domingo, 26 de agosto de 2012

IMAGEM LENTA, MUNDO VELOZ



Na primeira conversa que tivemos sobre a exposição individual no Museu de Arte de Goiânia, Felipe Góes estava indeciso. Porque sua intenção era levar para lá as pequenas pinturas que produz desde o início da carreira, nas quais o caráter experimental da pesquisa fica mais evidente. "Só que a administração local me concedeu um espaço enorme", disse ele. "Acho que vai ficar vazio demais só com essas telinhas".

A ideia do vazio me pareceu interessante. Na mesma hora, tive certeza de que aquele deveria ser o conceito da mostra: propor uma relação com o espaço expositivo e com o tempo de apreensão das obras. As pequenas telas de Felipe, naquele generoso salão, poderiam surpreender, criar conflitos e retirar o visitante da zona de conforto que se construiu ao longo de séculos de exibição de pinturas em museus. Melhor ainda se estivessem deslocadas da habitual linha do horizonte que costuma orientar a colocação das peças na parede. Assim, poderíamos sugerir uma reflexão sobre o corpo presente – uma vez que o visitante movimentaria mais do que apenas os olhos para observá-las, abaixando-se, aproximando-se, reclinando-se, torcendo o pescoço etc.

A mostra também chamaria atenção para outro aspecto relevante: o tempo da arte. Digo isso não somente em relação à tradição da pintura, mas ao contexto contemporâneo, em que o volume de informação aumentou tão bruscamente quanto se reduziu nossa dedicação para absorvê-la – como se o pensamento humano se desenvolvesse na mesma velocidade dos processadores artificiais.

Sabe-se que, na ansiedade de ver o máximo no menor tempo possível, se gasta, em média, quinze segundos em cada obra de arte de uma exposição. Esse tempo ainda diminui consideravelmente em museus visitados por massas de turistas, tais como o MoMA (Nova York) e o Louvre (Paris). Gasta-se tempo, investe-se tempo, perde-se tempo, ganha-se tempo. O tempo virou moeda de troca na veloz sociedade capitalista, em especial a metropolitana.

Só que há coisas que esse tempo não compra. Sim, numa mostra de arte, muito passa despercebido. Cá entre nós, quinze segundos não bastam nem mesmo para obra e visitante se apresentarem, quanto mais para se conhecerem profundamente e trocarem experiências.

Quando adentramos o Museu de Arte de Goiânia e nos deparamos com telas pequenas dispostas em paredes extensas, percebemos de imediato que elas exigirão outro tempo de experimentação, descoberta, reflexão e criação. Elas querem que as pessoas se aproximem, perguntem, espiem, inventem e ouçam tudo aquilo que sussurram ao pé do ouvido, que se despe aos pouquinhos, numa relação de perfeita intimidade. 

São imagens lentas, que não carregam significado instantâneo. Contrariando o mundo apressado em que estão, pedem silêncio, calma e disposição para se revelarem. Pedem a dedicação de quem cativa. Será assim ou não será nada.

*O vídeo acima é uma maquete digital que simula a disposição das pinturas nas paredes do Museu de Arte de Goiânia. Leia mais sobre a exposição aqui: Álbum e Grandiosidade não se mede com régua

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