domingo, 1 de agosto de 2010

PÁGINAS AMARELAS

Eu estava lendo uma coletânea de contos do Hemingway e faltava pouco mais de trinta páginas para terminar o primeiro volume. Fui almoçar sozinho num café perto do escritório, comi um sanduíche de qualquer coisa, pedi uma bebida gelada e meti os olhos no livro. Fazia, calor, muito calor para o inverno paulistano, e o sol brilhava forte lá fora. Dei sorte de conseguir a melhor poltrona do lugar, que fazia par com uma pequena mesa redonda de madeira, ao lado da porta. As pessoas entravam e saíam o tempo todo, lembro de ter me surpreendido com aquele movimento e imaginei alguma relação com o dia de sexta-feira. As sextas-feiras têm uma atmosfera diferente, a gente se permite o luxo de aproveitar um pouco mais a vida, estender a hora do almoço, caminhar lentamente pelas ruas ou bater papo no café.

Eram pensamentos de segundo plano, desses automáticos que se formam sem a gente perceber e sem entender os porquês. A leitura provoca isso em mim, me faz desviar o foco e perceber a realidade como se a estivesse ouvindo na sala ao lado, ou vendo-a refletida num espelho, estando ali sem estar de verdade, entende? Meu senso crítico abaixa a guarda e já não importa mais quem sou, o que sou ou como devo agir. Faço-me finalmente personagem da história alheia.

Só me dei conta do horário quando a garçonete tropeçou numa ponta solta do carpete, perdeu o equilíbrio e deixou um copo cair da bandeja. Era um daqueles copos altos em que servem soda italiana, todo chanfrado, meio retrô. Gosto desses copos. Ele se espatifou em milhares de pedacinhos brilhantes, provocando um silêncio súbito que só foi interrompido pelo ralhar histérico da gerente. "Vamos, não fique olhando com essa cara de tonta, pega a vassoura e limpa essa bagunça. Vai, vai, vai!"

A garçonete pareceu desconcertada por alguns instantes, até que abaixou a cabeça e sumiu cozinha adentro. A patroa não parecia contagiada pela síndrome das sextas-feiras. Fez questão de deixar à mostra todas as suas linhas de expressão enquanto a empregada retornava com um esfregão e enxugava o terrível desastre.

Isso tudo aconteceu exatamente quando eu terminava de ler o penúltimo conto, "Vinho do Wyoming". O copo quebrado cortou a suspensão de meus pensamentos, olhei o relógio e resolvi voltar ao escritório. A bebida tinha esquentado e, de qualquer maneira, não daria tempo de terminar o livro.

Devolvi o marcador de páginas ao seu lugar, recoloquei os óculos de sol no rosto e caminhei de volta sentindo o doce aroma do fim de semana se aproximando. Apenas mais algumas horas e eu estaria livre, com a batalha ganha. Tentei repassar mentalmente os contos recém-lidos, só que eles já estavam ocultos pela névoa espessa do mundo banal.

Foi então que deparei com uma cena lírica, que veio caminhando lentamente pela calçada até mim, a despeito do tráfego esquizofrênico da rua. Um bairro movimentado, entenda, cheio de prédios que não combinam nada com aquela casinha antiga de paredes vermelhas e rococós brancos, térrea, com um gramado ralo na frente e uma roseira seca no centro. Vidro texturizado na janela da sala, treliça de ferro descascada, alpendre. Provavelmente havia um poço cimentado no quintal dos fundos, escondido sob uma série de varais de arame. Quase na calçada, no lugar onde caberia um carro, sentada numa cadeira de balanço a apenas alguns metros do mundo contemporâneo, estava uma senhora de idade avançada, magrinha, de agasalho e com os cabelos escassos e amarelados presos para trás num coque, a cabeça baixa e o rosto todo dobradinho sobre si mesmo. Em seu colo, envolvido por longos dedos deformados pela artrose, havia um livro, provavelmente tão velho quanto a dona, as páginas amarelas e cheias de manchas. Em sua inércia, compartilhando sozinhos uma unidade de tempo particular, ambos pareciam se completar.

Fiquei pensando no que a velhinha estaria lendo. Após tantos anos de vida, o que o livro teria de interessante para contar? Será que ele permitia à dona sair por aí, caminhando livremente, fora do trilho que as calçadas altas lhe impunham? Ou seria aquele livro seu último elo com o passado, as páginas amarelas que ocultavam a realidade atualizada do entorno e mantinham as memórias vivas, o poço do quintal aberto, a roseira florida?

A velhinha parecia abandonada ao sol. Morava sozinha? Fiquei pensando em seu pai, mãe e irmãos comendo mexericas na mesa da cozinha, cuspindo as sementes numa tigela coletiva. Pensando nos passeios pelos antigos descampados da cidade, ali mesmo, naquele bairro. No dia em que conheceu o marido numa quermesse de São João, brincando ao redor da fogueira. O casamento, a casa simples, térrea, com as paredes vermelhas e rococós brancos, tijolos levantados um a um. A fome ocasional e as brincadeiras inocentes. Fiquei pensando no primeiro filho, homem para agradar ao marido; no segundo, homem também; e na caçula, menininha excessivamente protegida por todos os outros. Fiquei pensando no dia em que percebeu que não teria mais filhos, no dia em que os nascidos saíram de casa, em que perdeu a vontade de cozinhar sempre a mesma comida, dia em que a quitanda virou supermercado e o dono, seu Manuel, sumiu. Quando derrubaram a casa do vizinho, tão agradável que era, e fizeram uma loja no lugar. No dia em que se deu conta de que não conhecia mais ninguém do bairro, que milhares de transeuntes passavam pela calçada de sua casinha, ela os observando por trás do vidro da janela. Estranhos. Pensei no dia em que enterrou o marido, os filhos ficaram um pouquinho e foram chamados de volta às suas próprias vidas. No dia em que percebeu que não sabia usar nada do que via por aí, celular, computador, carros flex. Não sabia nem mesmo para que serviam. No dia em que as frutas e os legumes e as verduras perderam o gosto, e ela não sabia se era culpa deles ou de sua língua gasta.

Então um dia ela despertou às cinco da manhã ouvindo o galo que já não existia há décadas, passou café no coador de pano e comeu torradas com manteiga. Chacoalhou a toalha no quintal e olhou para o céu procurando pardais. Vieram pombos, só que ela já tinha entrado de volta e não os viu. Varreu a casa até sentir as costas doerem, coisa que não demorou muito, então repousou na frente da TV até perceber que era melhor preparar o almoço. Comeu antes do meio-dia, lavou a louça, colocou-a de lado para escorrer o excesso de água, enxugou-a com um pano, devolveu tudo aos armários de origem e pendurou o pano num dos varais de arame do quintal. Ela ainda teria uma longa tarde para enfrentar e precisava de algo que distraísse o tempo. Escolheu um livro entre os poucos que ficavam na prateleira da sala, logo acima do rádio e abaixo dos portarretratos, um livro de páginas amarelas que já tinha sido lido milhares de vezes, e com muito esforço o arrastou até o sol que batia na frente da casa. Colocou os óculos, a cordinha oscilando nos cantos, e se acolheu ao lado da roseira seca, apenas aguardando que a natureza as consumisse de vez. A história era tudo que lhe restava. Fiquei pensando nela e numa porção de coisas assim, e me esqueci do fim de semana que se aproximava. Também me esqueci dos contos do Hemingway que precisava terminar de ler.

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