quinta-feira, 15 de abril de 2010

OS OLHOS DOS POBRES



Acho incrível como alguns artistas permanecem atuais mesmo após muitos séculos, com suas obras falando continuamente conosco. Charles Baudelaire (1821-1867) é um destes, e é justamente por isso que seus poemas, contos e críticas são ainda tão estudados. Selecionei um deles como exemplo, no qual Baudelaire fala das mudanças ocorridas em Paris durante a modernização idealizada pelo prefeito Barão Haussmann (1808-1891) – a antiga e sinuosa cidade medieval dava lugar à modernidade, representada pelas novas e largas avenidas, os novos cafés e os novos boulevares. Com ela, transformava-se também a percepção das pessoas, originando problemas típicos dos novos tempos. Aliás, problemas atuais, porém não tão novos assim.



Casal de namorados na Bastilha (1957), de Willy Ronis

Ah! Você quer saber por que a odeio. Será, sem dúvida, menos fácil para você entender do que, para mim, explicar; pois você é, me parece, o mais belo exemplo de impermeabilidade feminina que se possa encontrar.

Tínhamos passado juntos um longo dia que me parecera curto. Tínhamos deveras prometido um ao outro que todos os nossos pensamentos seriam comuns e que nossas duas almas seriam de ora em diante uma só – um sonho que nada tem de original, afinal, se não o fato de, sonhado por todos os homens, não ter sido realizado por nenhum.

À noite, um pouco cansada, você quis sentar-se frente a um café novo, que formava a esquina com uma avenida nova, ainda apinhada de cascalhos e já exibindo gloriosamente seus esplendores inacabados. O café reluzia. Até o gás ostentava ali todo o ardor de um começo e iluminava com toda força as paredes ofuscantes de brancura, a superfície deslumbrante dos espelhos, o ouro das molduras e cornijas, os pajens de faces roliças puxados por cães de coleira, as senhoras rindo para o falcão empoleirados em seus pinhos, as ninfas e deusas carregando na cabeça frutas, caças e patés, as Hebes e os Ganimedes estendendo os braços para oferecer a pequena ânfora de licores ou obelisco bicolor dos sorvetes variados; toda a história e toda a mitologia a serviço da glutonaria.

Bem em frente de nós, na calçada, quedava-se um bom homem de uns quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, com uma das mãos segurando um menino e levando, no outro braço, uma criaturinha frágil demais para andar. Ele fazia as vezes de babá e trouxera os filhos para tomar o ar da noite. Todos em andrajos. Os três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o café novo com admmiração igual, porém distintamente matizada pela idade.

Os olhos do pai diziam: "Que bonito! Que bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio encerrar-se nessas paredes". Os olhos do menino: "Que bonito! Que bonito! Só que é uma casa onde só entra gente que não é como a gente". Quanto aos olhos do menorzinho, estavam fascinados demais para expressar algo além de uma alegria estúpida e profunda.

Dizem os cantadores que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Quanto a mim, naquela noite, a canção estava certa. Eu me sentia não só comovido com aquela família de olhos, como envergonhado com nossos copos e jarras, maiores que a nossa sede. Voltei meu olhar para o seu, amor querido, para nele ler meu pensamento; mergulhava nos seus olhos tão lindos e estranhamente doces, seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, e então você disse: "Não suporto essa gente, esses olhos arregalados! Você não poderia pedir ao dono do café que os afastasse daqui?"

Tão difícil é se entender, meu anjo querido, e tão incomunicável é o pensamento, mesmo entre quem se ama!

Charles Baudelaire, em Pequenos poemas em prosa

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