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| Chinelos do artista Paulo Nazareth expostos no Bienal de Veneza |
Se você adora xeretar estantes para encontrar livros que não procurava, talvez não tenha notado como está difícil se surpreender com uma leitura nova, ainda mais nestes tempos em que os algoritmos insistem em sugerir mais do mesmo (“se você gostou deste, também pode gostar deste outro”).
Aquele costume tem algo de flanação: implica se deixar levar e inventar o percurso enquanto se lê, sem ter nada muito planejado. Minha trajetória como leitor foi marcada por essa errância. Só para dar um exemplo, meses atrás peguei na biblioteca um livro do Rainer Maria Rilke sobre Auguste Rodin, que me levou a buscar escritos do próprio Rodin sobre catedrais francesas, que por sua vez me sugeriram um romance de Émile Zola, a partir do qual saltei para Auguste Cézanne e, dele, para Gertrude Stein, que detém minha atenção agora. Todos eles intercalados com obras contemporâneas, cujas relações vão se conduzindo à sua maneira.Aconteceu algo parecido nos meus anos de doutoramento. A partir de uma frase do filósofo Jacques Rancière, para quem o real deve ser ficcionado para ser pensado, saí à cata de artistas visuais que me ajudassem a entender como isso se manifestaria na prática. Até que, na qualificação – exame em que uma banca de professores avalia o que você fez até ali e lhe encaminha para a etapa final da pesquisa –, meus interlocutores sugeriram: abandone essa montoeira de assuntos, você precisa de apenas um.
Obedeci, com dor no coração. Escolhido o tal assunto, passei a acumular ideias sobre ele, nem sempre muito coerentes. Faz bem pouco tempo que entendi: eu nunca quis fazer tese de doutorado. Eu só queria ler. E ler conforme os ventos do interesse sopravam. Assim, me debrucei sobre cartografia, colonização, psicanálise, história da arte, porcelana chinesa, probabilística, técnicas de navegação e sei lá mais o quê, uma coisa levando a outra. Foram anos felizes.
Na sua newsletter “Jogo da Velha”, número 49, Noemi Jaffe fala sobre a literatura não surgir de um tema: “etimologicamente, ‘tema’ é proposição ou tese. […] Mas literatura é tudo, menos tese”. Mais importante ainda, ela comenta sobre escrever como quem inventa formas de fazer a história falar: escrever “desbravando os caminhos que a linguagem, as frases, os ritmos, os personagens e suas ações vão abrindo”. O tema, ou a tese, fica para os críticos.
Noemi também sugere, para o escritor ter ideias, pesquisar assuntos dos quais não entende nada. Isso me fez lembrar da poeta Wisława Szymborska, que lia de tudo com uma curiosidade irrefreável. Menos relevante do que respostas, esse conhecimento é capaz de trazer novas perguntas. Estaria aí uma fonte de inspiração que de maneira alguma é privilégio exclusivo de poetas ou artistas em geral: trata-se de uma postura ética diante da vida, de tudo o que ela pode oferecer de instigante.
Vou usar aqui uma palavra desgastada, mas ainda sobrevivente: trata-se de uma forma de resistência diante da mesmice que os “produtores de conteúdo” nos levam a “consumir”, empobrecendo fontes vitais como cultura e experiência.
Tenho investigado, com a mesma metodologia torta de sempre, a quantas anda o espanto. Como se deixar sensibilizar por sutilezas quando tudo se escancara diante de olhares anestesiados? Ou por mistérios, quando tudo é tão óbvio e superficial? Como acolher o que diverge de nossas crenças e costumes?
Tenho, junto, tentado exercitar a leitura por prazer. E ver assim aonde ela me leva, buscando me surpreender, quem sabe, com algo inesperado. Sempre que possível, escapando das rotatórias sem saída dos algoritmos.
Procurando aqui uma anotação sobre o assunto para complementar este texto, encontrei esta citação, que serve ainda melhor, retirada do livro Noite devorada, de Mar Becker: “amar como a estrada ama os que se perdem”.
Se esta é uma questão que também lhe toca, talvez a gente se esbarre diante de uma prateleira de livros por aí. Aproveite o passeio.
Tenho, junto, tentado exercitar a leitura por prazer. E ver assim aonde ela me leva, buscando me surpreender, quem sabe, com algo inesperado. Sempre que possível, escapando das rotatórias sem saída dos algoritmos.
Procurando aqui uma anotação sobre o assunto para complementar este texto, encontrei esta citação, que serve ainda melhor, retirada do livro Noite devorada, de Mar Becker: “amar como a estrada ama os que se perdem”.
Se esta é uma questão que também lhe toca, talvez a gente se esbarre diante de uma prateleira de livros por aí. Aproveite o passeio.
