país que não se cansa de me surpreender. Toda vez que a gente se desentende, ele saca um punhado de flores e me conquista de novo. Temos uma imensa desigualdade social, o maior leão do mundo se alimenta do nosso suor sem dar nada em troca, somos maltratados aqui dentro e lá fora, ninguém acredita muito em nosso potencial, nem a gente mesmo. Por aqui, rola uma corrupção tão escancarada que faz parecer errado agir certo, como se ética fosse coisa de ingênuo sonhador. Certo mesmo é agir errado, dizem, porque o mundo é dos espertos. Alguém contradiz?

Pois é, são absurdos que, de tão repetidos, já nem surpreendem mais. Logo vem alguém tentar me convencer de que o problema é cultural, mas cultura, para mim, é outra coisa. Cultura é coisa boa, enriquecedora, dessas que transformam bichos em seres humanos civilizados, solidários e justos. É a cultura que me faz manter intacta a esperança de que, um dia, quem sabe...

O Brasil tem jeito sim. O que me confirma isso são homens e mulheres como Francisco de Paula Brito, que acreditam num bem maior e lutam para concretizá-lo. Um filho do povo que, certa vez, escreveu: "a eternidade depende das obras úteis: se ele as fez, quaisquer que elas sejam, mas de que se aproveitem os presentes e os vindouros, esse homem vive na glória".

Para nossa sorte, conheço um monte de franciscos assim, compartilhando conosco o agora, trabalhando quase sempre no anonimato, mas fazendo acontecer, criando, melhorando, ensinando etc.; ou seja, produzindo essa nossa cultura que é uma obra sempre em processo de formação e transformação. Tal como acreditava o primeiro editor da nossa história, esses homens vivem na glória, ainda que o país demore para reconhecê-los. Ele próprio apareceu só agora para comprovar.

sábado, 18 de junho de 2011

QUANDO A PINTURA REVELA O PINTOR

Autorretrato (1971), de Francis Bacon

Li todos os contos do livro Gran Cabaret Demenzial nos dois ou três dias que sucederam o lançamento. Depois o emprestei à minha namorada, mesmo sabendo que ela o acharia constrangedor. Foi o que aconteceu: suas expectativas puritanas acabaram violentadas pelo linguajar sujo da autora, a amiga Veronica Stigger. Quando nós três nos reencontramos, minha namorada, meio sem jeito, comentou que jamais imaginaria aquilo. Como uma pessoa tão elegante pode escrever tanto palavrão? Veronica riu. Para ela, obra e autor jamais deveriam ser confundidos. Essa é uma tendência que, inclusive, ela parece querer derrubar, pois suas histórias são desconstruções muito bem arquitetadas da ideia de "literatura de entretenimento". Elas incomodam o leitor, deixando-o realmente constrangido. Agora, por mais que Veronica não as queira ver confundidas com sua pessoa, Gran Cabaret Demenzial ainda é resultado de sua pesquisa artística, mesmo que isso não signifique – e nem poderia significar – que livro e autora são uma coisa só. Senão daria medo de chegar perto dela.

Quanto do autor está contido na obra? Essa pergunta alimenta discussões ao redor do mundo e jamais terá uma resposta definitiva. Trata-se de uma daquelas questões primordiais que aceitam diversos resultados, questões do tipo "o que é arte?" e "somos todos um pouco artistas?". Como diz o crítico Frederico Morais, "as questões da arte serão as questões de sempre", e as respostas, sejam elas quais forem, estarão ao mesmo tempo certas e erradas, pois não existe verdade absoluta quando se fala de recepção estética e produção artística. No entanto, existem argumentos que nos levam a acreditar mais em um ponto de vista do que em outro. Isso depende da maneira como cada pessoa aborda o assunto, dos conceitos utilizados e do embate interior entre razão e sensibilidade.

Um belo exemplo disso se encontra no relato O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, escrito pelo neurologista Oliver Sacks e publicado em livro homônimo. Ele examina a vida de um músico excelente, professor de universidade, que teve um problema nas regiões do cérebro responsáveis pela visão. Só que, ao invés da cegueira comum, a doença fazia com que o doutor P., como o autor se refere a ele, desenvolvesse uma espécie de cegueira cognitiva, que impedia a compreensão daquilo que era visto, ao ponto de ele afagar hidrantes na rua pensando que fossem crianças e de não ser capaz de distinguir o sapato do próprio pé.

Numa visita à casa do paciente, Oliver Sacks descobriu algo curioso: além de cantar e lecionar, o doutor P. também pintava. Seus quadros, na sala de estar, estavam dispostos em ordem cronológica. Um exame minucioso revelou que as obras iniciais eram naturalistas e realistas; depois, foram se tornando mais abstratas, mais geométricas, até se resumirem a caóticas manchas de tinta.

A esposa do doutor P. entendia aquilo como prova do talento do marido, que renunciara à figuração da juventude e avançara para a arte não-representativa. Para o médico, entretanto, não se tratava de um avanço do artista, mas da sua doença: "Aquela parede de quadros era uma trágica exposição patológica, que pertencia à neurologia e não à arte".

Achei o caso do doutor P. interessantíssimo, pois se tratava de um exemplo claro em que a pintura revelava algo de que nem mesmo o artista tinha consciência. Isso não significa que todo pintor abstrato sofre de agnosia visual, seria um absurdo afirmar coisa assim, basta ver a intensa pesquisa intelectual que impulsionou o modernismo. Só que os quadros do doutor P. poderiam ter sido interpretados dessa maneira pela História da Arte, como a própria esposa o fazia, se não fosse o diagnóstico de Oliver Sacks. É uma questão de ponto de vista que somente se esclarece quando se conhece mais profundamente o autor.

Então, as boas e velhas perguntas retornam: quanto do artista está contido na obra? O que é arte? Somos todos um pouco artistas? Um escritor pode publicar palavrões sem que eles lhe pertençam? O que há por trás das vontades artísticas?

Para alimentar debates desse tipo, Frederico Morais reuniu 801 definições de arte no livro Arte é o que eu e você chamamos arte. Talvez algumas delas nos ajudem a decifrar aqueles mistérios, assim como a suscitar outros. Aos pouquinhos, porém, reflexões sobre a prática artística acabarão por revelar algum muito mais inesperado: nós mesmos.

Ps.: Eu adorei os relatos de Oliver Sacks assim que os conheci. Não apenas por seu talento literário, capaz de levar o conhecimento científico a todo tipo de curioso, inclusive aos mais leigos no assunto – esse neurologista de Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, conquistou meu apreço pela sensibilidade com que cuida de cada caso e pela preocupação com tratar o doente e não apenas a doença. Não à toa, o doutor Oliver Sacks assumiu também o posto recém-criado de artista naquela mesma universidade. Seja pela literatura ou pela medicina, ele deixa claro seu objetivo: promover uma ciência mais emotiva.