terça-feira, 10 de agosto de 2010

INTELECTUAIS TAMBÉM FAZEM XIXI FORA DO VASO



Em sua oitava edição, a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) continua batendo recordes, seja de visitantes, velocidade de venda de ingressos ou reconhecimento internacional. Estive lá no último sábado para respirar aqueles ares e assistir ao debate entre Robert Crumb e Gilbert Shealton, dois quadrinistas da dita contracultura americana. Foi minha segunda FLIP – já tinha participado em 2008 – e foi diferente, claro, as coisas mudam bastante e em pouco tempo. Sabe o que mais chamou minha atenção? O lugar que a literatura perdeu para as outras atrações.

Sim, na primeira vez, Paraty cheirava a livros, via-se papel pólen por toda parte, jornais e revistas abertas, leitores ávidos por exercerem sua função e exibir os títulos favoritos pelas ruas. Lia-se até manual de instruções e direito autoral de cardápios. Havia também escritores inéditos em busca de editoras, outros vendendo livros publicados do próprio bolso, gente de todo o país divulgando trabalhos como verdadeiros mascates. Só que agora não. A cidade estava abarrotada, é verdade, mas de seguranças, artesãos, camelôs, violeiros, índios, estátuas vivas, fotógrafos, jornalistas, celebridades e curiosos tarados por muvuca. A FLIP agora é pop, sabe, todo mundo quer dizer que esteve lá pagando de intelectual, mesmo que o último livro lido tenha sido da Coleção Vagalume, no ensino fundamental.

Nada contra, claro, a participação é direito incontestável. Só que os números preocupam e, como disse, a FLIP não para de bater recordes. Os restaurantes, por exemplo, não davam conta dos clientes – meu almoço demorou uma hora e meia para chegar. Folhear um romance entre bebericadas de café também era um prazer impraticável, porque as mesas estavam sempre ocupadas e a espera era longa. E os banheiros... esse foi o capítulo verdadeiramente tenso da história, pois toda a água, cerveja e refrigerantes consumidos pelos milhares de visitantes terminavam num reduzidíssimo número de banheiros químicos – falha grave da organização que vai marcar minha biografia para sempre.

De resto, posso dizer que as lojas de cachaça, miçangas e bugigangas estavam bastante concorridas – talvez até mais do que os banheirinhos de plástico –, assim como as festas dos patrocinadores. A única livraria do centro histórico, no entanto, fechou. Livro mesmo, só na unidade temporária da Livraria da Vila, com sede em São Paulo, que montam lá durante esses dias. E depois? Os autores se vão, os volumes se vão e os leitores que sobram ficam órfãos. Muito triste.

Agora, se as exposições de fotografia, artes plásticas e manifestações literárias passavam despercebidas nas instituições culturais, a programação da Flipinha e da FlipZona (para crianças e jovens) arrasou, positivamente falando. Tinha música, pintura e quadrinhos, além de contação de histórias e discussões na língua da moçada. Tenho certeza de que eles se divertiram à beça. Assisti à apresentação de dois jovens músicos da região, que tocaram canções criadas ali mesmo, pelas gerações passadas, e à palestra de Sérgio Martinelli, sobre produção de textos para cinema e TV. Ambas com gente em pé, de tão cheias.

O debate entre Crumb e Shealton foi morno, quase frio, com perguntas genéricas a respeito da época de ouro deles e respostas prontas que se encontra em qualquer entrevista concedida nos últimos quarenta e cinco anos. Eu queria saber a opinião deles sobre as produções contemporâneas, próprias e alheias, e os fãs estavam tão ansiosos quanto eu; porém, exceto por breves comentários acerca das obras recém-publicadas e pela participação inesperada da esposa – também quadrinista – Alice Crumb, pouco se salvou. Dava para perceber a decepção geral pelos murmurinhos na saída.

Mas, como o nome diz, a FLIP é uma festa, não uma feira, e foi divertida como toda festa deve ser. Não quero você pensando que odiei, muito pelo contrário, não tem como odiar Paraty, a não ser que se esteja em cadeira de rodas. A comida estava boa, as pessoas pareciam felizes e a movimentação era, de alguma maneira, cultural. Talvez a falta de estrutura tenha se mostrado apenas no sábado, quando aparece mais gente. Não pude ficar no domingo para averiguar, já que escolheram bem o Dia dos Pais para finalizar o evento – sabe como é, não dava para trocar o almoço com o meu por um Breakfast at Tiffany´s.

Em resumo: não consegui nenhum autógrafo, não adquiri nenhum livro e praticamente não escrevi. Confesso que dei minhas escorregadas não-literárias e comprei lembrancinhas para a família, tudo por culpa daquelas lojinhas charmosas. Tampouco descobri grandes novidades do universo das letrinhas, embora tenha constatado nos banheiros químicos que intelectuais também fazem xixi fora do vaso e, quanto a isso, só posso agradecer por ter nascido menino.

Ao mesmo tempo em que o excesso de celebridades e assuntos aleatórios me incomodou, eles significam que a FLIP têm obtido sucesso e nos resta apenas engoli-los. Afinal, realizações desse porte os atraem, invariavelmente. O ciclo continua, pois os hotéis já estão sendo reservados para a próxima edição. Quem devora livros e não aguenta esperar, pode matar a fome na Bienal de São Paulo, que está começando. Por sua vez, quem adora aquela cidade, encontra em setembro o Paraty em Foco, importante evento de fotografia. Eu, por minha própria vez, vou tirar uma folga e ler a montanha de panfletos, revistas e jornais que acumulei pelo caminho. Haja literatura!


[Também publicado (com algumas modificações) em Colherada Cultural]

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