quinta-feira, 3 de maio de 2012

TEMPO AO TEMPO



A arte da panificação nos ensina muito sobre a vida. Sim, fazer pão, esse hábito tão antigo e banal, comum a tantos povos. Quem se acostumou a comprar o pão prontinho na padaria não tem ideia do caminho que ele percorreu até chegar ali. Mas não convém contar todo o seu ciclo de vida, desde os campos de trigo até a mesa. Quero me concentrar na experiência de produzi-lo na cozinha de casa. Misturar os ingredientes na ordem e quantidade certas, acrescentar o fermento e sovar a massa. Depois, deixá-la crescer. Sovar novamente, deixá-la crescer. E repetir o processo quantas vezes forem necessárias. Dizem que, quanto mais você malha, mais leve a massa fica. Não sei se é verdade. Posso afirmar que o padeiro, este sim, fica mais leve. Trata-se de uma espécie de meditação. Entre sovar e aguardar, dedicamos uma tarde inteira a um pão que será consumido em poucos minutos. Compensa? Suponho que sim. Afinal, fazemos isso há milhares de anos. Alguém já teria percebido se fosse desperdício de tempo.

A panificação requer paciência, cuidado, carinho e dedicação. Tudo isso modifica o sabor do produto. Fazer pão artesanalmente é, na verdade, fazê-lo e refazê-lo uma série de vezes até que esteja bom o suficiente para ser levado à mesa e servido aos amigos. A partilha do sensível.

O mesmo se aplica a diversas outras práticas, e é por isso que considero a panificação uma ótima referência. Escrever é uma delas. Um grande escritor declarou certa vez que escrever é reescrever. Concordo. A qualidade do texto vem daí. A fluência, a maciez, o sabor, a vontade de ler um pouquinho mais. Escrever e reescrever, sovar e deixar crescer, fazer ajustes, misturar bem para que a alquimia aconteça.


Comentei semanas atrás que estou escrevendo meu primeiro romance. Comecei em dezembro do ano passado, e, na verdade, ele já está todo escrito. Duas vezes escrito. Será uma história breve, que coloquei no papel e depois passei a limpo. Deu um trabalho imenso. Agora, esse segundo rascunho está descansando. Já faz um mês que não mexo nele. Tenho certeza de que, quando for sová-lo de novo, ele terá crescido e revelado todo o potencial que eu não podia ver quando o guardei na gaveta. Para mim, reescrever é essencial. Assim como a paciência entre os intervalos de descanso das provas, quando as ideias fermentam.

Em 1929, o pintor Cândido Portinari embarcou para Paris, onde passaria os dois anos seguintes a visitar museus e galerias. Ele usufruía do Prêmio de Viagem da Academia Nacional de Belas Artes, conquistado após muito trabalho. Os vencedores iam à Europa estudar – beber direto da fonte, como se diz, uma vez que os capítulos da história da arte costumavam começar ali. Portinari, entretanto, optou por não frequentar qualquer tipo de curso. Ele apenas consumia, com olhos vorazes, a obra dos grandes mestres do passado.

Apesar da enorme cobrança por parte do governo e da crítica de arte do Brasil, o pintor voltou de lá com somente três pequenas naturezas-mortas. Trancou-se, então, em seu ateliê e pintou quarenta quadros ao longo de seis meses, muitos dos quais são considerados os seus melhores. Como se os números não bastassem, Portinari deu início à temática social e regionalista em nossas artes plásticas, retratando os retirantes, a miséria, a fome etc. Ao invés do nacionalismo ingênuo e sonhador dos primeiros modernistas, ele revelou aos brasileiros a verdadeira alma do país.


A partir de então, tornou-se um dos artistas mais importantes da nossa história. Obteve reconhecimento internacional, especialmente nos Estados Unidos – novo pólo modernista –, e produziu muito.

A enorme quantidade de encomendas não o impedia de passar três meses do ano em sua cidade Natal, a singela Brodósqui, nos quais visitava amigos, ajudava na reforma da igreja, ficava observando o tempo passar. Isso não quer dizer que ele não fazia nada – na verdade, Portinari aguardava suas ideias fermentarem. Garantia assim, nos meses seguintes, generosas fornadas de arte deliciosamente fresca. Pinturas de que só ele acertava o ponto, recheadas de talento, nas quais, ainda hoje, nós podemos nos esbaldar.

*As imagens de sanduíche que ilustram este texto são paródias criadas pela artista Brittany Powell. Elas se referem, na ordem, a obras de 1) Piet Mondrian, 2) Christo e Jeanne-Claude e 3) Jackson Pollock.

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