terça-feira, 18 de agosto de 2009

ARGENTINA HOY



Os brasileiros têm finalmente a oportunidade de conhecer um pouco da produção artística contemporânea de seus vizinhos argentinos. Falo da mostra Argentina Hoy, uma realização do Banco do Brasil que reúne 32 artistas e obras das mais variadas linguagens, tais como pinturas, esculturas, intervenções, fotografias, vídeos e instalações, entre outras.

Como lembra o curador Franklin Espath Pedroso, a história da arte brasileira e argentina se cruzam em diversos momentos. Por exemplo, “segundo o crítico de arte Mário Pedrosa, quem primeiro falou em concretismo no Brasil foi o argentino Romero Brest que, vindo da Suíça com destino ao país natal, passou pelo Brasil e proferiu palestras no Rio de Janeiro e São Paulo, em 1948”.

Este diálogo entre os países existe ainda hoje, em maior ou menor grau, devido não exatamente à proximidade geográfica, mas às suas características histórico-culturais. Em alguns trabalhos, como nas fotos de Leonel Luna e na pintura com pólvora de Tomás Espina, isso fica menos evidente, uma vez que a temática está relacionada com acontecimentos sociais específicos de lá. Em outros, porém, a crítica é tipicamente brasileira, como na animação de Estanislao Florido, em que um catador de papéis é obrigado a superar as diversas dificuldades do jogo da vida, se quiser chegar vivo no final.


A conquista do deserto II (2002), de Leonel Luna

Há também quem discuta assuntos universais, como pode ser visto na ótima montagem fotográfica de Nicola Constantino, intitulada A ceia. Trata-se do antes e depois de um banquete em que homens devoram a si mesmos e que, parodiando a história bíblica, não traz os adjetivos “santo” e nem tampouco “último”, pois é indiscutivelmente profano e tende a se repetir enquanto houver pessoa a ser devorada. Em outras palavras, a obra é um retrato metafórico da canibalismo que presenciamos cotidianamente em qualquer lugar do mundo, não importando a cultura ou a classe social.


A ceia (2008), de Nicola Constantino

Leandro Erlich segue por caminho semelhante com a instalação O vizinho. Ali, somos convidados a espiar a vida alheia, trancafiada entre as quatro paredes de uma casa. Através das janelas, não vemos nada além do que o reflexo de nós mesmos, enquanto a parte observada se incomoda e protesta: “O que você está olhando? O que quer aqui?”

Silvia Rivas, por sua vez, faz uma bonita comparação entre o correr das águas de um rio e o correr dos homens, onde um segue a favor do tempo e o outro contra ele. Difícil não relacionar a obra com nossas próprias vidas e refletir. Afinal, aonde ambos chegarão?


Transcurso e urgência – série Notas sobre o tempo (2000), de Silvia Rivas

A exposição fica em cartaz no CCBB de São Paulo até o fim de agosto, quando ruma para o Rio de Janeiro. Corri contra o tempo para recomendá-la a todos. Espero que gostem.


Argentina Hoy
De 6 de junho a 30 de agosto no CCBB de São Paulo
De 14 de setembro a 22 de novembro no CCBB do Rio de Janeiro
Curadoria: Franklin E. Pedroso e Adriana Rosenberg
Grátis!

Ps.: Assista a uma versão do vídeo de Silvia Rivas citado acima clicando aqui (http://silviarivas.com/) e acessando a série Notas sobre o tempo.

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