domingo, 6 de março de 2011

MENSAGEM NA GARRAFA


Farol e casas em Portland Head, Cape Elizabeth, Maine (1927), de Edward Hopper

"Força de atração do mar. Aspiração pelo mar. Pessoas aparentadas ao mar. Ligadas a ele. Dependentes do mar. Devem retornar a ele."
A dama do mar (1888), de Henrik Ibsen

Meus encontros com o mar, hoje em dia, são muito diferentes do que eram no passado, quando eu era criança e tudo o que desejava era brincar o máximo possível com meus primos entre as infinitas possibilidades da areia e o imprevisível estímulo das ondas. Agora, recorro ao mar com outros propósitos. Não quero permanecer na água até as pontas dos dedos enrugarem e o maxilar tiritar de frio contra a minha vontade. O mar cresceu comigo e, de parceiro de algazarra, tornou-se meu terapeuta particular. Procuro seu auxílio em tempos difíceis; vou ao seu encontro para desaguar sentimentos e ele me ouve com profunda sabedoria. Mesmo que seu humor varie, o mar está sempre disposto a me ajudar.

Prefiro-o em fins de semana frios, cinzentos, quando sei que estaremos a sós. O mar é mais bonito no verão, porém é mais poético no inverno. Ofereço-lhe então minhas angústias e, entre idas e vindas, ele me recompensa com a cura, ainda que esta seja tão efêmera quanto a forma de suas águas. Quero esquecer este instante, afastar os pensamentos sombrios, organizar a razão, as memórias e os sonhos. Ao navegar, impreciso, o mar me coloca em contato comigo mesmo. Seu balanço ininterrupto faz as obrigações e a pressão momentâneas perderem o sentido – percebo o passado, o presente e o futuro acontecerem consecutivamente, indiferentes à minha participação. Sentado na areia, com a brisa a revolver meus cabelos, sentindo o cheiro úmido de sal impregnar meu corpo, estabeleço uma ligação com a eternidade.

Um amigo certa vez me contou que o barulho das ondas, quando se caminha sozinho pela orla, reverbera em outro estado de consciência. Suas vibrações se assemelham às da meditação zen budista. Isso só fez sentido para mim anos depois, quanto pratiquei um pouco de ioga e pude verificar que sim, é verdade, o caminho do nirvana passa pelo mar. A paz interior se encontra debaixo de camadas e camadas de água, repousando como um tesouro há muito naufragado. Para chegar até ela, é necessário vestir um escafandro e mergulhar fundo no inconsciente; vencer as correntes, revelando assim os segredos da psique humana. Ao abrir a arca, veja só que surpresa, eu descubro a mim mesmo, essa revelação inconcebível do ser.

Muito me admira a insistência do mar, a perseverança que não o deixa desistir de subir à praia, de avançar os limites da natureza, de perturbar o equilíbrio universal. Milhões de anos comprovaram que a vitória é impossível, só que o mar não desistirá. A beleza incorruptível da sua tentativa supera em muito o lampejo de qualquer sucesso. O mar age em prol de um ideal que, como todo ideal verdadeiro, jamais será alcançado. Respeito, justiça, moral em primeiro lugar. Essa atitude revela a integridade de seu caráter. O mar não é volúvel como o ar; é mais concreto do que a rocha, que sempre acaba por ceder às suas investidas.

Atraco finalmente em terra firme. A sessão acabou, é hora de voltar para casa. Sacudo a calça, tento deixar a areia onde a encontrei, viro as costas e caminho. Mas o mar não me larga, não aceita rejeição. Ninguém o abandona depois de conhecê-lo. O mar caminhará comigo, mesmo sem sair do lugar.

As memórias persistem, as angústias vêm à tona, os medos saem da toca. Tudo volta ao normal. A vida acontece agora, numa realidade que não posso me dar ao luxo de ignorar. Nasci condenado a permanecer nesse plano de consciência e, conhecendo as rotas de fuga, acho que o melhor mesmo é enfrentá-lo.

Só que o mar transforma. Sou prova incontestável disso. Carrego-o comigo para onde vou e, mesmo assim, quando a lembrança não basta, quando a saudade aperta, corro ao seu encontro. Sei onde encontrá-lo. Sei o que estará fazendo, sei que posso incomodá-lo a qualquer hora sem incomodar de verdade. Impassível. Meu gigantesco exemplo. Eu respeito o mar. Acima de tudo, eu o respeito. Pelo que fui, pelo que sou e pelo que serei. O mar estará sempre lá. Ele é minha certeza de completude. Permanência. Sobrevida.

Um comentário:

  1. Do seu texto, posso tirar instantes profundamente poéticos como este: "O mar é mais concreto que a rocha". É quase um haicai. Como vc, eu respeito e amo o mar. De tempos em tempos, preciso restabelecer contato com o mar, seja perto ou longe. É como um reencontro com nossa ancestralidade, com a nave-mãe que é a Terra. Parabéns pelo texto.

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário!