quinta-feira, 28 de março de 2013

É TUDO FRUTA PODRE

Cesto de frutas, cerca de 1595, de Caravaggio

É tudo fruta podre. São as coisa que dão pra gente comê. Só fruta podre, escura, colhida antes do tempo. Cheia de veneno, pra gente comê. Não tem gosto de nada. Tem gosto podre. Nasceu de onde isso? Foi a fruta podre que me deu isso aqui, ó. Na barriga, tá veno? Esse ponto verde, essa verruga. Foi a fruta podre. Vô fazê o quê? É o que tem, não tem mais nada, só isso. Na hora de comê, só tem isso, não tem mais nada. A gente vai comprá na xepa e tá caro, tá tudo imbutido no preço, imposto, safadeza dessa gente, essas coisa, tudo imbutido. Essa gente, é. Agora tem essa verruga verde na barriga. Eu, ela cresce, tá sabendo? Tô ligado, tô vendo, ela cresce sim. Tá maior todo dia, a verruga. Não tem o que fazer. Eu queria tirá, mas não tem o que fazer. O médico lá do posto disse pra esperá pra vê. Tô vendo, tô vendo, não tem mais o que fazê, tem que esperá. Eu queria tirá, não quero verruga verde não, não é de mim. Fica esse negócio aqui cresceno. Parece pequeno pra você, não faz essa cara não, você não sabe como é. Mas vai sabê, vai sabê. Você também só come fruta podre, tô ligado, tô sabeno. Paga caro, num paga? Paga sim, não tem opção, tamo tudo numa só, tudo junto. Eu e você. Puta que pariu. Não quero mais isso não, sabe, não quero não, fazê o quê? Todo dia, todo dia a mesma coisa. Cê acha que a gente quer? Acha que eu quero? FALA BOBAGEM NÃO! Não fala bobagem. Já basta as fruta podre, basta disso, não quero engoli mais merda pelo ouvido. E a verruga, que que eu faço? Quero tirar, não quero isso em mim não, quero rancá fora. Olha!, olha!, tá cresceno, viu? Cê viu? Voltei no posto de saúde, não sei se disse, o medico não tava não, ninguém sabia, o moço pediu lá pra esperá. Espera ou volta depois. Ai, moço, tira vai, tira daí. Tem que esperá, tem que esperá pra vê. Vê o quê? Tá podre, tá tudo podre, tô sabeno. Eu quero tirá, não quero mais isso não.

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