quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

SOBRE A POLÊMICA DE VENDER "MEIN KAMPF"

Algumas livrarias têm anunciado que não venderão o livro "Mein Kampf" (Minha Luta), de Adolf Hitler, que recentemente se tornou domínio público e está recebendo novas edições em português. Ora, por quê?


Em primeiro lugar, isso parece uma censura ingênua, uma vez que é possível obter o texto na internet com facilidade, basta digitar no Google. Depois, que história é essa de a livraria selecionar o que podemos ou não comprar (ok, todo comércio é assim, eu sei, mas normalmente a escolha não se dá por moralismo e sim por capitalismo, o que é bem diferente)!?

Tem outra coisa: estão com medo de quê? De produzir nazistas? É assim, como ignorantes ou como potenciais ignorantes, que as lojas veem os clientes leitores? No contexto de hoje? Como se todos aqueles nazistas dos anos 1930 tivessem lido o livro e se "transformado" com a leitura! Ou como se não existissem outros livros de conteúdo muito mais perigoso sendo vendidos aos montes por aí. Essa linha de raciocínio é tão tola quanto dizer que "vira terrorista quem ler o Alcorão" ou vira "cozinheiro quem ler a Dona Benta".

Há quem diga que um dos problemas éticos seria "lucrar com as ideias de Hitler". Eu fico me perguntando em que mundo essa pessoa vive. Porque tudo aqui envolve ganho ou perda de dinheiro, infelizmente essa é a lógica que nos conduz. Trata-se de um produto editorial e será comercializado como produto editorial. E daí? Eu adoraria implementar estratégias de desvio à lógica capitalista, mas boicotar o Hitler e continuar a vender os demais livros não parece muito eficaz.

Na minha opinião, a melhor forma de combater fascismos de todo o tipo é não agir como fascista. Nem agir "em nome do bem estar social", o que na prática dá quase sempre no mesmo. Política se faz de muitas formas, inclusive mais inteligentes. Com educação, por exemplo. Com acesso à cultura e liberdade de expressão também.

Torço para que muitas livrarias disponibilizem o título a quem desejar lê-lo, ao invés de quererem ocultar esse capítulo da história (como se fosse possível) ou de quererem ditar como a cultura deve ou não deve ser (como se fosse possível).

(Queridos livreiros, por favor, que tipo de política bárbara é essa que estão promovendo?)

Momento curiosidade: Esse episódio me fez lembrar de outro recente, quando as produtoras de DVD e Blu-Ray do Brasil se recusaram a distribuir o filme "Azul é a cor mais quente", num descarado ato de homofobia. Pode?

Saiba mais: Livro escrito por Hitler volta às livrarias brasileiras em meio a polêmicas

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