sábado, 19 de dezembro de 2009

AMOR, FALSO AMOR



“É possível que você esteja se preocupando demais com várias coisas. Desse jeito, acabam parecendo reais até coisas que não o são. Em outras palavras, é a dicotomia entre a ilusão e os fatos. Quando uma coisa existe, ela naturalmente reflete sua sombra. Dependendo, porém, do movimento e das circunstâncias, o oposto pode acontecer e a sombra criar os fatos.”

No fatídico 8 de dezembro, dia em que a cidade de São Paulo submergiu graças ao enorme volume de chuvas e ao seu estúpido processo de ocupação – incluem-se aí governo e população –, comecei a ler a Crônica da estação das chuvas, do japonês Nagai Kafu (1879-1959). Foi por pura ironia mesmo. Tinha comprado o livro poucas semanas antes, na feira da FFLCH/USP, com os tradicionais 50% de desconto (quem me segue no Twitter ficou sabendo: @almeida_edu) e a ocasião pareceu excelente, pois, assim como muitos outros paulistanos, permaneci ilhado em casa, tentando me comunicar com o escritório via telefone e internet. Enquanto isso, passei os olhos pelo primeiro capítulo e não consegui mais parar de ler.

Kafu descreve a vida noturna de Tóquio no início do século XX, com seus bares, gueixas, táxis, bondes, policiais, cigarros, casas de chá – que funcionavam como os motéis de hoje, acredita? – e álcool, muito álcool. No entanto, poucas imoralidades aparecem de maneira explícita; a maioria é apenas sugerida, e o leitor assume a função de construir cada cena utilizando a própria imaginação. Assim, nem mesmo o sexo comprado fica vulgar, nem mesmo as bebedeiras.

Trata-se de um Japão meio decadente, é verdade, meio deprimente, que tenta preservar uns poucos valores do passado em meio ao avanço da cultura ocidental. Suas prostitutas, por exemplo, não são retratadas de maneira muito marginal; misturam-se às gueixas, às garçonetes e, no final, ninguém sabe realmente quem é o que.

Tudo bem que é uma realidade muito diferente da nossa, cronológica e culturalmente falando. Para saber o que este texto significou quando foi publicado em 1931, precisaríamos ser especialistas em história da literatura oriental. Não vem ao caso. O melhor mesmo é deixar as diferenças de lado e nos atermos às semelhanças, pois são elas que mantêm o romance atual. Os personagens masculinos, por exemplo, são vítimas de um machismo bem típico: traem suas esposas, mas se sentem ofendidos quando as amantes se relacionam com outros. Já viu isso em algum lugar? Para piorar, estas são geralmente prostitutas, então já dá para imaginar a confusão. Só que não importa, traição é traição e, às vezes, merece vingança. Sendo assim, para manter os clientes, as moças escondem uns dos outros, e vão exercendo sua profissão contando que eles não fiquem sabendo. Surreal.

Com objetivo de situar melhor o leitor, tudo no livro é muito detalhado. A moda, os costumes e, principalmente, o entorno – há o nome das ruas, do bairro, dos estabelecimentos, das famílias; há as cores, a sujeira, os cheiros, as árvores etc. O excesso às vezes confunde, talvez porque não tenhamos familiaridade com aqueles nomes estranhos, e fica difícil relembrar algumas passagens. Nesse sentido, a pequena espessura do livro ajuda. Talvez os leitores de lá se sintam mais à vontade.

Trata-se também de uma história de mistérios – quando menos se espera, algum se revela, ainda que sequer suspeitássemos dele. Uma das personagens, por exemplo, chama-se Kyoko, mas só depois de lermos um terço do livro é que o nome se mostra fictício, mudando de acordo com o grupo de pessoas em que se encontra.

As chuvas do título estão sempre presentes, embora nem sempre conseguimos vê-las. Ficam apenas resquícios, tais como o ar úmido e pesado, a lama, o calçamento escorregadio, as barras dos quimonos levantadas... Bem diferente do que vi no telejornal, onde as famílias paulistanas apareciam literalmente mergulhadas na imundície da enchente.

Um fato interessante: o romance “não acaba”, ou seja, seu final fica em aberto, misturando-se à vida real e nos deixando a sensação de termos lido apenas uma parte, de termos interagido por apenas um breve instante. Isso não é incomum na literatura japonesa daquela época, vide a obra de Yasunari Kawabata. Nas primeiras vezes, é meio estranho, mas depois se torna reconfortante saber que jamais os extinguiremos. Pois, na ficção e na vida real, sempre restará muita história para contar, e as coisas mais surpreendentes se revelam quando as águas baixam. Veremos isso ao vivo e a cores, pois a nossa estação das chuvas começa agora. Prepare as galochas.

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