sábado, 21 de março de 2009

O QUILO DA MASSA CINZENTA ESTÁ UM ABSURDO!

Quando escrevi esta crônica, jamais poderia imaginar que apenas alguns meses depois enfrentaríamos uma crise financeira de proporções mundiais. Agora, mais do que nunca, penso em aproveitar as alternativas culturais econômicas. Além disso, estipulei uma meta para mim mesmo: não compro CD que custe mais de 20 reais. Shows internacionais, destes caros, sem chance. Acho cada vez mais absurdo o preço que andam cobrando para me deixar amontoado num canto, longe do palco, ouvindo um som ruim. É boicote mesmo, e com orgulho! Tenho plena convicção de que, quando boa parte da população se juntar à minha causa, os preços começarão a cair. E aí sim será a hora da redenção.


Vem chegando o fim do mês e começam as preocupações com a magreza da conta bancária. Afinal, ainda tem tanta coisa boa para fazer! Tantos filmes para ver, livros para ler... Pois é sempre nesses dias críticos que percebo como cultura no Brasil é cara.

Não é novidade para ninguém que a média salarial por aqui é baixa, para não dizer desigual e injusta. Nem preciso dos números da renda per capita, salário mínimo, IR nem nada do tipo, basta subir na cadeira e gritar: “Quem ganha bem aí levanta a mão!”

Veja o índice de endividados. Um absurdo! É difícil exigir discernimento de pessoas assim. Voto consciente, contestação da mídia, debates, protestos e moral, nem se fala. Como exigir inteligência de um povo que não consegue pagar um mínimo de cultura?

É verdade que nos últimos tempos têm surgido diversas alternativas baratas para quem está interessado em adquirir massa cinzenta. Vira e mexe temos nas bancas de jornal boas coleções de arte, literatura, culinária e música, entre outras. Quem procura também encontra ingressos para shows interessantes a preços populares. Dou-me como exemplo: ainda este ano, assisti à cantora Céu, no Teatro Municipal de São Paulo, por apenas dez reais! Foi lindo. Quer programa melhor? Fui também à Pinacoteca do Estado várias vezes, aos sábados, de graça. Lá tem sempre novidades e, quem estiver disposto, leva de brinde passeios pelo Parque da Luz, Museu da Língua Portuguesa, Estação da Luz, Estação Júlio Prestes e Estação Pinacoteca, tudo na faixa.

Quem gosta de teatro também consegue boas peças a preços acessíveis. As unidades do Sesc, por exemplo, têm excelente programação em ambos os sentidos, vale a pena pesquisar. Outras tantas trupes se enquadram nas categorias de baixo custo e não são nem um pouco difíceis de encontrar.

Fato é que toda cidade com um pouco de estrutura costuma oferecer entretenimento a seus habitantes, embora nem sempre seja divulgado, o que acaba resultando em tristes salas vazias. Pois todos temos obrigação de procurar saber. E de freqüentar, claro.

Em outros casos, antecedência é fundamental. A FLIP, Festa Literária de Parati, por exemplo, tem sido um grande sucesso e oferece palestras por apenas oito reais. Vem gente do mundo inteiro participar. Tudo bem que Parati não é das cidades mais acessíveis, mas, para você ter uma idéia, os ingressos deste ano se esgotaram em poucas horas.

Aproveitando a deixa, esqueça as livrarias convencionais! Livros no Brasil custam um absurdo. Até mesmo as edições de bolso são raras e caras. Minha dica para quem gosta de ler são os sebos. Sem falar nas bibliotecas, que hoje em dia estão até no metrô. E não vá pensando que o acervo é ruim. Não, não. Estive olhando as vitrines delas e só vi livros novos, alguns caríssimos, prontos para quem quiser pegar e ler.

Em contrapartida, noto que muito do que deveria ser popular está virando artigo de luxo. Revistas, por exemplo, principalmente se consideramos a intermitência da maioria. Ora, para que serve aquele monte de anúncio, se não é para bancar o custo da produção?

Cinema com pipoca também se tornou impraticável. Acabei virando rato de locadora. Não é a mesma coisa, mas não dá para pegar um cinema no fim de semana e depois não fazer mais nada durante o resto do mês. CD é outra coisa caríssima e, mesmo com a moda da pirataria, os preços dos originais continuam lá em cima. Só compro promoção.

Existem muitos outros absurdos que não consigo engolir. O MASP é um deles – está cambaleando há tempos e o ingresso ainda custa quinze reais. Provavelmente é o museu mais caro de São Paulo, quando deveria ser o mais freqüentado.

Enquanto isso, quem quiser assistir à OSESP, uma das melhores orquestras do mundo, numa das melhores e mais belas salas de concerto, vai às apresentações matinais, aos domingos, e paga apenas dois reais.

Acredito que, em qualquer canto do país, é possível fazer bons programas culturais sem gastar muito. Os interessados precisam apenas perguntar, pesquisar na internet, ler os guias publicados nos jornais etc.

Porém, isso não significa que cultura por aqui é barata. Se fosse, não estaria eu aqui, indicando alternativas. E, obviamente, nem sempre queremos ficar com as alternativas. Eu também tenho vontade de ver o Cirque du Soleil, as corridas de Fórmula 1 ou, no mínimo, pegar um cinema de vez em quando.

O pior é que o alto preço das programações culturais gera todo tipo de problema. Um que me incomoda bastante é o das tais carteirinhas de estudante, que muita gente tira por meios ilícitos, tentando contornar a exploração. Aí, as instituições aumentam os preços para cobrir o orçamento, caímos num círculo vicioso e, no final, quem se dá mal são os honestos, como sempre.

Enfim, resta assunto para muitas outras crônicas. Gostaria de finalizar insistindo: é válido procurar sempre as alternativas e aproveitar as maravilhas do mundo da cultura. Deixe a TV descansar e dê uma volta. Senão, a massa cinzenta, assim como os animais nas notas que pagam por ela, entra em extinção.

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