terça-feira, 30 de setembro de 2014

DISSOLUÇÃO | FELIPE GÓES

O texto abaixo foi escrito na ocasião da mostra Dissolução, individual de Felipe Góes realizada pela Central Galeria de Arte entre 3 de outubro e 8 de novembro de 2014. Ele se originou na entrevista concedida pelo artista durante os preparativos da exposição.

Pintura 204 (2013)

 A pintura de Felipe Góes é um fazer que por vezes se confunde com desfazer. Que revela ausências. Pois as camadas de tinta, de tão sutis, acabam por remover parte do que já estava antes. Esse gesto delicado desemboca num embate árduo, em que incluir é retirar, pintar é apagar, criar é desconstruir, recordar é esquecer.

Suas paisagens são inventadas. “Ideias de paisagem”, como o artista costuma dizer. São sugeridas e sugestivas. Não partem de um esboço ou de uma imagem pré-concebida – elas se fazem diretamente na tela, no gesto poético, no ato criador. Não existe objetivo a ser alcançado; a finalidade é o próprio percurso, o próprio fazer da arte. Essa profusão de pensamentos e sentimentos que se materializam na pintura não termina, ela continua na seguinte, como se todas fossem uma única, dividida em etapas, numa pesquisa não linear, numa errância.

Pintura 195 (2013)

Esta mostra na Central Galeria apresenta criações recentes, produzidas durante o último ano. Elas enfatizam o processo de dissolução da tinta, das imagens e da própria atitude do pintor nos tempos atuais. Em vez de imagem definitiva, resta nelas um registro de intenções, ou seja, um instante do processo criativo que o artista decidiu preservar. Algumas intenções se concretizam, outras ficam sugeridas, muitas se esgotam e desaparecem.

As pinturas habitam esse território ambíguo, frágil e poético da efemeridade. Ao invés de afirmarem verdades, dispõem-se como espaço para incoerências. Paisagens abertas onde o espectador pode se perder; que põem em questão a cultura e a natureza, procurando não as diferenças entre elas ou as exclusões, mas suas ambiguidades, seus pontos de contato e embaçamento.

Pintura 205 (2014)

É difícil apreendê-las. No sentido de que não cabem numa definição, não significam nada exatamente. A apreensão é tão difícil quanto indesejada – elas preferem ser experimentadas, vivenciadas.

Quando percebemos nelas uma paisagem, imediatamente somos afastados da matéria pictórica; quando nos atentamos à tinta que escorre pela tela, a paisagem se esvai, levando com ela toda pretensão de certeza.

Pintura 208 (2014)

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