segunda-feira, 26 de junho de 2017

ACEITA COOKIES?

Norwich (2013), de Ed Fairburn


A lei do ventríloquo livre
é só encenação?

* * *

Largar tudo e pé na estrada. Sonho clichê, mas a intenção era boa. Liberdade, enfim. Das amarras do capitalismo produtivista, dos imbróglios sociais, das normas e regras e leis, do machismo branco europeu dominante e também do feminismo regurgitante, do moralismo cristão, do controle e blá e blé e blue. Eu avisei: um sonho clichê. De intenção sincera. Assim foi, pé na estrada. Não cabe a mim julgar. Parece sonho de juventude fora de época, enraizado lá nos anos retrôs, desculpe, não cabe a mim julgar. Que outro sonho poderia ser? Como se sonha hoje? No que você está pensando? Compartilhe suas experiências num clique. Conte-me como foi! Conte-nos do que mais gostou! Viu os lugares que todos pre-ci-sam ver, comeu nos restaurantes que você pre-ci-sa comer, fotografou a estátua mais fotografada do mundo. Parece maior do que ela, né? Cabe na palma da mão! Não, não, me poupe! Não queria nada disso, queria deixar a estrada guiar sua fuga, vida leva eu; a sorte – não o destino, mas a sorte – mostrar a verdade lá fora. Reencontrar a liberdade perdida quando: nasceu, foi à escola, parcelou o smartphone, criou perfil na rede social, conquistou o cargo promissor. Quando tudo deu certo. Fez por merecer. Sim, sim, abriu mão disso tudo. Pode julgar, a pessoa não liga! Muito bem resolvida, partiu sem rumo, não precisou dar satisfação a ninguém, entende? Lugar maravilhoso, lugarzinho terrível, sujeito incrível, sujeitinha medíocre, longe, muito longe. Sabático. Caiu na estrada, foi para todos os cantos do mundo. Foi a todos os cantos onde tem estrada, jamais se arriscou fora dela. Liberdade assistida? Falei que era sonho clichê, que o inferno está cheio de intenções assim. Quem sou eu para julgar?

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Livre para falar o que quer
Quando quer como quer.
De onde vem tanto querer?
O que ele quer de mim?

* * *

O suspeito foi identificado antes que a polícia terminasse de contar os mortos. O número crescerá até o jornal da noite; com sorte, amanhã já teremos outra notícia no lugar. Um recado antes de sair! Não estamos aqui para falar das vítimas, e sim do algoz: um menino. Tão jovem! Como pode uma coisa dessas? Tinha tudo na vida: dinheiro, família, futuro. Tudo! Imigrado para um país livre, moderno, cheio de oportunidades. Foi se meter com aqueles malucos? Fizeram lavagem cerebral, certeza. Os pais não sabiam de nada, o governo não sabia de nada, teriam intervido. Foi pela internet. Como monitorar quem nunca deu motivos para suspeita?, pronunciou-se o primeiro ministro. Todos abriremos mão das nossas confidencialidades em prol da segurança do país? Abriremos mão dos nossos direitos, das nossas liberdades? Todos abriremos, amém. Bomba caseira, feita com ingredientes de supermercado. Clique agora para utilizar seu cupom de desconto! Um menino tão jovem, assassino cruel. Podia escolher o que quisesse, por que não fez a escolha certa? Juiz, empresário, senador, latifundiário, investidor, não. Escolheu um fundamentalismo outro.

* * *

“O senhor fala como se fosse fácil, questão de escolha. Que tá o certo e o errado na frente e a gente vai lá e segue por um caminho. Não to falando que não tem opção, é que a porta do certo tá muito mais estreita que a do errado. O senhor tá falando de vislumbre. Eu falo de necessidade.” (trecho do livro Em conflito com a lei, de Lucas Verzola.)

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Liberdade é uma estátua.
Sim, precisa pagar pra ver.

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Quem comprou também gostou. Não conhece? Aproveite! Tem o seu perfil. Você tem total liberdade de escolher qualquer um dos itens disponíveis. Compre para fazer o seu estilo. Desconto exclusivo para você. Só hoje! Incrível, não é? Ninguém tem igual, você é única. O sistema avalia e oferece a opção mais adequada. Tem um minutinho para responder à nossa pesquisa? Assim poderemos oferecer uma experiência personalizada. Deixe sua opinião para ajudar outros clientes. Compartilhe a sua experiência. Responda como quiser: A, B, C ou D? Perfeito! Muito obrigado por escolher a nossa marca. Quer saber mais? Se você fosse personagem, qual seria? Como agiria? Quais características melhor representam você? Faça o teste! Estes anúncios todos no site de notícias, como eles adivinham? Pesquisei gravidez, agora vejo fralda, mamadeira, carrinho, roupinha, banheirinha, inhos e inhas em todo lugar. Hoje estou no computador do meu marido. E esses anúncios de balada gay.

* * *

Por quê?
Porque tenho o direito.

* * *

A ideia era criar um filho com total liberdade de pensamento. Que pudesse exercer sua autonomia desde o berço. Que fosse inteligente e capaz de fazer escolhas e arcar com consequências individuais ou coletivas. Começaram muito bem. Até comprarem para ele o primeiro livro infantil. Onde estava velada, sob disfarce de coelho, uma cartilha da vida adulta.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A POESIA COMO SINTOMA DO CONTEMPORÂNEO

No final do ano passado, tive o prazer de ouvir Carlito Azevedo recitar todo o Livro do Cão durante um debate sobre literatura e política. Trata-se de um longo poema do seu Livro das Postagens, lançado à época. Esbaforido, ele insistia:

O autor deveria estar aqui
mas é como se não fosse urgente
como se nada tivesse que ser dito
como se não estivessem batendo à porta
como se não estivesse batendo na nossa cara
como se não fosse urgente

O autor deveria estar ali, mas não compareceu. Irresponsável, enviou no seu lugar Carlito Azevedo, leitor. Um cão na iminência de ser devorado pela crise e sem consciência do perigo. A se justificar, inocentemente:

Eu vim porque me trouxeram
eu disse: estou vendo a lenha
eu disse: estou vendo o altar
eu disse: estou vendo a faca
mas onde está o cordeiro?

O real que se abate sobre nós, os cordeiros, é o invisível e o impossível que por acaso se realizam. Que, não por acaso, já eram sugeridos pela poesia. É por isso que alguns filósofos, ao investigarem o contemporâneo, vasculham poemas atrás de indícios. Giorgio Agamben recorre a A era, de Óssip Mandelstam. Alain Badiou recita As cinzas de Gramsci, de Pier Paolo Pasolini. E defende que a poesia e a matemática são as duas únicas atividades humanas realmente proféticas. Pois “todo grande poema é o lugar linguageiro de uma confrontação radical com o real”.

Em sua palestra no 1º Seminário Online de Escrita Criativa, intitulada A poesia das coisas minúsculas, Tarso de Melo expôs a tese de que os grandes poetas são, de alguma maneira, desajustados em relação ao seu tempo. Cita, como exemplo, o mal estar de Drummond, “poeta da anotação”, a registrar em versos aqueles acontecimentos tão minúsculos que em geral passavam despercebidos aos demais. Acontecimentos não evidentes, que só ganhariam lugar no discurso tempos depois.

Outro exemplo de Tarso de Melo é Leonardo Fróes, cuja obra reaparece meio século depois e ganha atenção dos jovens. Por quê? Segundo o pesquisador, existe mesmo um deslocamento temporal do poeta com o seu leitor. Caberia aos interessados procurar nesse deslocamento – nessa falha ou lacuna – a intuição do poeta, que é um saber anterior à constatação da crítica. Intuir, nas palavras de Melo, é ver por meio do olhar minúsculo.

O que o poeta veria por meio desse seu olhar? Não as grandes obviedades, mas a potência invisível das virtualidades. Veria o sacrifício realizado onde, aparentemente, há apenas lenha, altar e faca, além das vítimas – ele próprio e todos nós.

A poesia seria, assim, uma espécie de sintoma do contemporâneo. Indício sensível do desconhecido ainda em vias de tomar forma. É justamente essa sensibilidade para o menor, no sentido deleuze-guattariano, que me interessa nas artes, sejam elas plásticas, visuais, literárias, musicais, dramáticas etc.

Eu completaria aquela ideia com outra, que vem se realizando sorrateiramente nas sombras da minha pesquisa de doutorado, e à qual devo atentar adiante: a ideia de que o termo “contemporâneo” não condiz com a maior parcela da arte que se realizou nas últimas décadas ou que se realiza hoje. Estas são produções atuais, num sentido cronológico e até estilístico, que talvez recebam rótulo apropriado em breve. Mas o contemporâneo não pode ser um estilo, não pode ser o que presentifica, muito menos o que evidencia as questões da atualidade, mas o que se desloca em relação ao próprio tempo e torna as questões obscuras, ambíguas, paradoxais.

Nesse sentido, eu simpatizo com Agamben, e aposto que contemporâneo é o que vem, ou seja, o que aponta para a condição futura, por ora apenas intuída, talvez um dia a ser constatada. Com uma ressalva: apesar da sua força profética, o contemporâneo não é o que induz – é o que dá condições para o acontecimento ser conforme o seu próprio desejo. É o que torna possível o virtualmente impossível. É o que realiza o real.

A forma virtual, intuitiva, é necessariamente poética. Seu sentido não está dado de antemão, mas em potência. E tal forma poética não se encontra somente no poema. Esse é o nosso desafio, enquanto espectadores e coautores do que vem: esmiuçar a vida em seus variados aspectos para quem sabe encontrar, na urgência do presente, as virtualidades que estão por vir. Não para constatá-las, evidenciá-las ou esclarecê-las; não para extirpar a sua poesia, transformando-as em discurso, mas para acolhê-las e para inventar condições de, por acaso, elas virem a ser.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

E A LUA BRILHOU


Apesar da chuva, do frio e do Temer, houve lançamento do meu livro, houve sarau do coletivo literário Discórdia e houve a publicação do zine "Isso não é literatura". Foi uma deliciosa tarde de domingo no Creuza Cultural, em São Paulo. E teve comida boa, música e companhia de muita gente querida.


 
Compartilho agora algumas fotos e também alguns recados.
 
A tiragem do meu livro Por que a Lua brilha está praticamente esgotada. Se você ainda não comprou, encomende já no site da editora Cultura e Barbárie. Se preferir, adquira a versão para Kindle e leia no computador, eReader ou smartphone.

Conheça e acompanhe o trabalho do coletivo Discórdia, do que faço parte, curtindo a página do Facebook e lendo as nossas publicações no Medium.

Agradeço todos que estiveram presente e também quem gostaria de ter estado, mas não pôde, e mesmo assim mandou energias positivas.

Ainda este ano teremos a publicação do meu Testemunho Ocular, ou seja, mais um livro para a gente celebrar juntos!

 




Zine "Isso não é literatura", do coletivo Discórdia, também lançado na ocasião
  



O coletivo Discórdia



domingo, 7 de maio de 2017

LANÇAMENTO DO LIVRO "POR QUE A LUA BRILHA"

Eu e os amigos do coletivo Discórdia preparamos um evento para celebrar meu primeiro livro publicado. Além dos autógrafos, teremos também o lançamento de um Zine com tiragem exclusiva para a ocasião e um sarau com microfone aberto para quem quiser compartilhar a sua literatura. Bônus: bar e música da Creuza Cultural!

Tudo isso no dia 21 de maio, domingo, das 15h às 18h.
Onde? Na Creuza Cultural: Rua Raul Pompéia, 547 (perto do Sesc Pompéia).

A entrada é gratuita, estão todos convidados. Você paga apenas o que consumir no bar e as publicações que quiser adquirir. Ao módico preço de...

Livro (Por que a Lua brilha): R$ 25
Zine (Isso não é literatura): R$ 5

Se você não pode ir, mas quer comprar o livro, clique e encomende direto da editora: Cultura e Barbárie

Espalhe a notícia e venha curtir esta tarde de domingo com literatura, cerveja e amigos.


terça-feira, 2 de maio de 2017

A METADE DE TUDO

Sua vida seguia muito bem, podia continuar daquele jeitinho sem nunca receber notícia tão desagradável; sem um linguarudo como eu deixar escapar que sim, você é anão, todo mundo sabia menos você, rá rá. Nasceu pronto, nunca cresceu, rá rá. Desculpe. Eu mesmo não superaria, é provável que até encolhesse de desgosto. Acho que me sentiria menosprezado. Rá rá, entendeu? Desculpe, desculpe. Se me permite, você reagiu mais ou menos bem. Sempre é possível piorar. Poderia ter corrido para casa com as perninhas recém-descobertas, tomado impulso e saltado na cama para dela nunca mais sair.

Divided states: supplicate I (Antony Gormley, 2006)
Eu preferiria que você jamais soubesse, evidente! E que pudesse continuar entre nós como sempre foi. Há verdades que não precisam ser ditas. Preciso medir minhas palavras, eu sei. Mas eu me contenho bastante, você não faz ideia! A maioria dos clientes deste bar bebe uma ou duas e já vem me vomitar suas desgraças. Eu sirvo outra dose, finjo que escuto, faço pinta de consolador. Mas o que desejo mesmo é rir na cara dura, dizer que problema não é exclusividade de ninguém e mandar se danar.

Você é um sujeitinho decente, um dos poucos que vêm aqui. Divertido, generoso, não merece ouvir minhas baixarias. Você costumava aguentar firme, já o vi entornar canecos da sua altura! Sei que está alegre o suficiente quando perde a noção do perigo, escala os engradados, trepa num dos bancos fixos do balcão e fica aí dando espetáculo sem se desequilibrar. Já trabalhou em circo? Pergunto só porque qualquer outro desabaria de tão mamado. Mas você parece experiente, sabe o que está fazendo. Sempre teve o domínio da situação. Até que, bem, até eu lhe dizer que você é anão.

Anão sim, e daí? Anão ou não, sempre foi superior a essa gentinha normal que se diz gente grande, pais de família, filhos de Deus.

Ok, ok, eu entendo. De que adianta falar agora, não é? Sinto muito, estou sendo sincero. Na mesma hora saquei o tamanho da minha indiscrição. Saquei também que as consequências não seriam boas. Passadas as minhas gargalhadas solitárias, naquele silêncio que se fez quando a sua ficha caiu, restou aí meio homem. Todo mundo olhando para mim, todo mundo vendo em você apenas metade do camarada de sempre, metade do bom caráter, metade da alegria. A metade de tudo. E sorriso nenhum. Não havia sequer meio sorriso nessa sua cabeça avantajada, rá rá.

Não deveria ser um problema grande assim! Você precisava ser tão dramático? Depois que falei da sua condição, passou a ver tudo por outro ponto de vista. Nossa cidadezinha ficou maior, os objetivos ficaram mais difíceis de alcançar. Já não dirigia porque os pedais do carro ficaram distantes, e a visão do para-brisa comprometida. O computador parecia ter um teclado de piano, você acabou preferindo um tablet. Não apertava as mãos dos bacanas, não fechava mais negócios. As oportunidades passavam, você tentava correr atrás delas, mas seus passos eram curtos demais; você saltava, mas seus dedos eram curtos demais para agarrá-las. Que coisa triste, olha só, dá até uma vontadezinha de chorar. Tá vendo a lágrima? Aqui, ó, deixa eu abaixar para você ver melhor.

Você nunca me culpou, e por isso sou muito agradecido. Os companheiros agiram diferente, disseram que minha verdade bateu forte demais, que acabou botando para baixo toda a sua vontade de viver. Depois eles perceberam que eu estava mal e que o bar podia fechar. Quiseram reverter a situação. Disseram que era melhor assim, que era melhor você viver consciente da sua condição a se enganar para sempre, que uma hora ou outra você teria mesmo que descobrir. Acho que queriam me consolar. Ou queriam uma dose por conta da casa.

O que dizer a um anão que descobre, à meia idade, sua condição? Como consolar o coitadinho? Nascido de pais normais, veja bem. Nem podia ser acusado de filho do padeiro, não existe outro anão neste canto do mundo. Quiseram chamar você de filho do capeta, mas isso é baixo demais até mesmo para nós. Além do que, sabemos muito bem, não é só a estatura que faz um anão.

Me deixa triste é o jeito como aconteceu. Um dia você estava aí, empoleirado nesse banco alto, no dia seguinte já não estava mais. Disseram que você botou suas coisinhas numa mochila, montou uma totoca e pedalou na direção da cidade grande, onde alguém haveria de esticá-lo. Como puderam? Os bocós deram a dica na maldade, disseram que a medicina estava avançada, até corno se remediava, rá rá. O nanismo não seria um desafio tão considerável.

Outros contaram história diferente, disseram que você encolheu mais ainda de tanta vergonha e desceu pelo ralo do chuveiro, desceu pela privada, foi levado pela enxurrada. Tudo piada de mau gosto.

Prefiro acreditar em outra coisa, que ao menos tem jeito de meia verdade: você foi para a cidade grande, não foi? Me diga, o que aconteceu depois? Tantos anos se passaram! Quero ouvir as suas histórias sobre tudo o que viveu! Não ficou na outra cidade porque o esticaram, claro que não, mas porque no meio daqueles prédios gigantes todo mundo é anão. Não foi? Aquela cidade não tem a medida dos homens, ela é trocentas vezes maior. E depois, o que mais? Ninguém ali notaria qualquer diferença em você, não é?

Aliás, você percebeu como ninguém reparou na sua presença hoje? Só eu o notei. Senti sua falta. De verdade. Espero que tenha aproveitado bem e bastante. Tinha certeza de que você jamais voltaria para esta cidade enquanto vivesse, depois de tudo que passou. Mas quem diria que voltaria para cá depois de morto! Isso nem eu imaginaria, meu querido anão.

Por que você está me olhando desse jeito? Você sabe que morreu, não sabe?

*Este texto faz parte do meu próximo livro de contos, chamado Testemunho Ocular, a ser lançado ainda este ano.

domingo, 23 de abril de 2017

LEIA UM TECHO DE "POR QUE A LUA BRILHA"


Até onde vai o mito e onde começam os fatos? Costuma-se dizer que tudo teve início quando uma chama despencou do céu, abrindo imensa cratera com o impacto. Os homens primitivos chegaram ao lugar e depararam com uma menina feita de luz, que chorava lágrimas de cristal. Ela emanava pureza e inocência, envolvidas por uma aura branca que incomodava os olhos dos presentes. Todos estavam apavorados. Então a criatura ofereceu sua amizade e pediu apenas que levassem a solidão para longe, pois tinha muito medo dela. Assim, a primeira estrela a visitar a Terra foi imediatamente capturada.
      Encontramos uma estrela, depois encontramos mais. Havia aquelas que se pareciam com homens; outras tinham formas femininas e até alguns dos seus trejeitos. Sabemos hoje que existem também estrelas infantes e velhas, uma vez que elas crescem, desenvolvem-se e morrem como outro animal qualquer.
      Quando a tendência crônica das estrelas à derrota foi enfim revelada – ainda não se sabe exatamente como isso aconteceu, e mesmo as hipóteses fantasiosas são raras –, os homens da época compreenderam que aquela frágil criatura vinda do céu poderia significar uma grande evolução para a espécie. E eles estavam corretos. Existem teóricos que, inclusive, datam o início da História Humana como o Dia da Queda da Primeira Estrela, em afinidade com certas congregações ortodoxas.
      Teorias e mitologias à parte, resta o fato de que, num determinado momento, uma estrela jogou, perdeu e morreu. A comprovação científica foi saudada com seis prêmios Nobel, com destaque para o da Paz. Mas essa paz demorou a ser conquistada, exigindo dedicadas guerras ao terror. Porque a partir daquela descoberta fenomenal, diversos países se mobilizaram para capturar outras estrelas, aliando-se ao eixo Vermelho ou ao Azul, conforme as forças políticas predominantes. Cada risco no céu significava uma nova guerra no solo. Foram tempos sombrios, repletos de atrocidades, muitas das quais ainda tentamos superar.
      Poucas vozes se levantaram contra a condição de colonizados imposta àqueles seres; poucas vozes dispostas a sustentar qualquer tipo de aconselhamento astrológico depois que a realidade desceu à Terra e provocou de imediato uma verdadeira dialética do esclarecimento.

***

Por que a Lua brilha é meu primeiro livro publicado. Trata-se de um conto distópico, disfarçado de ensaio científico, que analisa pontos fundamentais da história entre os seres humanos e os fenômenos luminosos da Lua.

A tiragem é limitada a 100 exemplares, todos numerados e costurados à mão.

Encomende o seu no site da editora Cultura e Barbárie ou adquira a versão ebook para Kindle que acaba de ser lançada no site da Amazon.

sábado, 15 de abril de 2017

MAMA


E daí? Não vejo problema algum nisso. Eles gostam. Nunca houve unzinho que não gostasse na hora. Depois é que botam caraminholas nas suas cabeças, crescem e vão fazer análise sem nem mesmo ter certeza do que aconteceu. Ou como aconteceu. Não precisava ser assim. Porque eles gostam de verdade, meninos e meninas. Óbvio que gosto também. E você gostaria se largasse a hipocrisia de lado e experimentasse. Um pouquinho só que fosse. É muito doce. Inocente. Delicado. Não tem essa brutalidade toda dos adultos. Faço com carinho, afago a pele, penteio os cabelos. Faço sem pressa. Aqueles olhinhos curiosos me encarando. Tremulo toda vez como se fosse a primeira. Peço que me chamem por um apelido meigo, embora a maioria prefira ficar calada. Sem voz também é bom. Você sabe que não há idade para essas coisas. Minha mãe se casou com catorze anos. Cadê a lógica? Não tem. Lógico é gostar do cheiro da inocência, do jeito inseguro, da carne macia ainda intocada pelas neuroses todas da vida. Não tem como não amar. Tiro primeiro os sapatos, depois as meias, uma a uma, curtindo o momento. Não deixa de ser brincadeira. Adoro aqueles pezinhos rechonchudos, tenho vontade de morder. Toco cada um dos dedos e invento uma história engraçadinha para descontrair. Elas riem. A maioria ri. Digo que vamos brincar de outra coisa, puxo primeiro uma perna da calça e imitamos um saci, tiro depois uma manga da blusa e fingimos ser piratas manetas. Como o capitão Gancho. Vamos, assim, criando aventuras encantadoras, a imaginação delas é linda demais. Vai tão longe! A gente perde esse brilho quando cresce. Isso é cultural também. É o convívio social que bota maldade nas coisas. Que poda as asinhas. As coisas, em si mesmas, são puras. É a hipocrisia que destrói toda a beleza natural do ser humano, os gestos… É por isso que digo: não há problema algum nesse meu amor incondicional. Amor maior que eu. A princípio não há mesmo. Tanto que elas gostam da intimidade e da descoberta. Às vezes ficam um pouco assustadas, mas eu quase nunca as machuco, a não ser que elas mereçam. Há diabinhos, sem dúvida. Mas as angelicais são maioria. Passo minhas mãos calejadas por seus corpinhos inteiros, suas dobrinhas, meninos e meninas, tão iguais! Ficam paradinhos, imaginando o que vai acontecer, imaginando o que já está acontecendo, mas eles jamais chegam à verdade porque são inocentes demais para saber. Sinto a carícia profundamente. Pensar nisso me excita. Mesmo agora, só de falar, algo se movimenta dentro de mim. O sangue esquenta. O ventre se enche de vontade. A pele tensiona e arrepia. É uma delícia. Puxo-as para o meu colo, sinto os nossos corpos como se fossem um. Levanto minha blusa com delicadeza, convido-as a mamar. A brincar de mamãe e filhotinho. As boquinhas sem jeito me chupam os mamilos e gozam. Fecho os olhos e sou apenas mamilos. Então eu choro. Invariavelmente. Não houve uma vez sequer que não chorasse. Porque aquela sensação a traz de volta, reaviva a saudade enterrada tão fundo. Me faz lembrar demais do passado que nunca se foi de verdade. Eu choro. E peço. Eu rezo o tempo inteiro. Você vai dizer que não, todo mundo diz. Mas eu rezo o tempo inteiro. Eu peço com todo o coração. Que Deus a tenha, minha querida, minha vida. Que Deus a tenha.

*Publicado originalmente na Revista Ninhada nº 3.

domingo, 9 de abril de 2017

MEU PRIMEIRO LIVRO PUBLICADO: POR QUE A LUA BRILHA


Se você aguentou firme, cá está a segunda notícia literária que tem feito meu coração de escritor palpitar de alegria: meu primeiro livro acaba de ser publicado pela editora Cultura e Barbárie.

É um conto, disfarçado de ensaio científico, que retoma pontos fundamentais da história dos seres humanos e os fenômenos luminosos da Lua. Com intenção de avaliar as implicações culturais do projeto de Lei que visa apagá-la.

Você pode encomendar seu exemplar aqui: www.armazem.org

O livro ganhou uma linda edição artesanal de Marina Moros, foi impresso com sistema de cera sólida e costurado à mão. São apenas 100 exemplares e numerados. Verdadeira exclusividade! Então garanta o seu enquanto é tempo que eu prometo autografar quando a gente se encontrar.

Confira só as fotos que eu mesmo tirei. Dá para ter uma ideia de como o projeto gráfico ficou incrível! Logo mais eu publicarei um trecho do livro para dar água na boca.





sexta-feira, 7 de abril de 2017

TESTEMUNHO OCULAR GANHA PRÊMIO LITERÁRIO


Esta semana me trouxe duas excelentes notícias literárias. A primeira delas é que o meu projeto mais recente, que eu já tinha mencionado num post anterior, ganhou o 3º Concurso Lamparina Pública na categoria Prosa.

Testemunho Ocular foi escolhido entre mais de 400 inscritos e deve ser publicado ainda este ano pela editora Lamparina Luminosa.

 
É um livro pelo qual eu tenho o maior carinho. E espero que logo ele chegue até você. Pode deixar que avisarei assim que tiver novidades.

E a segunda grande notícia da semana? Essa eu conto nos próximos dias. Aguarde! ;)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

DESESCREVER

Planejar minuciosamente meus textos serve apenas para eu me certificar do que não escreverei, que será exatamente o conteúdo do planejamento. Porque, quando inicio a execução do projeto, uma frase descamba noutra qualquer, a terceira surge do nada para me surpreender, a quarta se improvisa, a quinta já nem sei qual é. Na medida em que vou desescrevendo o texto, ele me inscreve e circunscreve. Ao final resta um autor reconhecido por suas linhas tortas. Por seus escritos irreconhecíveis. Um autor meramente ilustrativo.

Texto vivo (2013/2014), de Ana Hupe

segunda-feira, 27 de março de 2017

UM HORIZONTE NO CHIANTI

O ônibus intermunicipal nos deixou na beira da estrada, numa espécie de vilarejo com casinhas e restaurantes típicos. Então seguimos a pé por uma via local, bastante estreita, que serpenteava morro acima em meio a parreiras secas e desfolhadas pelo inverno. Caminhamos sem pressa, não apenas por causa da subida acentuada, mas também porque era cedo e podíamos aproveitar a raridade daquela paisagem. De vez em quando, as plantações davam lugar a uma mata fechada, fria, onde vimos esquilos e pequenos lagartos, com tamanho de um palmo, esconderem-se sob a folhagem depois de nos espiarem. Ouvimos passarinhos ao longe, misturados aos sussurros do vento. Durante o trajeto, duas caminhonetes passaram por nós, indiferentes. Quase uma hora depois, chegamos ao castelo.

Quem nos recebeu foi uma funcionária muito simpática. Como era mais cedo do que a hora marcada, aguardamos num terraço com vista para o vale. No morro à frente, para além das parreiras, do outro lado do rio, podíamos ver um segundo castelo, também todo de pedra, vigilante. Ninguém mais chegou, assim iniciamos a visita, eu e minha esposa, acompanhados da mesma moça, que nos conduziu pelos jardins e pela história da propriedade. Como é praxe na Toscana, quase tudo ao nosso redor tinha pelo menos mil anos de idade, e não é difícil sentir o tempo adormecido nas paredes, nos objetos, na própria terra.



A família que habita o local se aventurou pela América do Norte no século XVI, na baía de Nova York, onde hoje há uma importante ponte com o seu nome. Trouxeram de lá três pedras, que foram chumbadas a uma torre. E em troca deixaram outras pedras, como sinal de boa-fé. O que mais negociaram com os indígenas? Nossa guia italiana não contou, talvez ela também só conheça essa versão da história. Fato é que a família retornou ao país de origem e ali ainda permanece.

Descobrimos que o castelo vizinho foi, durante séculos, um inimigo. A distância até ele já não parecia tão grande assim. Apoiava Siena e o Papa, enquanto o castelo em que estávamos era partidário de Firenze e do Imperador. Por diversas vezes, ambos os lados desceram suas colinas com armas em punho e fizeram guerra entre as parreiras. O sangue daquelas pessoas irrigou o solo e de alguma maneira continua a correr no Chianti.

Além do vinho, produz-se ali azeite de oliva e vinagre balsâmico. De tanto receber turistas estrangeiros, nossa acompanhante se atrapalhava com a própria língua e não se lembrava dos termos técnicos italianos que ela tanto repetia em inglês. Conversamos numa mistura de idiomas. Ela explicou que a propriedade tem centenas de hectares, porém apenas seis por cento são usados para plantação. E sorriu ao perceber que os números não nos surpreendiam. Os norte-americanos ficam indignados ao saber que a terra é “desperdiçada”, como dizem. Poderíamos plantar mais, multiplicar os lucros, ser uma potência econômica. Mas acreditamos que essa parcela é suficiente. Além disso, as florestas contribuem para a qualidade das cepas, tanto pela nutrição do solo quanto pela manutenção do meio ambiente, da fauna e da flora. A colheita é feita a mão, selecionando cacho por cacho. O que aconteceria se derrubássemos as árvores nativas para plantar apenas uvas e azeitonas? O que aconteceria se utilizássemos maquinário pesado para dar conta de tamanha produção? Soterraríamos mil anos de história em prol de um dinheiro de que não precisamos. E produziríamos um vinho artificial, de ambiente controlado, que a todo ano é idêntico ao da safra anterior. Sem personalidade. Então estamos bem como estamos, ela explicou. O que não significa teimosia. A todo instante experimentamos técnicas e plantas diferentes, criamos produtos novos. Só não abrimos mão é dessa ética na relação com a terra.

No topo do castelo, com uma panorâmica do vale ensolarado, com aquele silêncio profundo do campo, como poderíamos discordar?



Na sala onde o vinho repousa, vimos uma traquitana de vidro no alto de cada um dos imensos tonéis de madeira. Têm centenas de anos, explicou a guia italiana. É uma invenção de Leonardo Da Vinci, que controla as trocas gasosas entre o mosto em fermentação e o ambiente, sem deixar que o vinho estrague.

Conheço vinícolas do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Portugal, a maioria muito tecnológicas, e em nenhuma vi ferramenta tão rudimentar. A moça explicou que eles poderiam substituir aquelas peças de vidro por uma engenhoca high-tech. Mas elas cumprem o seu papel, funcionam tão bem quanto as mais modernas. Então não há motivo para aposentá-las.

Almoçamos no restaurante do castelo, que serve delícias da região, cozidas no fogão a lenha e acompanhadas de pão de grano duro e queijo de cabra. Provamos alguns dos seus vinhos, e, por experiência própria, garanto que nenhum é mais gostoso do que o bebido na vinícola onde nasceu. Não é à toa que cada produtor tem sempre o melhor vinho da região. E é verdade.

A caminhada de volta à estrada foi bem mais rápida e menos sinuosa, ajudada tanto pelo relevo em declive quanto pela refeição ébria. Aguardamos o ônibus por cerca de meia hora, pegamos o primeiro que passou, com direção a Firenze. Ele fez um caminho diferente na volta, atravessando outros vilarejos e dando a ver novos horizontes. A região nos pareceu ainda mais encantadora.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O INTERVALO MÁXIMO ENTRE OS TRENS É DE APENAS TRÊS MINUTOS


O xaveco começou na facul, os amassos foram na plataforma do metrô. Composição querendo entrar no túnel, mãos baldeando aqui e ali, línguas se apertando uma contra a outra. Ambas a favor. Não tem erro, bora lá! A parada seguinte foi a decisão de ter ou não ter a porra do bebê. Descarrilamento, trágico acidente. Minha mãe vai me matar! Que merda, você tem certeza? Não tenho de nada. É a solução, tamo junto. Conheço um médico, ninguém vai saber. Por que com a gente? Apagou a luz, problemas técnicos, morro de medo de ficar preso e ter que andar na linha. Mais uma estação e a família dela começou a falar em casamento. Foi combinado, só pode. Que enrolação é essa? Todo mundo casando, percebe? É a fase, só você não vê. Não estou pronto. Ano que vem, ano que vem. Pronto, foi lindo, feitos um para o outro. Até que a morte os separe. Pode parar, quero descer, eu não mereço isso. Crise dos sete meses à puta que pariu, chega, cansei. Vai desistir? Covarde! Não sou! Um segundo antes de apertar o botão de emergência ela diz que está grávida. De novo? De novo. Sério mesmo? Sério. Entendi. Achei que ia ser difícil, depois daquilo tudo. Eu tive medo de nunca ter filhos. A melhor coisa que aconteceu na minha vida, duas mulheres comentam naquele banco lá longe e eu consigo ouvir daqui. Será? Aviso dado, a próxima estação é a minha. Para que festinha em buffet?, o moleque ainda nem sabe andar! Não pode passar em branco. A gente aperta e vai nesse mesmo, anda logo, não temos tempo a perder. Um casal! Que maravilha. Para ter a experiência dos dois. É. Que cheiro horrível, tá sentindo? Passa rio aí embaixo? Alguém saiu de casa sem tomar banho, como consegue? Ah, já esqueceu como troca fralda? Logo agora que me livrei de um, começa a outra? Vai lá que é a sua vez, me deixa tirar um cochilo que tô precisando. Desculpe, por favor, esta linha passa na escola? Que formatura mais bonitinha, mamãe até chorou. Agora vai pra escolinha de criança grande, tá? Não chora... Saudade do tempo em que a gente podia viajar, descer no Jabaquara, pegar ônibus pro litoral. Com que dinheiro? Nunca fizemos isso! Mas a gente podia, se quisesse. Não tinha nada que prendia. Não me arrependo de nada. Parece bobo dizer, mas não me arrependo. Amo você. Vamos dar uma volta, só nós dois hoje, a gente merece. Jantar romântico, depois cinema? Não podemos demorar, meus pais dormem cedo, temos que pegar as crianças. Não se preocupe, só tem metrô até meia-noite.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

QUE LEITURAS DAREMOS ÀS CRIANÇAS DESTE SÉCULO?

Numa oficina de criação literária, fui pego de supetão pela pergunta: que livro marcou a sua infância? Minha reação foi exatamente a mesma de todas as vezes em que me perguntam “Qual é o mais?” ou “Quem é o melhor”? Eu travei. Uma tormenta de títulos chacoalhava meu bote, até eu naufragar em paz, sem cometer a injustiça de salvar apenas um dentre os meus adorados companheiros. Foram diversos, desde enciclopédias à coleção Vaga-Lume, desde contos de fada aos personagens do Maurício de Sousa. O sentimento provocado por aquelas leituras ainda pulsa, mesmo sem que eu consiga lembrar os detalhes de cada uma. O menino maluquinho, O casamento da bruxa Onilda, O escaravelho do diabo, As viagens de Gulliver, as Fábulas de La Fontaine, os casos de Sherlock Holmes, o Almanaque Abril, Romeu e Julieta interpretados por Mônica e Cebolinha, Os meninos da Rua Paulo, Os saltimbancos. Até mesmo a saga de Harry Potter, que li poucos anos atrás, me fez avivar a faísca distante da infância. Foi também adulto que visitei o edifício Martinelli, no centro de São Paulo, e a todo instante pensava em O último mamífero do Martinelli, história que, quando criança, me deixou de olhos arregalados durante a madrugada. É por esse motivo que, quando nasce um bebê na família, e ao longo dos seus aniversários, eu dou livros de presente.


Fico abismado com a quantidade de brinquedos da meninada. Em uma única festa, meus sobrinhos ganham mais do que eu tive durante a infância inteira. Ganham também algumas roupas. E nenhum livro. Para mim, a balança está desregulada.

Convém esclarecer que, mesmo trabalhando como escritor, sou bastante cético – não penso que livro é melhor do que brinquedo ou que é a salvação da humanidade. Pelo contrário, o livro precisa ser como um brinquedo, ou seja, um objeto com o qual a criança interage e por meio do qual acessa um universo de imaginação. Se não é um objeto sagrado, tampouco deve ser colocado em termos de finalidade, como se a criança fosse obter dele um benefício pré-estipulado... Sabe aquele papo de ler para ficar inteligente, ser aprovado no vestibular e se destacar no mercado de trabalho? Dá arrepios só de pensar. Prefiro deslocar a leitura desse lugarzinho medíocre, dito “meritocrático”, criado pela ansiedade capitalista. Presenteio com livros porque sou apaixonado por histórias e pelas lembranças que algumas me trazem, e desejo proporcionar a alegria de ler pelo prazer da leitura, assim como se brinca pelo prazer da brincadeira. E tudo bem se algumas crianças não gostarem. Nem todo mundo precisa gostar. Embora todos deveriam ter acesso e oportunidade de escolha.

A propósito, o livro infantil está repleto de preconceitos. Cecília Meireles já alertava, no fim dos anos 1940: “Se bem que dirigido à criança, é de invenção e intenção do adulto. Transmite os pontos de vista que este considera mais úteis à formação de seus leitores. E transmite-os na linguagem e no estilo que o adulto igualmente crê adequados à compreensão e ao gosto do seu público”. Por mais que se queira evitar a “formação” – no sentido pejorativo do termo, que pretende modelar a partir de uma forma domesticada –, o livro infantil será ainda invenção e intenção do adulto. Assim como as roupas, os brinquedos, a escola... Não há escapatória. Haveria apenas um atenuante, sugerido pela própria escritora: oferecer livros variados e deixar que a criança selecione os seus favoritos. Ela amará uns, não dará bola a outros, conforme dialogarem com as suas questões, interesses e curiosidades. Com a abordagem adequada, todo assunto vale. Melhor ainda se esse objeto comum contar histórias estranhas, de maneira que não apenas reproduza os valores da sociedade atual. Mais ou menos como afirma a própria Cecília Meireles, adiantando em meio século uma ideia agambeniana sobre a contemporaneidade: “Nem há que temer o livro impróprio senão quando se apresenta como um potencial arrasador, difundido com veemência, e tão ajustado à época que a produz como se fosse o seu evangelho”.

Qual, entre as nossas crianças, não vive capturada pelos vícios da atualidade? Afluxo de imagens, convivência digital, merchandising... A sabedoria das narrativas vai sendo substituída pela demasia de informações meramente ilustrativas. Ficamos pobres em experiências, iludidos por um conhecimento que é somente casca; opinamos sobre tudo, somos donos da verdade porque temos argumentos, em geral, clichês, pré-programados e repetidos aos berros, como fazem os papagaios. Enquanto a arte da narrativa, justamente, quer evitar explicações. Ela se faz no registro da sensibilidade, não apenas no da razão.

Cecília Meireles defendia que, para suprir a falta das histórias compartilhadas nas conversas de família, podemos criar bibliotecas de livros infantis. Claro que uma coisa não substitui a outra. Ter livros à mão é fundamental, porém não é suficiente. Eu cresci encantado pela biblioteca de uma tia, organizada numa estante em seu quarto. A maior quantidade de livros que eu via, reunidos num mesmo lugar. Além da coleção, eu via essa tia e também minha mãe lendo toda vez que tivessem oportunidade. Elas conversavam sobre livros e liam para mim. Me deixavam folhear as páginas, mesmo que não houvesse ilustração, mesmo que eu não tivesse aprendido a ler. Foi essa proximidade que me abriu as portas da literatura.

Fico por aqui, com uma última consideração de Cecília Meireles, que confirmei na prática: além da decodificação dos signos linguísticos, “é preciso que a criança viva a influência da leitura, fique carregando para sempre, através da vida, essa paisagem, essa música, esse descobrimento”.

Passadas três décadas, os livros da minha infância ainda ressoam em mim. Por isso, tenho certeza de que o questionamento deixado pela nossa escritora, lá nos anos 1940, permanece imprescindível: que leituras daremos às crianças deste século?

domingo, 22 de janeiro de 2017

TESTEMUNHO OCULAR


Estou muito feliz neste final de semana, pois consegui terminar meu novo livro de ficção, uhuu! Que por enquanto tem este título, Testemunho Ocular. São 26 textos no total, além de uma espécie de prólogo. Alguns são curtos (o menor tem 4 linhas), outros são mais longos (o maior tem cerca de 10 páginas em formato A4).

(Bateu uma curiosidade? Clique para ler o conto Descoberta, que faz parte da coletânea.)

Os 27 textos foram finalizados ontem. Então começou o difícil processo de estabelecer uma ordem para eles


O livro investiga certos aspectos da realidade contemporânea, em que o regime de visualidade predomina, e tudo parece exposto, revelado, evidente. Esta realidade das câmeras, dos compartilhamentos de intimidades, do ver para crer. Os textos tentam colocar isso em questão. Não de maneira opinativa, mas como provocações literárias. Eles também tentam encontrar brechas para o obscuro, o não dito, o incerto.

Não à toa, apresentam alguma estranheza, que nem sempre é fácil identificar. Às vezes a estranheza parece absurda, outras vezes ambígua ou misteriosa. Mas a inquietação é sempre a mesma: o que está dado a ver? O que permanece apenas entrevisto? Que tipo de dependência temos da imagem? Que verdade é essa que a imagem quer nos revelar? Até que ponto podemos acreditar nela?

Muito bem, muito bem. Então o livro está pronto? Que nada! Agora chegou a hora de pedir para os amigos mais próximos lerem. Depois de algumas conversas, revisões, modificações, mais conversas, incertezas, vontade de jogar tudo fora, calma, angústia, indiferença, revisões, modificações, palavrões etc., vou atrás de oportunidades de publicação. Será que demora? Sempre!

Tudo bem, faz parte. Espero que eu volte a falar dele aqui assim que possível.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

DESCOBERTA

Você desliza a palma da mão pelos ombros, como se eles a convocassem. Encontra de imediato aquele ponto de descamação na pele. Que injusto!, você pensa. Nem abusou do sol, como costumava fazer na adolescência! Usou filtro de fator cinquenta, reaplicou-o a cada duas horas, fez o que pôde para evitar manchas, alergias e envelhecimento precoce. Com pele clarinha não se pode bobear. Ainda assim... Você não se conforma, mesmo que seja uma descamação discreta, o que os outros vão pensar? Talvez uma boa lambuzada de Victoria’s Secret faça-a parar por aí. Que nada, você se engana, sabe muito bem que, uma vez rompida, toda aquela camada de pele precisa ser removida para dar lugar à nova, que vem de baixo, vem de dentro de você. Então não se acanhe, aproveite. É uma verdadeira realização puxar as pelezinhas que vão soltando como folhas de papel arroz, tão finas! A pele nova será melhor, mais forte e mais saudável. Você olha no espelho e lá está, já consegue vê-la, uma pequena superfície negra debaixo da sua pele branca mal cuidada. Enfia a unha nas bordas e levanta aos pouquinhos para não se machucar. A brancura exaurida se solta, as sardas se vão, aquelas pintinhas vermelhas que herdara de uma tia distante. A pele que se revela é negra e luzidia, tem brilho de ouro. A fissura se expande para o pescoço, você continua a puxar, está curiosa e também um tanto ansiosa para saber o que lhe aguarda. As dobras da orelha exigem certo cuidado. Por vezes a pele branca se rompe e você precisa reencontrar a ponta, como acontece, por infortúnio, nos rolos de fita adesiva. Com o atenuante que, no seu caso, as camadas não são transparentes, quase invisíveis; a que se vai é branca, a que surge é evidentemente negra, são fáceis de identificar pela diferença.

Julian Paulo Rodrigues

Você descobre, soterrado, certo orgulho pela nova pele, algo meio inexplicável ainda, que se manifesta como um sentimento de ancestralidade. Como se essa pele estivesse sempre com você, esperando ser descoberta. Seus olhos mudam de cor, a película que os recobria era fria e gelatinosa. O caramelo esverdeado se foi, no lugar as íris petroleadas são profundas e convidativas, são tão sensuais que você tem o desejo de mergulhar e se perder nos próprios olhos, como se fosse possível adentrar o espelho. A bochecha se estica e, como uma onda no mar, avança até o interior da boca; os lábios finos e pálidos dão lugar a outros, graúdos e úmidos. O nariz adunco ganha sinuosidade. Os cabelos claros, ressecados pela tintura, vão sendo descamados também, e no lugar se armam mexas volumosas, brilhosas e perfumadas. Você afunda os dedos nessas mexas e descobre um universo encantador, uma maciez que não se entrega fácil. Seu perfil já é todo negro. Você vira o rosto de um lado para o outro no espelho, apalpa, joga o cabelo para cima. É isso mesmo. Negra.

Agora falta o restante do corpo. Puxa a pele pescoço abaixo, o outro ombro empretece também, você se lembra daquele picolé minissaia e ri consigo mesma. Chocolate em cima, morango embaixo. As camadas de pele clara se acumulam aos seus pés e, meio translúcidas, lembram vestígios da cobra que cresce e já não cabe em si. A pele retesada dos seios deixa ver maior volume, e mamilos escuros, cor de vinho, intumescidos. Você se excita com a descoberta de si mesma. Desce pela barriga, contorce os braços para arrancar a brancura das costas sem rasgá-la, fica com uma espécie de saiote pendurado na cintura enquanto afaga a lisura da noite, sem pelos nem pintas. As mãos deslizam com suavidade e você poderia se acariciar para sempre, acaso dominasse a curiosidade de descobrir o restante. Não consegue, é a ansiedade que a domina, então você continua a revelar-se, desce a cintura e dá a ver as coxas como se enrolasse para baixo uma meia-calça usada. As nádegas são tão escuras como todo o corpo, não têm necessidade alguma de marcas de biquíni, elas são curvilíneas em si próprias. Os pelos do púbis encrespam e rareiam, as mãos deslizam pelas pernas como em tobogãs e puxam a pele frouxa joelho abaixo.

As curvas dos calcanhares são mais difíceis. Eventualmente algum pedaço se rompe e você precisa retomar a ponta, tudo bem, o que parece uma falha é na realidade a sola dos pés, mais clara do que o peito, não por isso menos negra. Sem dúvida existe um negrume naquela brancura, enraizada nos vincos, nas dobras, nas ranhuras contornadas entre os dedos do pé, nas unhas, nas cutículas.

Faltam apenas os braços, que ficaram esquecidos enquanto eles próprios revelaram o restante do corpo. Com a mão direita você tem mais dificuldade, acaba por se descobrir canhota, como é possível uma coisa dessas? Como nunca percebeu?

Puxa de uma só vez a pele inteira do braço, arranca a brancura ressequida dos cotovelos, admira os antebraços, livres das irreversíveis marcas do tempo. Agarra toda aquela camada com a outra mão e a puxa devagar para o alto, até revelar dedos de dorso escuro, e claros no lado da palma.

Você joga ao chão a pele que já não serve mais e coloca as mãos lado a lado, comparando-as. Uma é negra como a noite, a outra é branca como o dia. O sol agora se põe, é hora da escuridão chegar de uma vez por todas, sem timidez.

Então você termina o que começara meio sem querer. Será que não queria mesmo? Que receio a impedia? Lembra da pele branca como uma fantasia, na qual suas curvas e volumes cabiam mal, causavam desconforto, e entre outras mulheres você parecia sempre eclipsada.

Por instinto você lambe os braços e antebraços, sente o gosto puro e verdadeiro de si mesma. Percorre com a língua toda a superfície da pele, os cantos desconhecidos, as texturas. E como uma pantera você se sente limpa e poderosa.

Leva as mãos às narinas, fecha os olhos e sente o novo cheiro, o perfume almiscarado que seu colo, pescoço e cabelos exalam naturalmente. Uma fragrância doce e sedutora, muito mais sincera do que a doçura artificial da Victoria’s Secret. Sem qualquer segredo oculto, muito pelo contrário. Inteiramente revelada.

*Este conto, publicado no Correio Popular, faz parte do meu livro Testemunho Ocular, que ainda está em fase de leitura e revisão. Gostou? Clique aqui para saber um pouquinho mais do projeto.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

ETERNIDADE

Aos trinta e dois anos de idade, não tenho mais avô ou avó. Essa frase seria um bom início de conto, pois só é verdade no sentido da fabulação. A realidade é que carrego meus avôs e avós junto comigo; estão vivos em mim. Se acredito em alguma vida após a morte é nesta: a vida que se dissolve em outras, que toma nova forma para permanecer existindo. Dezenas, depois centenas, depois milhares de dissoluções naqueles que nascem, até que perdemos a conta e passamos à eternidade. Passar à eternidade significa permanecer a existir em infinitos outros.

Carrego comigo não apenas parcelas dos meus avôs e avós, mas também os ascendentes de gente que sequer conheci. Que se legaram à posteridade e hoje constituem o eu, o eles, o nós. Por vontade própria ou contra a própria vontade, com ou sem intenção de deixar heranças boas e ruins, sempre boas para uns e ruins para outros. Já não lembramos deles de tanto que se pulverizaram sobre o campo fértil da humanidade; a cultura em que fui cultivado.

Lembro bem apenas dos mais próximos, na medida em que é possível lembrar bem de algo. Porque na maior parte do tempo lembramos muito mal. Avivamos uma cena, um cheiro, uma frase, um beijo. E nos iludimos com esse pouco, acreditamos assim lembrar muito bem daquele passado que hoje é uma reminiscência. Não lembro bem porque meus avôs e minhas avós não cabem na memória, eles foram muito maiores, mais complexos e mais vivos do que qualquer memória poderia guardar, inclusive a deles mesmos. Quem dera a minha pudesse!

Também as lembranças são verdade apenas para a fabulação. Ou, melhor dizendo, elas são fabulações enquanto as consideramos verdadeiras. Tudo o que trazemos na memória tem algo de inventivo. Um recorte do passado, uma narrativa, uma ficção feita de substantivos, adjetivos, imagens e afetos. Existiu de fato? Impossível afirmar. Mas agora existe, pois me recordo. Existe numa forma outra. Existe enquanto parte de mim. Parte que trago comigo, inclusive as lembranças que não são minhas, as memórias compartilhadas em volta do fogo, ao redor da mesa; um saber ancestral.

Sou uma tartaruga que carrega no casco a memória da terra. Ao mesmo tempo em que pisa a terra, ao mesmo tempo em que habita a sua própria casa que não é a terra mas dela se originou e a ela voltará um dia, como se um incrível paradoxo conectasse a nós todos. Voltaremos um dia à terra onde nascemos. Mas hoje não. Hoje a tartaruga não se lembra muito bem. Apenas algumas cenas se apresentam a ela.

Lembro-me de meu avô, que se sentava no sofá com um volume de enciclopédia sobre a fauna do mundo. Apontava os animais coloridos nas páginas e contava suas histórias. O rinoceronte, o lince, os pássaros todos; sim, ele era apaixonado pela liberdade dos pássaros. Ainda muito pequeno, recém-saído do ovo, aprendi a ler a vida naquelas fotografias fantásticas. Mesmo sem compreender uma letra sequer.

Essa mesma tartaruguinha se lembra do outro avô, forte como uma árvore. Seus bracinhos não bastavam para contorná-lo, suas patinhas não se encontravam do outro lado. Seu rostinho se perdia naquele tronco tão antigo, que cheirava a sabão em pedra. Que tinha uma textura áspera de algodão muito usado e muito lavado. Esse avô sentava-se na escada do quintal, onde picava fumo numa lata tão enferrujada quanto o hábito. Demorava-se na tarefa, a tarde inteira se fosse preciso. Era também tartaruga, sem pressa nem ansiedade; era sábio porque vivido. Depois lambia a seda, enrolava o cigarro e tragava uma fumaça acre que jamais poderia lhe fazer mal, tão lindo aquele rito.

Das avós a tartaruguinha lembra mais e melhor. Uma delas fazia farofa e se atrapalhava toda na cozinha, comprava presentes na feira e se atrapalhava toda nos tamanhos; os médicos diziam que seu sangue ia mal, ela se atrapalhava na dieta. Porém tinha bom coração. Fazia a família rir e ria junto, estourava numa gargalhada saudável que curava todo o restante. E seguia feliz da vida, mesmo sem jamais ter ganhado na Tele Sena.

Essa avó teve um cunhado de quem gostava muito. Ele havia casado com uma das suas irmãs. Depois de viúvo, casou-se com outra. Faleceu no mesmo dia de minha avó, e ambos me deixaram essa história incrível do homem que se casou com duas irmãs e foi-se embora com a terceira.

Restou a última vovó. Que era ligeira, inquieta, estava sempre de ouvidos atentos às novidades da tartaruguinha. Decidiram viajar juntos para desvendar as origens da família. Todo aquele esforço, todo aquele passado revisitado foi necessário para compreender que a origem é pura fabulação. A família se fazia ao longo dos dias, das trocas, da própria viagem. Nos pés inchados pelas caminhadas, nos castelos antigos tanto quanto nas ruas mais modernas, no pêssego mais gostoso que já foi partilhado um dia. Na satisfação de viver uma experiência junto de quem se ama. Nos encontros, no prato favorito, na vontade de que tudo jamais termine. Nas histórias que se pode contar. Nos gestos que repito e só então percebo como somos parecidos.

As lembranças são várias, ainda que insuficientes. São o que resta, afinal. Jamais trarão de volta os vovôs e as vovós da tartaruguinha, por mais intensa que seja a memória, por mais intenso que venha o desejo. Ainda assim as lembranças pulsam, sugerindo que todos eles sobrevivem em mim. As lembranças preenchem o vazio. Ao ponto de que neste casco não haja solidão.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

TODO OUVIDOS


Fico intrigado ao ver tradutores de libras num show de música. Bem ali no palco, ao lado do Nando Reis. Não entendo os sinais, que às vezes se assemelham a uma palavra, outras vezes parecem uma dança. Como funciona essa linguagem? Traduz algo além dos versos e eventuais comentários do artista? Será que dá sugestões do som? Tais sugestões fariam sentido a alguém que nunca ouviu, portanto não tem referências para entendê-las? Não tenho amigos nem parentes surdos, sou leigo no assunto. Sentado na plateia, observando aquelas pessoas se desdobrarem em gestos que nada dizem para mim, fico a pensar um amontoado de questões.

A mais evidente delas é: por que um deficiente auditivo viria a um show de música? Não se trata de um espetáculo pirotécnico, não há quase nada interessante para ver. Há o Nando Reis e o seu violão. E só. Quero acreditar que o tradutor não está ali obrigado por uma lei esdrúxula, gesticulando para ninguém. Quero acreditar que está li porque existe demanda, ou seja, porque os surdos frequentam shows de música e devem ser acolhidos conforme for mais conveniente a eles. Se essa conveniência inclui a libras, que seja a libras.

Agora, se os surdos vão aos shows apesar de seus ouvidos não perceberem a sonoridade, será que “ouvem” de alguma outra maneira?

Presto atenção às vibrações produzidas pelas caixas sonoras. É alta e faz tudo vibrar junto, o copo em minha mão, a poltrona, o ar. As ondas reverberam na pele, na carne, nos ossos. Além da música tocada, há essa música que nos toca, como se fôssemos seus instrumentos.

Observo a plateia, imaginando uma imensa orquestra a produzir música em seus próprios corpos, cada qual com seu timbre singular. Entretanto o que vejo não são instrumentos nem ouvidos, mas celulares. Centenas de telinhas brilhantes a competirem com as luzes do palco. Tenho assim a segunda revelação da noite: estes espectadores, tanto quanto os deficientes auditivos, ouvem mal, talvez nada ouçam com os seus ouvidos. Talvez ouçam com os olhos, através da tela. Fotografam, gravam, postam imediatamente nas redes sociais. Quem é surdo, afinal? Quem não pode ouvir ou quem pode mas não ouve realmente, ocupado que está com os olhos, os dedos, a comunidade digital?

Neste momento Nando Reis se distanciou, preciso fazer um esforço para reencontrá-lo. Fecho os olhos, procuro, sim, aqui está ele, dedilhando o violão, cantando no tom.

Lembro das minhas próprias aventuras musicais, tocando contrabaixo com amigos num estúdio, pura diversão. Quem tem ou já teve banda sabe o que digo a respeito de uma qualidade chamada entrosamento. Para a qual não há explicação lógica, é uma espécie de sentimento coletivo que produz um dissenso harmonioso, com notas diferentes que por alguma desrazão torcem o tempo. É uma qualidade que possibilita antecipar o movimento do colega, oferecer suporte para que tal movimento se realize ou apoiar nele a sua própria ação, conforme o andamento da música.

Todos os membros da banda podem tocar as notas certas no momento certo e ainda assim não estarem entrosados. Nessas horas a música soa correta, porém sem cor. O entrosamento de uma banda soa diferente. Como uma tessitura irregular que se adapta às imperfeições do espaço. Quando a banda entra em sintonia, a música atravessa o corpo de todos; ela é mesmo incorporada, ou seja, expande-se para além dos ouvidos, da racionalidade das escalas, da teoria e do metrônomo; ao ponto de ser tocada pelo corpo inteiro da banda e por reger o corpo de cada músico individualmente. Quem tem ou já teve banda sabe o que eu digo. Quem nunca teve talvez não entenda. Não é fácil por em palavras. É uma espécie de sensação que precisa ser experimentada.

Ouvir a música apenas com os ouvidos e tocá-la apenas de acordo com os ouvidos, obedecendo à matemática musical, rende um som artificial, quase uma aberração mecânica. Você pode tocar o instrumento com perfeição técnica, porém sua música não tocará ninguém. É preciso avançar esse estágio se quiser ser um músico que toca as pessoas, mais do que toca o próprio instrumento; é preciso sentir a música como uma entidade que o envolve por completo, que para o tempo e coloca você em afinidade com um presente contínuo. Todo o tempo da vida está naquele instante. Suponho que seja por esse motivo que as horas voam quando fazemos música.

Nando Reis pausa o violão e diz que tem um irmão surdo. Que nasceu sem audição e não aprendeu a língua dos sinais; ele lê os lábios. As pessoas ao meu redor tiram fotos e gravam vídeos e compartilham suas imagens nas redes sociais enquanto o músico conta suas histórias de juventude. Eu fico curioso, imaginando como deve ser, para um artista famoso como ele, crescer na companhia de um violão e de um irmão surdo. Como será que essa experiência afetou sua obra? Que Nando Reis é esse que somente aquele irmão ouve? Qual é a semelhança e a diferença entre ele e esse outro Nando Reis que nós ouvimos, fotografamos e compartilhamos? Será que o irmão toca algum instrumento musical? O que será que os deficientes auditivos da plateia teriam a dizer, que histórias teriam a contar? Eu adoraria conhecê-las.

Outra canção já começou e eu nem mesmo percebi.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

EXTRAORDINÁRIO


Vai ficar um troço extraordinário, dizíamos a nós mesmos com a convicção explosiva das crianças. Tínhamos acabado de aprender o adjetivo. A ideia nos instigava a continuar. Uhuu! Demais! Já pensou como será quando terminarmos? Tudo vai ser diferente. Quero ver quem terá coragem de tratar a gente desse jeito de novo. É, vão nos respeitar! Os adultos vão nos respeitar. E não só eles. Aqueles folgados do colégio vão ajoelhar e beijar nossos tênis. Seremos famosos no mundo inteiro. É!

Nós passávamos o tempo todo trabalhando na ideia. Desenhávamos durante a aula de português, trocávamos bilhetes codificados na aula de geografia, matávamos a aula de química para não perder o fio da meada. Química era, na verdade, grego. E continua a ser. A professora de artes gostou da ideia e nos ajudou em algumas etapas, mas é claro que não revelamos para ela as minúcias. Os nossos segredos supersecretos. Não éramos crianças estúpidas assim. Aquele era o grande projeto das nossas vidas. Incrível! Gigante! Um troço extraordinário! O mundo inteiro ia ver, cada país de cada continente ouviria falar de nós. Apareceríamos na televisão! Nem mesmo uma guerra conseguiria nos impedir.

Só fazíamos uma pausa para a educação física. Porque, bom, a gente jogava bola, era divertido. E todo gênio precisa de um descanso mental. Após três ou quatro partidas na quadra da escola, reuníamos a turma novamente para planejar os passos seguintes. Ninguém poderia descobrir, então cuidávamos para afastar os espiões com bexigas cheias de água da privada. Era um planejamento complexo. Desenhávamos cada detalhe numa cartolina branca, que emendávamos nas demais e pendurávamos com fita crepe nas paredes do quartinho de bagunça do Cabeça. Os pais dele nunca entravam lá, só a faxineira, que era nossa cúmplice. Assim o projeto estaria seguro.

Não vou dizer que foram só maravilhas. Às vezes custávamos a chegar num acordo. As assembleias do conselho duravam horas. Houve também questões resolvidas no tapa. No par ou ímpar. No campeonato de pum. Cada assunto demandava um método específico, bolacha Maria e leite com chocolate.

No meio do processo o Biró se afastou por um tempo, disse que não queria mais saber daquilo, não concordava com o jeito como conduzíamos o projeto. Muita pressão, coitado. Nossas expectativas eram altas. Ele queria mudar de assunto, fazer algo diferente, para variar. Mas nós queríamos continuar, então ele tocou a campainha uns três dias depois, contou que seus pais iam se separar e retomou seu posto na missão. Vai ser um troço extraordinário, gritamos juntos para selar o pacto. Biró engoliu o choro. Seu papel era fundamental na execução do plano, ele era o mais alto da turma.

Dediquei as férias de julho daquele ano ao projeto. Meu pai procurava trabalho, e mesmo quando os amigos viajaram eu continuei empenhado. Achei bom fazer sozinho, era mais fácil quando não precisava debater cada detalhe com a turma ou decretar questão de ordem a cada cinco minutos porque o assunto descambava mais uma vez para as figurinhas raras do Campeonato Brasileiro. Eu conseguia até jogar videogame nas horas vagas. Porém meu desempenho era apenas razoável, com aquele monte de coisas me atazanando a cabeça. Seria melhor ficar com a ideia só para mim? Os outros me odiariam se eu ficasse famoso sozinho? Dariam uma surra? Quem precisa de amigos que batem nos outros amigos? Se eu não roubasse a ideia, eles continuariam meus amigos para sempre? Assim me esquecia por completo das tarefas da escola, o que minha mãe fez questão de sublinhar quando sentenciou o castigo. Tudo bem ficar sem televisão, tudo bem fazer toda a lição das férias em apenas três dias, era por uma boa causa. Eu estava trabalhando no grande projeto da minha vida. Um dia ela entenderia. O sacrifício valeria a pena.

Eu dizia que nem tudo eram flores. Nosso troço extraordinário sofreu uma concorrência desleal no segundo semestre escolar, quando parte da equipe trocou as figurinhas de futebol por meninas do colegial. Não conseguiam falar de outra coisa, as hipóteses eram diversas, ficou impossível manter o foco. Percebi na hora que vivíamos uma crise. Eu quis me adaptar, sem saber direito como, então chegaram as provas parciais, os jogos interclasses, a feira de ciências, as provas de fim de ano, a recuperação, o Natal. Foi difícil. Com a saúde bastante debilitada pelo excesso de inconvenientes, nosso troço extraordinário não sobreviveu às longas férias de verão.

Seria um negócio como nunca visto! Talvez nos faltasse experiência para gerenciar um empreendimento daquele porte; talvez faltasse maturidade, como meus pais repetiam a todo instante. Talvez o troço extraordinário fosse, enfim, um pouquinho impossível, mesmo para nós. Não sei. São tantos imprevistos que atravessam o caminho das ideias mais incríveis! De tanto desviar, em algum momento nos perdemos.

Como seria quando terminássemos? Eu sonhava com esse momento. Depois pensava apenas em terminar. Depois planejava fazer, nem que fosse um tantinho por dia. Até que eu só me dedicava a tarefas mais urgentes, estava imerso nos outros projetos que o mundo tinha preparado para mim. Não havia mais tempo para o nosso troço extraordinário. Impossível, eu dizia, agora não tenho a menor condição! Todas as pessoas iriam me respeitar. Eu seria reconhecido, tudo ficaria diferente. Ninguém me trataria desse jeito. Nada seria banal, tudo seria grandioso. Muito bem, o que aconteceu? Sinceramente, não sei. Hoje é difícil explicar.

sábado, 8 de outubro de 2016

VOO NO ZOO


Entre escaravelhos, cronópios e bumbam meus bois, entre macunaímas, utopias e botos cor de rosa, havia aquela girafinha. Sim, eu a via. E ela voava! Baixo para uma girafa, alto o bastante para uma girafinha. Toda aquela liberdade frouxa nos céus! Coisa bonita de se ver, a girafinha. Depois pousava no galho. Bem ali, naquele galho, é. Entre gatos pardos e folhas de relva, entre nenúfares e tritões. Tantas árvores frondosas dentro da sua jaula e ela preferia a menor, mais próxima das grades de aço, de onde esticava a cabeça e comia amendoins nas mãos dos visitantes. Toda a gente de bem. Os cidadãos e citadinhos. Tinha o jabuti, o rinosoro, o macaco prego. Tinha a girafinha, coisa linda! Voava, pousava, comia os amendoins. Mascava junto uns dedinhos, os visitantes nem faziam questão, a gente boa. Croque croque, monsieur; croque croque, madame; croque como o crocodilo faziam falanges e metacarpos na mandíbula da girafinha. Que língua enorme!, admiravam-se os puritanos. Que esfomeadinha! Quando a família notava os cotoquinhos restantes na mão direita do papai, na mão esquerda da mamãe, nas mãos conjuntadas dos filhotinhos, todos achavam graça, riam das travessuras da girafinha. Ela voava de alegria. Passava o dia a exercitar sua liberdade assistida no zoo-safári. As famílias, fiéis, voltavam sempre. Pois adoravam esticar amendoins para dentro da jaula e alimentar a girafinha, mesmo que a maioria caísse por entre os dedos que já não existiam. A girafinha tinha um longo pescoço para alcançá-los no chão. A cada dia sua vivacidade era maior e maior. A cada dia voava mais e mais alto, mais alto do que as árvores, mais alto do que as grades de aço. O que nos deixou senão o vazio?

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

PARTO



Close nos olhos de uma menina (ver cena inicial do filme Kill Bill vol. 1). O plano se abre e temos um revólver apontado para a cabeça dela. Calibre .38. Tanto a arma quanto a menina são as mesmas que aparecerão no final da história. Há um disparo. Miolos coloridos voam.

O nascimento traz muitas mortes consigo. Talvez o nascimento seja a morte em si. Sua essência. É bobagem falar de essência, eu sei. 'Cause we're living in a material world / And I am a material girl. É bobagem falar de mundo, eu sei. É bobagem falar qualquer coisa. Falar sobre. De cima. Mas há o inominável e falar é o que nos resta. Linguar, linguajar. É tudo o que nos resta. O ser da linguagem. Então falamos. É a nossa essência. Somos enquanto falamos. Falo, logo existo. A voz marca o nascimento. Choramos. A essência do nascimento, a largada, o início da caminhada que leva ao desconhecido. Do lugar algum ao lugar nenhum. Do pó ao pó. Pode dizer o que quiser, pode explicar conforme crê. A morte. Conheço só de nome. Não há nada além. Nem mesmo pó. Há apenas discurso. Discursar é o que nos resta.

Na ocasião de um nascimento, naquele instante imensurável, naquele momento presente que quando se percebe já é passado, mais veloz do que o disparo de um revólver e mais demorado do que tudo o que já aconteceu na história do universo, no primeiro e derradeiro instante, na passagem da vida à morte, ali, exatamente ali, morre toda a pureza das pessoas. Todo o ideal. Toda a perfeição que poderia um dia existir. A utopia? Morre. Inteirinha. Naquele. Exato. Instante. O que nasce é uma farsa. É uma ficção. Uma historinha para boi dormir. Acredite, sei o que estou falando. A fecundação é o primeiro e o último ato verdadeiramente espontâneo das nossas vidas. Dali para frente somos manipulados. Somos levados a acreditar em liberdade. Justiça. Segurança. Certeza. Verdade. Moradia. Tudo ilusão. Tudo ficção. Tudo discursinho. Até quando? Quer saber? Não sei. Sei apenas que, quando o espermatozoide viola o óvulo, a inocência se esvai. Morre. Um morto que jamais choramos. Todo o resto é vazio.

BAM! A menina puxa o gatilho e seus miolos são coloridos. Que lindo. Que poesia. Que fofo.

A manipulação da vida é premeditada. Sim, premeditada por todos os que já morreram um dia. São eles que tocam nosso réquiem. Se há música, há a música dos sons da rua. A crueza do real. A nudez. A surdez potencial. Interesseira. Ignorante. Manipuladorazinha vil e calculista.

Admirável, senhores, admirável. Isto é tudo? É isto um homem?

Os miolos coloridos. Ai, muito lindo! Vejo ali... Veja bem:
As flores, os sonhos, os sorrisos.
Os abraços. Os beijos. Os carinhos e as carícias.
A grama verdinha, o céu azul, a casinha de chaminé. O arco-íris.
Nos miolos coloridos. Vejo isso tudo. Massa cinzenta não. Massinha de modelar.
Tudo vaza pelo buraco da bala. A cova aberta na cabeça da menininha.
Preste atenção porque essa mesma menina vai aparecer de novo no final da história!
Sua cova pode acolher um cadáver ou uma semente, ainda não sabemos. Aliás, eu sei. É você que ainda não sabe.
Sua inocência se esvai pelo buraco aberto, cai como a chuva. Torrenciais miolinhos coloridos. Tudo isso vaza e abre espaço para o preconceito, o pressuposto, o dispositivo, o dogma, a verdade, a certeza, a máquina, a opinião, a bobagem toda, inteira, imensa. Blá blá blá blá blá blá blá blá.

Sente o cheiro? Acre? É pólvora. Enxofre. Fogo. Passa o fogo e resta o buraco. Cheio de lixo. Cheio de quê? Restos, sobras, resquícios de um passado que nunca existiu. Excesso de informação. Toda essa porcalheira de pensamentos produzidos pelos demais. Pensamentos inventados, imaginação, fantasia. Bobagem demais. Demais, tenho demais. Vendo. Vendo pensamento, único dono. Pouco usado. Cheio de preconceito. Cheio de pólvora. Sente o cheiro? Snif, snif. Sniiif.

Sim! Quem se lembra das cores do arco-íris? Vermelho sangue. Azul calcinha. Púrpura... Fúcsia?

(Quem se esquece do pote de ouro?)

Fúcsia você! BAM! Sua vida foi concebida. Pronto, feito. Aceite-a. Leve-a daqui. Suma. Seus miolos foram recuperados. Toda a massa. Cinzenta. Lúgubre, paciência. É o que resta da sua inocência. Culpado! Sim, senhor. É tudo questão de culpa. Quem leva? Você aí, leve esta culpa para longe de mim. Não adianta chorar.

Parabéns, você acaba de nascer. Nunca mais será o mesmo.
Você tem um nome: Odisseu.
Quem?
Ninguém.

Alto! Quem vem lá? Quem está aí?
Eu.
Eu quem?
Ninguém.
Ninguém.
Ninguém.

(esboço de prólogo para o romance Ninguém, que ainda está em processo de criação)

sábado, 1 de outubro de 2016

O NÃO DITO

O que está fora de quadro é quase mais importante do que aquilo que a tela exibe, diz o cineasta alemão Wim Wenders no documentário Janela da Alma. O ato de enquadrar uma cena consiste em excluir elementos visuais. A cada enquadramento o diretor decide o que faz parte da história e o que não deve fazer. Algo similar ocorre além do cinema. Nestes tempos de superexposição de imagens é importante abrir os olhos para o que é omitido das histórias que nos contam. Nos veículos de comunicação, nas redes sociais, nos discursos oficiais e nas fofocas do dia a dia, o que é propositalmente não dito? Quem faz essa seleção e com quais critérios? Quem dirige a nossa vida?

A perspectiva pela qual olhamos um acontecimento costuma vir pré-determinada. Pois quase sempre ocorre que não estivemos lá, não vimos com nossos próprios olhos. O instante decisivo é oferecido depois, junto de uma legenda sobre o que pensar a respeito. Nossas opiniões, em geral, se formam e se apoiam nesse terreno movediço. Porém com raras exceções assumimos a sua fragilidade, parcialidade e inconsistência. Nós as levamos a sério e as defendemos com unhas e dentes.

Enquadramento original feito pela fotógrafa Nilüfer Demir

A fotografia do menino curdo afogado numa praia turca após o naufrágio do bote em que se refugiara com outros imigrantes foi manipulada pela imprensa. Em primeiro lugar porque havia diversos registros da tragédia, feitos por uma repórter que passava pelo local, porém somente uma imagem foi amplamente divulgada. Ela foi editada para publicação: além da criança deitada de barriga para baixo na areia e do policial que a resgatou, o enquadramento original mostra outro policial ao lado, com câmera fotográfica na mão. Ao fundo há dois pescadores, possivelmente turistas. Vemos ainda um furgão passando na estrada. Tudo isso foi deixado fora da cena para enfatizar o drama dos refugiados, que acabou simbolizado no mundo inteiro por aquele garotinho.

O cotidiano da praia foi excluído do quadro em prol do que Roland Barthes chamaria de punctum: o detalhe que, quando percebido, sobressai ao plano geral, salta aos olhos e nos afeta. Ele se expande por toda a foto e para além dela, transforma o entorno, a vida do espectador, o passado, o presente e o futuro. No livro A Câmara Clara, o autor fala ainda de outra natureza desse pungir, que não está necessariamente atrelada à forma, mas à intensidade manifesta no tempo que nos faz estremecer por uma catástrofe já ocorrida.

Edição reproduzida pelo NY Times (e pela imprensa em geral)

Não existe foto sem edição. Desde o enquadramento até a publicação e o seu compartilhamento, escolhas são feitas. A imagem original não é mais verdadeira do que a editada, são apenas narrativas diferentes. O que os veículos de comunicação quiseram, no caso daquela fotografia, foi enfatizar o horror do acontecimento eliminando tudo o que havia de banal ao redor. O resultado é praticamente todo um punctum, que jamais passaria despercebido. As consequências da manipulação foram positivas sob muitos aspectos: houve sensibilização dos discursos sobre a questão dos refugiados, ações sociais de auxílio e mobilização política na Europa. Além de que ficou impossível para o resto do mundo ignorar a situação calamitosa da região.

A manipulação que se faz no sentido inverso é mais perigosa: quando o comunicador enfatiza o banal com objetivo de ignorar o que o acontecimento tem de grave. Somos ludibriados o tempo inteiro por esse perverso modo de produzir discurso nas mais variadas instâncias da vida. Precisamos desviar do evidente e nos perguntar: que parte da história foi deixada de fora? Por qual motivo, com qual interesse? Em nome de quê? Talvez o que não foi mostrado tenha mais a dizer do que a informação explicitada que mantém nossos olhos ocupados.

Barthes alerta também para o perigo da fotografia tida como lembrança. Para ele, trata-se de uma contralembrança, uma vez que apaga o antes e o depois, reduzindo o vivido a uma imagem estática. “A fotografia é violenta”, ele diz. “Não porque mostra violências, mas porque a cada vez enche de força a vista e porque nela nada pode se recusar nem se transformar”.

Barthes sugere que existe um grau de veracidade nas fotografias, o qual cristaliza os fluxos de significação do assunto e as pulsações próprias da vida que o contempla. As imagens estão quase sempre tentando nos dar uma prova factual. Mas elas são ilusões, artifícios, ficções. Podem corresponder a um referente na realidade. Mas na prática oferecem uma narrativa que compõe nossa subjetividade sem que a percebamos.

O artista chinês Ai Weiwei reproduz a cena trágica

Para Wim Wenders, uma vez olhada, a imagem permanecerá viva em nós. Concordo. E acrescentaria que, do mesmo modo, o que não foi mostrado ou o que recusamos a ver permanecerá a nos assombrar.

A demasia de imagens na atualidade modifica a todo instante a imagem que produzimos de nós mesmos. Por isso é necessário ter cuidado e querer saber: em que elas estão nos transformando?

Todos nós temos uma câmera no bolso, somos potenciais fotógrafos em tempo integral. Também estamos sendo filmados e temos que sorrir, atuar, obedecer às regras da vigilância. Alimentamos com fartura a alta profusão de imagens que circulam no contemporâneo. Enquanto as artes da fotografia e do cinema tentam produzir alguma resistência. Em vez de mais imagens, deveriam criar não imagens? Contrafotografias? Antiexposições? Como raspar o clichê e dar a ver outras possibilidades visuais? Como perceber o que foi suprimido daquela verdade em que baseamos as nossas opiniões mais rígidas?