sábado, 30 de abril de 2011

O ANJO DO FUTURO

Angelus Novus (1920), de Paul Klee

"Minhas asas estão prontas para o voo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo."
   Saudação do anjo, de Gerhard Scholem

"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso."
   Walter Benjamin, 1940

O texto acima faz parte das chamadas teses Sobre o conceito da história, último escrito do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Considerado uma das suas maiores obras, foi publicado somente após a trágica morte do autor – Benjamin cometeu suicídio na cidade de Port Bou, na fronteira da França com a Espanha, enquanto tentava escapar das tropas nazistas.

O título da pintura de Paul Klee que inspirou essa reflexão fala de um anjo do futuro, embora o filósofo diga que seu rosto está voltado para o passado. "Uma catástrofe única", como ele diz. Curiosamente, o anjo de Klee está olhando diretamente para nós, espectadores. Essa relação entre os tempos idos e os vindouros sempre volta à tona. Sem dúvida, é um dilema do homem que provavelmente jamais será solucionado.

Recomendo a leitura dessas teses de Benjamin a todos que se interessam por história. Recomendo-as também a todos que, mesmo preferindo ignorar o passado, queiram compreender melhor o presente e até prever o futuro. Porque, para mim, tudo sempre pareceu ser uma coisa só. Pertencemos a um tempo vivo que, justamente por isso, está em constante mutação. Tudo é passado, presente e futuro consecutivamente. Qualquer solução que lhe dermos, valerá apenas para agora. E o agora é tudo que nos resta.

Ps.: A citação do também filósofo Gerhard Scholem consta no original.

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