quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O ESTILO ANTI-ÉDIPO DE SER

O filósofo Michel Foucault escreveu um prefácio bastante breve para o livro O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Tão breve quanto preciso. Digo preciso no sentido de exatidão, uma vez que o texto pontua qualidades reconhecidas do livro. Digo preciso também no sentido de necessário, pois Foucault não apenas introduz o assunto como faz com que o leitor sinta fome de conhecimento e devore todas as páginas subsequentes.

É uma pena que seu prefácio conste apenas em poucas edições. Abaixo, destaquei os tópicos do final, que considero o trecho mais intenso. Fica claro que, como diz o próprio filósofo, o anti-édipo tornou-se um estilo de vida, um modo de pensar e de viver. Estou torcendo para que as pessoas adotem ao menos alguns dos seus princípios.

• Libere a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante; 

• Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, mais do que por subdivisão e hierarquização piramidal; 

• Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental, por um longo tempo, sacralizou como forma do poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo; a diferença à uniformidade; o fluxo às unidades; os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade; 

• Não imagine que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga, nas formas da representação) que possui uma força revolucionária; 

• Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política, para desacreditar um pensamento, como se ele fosse apenas pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política; 

• Não exija da ação política que ela restabeleça os "direitos" do indivíduo, tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é "desindividualizar" pela multiplicação, o deslocamento e os diversos agenciamentos. O grupo não deve ser o laço orgânico que une os indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de "desindividualização"; 

• Não se apaixone pelo poder. 

FOUCAULT, Michel. Preface. In: Gilles Deleuze e Félix Guattari. Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia. New York: Viking Press, 1977, pp. XI-XIV. Traduzido por Wanderson Flor do Nascimento.

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