segunda-feira, 4 de junho de 2012

“E mesmo que em nossa história, num desenrolar mais otimista, Machado de Assis tivesse dado uma resposta concreta ao nosso leitor, sim Capitu traiu, ou não, Capitu não traiu, o caso é que isso não daria ao livro uma leitura correta ou uma interpretação inquestionável. Seria apenas mais uma opinião, uma opinião importante, a do autor, mas não a única, nem a definitiva. Isso porque, no processo da escrita, o escritor nunca tem controle total do resultado, há sempre algo que lhe escapa, algo que ele diz e não sabe que diz, algo que não depende dele, mas de quem lê. Por isso um livro pode ter inúmeras leituras, muitas até contraditórias, por isso um clássico é lido de formas diferentes dependendo da época, do idioma, da cultura. Por isso, no caso de um bom livro, a obra é sempre melhor do que seu autor, que é cheio de defeitos e dúvidas e mesquinharias. Ou, como dizem, o poema vale mais do que o poeta.”

A esfinge diante do próprio enigma,
Carola Saavedra, no jornal Rascunho (março de 2012).

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