domingo, 23 de abril de 2017

LEIA UM TECHO DE "POR QUE A LUA BRILHA"


Até onde vai o mito e onde começam os fatos? Costuma-se dizer que tudo teve início quando uma chama despencou do céu, abrindo imensa cratera com o impacto. Os homens primitivos chegaram ao lugar e depararam com uma menina feita de luz, que chorava lágrimas de cristal. Ela emanava pureza e inocência, envolvidas por uma aura branca que incomodava os olhos dos presentes. Todos estavam apavorados. Então a criatura ofereceu sua amizade e pediu apenas que levassem a solidão para longe, pois tinha muito medo dela. Assim, a primeira estrela a visitar a Terra foi imediatamente capturada.
      Encontramos uma estrela, depois encontramos mais. Havia aquelas que se pareciam com homens; outras tinham formas femininas e até alguns dos seus trejeitos. Sabemos hoje que existem também estrelas infantes e velhas, uma vez que elas crescem, desenvolvem-se e morrem como outro animal qualquer.
      Quando a tendência crônica das estrelas à derrota foi enfim revelada – ainda não se sabe exatamente como isso aconteceu, e mesmo as hipóteses fantasiosas são raras –, os homens da época compreenderam que aquela frágil criatura vinda do céu poderia significar uma grande evolução para a espécie. E eles estavam corretos. Existem teóricos que, inclusive, datam o início da História Humana como o Dia da Queda da Primeira Estrela, em afinidade com certas congregações ortodoxas.
      Teorias e mitologias à parte, resta o fato de que, num determinado momento, uma estrela jogou, perdeu e morreu. A comprovação científica foi saudada com seis prêmios Nobel, com destaque para o da Paz. Mas essa paz demorou a ser conquistada, exigindo dedicadas guerras ao terror. Porque a partir daquela descoberta fenomenal, diversos países se mobilizaram para capturar outras estrelas, aliando-se ao eixo Vermelho ou ao Azul, conforme as forças políticas predominantes. Cada risco no céu significava uma nova guerra no solo. Foram tempos sombrios, repletos de atrocidades, muitas das quais ainda tentamos superar.
      Poucas vozes se levantaram contra a condição de colonizados imposta àqueles seres; poucas vozes dispostas a sustentar qualquer tipo de aconselhamento astrológico depois que a realidade desceu à Terra e provocou de imediato uma verdadeira dialética do esclarecimento.

***

Por que a Lua brilha é meu primeiro livro publicado. Trata-se de um conto distópico, disfarçado de ensaio científico, que analisa pontos fundamentais da história entre os seres humanos e os fenômenos luminosos da Lua.

A tiragem é limitada a 100 exemplares, todos numerados e costurados à mão.

Encomende o seu no site da editora Cultura e Barbárie ou adquira a versão ebook para Kindle que acaba de ser lançada no site da Amazon.

sábado, 15 de abril de 2017

MAMA


E daí? Não vejo problema algum nisso. Eles gostam. Nunca houve unzinho que não gostasse na hora. Depois é que botam caraminholas nas suas cabeças, crescem e vão fazer análise sem nem mesmo ter certeza do que aconteceu. Ou como aconteceu. Não precisava ser assim. Porque eles gostam de verdade, meninos e meninas. Óbvio que gosto também. E você gostaria se largasse a hipocrisia de lado e experimentasse. Um pouquinho só que fosse. É muito doce. Inocente. Delicado. Não tem essa brutalidade toda dos adultos. Faço com carinho, afago a pele, penteio os cabelos. Faço sem pressa. Aqueles olhinhos curiosos me encarando. Tremulo toda vez como se fosse a primeira. Peço que me chamem por um apelido meigo, embora a maioria prefira ficar calada. Sem voz também é bom. Você sabe que não há idade para essas coisas. Minha mãe se casou com catorze anos. Cadê a lógica? Não tem. Lógico é gostar do cheiro da inocência, do jeito inseguro, da carne macia ainda intocada pelas neuroses todas da vida. Não tem como não amar. Tiro primeiro os sapatos, depois as meias, uma a uma, curtindo o momento. Não deixa de ser brincadeira. Adoro aqueles pezinhos rechonchudos, tenho vontade de morder. Toco cada um dos dedos e invento uma história engraçadinha para descontrair. Elas riem. A maioria ri. Digo que vamos brincar de outra coisa, puxo primeiro uma perna da calça e imitamos um saci, tiro depois uma manga da blusa e fingimos ser piratas manetas. Como o capitão Gancho. Vamos, assim, criando aventuras encantadoras, a imaginação delas é linda demais. Vai tão longe! A gente perde esse brilho quando cresce. Isso é cultural também. É o convívio social que bota maldade nas coisas. Que poda as asinhas. As coisas, em si mesmas, são puras. É a hipocrisia que destrói toda a beleza natural do ser humano, os gestos… É por isso que digo: não há problema algum nesse meu amor incondicional. Amor maior que eu. A princípio não há mesmo. Tanto que elas gostam da intimidade e da descoberta. Às vezes ficam um pouco assustadas, mas eu quase nunca as machuco, a não ser que elas mereçam. Há diabinhos, sem dúvida. Mas as angelicais são maioria. Passo minhas mãos calejadas por seus corpinhos inteiros, suas dobrinhas, meninos e meninas, tão iguais! Ficam paradinhos, imaginando o que vai acontecer, imaginando o que já está acontecendo, mas eles jamais chegam à verdade porque são inocentes demais para saber. Sinto a carícia profundamente. Pensar nisso me excita. Mesmo agora, só de falar, algo se movimenta dentro de mim. O sangue esquenta. O ventre se enche de vontade. A pele tensiona e arrepia. É uma delícia. Puxo-as para o meu colo, sinto os nossos corpos como se fossem um. Levanto minha blusa com delicadeza, convido-as a mamar. A brincar de mamãe e filhotinho. As boquinhas sem jeito me chupam os mamilos e gozam. Fecho os olhos e sou apenas mamilos. Então eu choro. Invariavelmente. Não houve uma vez sequer que não chorasse. Porque aquela sensação a traz de volta, reaviva a saudade enterrada tão fundo. Me faz lembrar demais do passado que nunca se foi de verdade. Eu choro. E peço. Eu rezo o tempo inteiro. Você vai dizer que não, todo mundo diz. Mas eu rezo o tempo inteiro. Eu peço com todo o coração. Que Deus a tenha, minha querida, minha vida. Que Deus a tenha.

*Publicado originalmente na Revista Ninhada nº 3.

domingo, 9 de abril de 2017

MEU PRIMEIRO LIVRO PUBLICADO: POR QUE A LUA BRILHA


Se você aguentou firme, cá está a segunda notícia literária que tem feito meu coração de escritor palpitar de alegria: meu primeiro livro acaba de ser publicado pela editora Cultura e Barbárie.

É um conto, disfarçado de ensaio científico, que retoma pontos fundamentais da história dos seres humanos e os fenômenos luminosos da Lua. Com intenção de avaliar as implicações culturais do projeto de Lei que visa apagá-la.

Você pode encomendar seu exemplar aqui: www.armazem.org

O livro ganhou uma linda edição artesanal de Marina Moros, foi impresso com sistema de cera sólida e costurado à mão. São apenas 100 exemplares e numerados. Verdadeira exclusividade! Então garanta o seu enquanto é tempo que eu prometo autografar quando a gente se encontrar.

Confira só as fotos que eu mesmo tirei. Dá para ter uma ideia de como o projeto gráfico ficou incrível! Logo mais eu publicarei um trecho do livro para dar água na boca.





sexta-feira, 7 de abril de 2017

TESTEMUNHO OCULAR GANHA PRÊMIO LITERÁRIO


Esta semana me trouxe duas excelentes notícias literárias. A primeira delas é que o meu projeto mais recente, que eu já tinha mencionado num post anterior, ganhou o 3º Concurso Lamparina Pública na categoria Prosa.

Testemunho Ocular foi escolhido entre mais de 400 inscritos e deve ser publicado ainda este ano pela editora Lamparina Luminosa.

 
É um livro pelo qual eu tenho o maior carinho. E espero que logo ele chegue até você. Pode deixar que avisarei assim que tiver novidades.

E a segunda grande notícia da semana? Essa eu conto nos próximos dias. Aguarde! ;)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

DESESCREVER

Planejar minuciosamente meus textos serve apenas para eu me certificar do que não escreverei, que será exatamente o conteúdo do planejamento. Porque, quando inicio a execução do projeto, uma frase descamba noutra qualquer, a terceira surge do nada para me surpreender, a quarta se improvisa, a quinta já nem sei qual é. Na medida em que vou desescrevendo o texto, ele me inscreve e circunscreve. Ao final resta um autor reconhecido por suas linhas tortas. Por seus escritos irreconhecíveis. Um autor meramente ilustrativo.

Texto vivo (2013/2014), de Ana Hupe

segunda-feira, 27 de março de 2017

UM HORIZONTE NO CHIANTI

O ônibus intermunicipal nos deixou na beira da estrada, numa espécie de vilarejo com casinhas e restaurantes típicos. Então seguimos a pé por uma via local, bastante estreita, que serpenteava morro acima em meio a parreiras secas e desfolhadas pelo inverno. Caminhamos sem pressa, não apenas por causa da subida acentuada, mas também porque era cedo e podíamos aproveitar a raridade daquela paisagem. De vez em quando, as plantações davam lugar a uma mata fechada, fria, onde vimos esquilos e pequenos lagartos, com tamanho de um palmo, esconderem-se sob a folhagem depois de nos espiarem. Ouvimos passarinhos ao longe, misturados aos sussurros do vento. Durante o trajeto, duas caminhonetes passaram por nós, indiferentes. Quase uma hora depois, chegamos ao castelo.

Quem nos recebeu foi uma funcionária muito simpática. Como era mais cedo do que a hora marcada, aguardamos num terraço com vista para o vale. No morro à frente, para além das parreiras, do outro lado do rio, podíamos ver um segundo castelo, também todo de pedra, vigilante. Ninguém mais chegou, assim iniciamos a visita, eu e minha esposa, acompanhados da mesma moça, que nos conduziu pelos jardins e pela história da propriedade. Como é praxe na Toscana, quase tudo ao nosso redor tinha pelo menos mil anos de idade, e não é difícil sentir o tempo adormecido nas paredes, nos objetos, na própria terra.



A família que habita o local se aventurou pela América do Norte no século XVI, na baía de Nova York, onde hoje há uma importante ponte com o seu nome. Trouxeram de lá três pedras, que foram chumbadas a uma torre. E em troca deixaram outras pedras, como sinal de boa-fé. O que mais negociaram com os indígenas? Nossa guia italiana não contou, talvez ela também só conheça essa versão da história. Fato é que a família retornou ao país de origem e ali ainda permanece.

Descobrimos que o castelo vizinho foi, durante séculos, um inimigo. A distância até ele já não parecia tão grande assim. Apoiava Siena e o Papa, enquanto o castelo em que estávamos era partidário de Firenze e do Imperador. Por diversas vezes, ambos os lados desceram suas colinas com armas em punho e fizeram guerra entre as parreiras. O sangue daquelas pessoas irrigou o solo e de alguma maneira continua a correr no Chianti.

Além do vinho, produz-se ali azeite de oliva e vinagre balsâmico. De tanto receber turistas estrangeiros, nossa acompanhante se atrapalhava com a própria língua e não se lembrava dos termos técnicos italianos que ela tanto repetia em inglês. Conversamos numa mistura de idiomas. Ela explicou que a propriedade tem centenas de hectares, porém apenas seis por cento são usados para plantação. E sorriu ao perceber que os números não nos surpreendiam. Os norte-americanos ficam indignados ao saber que a terra é “desperdiçada”, como dizem. Poderíamos plantar mais, multiplicar os lucros, ser uma potência econômica. Mas acreditamos que essa parcela é suficiente. Além disso, as florestas contribuem para a qualidade das cepas, tanto pela nutrição do solo quanto pela manutenção do meio ambiente, da fauna e da flora. A colheita é feita a mão, selecionando cacho por cacho. O que aconteceria se derrubássemos as árvores nativas para plantar apenas uvas e azeitonas? O que aconteceria se utilizássemos maquinário pesado para dar conta de tamanha produção? Soterraríamos mil anos de história em prol de um dinheiro de que não precisamos. E produziríamos um vinho artificial, de ambiente controlado, que a todo ano é idêntico ao da safra anterior. Sem personalidade. Então estamos bem como estamos, ela explicou. O que não significa teimosia. A todo instante experimentamos técnicas e plantas diferentes, criamos produtos novos. Só não abrimos mão é dessa ética na relação com a terra.

No topo do castelo, com uma panorâmica do vale ensolarado, com aquele silêncio profundo do campo, como poderíamos discordar?



Na sala onde o vinho repousa, vimos uma traquitana de vidro no alto de cada um dos imensos tonéis de madeira. Têm centenas de anos, explicou a guia italiana. É uma invenção de Leonardo Da Vinci, que controla as trocas gasosas entre o mosto em fermentação e o ambiente, sem deixar que o vinho estrague.

Conheço vinícolas do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Portugal, a maioria muito tecnológicas, e em nenhuma vi ferramenta tão rudimentar. A moça explicou que eles poderiam substituir aquelas peças de vidro por uma engenhoca high-tech. Mas elas cumprem o seu papel, funcionam tão bem quanto as mais modernas. Então não há motivo para aposentá-las.

Almoçamos no restaurante do castelo, que serve delícias da região, cozidas no fogão a lenha e acompanhadas de pão de grano duro e queijo de cabra. Provamos alguns dos seus vinhos, e, por experiência própria, garanto que nenhum é mais gostoso do que o bebido na vinícola onde nasceu. Não é à toa que cada produtor tem sempre o melhor vinho da região. E é verdade.

A caminhada de volta à estrada foi bem mais rápida e menos sinuosa, ajudada tanto pelo relevo em declive quanto pela refeição ébria. Aguardamos o ônibus por cerca de meia hora, pegamos o primeiro que passou, com direção a Firenze. Ele fez um caminho diferente na volta, atravessando outros vilarejos e dando a ver novos horizontes. A região nos pareceu ainda mais encantadora.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O INTERVALO MÁXIMO ENTRE OS TRENS É DE APENAS TRÊS MINUTOS


O xaveco começou na facul, os amassos foram na plataforma do metrô. Composição querendo entrar no túnel, mãos baldeando aqui e ali, línguas se apertando uma contra a outra. Ambas a favor. Não tem erro, bora lá! A parada seguinte foi a decisão de ter ou não ter a porra do bebê. Descarrilamento, trágico acidente. Minha mãe vai me matar! Que merda, você tem certeza? Não tenho de nada. É a solução, tamo junto. Conheço um médico, ninguém vai saber. Por que com a gente? Apagou a luz, problemas técnicos, morro de medo de ficar preso e ter que andar na linha. Mais uma estação e a família dela começou a falar em casamento. Foi combinado, só pode. Que enrolação é essa? Todo mundo casando, percebe? É a fase, só você não vê. Não estou pronto. Ano que vem, ano que vem. Pronto, foi lindo, feitos um para o outro. Até que a morte os separe. Pode parar, quero descer, eu não mereço isso. Crise dos sete meses à puta que pariu, chega, cansei. Vai desistir? Covarde! Não sou! Um segundo antes de apertar o botão de emergência ela diz que está grávida. De novo? De novo. Sério mesmo? Sério. Entendi. Achei que ia ser difícil, depois daquilo tudo. Eu tive medo de nunca ter filhos. A melhor coisa que aconteceu na minha vida, duas mulheres comentam naquele banco lá longe e eu consigo ouvir daqui. Será? Aviso dado, a próxima estação é a minha. Para que festinha em buffet?, o moleque ainda nem sabe andar! Não pode passar em branco. A gente aperta e vai nesse mesmo, anda logo, não temos tempo a perder. Um casal! Que maravilha. Para ter a experiência dos dois. É. Que cheiro horrível, tá sentindo? Passa rio aí embaixo? Alguém saiu de casa sem tomar banho, como consegue? Ah, já esqueceu como troca fralda? Logo agora que me livrei de um, começa a outra? Vai lá que é a sua vez, me deixa tirar um cochilo que tô precisando. Desculpe, por favor, esta linha passa na escola? Que formatura mais bonitinha, mamãe até chorou. Agora vai pra escolinha de criança grande, tá? Não chora... Saudade do tempo em que a gente podia viajar, descer no Jabaquara, pegar ônibus pro litoral. Com que dinheiro? Nunca fizemos isso! Mas a gente podia, se quisesse. Não tinha nada que prendia. Não me arrependo de nada. Parece bobo dizer, mas não me arrependo. Amo você. Vamos dar uma volta, só nós dois hoje, a gente merece. Jantar romântico, depois cinema? Não podemos demorar, meus pais dormem cedo, temos que pegar as crianças. Não se preocupe, só tem metrô até meia-noite.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

QUE LEITURAS DAREMOS ÀS CRIANÇAS DESTE SÉCULO?

Numa oficina de criação literária, fui pego de supetão pela pergunta: que livro marcou a sua infância? Minha reação foi exatamente a mesma de todas as vezes em que me perguntam “Qual é o mais?” ou “Quem é o melhor”? Eu travei. Uma tormenta de títulos chacoalhava meu bote, até eu naufragar em paz, sem cometer a injustiça de salvar apenas um dentre os meus adorados companheiros. Foram diversos, desde enciclopédias à coleção Vaga-Lume, desde contos de fada aos personagens do Maurício de Sousa. O sentimento provocado por aquelas leituras ainda pulsa, mesmo sem que eu consiga lembrar os detalhes de cada uma. O menino maluquinho, O casamento da bruxa Onilda, O escaravelho do diabo, As viagens de Gulliver, as Fábulas de La Fontaine, os casos de Sherlock Holmes, o Almanaque Abril, Romeu e Julieta interpretados por Mônica e Cebolinha, Os meninos da Rua Paulo, Os saltimbancos. Até mesmo a saga de Harry Potter, que li poucos anos atrás, me fez avivar a faísca distante da infância. Foi também adulto que visitei o edifício Martinelli, no centro de São Paulo, e a todo instante pensava em O último mamífero do Martinelli, história que, quando criança, me deixou de olhos arregalados durante a madrugada. É por esse motivo que, quando nasce um bebê na família, e ao longo dos seus aniversários, eu dou livros de presente.


Fico abismado com a quantidade de brinquedos da meninada. Em uma única festa, meus sobrinhos ganham mais do que eu tive durante a infância inteira. Ganham também algumas roupas. E nenhum livro. Para mim, a balança está desregulada.

Convém esclarecer que, mesmo trabalhando como escritor, sou bastante cético – não penso que livro é melhor do que brinquedo ou que é a salvação da humanidade. Pelo contrário, o livro precisa ser como um brinquedo, ou seja, um objeto com o qual a criança interage e por meio do qual acessa um universo de imaginação. Se não é um objeto sagrado, tampouco deve ser colocado em termos de finalidade, como se a criança fosse obter dele um benefício pré-estipulado... Sabe aquele papo de ler para ficar inteligente, ser aprovado no vestibular e se destacar no mercado de trabalho? Dá arrepios só de pensar. Prefiro deslocar a leitura desse lugarzinho medíocre, dito “meritocrático”, criado pela ansiedade capitalista. Presenteio com livros porque sou apaixonado por histórias e pelas lembranças que algumas me trazem, e desejo proporcionar a alegria de ler pelo prazer da leitura, assim como se brinca pelo prazer da brincadeira. E tudo bem se algumas crianças não gostarem. Nem todo mundo precisa gostar. Embora todos deveriam ter acesso e oportunidade de escolha.

A propósito, o livro infantil está repleto de preconceitos. Cecília Meireles já alertava, no fim dos anos 1940: “Se bem que dirigido à criança, é de invenção e intenção do adulto. Transmite os pontos de vista que este considera mais úteis à formação de seus leitores. E transmite-os na linguagem e no estilo que o adulto igualmente crê adequados à compreensão e ao gosto do seu público”. Por mais que se queira evitar a “formação” – no sentido pejorativo do termo, que pretende modelar a partir de uma forma domesticada –, o livro infantil será ainda invenção e intenção do adulto. Assim como as roupas, os brinquedos, a escola... Não há escapatória. Haveria apenas um atenuante, sugerido pela própria escritora: oferecer livros variados e deixar que a criança selecione os seus favoritos. Ela amará uns, não dará bola a outros, conforme dialogarem com as suas questões, interesses e curiosidades. Com a abordagem adequada, todo assunto vale. Melhor ainda se esse objeto comum contar histórias estranhas, de maneira que não apenas reproduza os valores da sociedade atual. Mais ou menos como afirma a própria Cecília Meireles, adiantando em meio século uma ideia agambeniana sobre a contemporaneidade: “Nem há que temer o livro impróprio senão quando se apresenta como um potencial arrasador, difundido com veemência, e tão ajustado à época que a produz como se fosse o seu evangelho”.

Qual, entre as nossas crianças, não vive capturada pelos vícios da atualidade? Afluxo de imagens, convivência digital, merchandising... A sabedoria das narrativas vai sendo substituída pela demasia de informações meramente ilustrativas. Ficamos pobres em experiências, iludidos por um conhecimento que é somente casca; opinamos sobre tudo, somos donos da verdade porque temos argumentos, em geral, clichês, pré-programados e repetidos aos berros, como fazem os papagaios. Enquanto a arte da narrativa, justamente, quer evitar explicações. Ela se faz no registro da sensibilidade, não apenas no da razão.

Cecília Meireles defendia que, para suprir a falta das histórias compartilhadas nas conversas de família, podemos criar bibliotecas de livros infantis. Claro que uma coisa não substitui a outra. Ter livros à mão é fundamental, porém não é suficiente. Eu cresci encantado pela biblioteca de uma tia, organizada numa estante em seu quarto. A maior quantidade de livros que eu via, reunidos num mesmo lugar. Além da coleção, eu via essa tia e também minha mãe lendo toda vez que tivessem oportunidade. Elas conversavam sobre livros e liam para mim. Me deixavam folhear as páginas, mesmo que não houvesse ilustração, mesmo que eu não tivesse aprendido a ler. Foi essa proximidade que me abriu as portas da literatura.

Fico por aqui, com uma última consideração de Cecília Meireles, que confirmei na prática: além da decodificação dos signos linguísticos, “é preciso que a criança viva a influência da leitura, fique carregando para sempre, através da vida, essa paisagem, essa música, esse descobrimento”.

Passadas três décadas, os livros da minha infância ainda ressoam em mim. Por isso, tenho certeza de que o questionamento deixado pela nossa escritora, lá nos anos 1940, permanece imprescindível: que leituras daremos às crianças deste século?

domingo, 22 de janeiro de 2017

TESTEMUNHO OCULAR


Estou muito feliz neste final de semana, pois consegui terminar meu novo livro de ficção, uhuu! Que por enquanto tem este título, Testemunho Ocular. São 26 textos no total, além de uma espécie de prólogo. Alguns são curtos (o menor tem 4 linhas), outros são mais longos (o maior tem cerca de 10 páginas em formato A4).

(Bateu uma curiosidade? Clique para ler o conto Descoberta, que faz parte da coletânea.)

Os 27 textos foram finalizados ontem. Então começou o difícil processo de estabelecer uma ordem para eles


O livro investiga certos aspectos da realidade contemporânea, em que o regime de visualidade predomina, e tudo parece exposto, revelado, evidente. Esta realidade das câmeras, dos compartilhamentos de intimidades, do ver para crer. Os textos tentam colocar isso em questão. Não de maneira opinativa, mas como provocações literárias. Eles também tentam encontrar brechas para o obscuro, o não dito, o incerto.

Não à toa, apresentam alguma estranheza, que nem sempre é fácil identificar. Às vezes a estranheza parece absurda, outras vezes ambígua ou misteriosa. Mas a inquietação é sempre a mesma: o que está dado a ver? O que permanece apenas entrevisto? Que tipo de dependência temos da imagem? Que verdade é essa que a imagem quer nos revelar? Até que ponto podemos acreditar nela?

Muito bem, muito bem. Então o livro está pronto? Que nada! Agora chegou a hora de pedir para os amigos mais próximos lerem. Depois de algumas conversas, revisões, modificações, mais conversas, incertezas, vontade de jogar tudo fora, calma, angústia, indiferença, revisões, modificações, palavrões etc., vou atrás de oportunidades de publicação. Será que demora? Sempre!

Tudo bem, faz parte. Espero que eu volte a falar dele aqui assim que possível.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

DESCOBERTA

Você desliza a palma da mão pelos ombros, como se eles a convocassem. Encontra de imediato aquele ponto de descamação na pele. Que injusto!, você pensa. Nem abusou do sol, como costumava fazer na adolescência! Usou filtro de fator cinquenta, reaplicou-o a cada duas horas, fez o que pôde para evitar manchas, alergias e envelhecimento precoce. Com pele clarinha não se pode bobear. Ainda assim... Você não se conforma, mesmo que seja uma descamação discreta, o que os outros vão pensar? Talvez uma boa lambuzada de Victoria’s Secret faça-a parar por aí. Que nada, você se engana, sabe muito bem que, uma vez rompida, toda aquela camada de pele precisa ser removida para dar lugar à nova, que vem de baixo, vem de dentro de você. Então não se acanhe, aproveite. É uma verdadeira realização puxar as pelezinhas que vão soltando como folhas de papel arroz, tão finas! A pele nova será melhor, mais forte e mais saudável. Você olha no espelho e lá está, já consegue vê-la, uma pequena superfície negra debaixo da sua pele branca mal cuidada. Enfia a unha nas bordas e levanta aos pouquinhos para não se machucar. A brancura exaurida se solta, as sardas se vão, aquelas pintinhas vermelhas que herdara de uma tia distante. A pele que se revela é negra e luzidia, tem brilho de ouro. A fissura se expande para o pescoço, você continua a puxar, está curiosa e também um tanto ansiosa para saber o que lhe aguarda. As dobras da orelha exigem certo cuidado. Por vezes a pele branca se rompe e você precisa reencontrar a ponta, como acontece, por infortúnio, nos rolos de fita adesiva. Com o atenuante que, no seu caso, as camadas não são transparentes, quase invisíveis; a que se vai é branca, a que surge é evidentemente negra, são fáceis de identificar pela diferença.

Julian Paulo Rodrigues

Você descobre, soterrado, certo orgulho pela nova pele, algo meio inexplicável ainda, que se manifesta como um sentimento de ancestralidade. Como se essa pele estivesse sempre com você, esperando ser descoberta. Seus olhos mudam de cor, a película que os recobria era fria e gelatinosa. O caramelo esverdeado se foi, no lugar as íris petroleadas são profundas e convidativas, são tão sensuais que você tem o desejo de mergulhar e se perder nos próprios olhos, como se fosse possível adentrar o espelho. A bochecha se estica e, como uma onda no mar, avança até o interior da boca; os lábios finos e pálidos dão lugar a outros, graúdos e úmidos. O nariz adunco ganha sinuosidade. Os cabelos claros, ressecados pela tintura, vão sendo descamados também, e no lugar se armam mexas volumosas, brilhosas e perfumadas. Você afunda os dedos nessas mexas e descobre um universo encantador, uma maciez que não se entrega fácil. Seu perfil já é todo negro. Você vira o rosto de um lado para o outro no espelho, apalpa, joga o cabelo para cima. É isso mesmo. Negra.

Agora falta o restante do corpo. Puxa a pele pescoço abaixo, o outro ombro empretece também, você se lembra daquele picolé minissaia e ri consigo mesma. Chocolate em cima, morango embaixo. As camadas de pele clara se acumulam aos seus pés e, meio translúcidas, lembram vestígios da cobra que cresce e já não cabe em si. A pele retesada dos seios deixa ver maior volume, e mamilos escuros, cor de vinho, intumescidos. Você se excita com a descoberta de si mesma. Desce pela barriga, contorce os braços para arrancar a brancura das costas sem rasgá-la, fica com uma espécie de saiote pendurado na cintura enquanto afaga a lisura da noite, sem pelos nem pintas. As mãos deslizam com suavidade e você poderia se acariciar para sempre, acaso dominasse a curiosidade de descobrir o restante. Não consegue, é a ansiedade que a domina, então você continua a revelar-se, desce a cintura e dá a ver as coxas como se enrolasse para baixo uma meia-calça usada. As nádegas são tão escuras como todo o corpo, não têm necessidade alguma de marcas de biquíni, elas são curvilíneas em si próprias. Os pelos do púbis encrespam e rareiam, as mãos deslizam pelas pernas como em tobogãs e puxam a pele frouxa joelho abaixo.

As curvas dos calcanhares são mais difíceis. Eventualmente algum pedaço se rompe e você precisa retomar a ponta, tudo bem, o que parece uma falha é na realidade a sola dos pés, mais clara do que o peito, não por isso menos negra. Sem dúvida existe um negrume naquela brancura, enraizada nos vincos, nas dobras, nas ranhuras contornadas entre os dedos do pé, nas unhas, nas cutículas.

Faltam apenas os braços, que ficaram esquecidos enquanto eles próprios revelaram o restante do corpo. Com a mão direita você tem mais dificuldade, acaba por se descobrir canhota, como é possível uma coisa dessas? Como nunca percebeu?

Puxa de uma só vez a pele inteira do braço, arranca a brancura ressequida dos cotovelos, admira os antebraços, livres das irreversíveis marcas do tempo. Agarra toda aquela camada com a outra mão e a puxa devagar para o alto, até revelar dedos de dorso escuro, e claros no lado da palma.

Você joga ao chão a pele que já não serve mais e coloca as mãos lado a lado, comparando-as. Uma é negra como a noite, a outra é branca como o dia. O sol agora se põe, é hora da escuridão chegar de uma vez por todas, sem timidez.

Então você termina o que começara meio sem querer. Será que não queria mesmo? Que receio a impedia? Lembra da pele branca como uma fantasia, na qual suas curvas e volumes cabiam mal, causavam desconforto, e entre outras mulheres você parecia sempre eclipsada.

Por instinto você lambe os braços e antebraços, sente o gosto puro e verdadeiro de si mesma. Percorre com a língua toda a superfície da pele, os cantos desconhecidos, as texturas. E como uma pantera você se sente limpa e poderosa.

Leva as mãos às narinas, fecha os olhos e sente o novo cheiro, o perfume almiscarado que seu colo, pescoço e cabelos exalam naturalmente. Uma fragrância doce e sedutora, muito mais sincera do que a doçura artificial da Victoria’s Secret. Sem qualquer segredo oculto, muito pelo contrário. Inteiramente revelada.

*Este conto, publicado no Correio Popular, faz parte do meu livro Testemunho Ocular, que ainda está em fase de leitura e revisão. Gostou? Clique aqui para saber um pouquinho mais do projeto.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

ETERNIDADE

Aos trinta e dois anos de idade, não tenho mais avô ou avó. Essa frase seria um bom início de conto, pois só é verdade no sentido da fabulação. A realidade é que carrego meus avôs e avós junto comigo; estão vivos em mim. Se acredito em alguma vida após a morte é nesta: a vida que se dissolve em outras, que toma nova forma para permanecer existindo. Dezenas, depois centenas, depois milhares de dissoluções naqueles que nascem, até que perdemos a conta e passamos à eternidade. Passar à eternidade significa permanecer a existir em infinitos outros.

Carrego comigo não apenas parcelas dos meus avôs e avós, mas também os ascendentes de gente que sequer conheci. Que se legaram à posteridade e hoje constituem o eu, o eles, o nós. Por vontade própria ou contra a própria vontade, com ou sem intenção de deixar heranças boas e ruins, sempre boas para uns e ruins para outros. Já não lembramos deles de tanto que se pulverizaram sobre o campo fértil da humanidade; a cultura em que fui cultivado.

Lembro bem apenas dos mais próximos, na medida em que é possível lembrar bem de algo. Porque na maior parte do tempo lembramos muito mal. Avivamos uma cena, um cheiro, uma frase, um beijo. E nos iludimos com esse pouco, acreditamos assim lembrar muito bem daquele passado que hoje é uma reminiscência. Não lembro bem porque meus avôs e minhas avós não cabem na memória, eles foram muito maiores, mais complexos e mais vivos do que qualquer memória poderia guardar, inclusive a deles mesmos. Quem dera a minha pudesse!

Também as lembranças são verdade apenas para a fabulação. Ou, melhor dizendo, elas são fabulações enquanto as consideramos verdadeiras. Tudo o que trazemos na memória tem algo de inventivo. Um recorte do passado, uma narrativa, uma ficção feita de substantivos, adjetivos, imagens e afetos. Existiu de fato? Impossível afirmar. Mas agora existe, pois me recordo. Existe numa forma outra. Existe enquanto parte de mim. Parte que trago comigo, inclusive as lembranças que não são minhas, as memórias compartilhadas em volta do fogo, ao redor da mesa; um saber ancestral.

Sou uma tartaruga que carrega no casco a memória da terra. Ao mesmo tempo em que pisa a terra, ao mesmo tempo em que habita a sua própria casa que não é a terra mas dela se originou e a ela voltará um dia, como se um incrível paradoxo conectasse a nós todos. Voltaremos um dia à terra onde nascemos. Mas hoje não. Hoje a tartaruga não se lembra muito bem. Apenas algumas cenas se apresentam a ela.

Lembro-me de meu avô, que se sentava no sofá com um volume de enciclopédia sobre a fauna do mundo. Apontava os animais coloridos nas páginas e contava suas histórias. O rinoceronte, o lince, os pássaros todos; sim, ele era apaixonado pela liberdade dos pássaros. Ainda muito pequeno, recém-saído do ovo, aprendi a ler a vida naquelas fotografias fantásticas. Mesmo sem compreender uma letra sequer.

Essa mesma tartaruguinha se lembra do outro avô, forte como uma árvore. Seus bracinhos não bastavam para contorná-lo, suas patinhas não se encontravam do outro lado. Seu rostinho se perdia naquele tronco tão antigo, que cheirava a sabão em pedra. Que tinha uma textura áspera de algodão muito usado e muito lavado. Esse avô sentava-se na escada do quintal, onde picava fumo numa lata tão enferrujada quanto o hábito. Demorava-se na tarefa, a tarde inteira se fosse preciso. Era também tartaruga, sem pressa nem ansiedade; era sábio porque vivido. Depois lambia a seda, enrolava o cigarro e tragava uma fumaça acre que jamais poderia lhe fazer mal, tão lindo aquele rito.

Das avós a tartaruguinha lembra mais e melhor. Uma delas fazia farofa e se atrapalhava toda na cozinha, comprava presentes na feira e se atrapalhava toda nos tamanhos; os médicos diziam que seu sangue ia mal, ela se atrapalhava na dieta. Porém tinha bom coração. Fazia a família rir e ria junto, estourava numa gargalhada saudável que curava todo o restante. E seguia feliz da vida, mesmo sem jamais ter ganhado na Tele Sena.

Essa avó teve um cunhado de quem gostava muito. Ele havia casado com uma das suas irmãs. Depois de viúvo, casou-se com outra. Faleceu no mesmo dia de minha avó, e ambos me deixaram essa história incrível do homem que se casou com duas irmãs e foi-se embora com a terceira.

Restou a última vovó. Que era ligeira, inquieta, estava sempre de ouvidos atentos às novidades da tartaruguinha. Decidiram viajar juntos para desvendar as origens da família. Todo aquele esforço, todo aquele passado revisitado foi necessário para compreender que a origem é pura fabulação. A família se fazia ao longo dos dias, das trocas, da própria viagem. Nos pés inchados pelas caminhadas, nos castelos antigos tanto quanto nas ruas mais modernas, no pêssego mais gostoso que já foi partilhado um dia. Na satisfação de viver uma experiência junto de quem se ama. Nos encontros, no prato favorito, na vontade de que tudo jamais termine. Nas histórias que se pode contar. Nos gestos que repito e só então percebo como somos parecidos.

As lembranças são várias, ainda que insuficientes. São o que resta, afinal. Jamais trarão de volta os vovôs e as vovós da tartaruguinha, por mais intensa que seja a memória, por mais intenso que venha o desejo. Ainda assim as lembranças pulsam, sugerindo que todos eles sobrevivem em mim. As lembranças preenchem o vazio. Ao ponto de que neste casco não haja solidão.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

TODO OUVIDOS


Fico intrigado ao ver tradutores de libras num show de música. Bem ali no palco, ao lado do Nando Reis. Não entendo os sinais, que às vezes se assemelham a uma palavra, outras vezes parecem uma dança. Como funciona essa linguagem? Traduz algo além dos versos e eventuais comentários do artista? Será que dá sugestões do som? Tais sugestões fariam sentido a alguém que nunca ouviu, portanto não tem referências para entendê-las? Não tenho amigos nem parentes surdos, sou leigo no assunto. Sentado na plateia, observando aquelas pessoas se desdobrarem em gestos que nada dizem para mim, fico a pensar um amontoado de questões.

A mais evidente delas é: por que um deficiente auditivo viria a um show de música? Não se trata de um espetáculo pirotécnico, não há quase nada interessante para ver. Há o Nando Reis e o seu violão. E só. Quero acreditar que o tradutor não está ali obrigado por uma lei esdrúxula, gesticulando para ninguém. Quero acreditar que está li porque existe demanda, ou seja, porque os surdos frequentam shows de música e devem ser acolhidos conforme for mais conveniente a eles. Se essa conveniência inclui a libras, que seja a libras.

Agora, se os surdos vão aos shows apesar de seus ouvidos não perceberem a sonoridade, será que “ouvem” de alguma outra maneira?

Presto atenção às vibrações produzidas pelas caixas sonoras. É alta e faz tudo vibrar junto, o copo em minha mão, a poltrona, o ar. As ondas reverberam na pele, na carne, nos ossos. Além da música tocada, há essa música que nos toca, como se fôssemos seus instrumentos.

Observo a plateia, imaginando uma imensa orquestra a produzir música em seus próprios corpos, cada qual com seu timbre singular. Entretanto o que vejo não são instrumentos nem ouvidos, mas celulares. Centenas de telinhas brilhantes a competirem com as luzes do palco. Tenho assim a segunda revelação da noite: estes espectadores, tanto quanto os deficientes auditivos, ouvem mal, talvez nada ouçam com os seus ouvidos. Talvez ouçam com os olhos, através da tela. Fotografam, gravam, postam imediatamente nas redes sociais. Quem é surdo, afinal? Quem não pode ouvir ou quem pode mas não ouve realmente, ocupado que está com os olhos, os dedos, a comunidade digital?

Neste momento Nando Reis se distanciou, preciso fazer um esforço para reencontrá-lo. Fecho os olhos, procuro, sim, aqui está ele, dedilhando o violão, cantando no tom.

Lembro das minhas próprias aventuras musicais, tocando contrabaixo com amigos num estúdio, pura diversão. Quem tem ou já teve banda sabe o que digo a respeito de uma qualidade chamada entrosamento. Para a qual não há explicação lógica, é uma espécie de sentimento coletivo que produz um dissenso harmonioso, com notas diferentes que por alguma desrazão torcem o tempo. É uma qualidade que possibilita antecipar o movimento do colega, oferecer suporte para que tal movimento se realize ou apoiar nele a sua própria ação, conforme o andamento da música.

Todos os membros da banda podem tocar as notas certas no momento certo e ainda assim não estarem entrosados. Nessas horas a música soa correta, porém sem cor. O entrosamento de uma banda soa diferente. Como uma tessitura irregular que se adapta às imperfeições do espaço. Quando a banda entra em sintonia, a música atravessa o corpo de todos; ela é mesmo incorporada, ou seja, expande-se para além dos ouvidos, da racionalidade das escalas, da teoria e do metrônomo; ao ponto de ser tocada pelo corpo inteiro da banda e por reger o corpo de cada músico individualmente. Quem tem ou já teve banda sabe o que eu digo. Quem nunca teve talvez não entenda. Não é fácil por em palavras. É uma espécie de sensação que precisa ser experimentada.

Ouvir a música apenas com os ouvidos e tocá-la apenas de acordo com os ouvidos, obedecendo à matemática musical, rende um som artificial, quase uma aberração mecânica. Você pode tocar o instrumento com perfeição técnica, porém sua música não tocará ninguém. É preciso avançar esse estágio se quiser ser um músico que toca as pessoas, mais do que toca o próprio instrumento; é preciso sentir a música como uma entidade que o envolve por completo, que para o tempo e coloca você em afinidade com um presente contínuo. Todo o tempo da vida está naquele instante. Suponho que seja por esse motivo que as horas voam quando fazemos música.

Nando Reis pausa o violão e diz que tem um irmão surdo. Que nasceu sem audição e não aprendeu a língua dos sinais; ele lê os lábios. As pessoas ao meu redor tiram fotos e gravam vídeos e compartilham suas imagens nas redes sociais enquanto o músico conta suas histórias de juventude. Eu fico curioso, imaginando como deve ser, para um artista famoso como ele, crescer na companhia de um violão e de um irmão surdo. Como será que essa experiência afetou sua obra? Que Nando Reis é esse que somente aquele irmão ouve? Qual é a semelhança e a diferença entre ele e esse outro Nando Reis que nós ouvimos, fotografamos e compartilhamos? Será que o irmão toca algum instrumento musical? O que será que os deficientes auditivos da plateia teriam a dizer, que histórias teriam a contar? Eu adoraria conhecê-las.

Outra canção já começou e eu nem mesmo percebi.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

EXTRAORDINÁRIO


Vai ficar um troço extraordinário, dizíamos a nós mesmos com a convicção explosiva das crianças. Tínhamos acabado de aprender o adjetivo. A ideia nos instigava a continuar. Uhuu! Demais! Já pensou como será quando terminarmos? Tudo vai ser diferente. Quero ver quem terá coragem de tratar a gente desse jeito de novo. É, vão nos respeitar! Os adultos vão nos respeitar. E não só eles. Aqueles folgados do colégio vão ajoelhar e beijar nossos tênis. Seremos famosos no mundo inteiro. É!

Nós passávamos o tempo todo trabalhando na ideia. Desenhávamos durante a aula de português, trocávamos bilhetes codificados na aula de geografia, matávamos a aula de química para não perder o fio da meada. Química era, na verdade, grego. E continua a ser. A professora de artes gostou da ideia e nos ajudou em algumas etapas, mas é claro que não revelamos para ela as minúcias. Os nossos segredos supersecretos. Não éramos crianças estúpidas assim. Aquele era o grande projeto das nossas vidas. Incrível! Gigante! Um troço extraordinário! O mundo inteiro ia ver, cada país de cada continente ouviria falar de nós. Apareceríamos na televisão! Nem mesmo uma guerra conseguiria nos impedir.

Só fazíamos uma pausa para a educação física. Porque, bom, a gente jogava bola, era divertido. E todo gênio precisa de um descanso mental. Após três ou quatro partidas na quadra da escola, reuníamos a turma novamente para planejar os passos seguintes. Ninguém poderia descobrir, então cuidávamos para afastar os espiões com bexigas cheias de água da privada. Era um planejamento complexo. Desenhávamos cada detalhe numa cartolina branca, que emendávamos nas demais e pendurávamos com fita crepe nas paredes do quartinho de bagunça do Cabeça. Os pais dele nunca entravam lá, só a faxineira, que era nossa cúmplice. Assim o projeto estaria seguro.

Não vou dizer que foram só maravilhas. Às vezes custávamos a chegar num acordo. As assembleias do conselho duravam horas. Houve também questões resolvidas no tapa. No par ou ímpar. No campeonato de pum. Cada assunto demandava um método específico, bolacha Maria e leite com chocolate.

No meio do processo o Biró se afastou por um tempo, disse que não queria mais saber daquilo, não concordava com o jeito como conduzíamos o projeto. Muita pressão, coitado. Nossas expectativas eram altas. Ele queria mudar de assunto, fazer algo diferente, para variar. Mas nós queríamos continuar, então ele tocou a campainha uns três dias depois, contou que seus pais iam se separar e retomou seu posto na missão. Vai ser um troço extraordinário, gritamos juntos para selar o pacto. Biró engoliu o choro. Seu papel era fundamental na execução do plano, ele era o mais alto da turma.

Dediquei as férias de julho daquele ano ao projeto. Meu pai procurava trabalho, e mesmo quando os amigos viajaram eu continuei empenhado. Achei bom fazer sozinho, era mais fácil quando não precisava debater cada detalhe com a turma ou decretar questão de ordem a cada cinco minutos porque o assunto descambava mais uma vez para as figurinhas raras do Campeonato Brasileiro. Eu conseguia até jogar videogame nas horas vagas. Porém meu desempenho era apenas razoável, com aquele monte de coisas me atazanando a cabeça. Seria melhor ficar com a ideia só para mim? Os outros me odiariam se eu ficasse famoso sozinho? Dariam uma surra? Quem precisa de amigos que batem nos outros amigos? Se eu não roubasse a ideia, eles continuariam meus amigos para sempre? Assim me esquecia por completo das tarefas da escola, o que minha mãe fez questão de sublinhar quando sentenciou o castigo. Tudo bem ficar sem televisão, tudo bem fazer toda a lição das férias em apenas três dias, era por uma boa causa. Eu estava trabalhando no grande projeto da minha vida. Um dia ela entenderia. O sacrifício valeria a pena.

Eu dizia que nem tudo eram flores. Nosso troço extraordinário sofreu uma concorrência desleal no segundo semestre escolar, quando parte da equipe trocou as figurinhas de futebol por meninas do colegial. Não conseguiam falar de outra coisa, as hipóteses eram diversas, ficou impossível manter o foco. Percebi na hora que vivíamos uma crise. Eu quis me adaptar, sem saber direito como, então chegaram as provas parciais, os jogos interclasses, a feira de ciências, as provas de fim de ano, a recuperação, o Natal. Foi difícil. Com a saúde bastante debilitada pelo excesso de inconvenientes, nosso troço extraordinário não sobreviveu às longas férias de verão.

Seria um negócio como nunca visto! Talvez nos faltasse experiência para gerenciar um empreendimento daquele porte; talvez faltasse maturidade, como meus pais repetiam a todo instante. Talvez o troço extraordinário fosse, enfim, um pouquinho impossível, mesmo para nós. Não sei. São tantos imprevistos que atravessam o caminho das ideias mais incríveis! De tanto desviar, em algum momento nos perdemos.

Como seria quando terminássemos? Eu sonhava com esse momento. Depois pensava apenas em terminar. Depois planejava fazer, nem que fosse um tantinho por dia. Até que eu só me dedicava a tarefas mais urgentes, estava imerso nos outros projetos que o mundo tinha preparado para mim. Não havia mais tempo para o nosso troço extraordinário. Impossível, eu dizia, agora não tenho a menor condição! Todas as pessoas iriam me respeitar. Eu seria reconhecido, tudo ficaria diferente. Ninguém me trataria desse jeito. Nada seria banal, tudo seria grandioso. Muito bem, o que aconteceu? Sinceramente, não sei. Hoje é difícil explicar.

sábado, 8 de outubro de 2016

VOO NO ZOO


Entre escaravelhos, cronópios e bumbam meus bois, entre macunaímas, utopias e botos cor de rosa, havia aquela girafinha. Sim, eu a via. E ela voava! Baixo para uma girafa, alto o bastante para uma girafinha. Toda aquela liberdade frouxa nos céus! Coisa bonita de se ver, a girafinha. Depois pousava no galho. Bem ali, naquele galho, é. Entre gatos pardos e folhas de relva, entre nenúfares e tritões. Tantas árvores frondosas dentro da sua jaula e ela preferia a menor, mais próxima das grades de aço, de onde esticava a cabeça e comia amendoins nas mãos dos visitantes. Toda a gente de bem. Os cidadãos e citadinhos. Tinha o jabuti, o rinosoro, o macaco prego. Tinha a girafinha, coisa linda! Voava, pousava, comia os amendoins. Mascava junto uns dedinhos, os visitantes nem faziam questão, a gente boa. Croque croque, monsieur; croque croque, madame; croque como o crocodilo faziam falanges e metacarpos na mandíbula da girafinha. Que língua enorme!, admiravam-se os puritanos. Que esfomeadinha! Quando a família notava os cotoquinhos restantes na mão direita do papai, na mão esquerda da mamãe, nas mãos conjuntadas dos filhotinhos, todos achavam graça, riam das travessuras da girafinha. Ela voava de alegria. Passava o dia a exercitar sua liberdade assistida no zoo-safári. As famílias, fiéis, voltavam sempre. Pois adoravam esticar amendoins para dentro da jaula e alimentar a girafinha, mesmo que a maioria caísse por entre os dedos que já não existiam. A girafinha tinha um longo pescoço para alcançá-los no chão. A cada dia sua vivacidade era maior e maior. A cada dia voava mais e mais alto, mais alto do que as árvores, mais alto do que as grades de aço. O que nos deixou senão o vazio?

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

PARTO



Close nos olhos de uma menina (ver cena inicial do filme Kill Bill vol. 1). O plano se abre e temos um revólver apontado para a cabeça dela. Calibre .38. Tanto a arma quanto a menina são as mesmas que aparecerão no final da história. Há um disparo. Miolos coloridos voam.

O nascimento traz muitas mortes consigo. Talvez o nascimento seja a morte em si. Sua essência. É bobagem falar de essência, eu sei. 'Cause we're living in a material world / And I am a material girl. É bobagem falar de mundo, eu sei. É bobagem falar qualquer coisa. Falar sobre. De cima. Mas há o inominável e falar é o que nos resta. Linguar, linguajar. É tudo o que nos resta. O ser da linguagem. Então falamos. É a nossa essência. Somos enquanto falamos. Falo, logo existo. A voz marca o nascimento. Choramos. A essência do nascimento, a largada, o início da caminhada que leva ao desconhecido. Do lugar algum ao lugar nenhum. Do pó ao pó. Pode dizer o que quiser, pode explicar conforme crê. A morte. Conheço só de nome. Não há nada além. Nem mesmo pó. Há apenas discurso. Discursar é o que nos resta.

Na ocasião de um nascimento, naquele instante imensurável, naquele momento presente que quando se percebe já é passado, mais veloz do que o disparo de um revólver e mais demorado do que tudo o que já aconteceu na história do universo, no primeiro e derradeiro instante, na passagem da vida à morte, ali, exatamente ali, morre toda a pureza das pessoas. Todo o ideal. Toda a perfeição que poderia um dia existir. A utopia? Morre. Inteirinha. Naquele. Exato. Instante. O que nasce é uma farsa. É uma ficção. Uma historinha para boi dormir. Acredite, sei o que estou falando. A fecundação é o primeiro e o último ato verdadeiramente espontâneo das nossas vidas. Dali para frente somos manipulados. Somos levados a acreditar em liberdade. Justiça. Segurança. Certeza. Verdade. Moradia. Tudo ilusão. Tudo ficção. Tudo discursinho. Até quando? Quer saber? Não sei. Sei apenas que, quando o espermatozoide viola o óvulo, a inocência se esvai. Morre. Um morto que jamais choramos. Todo o resto é vazio.

BAM! A menina puxa o gatilho e seus miolos são coloridos. Que lindo. Que poesia. Que fofo.

A manipulação da vida é premeditada. Sim, premeditada por todos os que já morreram um dia. São eles que tocam nosso réquiem. Se há música, há a música dos sons da rua. A crueza do real. A nudez. A surdez potencial. Interesseira. Ignorante. Manipuladorazinha vil e calculista.

Admirável, senhores, admirável. Isto é tudo? É isto um homem?

Os miolos coloridos. Ai, muito lindo! Vejo ali... Veja bem:
As flores, os sonhos, os sorrisos.
Os abraços. Os beijos. Os carinhos e as carícias.
A grama verdinha, o céu azul, a casinha de chaminé. O arco-íris.
Nos miolos coloridos. Vejo isso tudo. Massa cinzenta não. Massinha de modelar.
Tudo vaza pelo buraco da bala. A cova aberta na cabeça da menininha.
Preste atenção porque essa mesma menina vai aparecer de novo no final da história!
Sua cova pode acolher um cadáver ou uma semente, ainda não sabemos. Aliás, eu sei. É você que ainda não sabe.
Sua inocência se esvai pelo buraco aberto, cai como a chuva. Torrenciais miolinhos coloridos. Tudo isso vaza e abre espaço para o preconceito, o pressuposto, o dispositivo, o dogma, a verdade, a certeza, a máquina, a opinião, a bobagem toda, inteira, imensa. Blá blá blá blá blá blá blá blá.

Sente o cheiro? Acre? É pólvora. Enxofre. Fogo. Passa o fogo e resta o buraco. Cheio de lixo. Cheio de quê? Restos, sobras, resquícios de um passado que nunca existiu. Excesso de informação. Toda essa porcalheira de pensamentos produzidos pelos demais. Pensamentos inventados, imaginação, fantasia. Bobagem demais. Demais, tenho demais. Vendo. Vendo pensamento, único dono. Pouco usado. Cheio de preconceito. Cheio de pólvora. Sente o cheiro? Snif, snif. Sniiif.

Sim! Quem se lembra das cores do arco-íris? Vermelho sangue. Azul calcinha. Púrpura... Fúcsia?

(Quem se esquece do pote de ouro?)

Fúcsia você! BAM! Sua vida foi concebida. Pronto, feito. Aceite-a. Leve-a daqui. Suma. Seus miolos foram recuperados. Toda a massa. Cinzenta. Lúgubre, paciência. É o que resta da sua inocência. Culpado! Sim, senhor. É tudo questão de culpa. Quem leva? Você aí, leve esta culpa para longe de mim. Não adianta chorar.

Parabéns, você acaba de nascer. Nunca mais será o mesmo.
Você tem um nome: Odisseu.
Quem?
Ninguém.

Alto! Quem vem lá? Quem está aí?
Eu.
Eu quem?
Ninguém.
Ninguém.
Ninguém.

(esboço de prólogo para o romance Ninguém, que ainda está em processo de criação)

sábado, 1 de outubro de 2016

O NÃO DITO

O que está fora de quadro é quase mais importante do que aquilo que a tela exibe, diz o cineasta alemão Wim Wenders no documentário Janela da Alma. O ato de enquadrar uma cena consiste em excluir elementos visuais. A cada enquadramento o diretor decide o que faz parte da história e o que não deve fazer. Algo similar ocorre além do cinema. Nestes tempos de superexposição de imagens é importante abrir os olhos para o que é omitido das histórias que nos contam. Nos veículos de comunicação, nas redes sociais, nos discursos oficiais e nas fofocas do dia a dia, o que é propositalmente não dito? Quem faz essa seleção e com quais critérios? Quem dirige a nossa vida?

A perspectiva pela qual olhamos um acontecimento costuma vir pré-determinada. Pois quase sempre ocorre que não estivemos lá, não vimos com nossos próprios olhos. O instante decisivo é oferecido depois, junto de uma legenda sobre o que pensar a respeito. Nossas opiniões, em geral, se formam e se apoiam nesse terreno movediço. Porém com raras exceções assumimos a sua fragilidade, parcialidade e inconsistência. Nós as levamos a sério e as defendemos com unhas e dentes.

Enquadramento original feito pela fotógrafa Nilüfer Demir

A fotografia do menino curdo afogado numa praia turca após o naufrágio do bote em que se refugiara com outros imigrantes foi manipulada pela imprensa. Em primeiro lugar porque havia diversos registros da tragédia, feitos por uma repórter que passava pelo local, porém somente uma imagem foi amplamente divulgada. Ela foi editada para publicação: além da criança deitada de barriga para baixo na areia e do policial que a resgatou, o enquadramento original mostra outro policial ao lado, com câmera fotográfica na mão. Ao fundo há dois pescadores, possivelmente turistas. Vemos ainda um furgão passando na estrada. Tudo isso foi deixado fora da cena para enfatizar o drama dos refugiados, que acabou simbolizado no mundo inteiro por aquele garotinho.

O cotidiano da praia foi excluído do quadro em prol do que Roland Barthes chamaria de punctum: o detalhe que, quando percebido, sobressai ao plano geral, salta aos olhos e nos afeta. Ele se expande por toda a foto e para além dela, transforma o entorno, a vida do espectador, o passado, o presente e o futuro. No livro A Câmara Clara, o autor fala ainda de outra natureza desse pungir, que não está necessariamente atrelada à forma, mas à intensidade manifesta no tempo que nos faz estremecer por uma catástrofe já ocorrida.

Edição reproduzida pelo NY Times (e pela imprensa em geral)

Não existe foto sem edição. Desde o enquadramento até a publicação e o seu compartilhamento, escolhas são feitas. A imagem original não é mais verdadeira do que a editada, são apenas narrativas diferentes. O que os veículos de comunicação quiseram, no caso daquela fotografia, foi enfatizar o horror do acontecimento eliminando tudo o que havia de banal ao redor. O resultado é praticamente todo um punctum, que jamais passaria despercebido. As consequências da manipulação foram positivas sob muitos aspectos: houve sensibilização dos discursos sobre a questão dos refugiados, ações sociais de auxílio e mobilização política na Europa. Além de que ficou impossível para o resto do mundo ignorar a situação calamitosa da região.

A manipulação que se faz no sentido inverso é mais perigosa: quando o comunicador enfatiza o banal com objetivo de ignorar o que o acontecimento tem de grave. Somos ludibriados o tempo inteiro por esse perverso modo de produzir discurso nas mais variadas instâncias da vida. Precisamos desviar do evidente e nos perguntar: que parte da história foi deixada de fora? Por qual motivo, com qual interesse? Em nome de quê? Talvez o que não foi mostrado tenha mais a dizer do que a informação explicitada que mantém nossos olhos ocupados.

Barthes alerta também para o perigo da fotografia tida como lembrança. Para ele, trata-se de uma contralembrança, uma vez que apaga o antes e o depois, reduzindo o vivido a uma imagem estática. “A fotografia é violenta”, ele diz. “Não porque mostra violências, mas porque a cada vez enche de força a vista e porque nela nada pode se recusar nem se transformar”.

Barthes sugere que existe um grau de veracidade nas fotografias, o qual cristaliza os fluxos de significação do assunto e as pulsações próprias da vida que o contempla. As imagens estão quase sempre tentando nos dar uma prova factual. Mas elas são ilusões, artifícios, ficções. Podem corresponder a um referente na realidade. Mas na prática oferecem uma narrativa que compõe nossa subjetividade sem que a percebamos.

O artista chinês Ai Weiwei reproduz a cena trágica

Para Wim Wenders, uma vez olhada, a imagem permanecerá viva em nós. Concordo. E acrescentaria que, do mesmo modo, o que não foi mostrado ou o que recusamos a ver permanecerá a nos assombrar.

A demasia de imagens na atualidade modifica a todo instante a imagem que produzimos de nós mesmos. Por isso é necessário ter cuidado e querer saber: em que elas estão nos transformando?

Todos nós temos uma câmera no bolso, somos potenciais fotógrafos em tempo integral. Também estamos sendo filmados e temos que sorrir, atuar, obedecer às regras da vigilância. Alimentamos com fartura a alta profusão de imagens que circulam no contemporâneo. Enquanto as artes da fotografia e do cinema tentam produzir alguma resistência. Em vez de mais imagens, deveriam criar não imagens? Contrafotografias? Antiexposições? Como raspar o clichê e dar a ver outras possibilidades visuais? Como perceber o que foi suprimido daquela verdade em que baseamos as nossas opiniões mais rígidas?

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

AQUI NÃO

Meu sotaque chega na frente e anuncia meu nome com i. Num universo de dezenas de milhões de pessoas, minhas marcas de distinção. Sou personagem desta novela chamada Vida Real. Um drama que já estava escrito e agora dizem que é meu. Todo mundo percebe imediatamente que não sou daqui. Todo mundo me percebe, basta eu abrir a boca, talvez nem precise de tanto. Está estampado na minha cara de migrante. Todo mundo vê. E torce o nariz. Quem é todo mundo, afinal? Dezenas de milhões de faces anônimas, indistintas, que reconheço pelo gesto. Que olham e me apontam com o olhar, apontam com o dedo, apontam a faca e me enxotam: você não é daqui, o que você quer aqui?, não temos nada para você. Volte lá pra a sua terrinha, vice? Aliás, eles dizem diferente: volta lá pra sua terra, mano. Eles quem? Todo mundo. Os outros. Que não são eu, são diferentes de mim, sou diferente de todos. Você não vê? Está na cara que sou. E não me querem por perto dos seus. Não suportam meu sotaque estrangeiro. Minha caatinga. Eu queria voltar, mas não posso. Não posso voltar para onde meu sotaque inexistia nem posso ficar nesta terra que é ainda mais árida. As marcas de distinção me abrem feridas na carne e me deixam exposto às moscas da cidade grande. É o meu sangue que reclamam. E não tenho onde me esconder. Então escrevo. Liberto-me do absurdo da Vida Real para viver a realidade do texto. Aqui sou eu que aponto, invento, apago. Sou sujeito, não objeto. Sou escritor. Meu sotaque chega na frente e anuncia meu nome com i. Todos então abaixam os olhos e me respeitam. Ou todos me querem bem. Ou todos são iguais a mim, conforme eu quiser; têm também o mesmo sotaque, têm o nome com i. No texto eu escolho as minhas marcas, sou eu que invento as distinções. Ser diferente rende elogio. Melhor assim. Prefiro habitar minhas mentiras a ser subjugado pela pretensa verdade dos outros. Pode não ser a melhor das histórias, mas quem narra sou eu. A palavra final é minha. E digo que fico. Permanecerei neste inferno, farei dele o meu inferno também. Não preciso de alternativa. Sou um cabra teimoso.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

QUEM PRECISA DE LITERATURA?


Cheguei ao centro de exposições do Anhembi quinze minutos antes de abrirem os portões. Quase desisti de entrar ao ver o que me aguardava: uma horda de crianças e adolescentes. Um grupo formidável, meio apavorante, interessante também. Se a Bienal do Livro de São Paulo deixou de ser um evento da grande literatura, não se pode negar que permanece um evento cultural imenso. Em especial se considerarmos nosso mercado livreiro, que só recentemente alcançou nível satisfatório de profissionalismo, com editoras, escritores e livrarias de portes e focos diversos, conseguindo sobreviver dos seus produtos num país tão populoso e de tiragens tão ínfimas.

Foi um alívio descobrir que eu olhava para a entrada das escolas, que é separada do público comum. O portão principal estava bem mais tranquilo. E o lado de dentro é tão grande que ainda levaria algumas horas para lotar. Dei uma volta rápida para me situar no pavilhão e em seguida fui à sala onde se realizaria um debate com curadores dos principais prêmios literários da língua portuguesa.

Pois foi só o papo começar para o famoso Lucas Rangel subir ao palco no espaço de eventos ao lado. Sabe quem é? Eu também não conhecia. Mas pela ovação pensei que se tratava de Paul McCartney. Madonna. Alguma dessas celebridades que lotam estádios com pessoas da minha geração para trás. Entretanto quem gritava ali era bem mais jovem. Bem mais entusiasmado também.


O debate a que eu tentava assistir perdia a voz para a gritaria da moçada. Interrompia-se a cada gracinha de Lucas Rangel. Ou a cada lançamento, literalmente falando, dos exemplares de seu livro, que ele atirava para a plateia. “O sensacional livro antitédio do Lucas Rangel”. Sem dúvida ninguém ali padeceria desse mal.

Mais uma surpresa me atravessou: alguém na sala descobrira que Lucas Rangel não é escritor, mas youtuber. Seus fãs não estavam ali pela literatura, embora houvesse um livro no meio da história. Centenas de adolescentes, numa bienal do livro, querendo ver de perto um garoto que só conhecem pela internet. E que não escreve. Enquanto que na sala do debate não havia mais de vinte pessoas. Incluindo os cinco palestrantes. E pelo menos outros quatro ou cinco integrantes da equipe técnica.

Assim como o livro do Lucas Rangel jamais ganharia um daqueles prêmios de que falávamos é bem pouco provável que os escritores contemplados com o Jabuti, Prêmio São Paulo, Prêmio Sesc ou Prêmio Oceanos recebam, algum dia, a mesma aclamação do garoto.

Não vejo (quase) problema algum nisso. A literatura dos prêmios e aquela, digamos, “de mercado” têm públicos diferentes e se inserem em registros culturais diferentes. Isso não faz uma melhor do que a outra, pois sequer são comparáveis segundo um mesmo parâmetro. É preciso compreender essa diferença para aceitar que um livro dedicado à arte da literatura não é ruim porque vende pouco – inclusive há autores que fazem questão de provocar, dificultar a leitura e afugentar o leitor. Sua qualidade nem sempre está no deleite. Ao mesmo tempo em que os livros produzidos com objetivo de grandes vendas raramente contribuirão com questões da estética.


Cada público lê aquilo que lhe interessa. A falta de leitura é um problema, sem dúvida. Porém ler um texto qualquer não é o mesmo que vivenciar a experiência estética da literatura. Saber ler e praticar a leitura é necessário porque acessamos informações e convivemos em sociedade por meio da língua, tanto a falada quanto a escrita, e a maior parte das pessoas leem e se expressam muito mal. Não dominar essa linguagem implica abrir mão de todo o aparato que ela oferece, do qual somos muito dependentes, feliz ou infelizmente. Implica dificuldade de relacionamento, conhecimento e exercício político. Literatura não. Ninguém precisa de literatura para viver, em especial a literatura de ficção. Inclusive é nessa falta de necessidade que reside a sua potência.

Como leitor, pesquisador e escritor é evidente que eu adoraria ver cada vez mais pessoas interessadas pela arte da literatura. Adoraria ver debates, clubes de leitura, bibliotecas, oficinas, saraus, prêmios, enfim, eventos literários em geral se multiplicando e se tornando cada vez mais requisitados. Adoraria ver leitores esmiuçando o assunto e produzindo a sua própria literatura de alto nível. Mas entendo que, por mais que deseje, isso não a torna necessidade vital. Mesmo os profissionais do meio viveriam de outra atividade se não existisse literatura.

É necessário, sim, abdicar do discurso de que todos devem ler os clássicos A, B e C. De que devem gostar e reconhecer que são imprescindíveis. Porque é pretensão demais – e também ingenuidade – obrigar à arte. A educação, a sabedoria e a emancipação não se fazem pela força, mas pelo convite, pela garantia do direito de escolher e pela partilha do sensível.

Claro que a lógica do capital não tolera tais princípios. Por conta disso as grandes casas editoriais do Brasil, praticamente todas ancoradas em investimento estrangeiro, tendem a diminuir o espaço dos escritores que fazem arte de alto nível porém vendem pouco. Ao mesmo tempo em que as pequenas editoras acolhem bons profissionais do ramo e começam a se encarregar dos novos autores e do futuro da alta literatura. E a Bienal do Livro de São Paulo? Tudo indica que estará cada vez maior. E mais barulhenta também.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

EU, TU, NÓS

A desvantagem de amar é também a sua vantagem
desgostar e gostar o tempo inteiro, atar
nós de tempos em tempos, sem tempo
ao infinito

Ficar a sentir e a dessentir
sem temer, sem ter
certeza alguma senão a momentânea
absoluta até não ser mais
nada

O que é sólido desmancha
no ar a totalidade se fragmenta, esvai
a tradição não vai além
das nossas reminiscências

O que resta? O que vem?
Quem caminha lá adiante? Alto!
Identifique-se! Seja lá quem for
ignora o aviso e é
alvejado e cai e sangra e morre
como qualquer ser
indigente, eu, tu, nós

Não se deve falar de amor em termos de
vantagem, não tem significado algum
traz apenas sentimento
nada em troca
afoga

Outra coisa, o amor
ainda desconhecida por ora
apenas gostamos e desgostamos
em nossa inocência matamos
quando convém
desatamos nós, tu, eu

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

CONSCIÊNCIA DO CORPO

A apresentar o garoto Jorge Alberto Gomes, de 14 anos, que acendeu a pira olímpica na praça da Candelária, a repórter mencionou que ele “estuda atletismo” na Vila Olímpica da Mangueira. Achei bonita essa expressão: estudar atletismo. Porque é comum usar os verbos “treinar” e “fazer” quando falamos de esporte; enquanto “estudar” acaba associado a outras atividades de conhecimento, a maioria delas mais valorizadas, como se pudesse haver grau hierárquico nesse quesito. Pois existe um conhecimento que é próprio do esporte, que vai além do aprendizado técnico e da prática exaustiva, ou seja, vai além de treinar e fazer. É uma inteligência especial que se produz através do corpo – pelo desenvolvimento físico, pelo aguçamento da sensibilidade e pelo atravessamento do mundo no corpo. Uma inteligência tão difícil de localizar que por vezes acaba desconhecida, menosprezada e raramente experimentada nesta atualidade em que os corpos são quase sempre objetos de violência, suportes de cabeça ou prolongamento de máquinas. Onde o esporte, em geral, é considerado apenas instrumento de saúde, fábrica de beleza ou mero entretenimento.

Eu mesmo não sou nada esportista, sinto-me pouco afeito à prática e muito menos ao seu aperfeiçoamento. Minhas atividades físicas se resumem a caminhadas e bicicletadas eventuais, despretensiosas, que me fazem sair do escritório, habitar um pouco a cidade e chegar a um destino específico. Porém faz alguns anos que me aproximei das interfaces entre arte e clínica, que encontram recursos para a intervenção terapêutica nas atividades de sensibilização e de linguagem corporal. Isso me leva a acreditar que o esporte é um poderoso meio de expressão dessa humanidade encarnada, que não existe somente por causa da razão esclarecida, mas também porque está implicada num ser sensível, ou seja, num corpo que sente o mundo ao mesmo tempo em que age no mundo. Um ser que existe não apenas porque pensa logicamente, como afirmou Descartes, mas porque incorpora pensamentos, afetos e sensações para assim gerar uma existência singular, que percorre outras estradas na interioridade e exterioridade da vida, tanto no âmbito particular quando no coletivo.

O filósofo José Gil fala de uma “consciência do corpo” que se encontra além do simples reconhecimento de que o corpo existe, possui forma e pode sentir dor ou prazer. Seria a impregnação da consciência pelo corpo; uma instância de recuperação das forças do mundo e de devir as suas formas, intensidades e sentidos. Não falaríamos mais de separação do físico e do psíquico, como se corpo e mente fossem entidades alheias; carne e consciência seriam, em sua ambiguidade, manifestação de uma outra inteligência.

Segundo Gil, a percepção do mundo não provém do interior nem do exterior do corpo, mas desse lugar fronteiriço em que ambos se sobrepõem. Um conhecimento formado na ambiguidade do dentro e do fora, que exige um importante trabalho de abertura do corpo aos afetos. Em suas palavras, “é todo o corpo que se transforma. O seu em-redor torna-se espaço, confunde-se com um espaço de intensidades, de osmose potencial, de visões e tatos à distância, espaço pronto a entrar em conexão com intensidades de outros corpos. (...) Abrir o corpo é, antes de mais nada, construir o espaço paradoxal, não empírico, do em-redor do corpo próprio. (...) Um espaço-à-espera de se conectar com outros corpos, que se abrem por sua vez, formando ou não cadeias sem fim. (...) O espaço e o corpo-consciência são afetivos porque neles se formam turbilhões poderosos de vida”.

Como podemos nutrir esse espaço relacional ao redor de nós mesmos, de nossos corpos, de nossas vidas? Além da simples prática do esporte, devemos investir no seu estudo. De modo que seja possível apurar essa consciência do corpo e o abrir aos afetos que nos convocam o tempo inteiro. Estudar o esporte para que possamos, por meio da consciência que ele gera, experimentar os problemas do mundo numa outra perspectiva, com outros valores e sentidos.

Isso não significa transformar o esporte num objeto de análise acadêmica, como as faculdades de educação física ou mesmo a medicina e suas ramificações fazem há muito tempo. Significa perseguir e aguçar aquele conhecimento que só é possível através da atividade corporal enquanto linguagem; ou seja, da consciência, da sensibilização e da expressão que se desenvolvem através do corpo do esportista.

Nos últimos séculos a humanidade vem ignorando enfaticamente diversas instâncias de conhecimento em prol de uma única, hegemônica, que é a da razão, da lógica, das justificativas de ordem pragmática. Acho vital, para nossa sobrevivência diante da hostilidade capitalista que nos oprime cotidianamente – e que é vivida no corpo e pelo corpo –, que providenciemos lugar onde outras inteligências possam se desenvolver e onde elas se complementem. Onde possamos partilhar o que existe de sensível no mundo e, daí, colher uma sabedoria mais adensada e intensificada.

Costumo defender que a arte é um desses lugares de sobrevivência. Outro com certeza é o esporte. Mais do que a prática de ambos, devemos lutar pela consciência que eles podem aprimorar. Lutar para que a educação pelo esporte seja tão relevante quanto pela matemática, pela história, pela biologia etc. Uma sociedade com tamanha defasagem educacional como esta em que vivemos jamais será justa com os seus desejos e as suas potências. Por ora, como bem sabemos, ela só condiz com o próprio sistema que a oprime.

Quem sabe os jogos olímpicos, apesar de toda a problemática política, econômica e social que trouxeram ao Brasil, não provoquem também algum contágio em relação ao esporte? Que esse contágio seja grave o suficiente para irromperem regimes de consciência mais complexos, que deem conta de apreender a situação do país, unir as pessoas e transformar o sistema político-social de forma mais efetiva, onde os demais modos de consciência e de conhecimento têm falhado dia após dia, ato após ato.

domingo, 10 de julho de 2016

ESTADO DE CAOS

Um conforto perigoso habita a opinião benquista. Pois é cômodo dizer aquilo que os demais querem ouvir, é um alívio ser aplaudido por tamanho consenso; um prazer ainda maior do que ouvir do outro a ideia com a qual concordamos sem tirar nem pôr, com a qual compactuamos, ou seja, selamos um pacto. Obtemos, em ambos os casos, paz de espírito, confiança e tranquilidade na ordem geral das coisas; na qual, confortavelmente, nos enquadramos muito bem.

O que há de perigoso nisso? Sucumbir à regra. "Pois é da opinião que vem a desgraça dos homens", afirmam Deleuze e Guattari na conclusão do livro O que é a filosofia? Para eles, o termo "opinião" se refere àquelas ideias prontas que se encadeiam segundo um mínimo de regras constantes e nos fornecem o sentimento de proteção, semelhança, contiguidade, causalidade e ordem.

A contrapartida seria o caos: o inconstante, o incerto, o desvio, o dissenso, aquilo que não se deixa determinar pelas regras nem pela moral e que produz embates com o instituído. O estado de caos provoca insegurança, conflitos e desordem geral.

Salto no vazio (1960), de Yves Klein
O que pode ser positivo. Porque é no caos que reside a potência transformadora; é somente daquele desconhecido que pode surgir o novo. Segundo Deleuze e Guattari, a filosofia, a ciência e a arte querem que rasguemos o firmamento e mergulhemos no caos. Não para nos afogar nele, mas para que possamos traçar novos planos de imanência.

O artista mergulha no caos à procura de variedades; ele sensibiliza o caos para que dali nasça um ser sensível, para que possamos experimentar novas sensações, novas formas, novas possibilidades de existência.

"Será preciso sempre outros artistas para operar as necessárias destruições", dizem aqueles filósofos. Porque o artista enfrenta o caos e apressa o desregramento, querendo produzir uma sensação que desafia toda opinião pronta, todo clichê – até que a própria destruição vire regra e sua potência de arte esmaeça. Afinal, a arte deve se manter em movimento, continuar sempre a se reinventar. Para assim se manter viva.

A arte viva provoca inquietação, ainda que sutil. Por mais encantadora que seja, por mais agradável e benquista, a arte viva não é mera opinião – ela opera, justamente, um desgaste das regras, das instituições, das formas de existência enrijecidas. Enquanto que, por outro lado, a arte livre de conflitos perde sua conexão com o caos e se cristaliza num pastiche.

Ignorar o caos leva invariavelmente às atitudes fascistas. Que implicam negar a vivacidade, a potência e a diferença do outro. De maneira a impor a ele como regra a própria opinião, os próprios modos de ver, pensar e fazer do fascista, como se fossem "os corretos", como se não pudesse haver outros. Nesse sentido, o fascismo é a impossibilidade da vida comunitária, pois nega a existência dos demais seres.

O mito fundador desse termo remete à velha Itália de Mussolini, quase um século atrás, porém seu uso permanece em alta. Sim, existe esse outro perigo que nos contagia e que habita boa parte das opiniões sobre o fascismo atual: a institucionalização do fascista como um personagem, meio Cunha meio Bolsonaro, que deve ser cassado/caçado a todo custo.

Esse estereótipo, que se encontra sempre no outro, acaba por atrair atenção para si e por ocultar o fascista que nos habita e nos constitui. Que parece inofensivo, apesar da crueldade de suas ideias. Que não se percebe como fascista porque olha apenas para fora. Um comportamento perigoso, comum e banalizado, que Foucault já apontava no prefácio de O anti-Édipo, outro livro de Deleuze e Guattari.

Nesse texto, Foucault sugere um exercício que cabe a nós ininterruptamente, como verdadeiro esforço para o conviver social: atentar, identificar e banir todas as formas de fascismo, não somente as colossais, que nos envolvem e nos esmagam, mas também – e principalmente – as formas miúdas que fazem a amarga tirania de nossas vidas cotidianas. O fascismo que ronda nossos espíritos e nossa conduta, que nos faz gostar do poder, que está incrustado na cultura ao ponto de parecer normal, como uma simples ordem geral das coisas.

Como não agir como fascista, mesmo quando se acredita ser um militante revolucionário?, pergunta o filósofo. Como livrar do fascismo nosso discurso e nossas atitudes, nosso coração e nossos prazeres? Como lutar para que os outros sejam como desejam ser, e não conforme nós acreditamos que devem ser?

Abrindo as portas ao diálogo, acolhendo o diferente, livrando-se da conduta moralista, polarizada entre o bem e o mal, o certo e o errado, o real e o falso. Evitando desqualificar ou repudiar movimentos sociais sem conhecê-los de perto, sem se deixar afetar por suas causas. Deixando de reproduzir os modelos que se quer combater e as suas violências. Preferindo o positivo e o múltiplo ao invés da falta e do uniforme. Liberando a ação política da paranoia totalizante. Lutando com alegria.

O medo constitui uma das mais antigas formas de manipulação. Um povo com medo aceita se submeter às promessas de segurança do governo que anulam direitos e jamais se cumprem por completo. Um povo com medo vive sujeitado a um estado policial, acreditando que somente assim terá paz.

Precisamos vencer o conforto da ordem e mergulhar no caos. Abandonar a lógica sistêmica, os números sem sujeito, os projetos organizados administrativamente, que nunca darão conta de compreender o que é vivo e se transforma a todo instante. Porque o vivo escapa das regras, ao ponto de ser ingenuidade querer enquadrá-lo nos formulários todos com que sonha a nossa vã burocracia. Precisamos mergulhar no caos e traçar, a partir dali, nossas intenções de futuro. Precisamos inventar, poeticamente, o país que queremos ser. É pelo estado de caos, sobretudo, que nos veremos livres deste atual caos de Estado.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

SOBRE AS RUÍNAS DO HOJE

Uma criança constrói um castelo à beira-mar. Um castelo de sonhos, desejos e ilusões. Cuja estrutura de areia não resiste à primeira onda mais forte. A criança tenta protegê-lo, atira-se à frente; pensa que pode, sozinha, conter a catástrofe. Não adianta. Na investida da água, ela e o castelo desmoronam. Então o mar recua, e a criança, com a inocência que lhe é natural, põe-se a construir um novo castelo. No mesmo lugar do anterior, com a mesma forma, a única que conhece. À distância, a onda observa seu esforço.

A criança cresce, o reino ganha a dimensão do real, o lúdico se desfaz. Seus encantos se contaminam pelo excesso de verdade, de lógica e de razão. No paradigma em que vive já não há lugar para o simbólico, o mítico ou a fantasia. Há somente a consciência e a permanência da crise. Ela olha ao redor e percebe todos os castelos arruinados, tentando sobreviver à inércia, levando-se a sério, apesar de tudo. Fundamentados num modo de agir ilusório, que já não condiz com as demandas do presente. Mesmo as instituições novas, que se propõem substituir as precedentes, logo desmoronam, pois são erguidas conforme um modelo falido. Ainda assim os muros se elevam, a desordem interna é mantida e administrada para que o controle da ordem seja mais desejado do que a revolução. O autoritarismo de alguns explora a impotência de outros. As violências produzem novas formas de violência. Invoca-se o medo, assume-se o patético. Que vêm anunciar um final iminente.

Diversos círculos (1926), de Vasily Kandinsky

Até pouco tempo os fragmentos daquela ruína eram inspiração de certo romantismo; agora se transformam na linguagem da decadência. Vestígios de utopias que não se recuperam, exceto pela ilusão de edificar novamente o passado longínquo, um pressuposto desconhecido senão pelo que se conta a seu respeito. Passado a limpo pelas bateias da História.

As energias se exaurem. Entretanto o fim nunca basta em si mesmo. Algo sobra para indicar novo início. Algo larval, que pode gerar forma qualquer de existência. "Não se trata de deplorar essa realidade, mas de constatá-la. Pois talvez se esconda, no fundo desta recusa aparentemente disparatada, um grão de sabedoria no qual podemos adivinhar, em hibernação, o germe de uma experiência futura", diz Giorgio Agamben.

É esse ser qualquer que vem, é dele que precisamos cuidar. Abrir espaço na melancolia, retirar o acúmulo de entulho, inventar lugar algum onde aquela larva possa desenvolver sua potência, seu devir humanidade.

Como? Despojando-se do moralismo, da tradição, das regras do jogo. Tudo para fazer valer o mais importante: o direito aos direitos. Garantir, qualquer seja a comunidade porvir, que ela tenha direito à emancipação que desejar. Que possa partilhar o sensível, afetar-se, transfigurar-se. Que possa e consiga inventar desvios em desconformidade com o estabelecido, o mal ordenado e mal construído. Cuja contestação se formule à parte do senso-comum.

Se o desfazimento é incontornável, ainda podemos criar e sustentar lugares de refúgio, repouso, acolhimento, diálogo, experiência, invenção. Lugares poéticos e provisórios, sutis e delicados; algo heterotópicos, que contradigam todos os demais lugares, como pensava Michel Foucault. Lugares ambíguos, feitos de sonhos localizados na realidade, feitos da mistura de incompatibilidades; onde exista habitat para o dissenso, onde proliferem outras relações com o tempo, onde todo dispositivo fascista seja desarmado pelos artifícios poéticos. Lugar sem lugar, como um barco à deriva no mesmo oceano em que deságua o rio do esquecimento. Um imenso limiar, uma passagem sem limites.

Não cabe defender modelos nem reproduzir discursos esgotados. A ética do contemporâneo está em defender aquilo que vem. Por meio do difícil método da criação sem finalidade nem objetivo, que possibilite essa vinda sem pretendê-la solução, cura ou salvação. Está em preparar o espaço, cuidar das poéticas e políticas do sensível, abri-las ao desconhecido. É preciso coragem para se desapegar das estruturas enrijecidas, sempre de prontidão para confortar a opinião preguiçosa, que não flexiona, não reflete nem dialoga. Também é preciso acreditar naquela existência que está para ser inventada. Uma convicção intensa o bastante, de maneira que esse desconhecido sobreponha o medo que paralisa todos nós. É somente assim que evitaremos sufocar, nos escombros dos nossos ingênuos castelos de areia, o ser que vem. As ruínas estão dadas. A onda continua à espreita.