segunda-feira, 27 de julho de 2020

ANTICORPO

Foto de Velizar Ivanov em Unsplash

Fechado
num esforço coletivo
insuficiente, paliativo
sem tocar nem ser
tocado, sem poder
tocar ou fazer
proibido
pela própria consciência
de um comum
possível
sem sorriso, só smile
sem encontro sem reflexo
de mim sobreposto ao outro
a fantasmática do corpo
– ou o seu contrário?
cadáver ainda vivo
apenas
mais um e
nada mais.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

“DIANTE DOS MEUS OLHOS” É FINALISTA DO PRÊMIO GUARULHOS DE LITERATURA

Muito feliz aqui com a notícia de que sou finalista na categoria Livro do Ano! Junto comigo tem um monte de gente talentosa e de editoras que acreditam na produção brasileira contemporânea. Você pode conferir a lista completa aqui. Parabéns a todos! 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A LEITURA COMO DESREGRAMENTO DE SENTIDOS

Há livros que me causam uma sensação de abstinência quando deixo de lê-los. Ainda é um mistério por que acontece com alguns e não com outros. Resta essa espécie de nostalgia de uma experiência de vida fictícia, uma vontade de voltar ao que nunca vivi de fato, mas que vivenciei de alguma maneira por intermédio de palavras e imagens. 

Penso se ler poderia mesmo desestabilizar o continuum da vida comum e levar a uma “iluminação profana” – para usar a expressão de Walter Benjamin – por meio dessa embriaguez não alcoólica, quer dizer, sem o uso de outras drogas senão o próprio livro, com o delírio sugerido pelo cheiro de tinta em papel. Uma suspensão de certa ordem que nos abre para outra; pensamento que irrompe de um jogo e remonta toda uma cadeia de significações já formada e banalizada.

Abrir as páginas de um livro de prosa ficcional implica abrir a mim mesmo e me dispor a encarnar um personagem outro; a possessão da sua existência imaginária, dos seus sentimentos contornados pela sintaxe. Viver inclusive uma alteridade radical, como a produzida por William Faulkner na primeira parte de O som e a fúria, em que adentramos a lógica torta de um deficiente intelectual, ou a de Meu tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa, em sua estranha animalidade.

A experiência é exigente porque requer desativar mecanismos pessoais já muito aprimorados para inventar outro funcionamento. Acaso se consiga decorrerá o horror ou o prazer da ebriedade estética, por assim dizê-la; esse desregramento dos sentidos que expande a percepção para além das fronteiras do senso-comum.

Há pouco li O museu do silêncio, romance escrito pela japonesa Yoko Ogawa em que um museólogo é chamado a um vilarejo para lidar com uma coleção de objetos especiais. Enquanto se avizinha à nova situação, passeia pelos arredores e nos envolve num enredo inquietante e ao mesmo tempo aconchegante, do qual é difícil sair ileso. Cada vez mais implicado no projeto do futuro museu que está organizando, esse personagem transborda a própria margem e dá a ela nova forma; entre os copos de uísque, enamora-se por uma menina, aproxima-se da natureza com o uso do microscópio e se afasta da própria história familiar. Com ele, passo também a operar segundo outra modulação. As regras se desestabilizam, afrouxam, confundem os sentidos e me levam a uma vida não vivida na realidade, mas na ilusão, da qual ainda assim podemos falar, traduzir em imagens, descrever e interpretar; não menos real, portanto.

Sabemos que a criação da perspectiva na representação visual depende de um ponto de fuga; uma formulação matemática para que se possa escapar da banalidade da vida e adentrar um contexto ilusório disposto na realidade. Puro artifício a enganar os olhos, que veem profundidade num plano preenchido de pigmentos coloridos. E na representação literária, seria muito diferente?

Bacchus (1596-1597), de Michelangelo Merisi, dito Caravaggio
Traço aqui mais um ponto de fuga em busca de nova perspectiva: Caravaggio pintou um famoso Baco, composto por um misto de juventude, quimera e podridão, que olha para fora do quadro, desatento. Tudo ao seu redor parece organizado à perfeição. Ao observarmos a pintura, em seu universo ilusório, vemos a mera banalidade de todos nós. Interessa-me, contudo, saber o que ele vê através da superfície pictórica, com seu olhar desviante e suas bochechas rosadas que denunciam um abandono de si. Aquele Baco é um leitor do nosso mundo; o deus que deixa o sagrado perpétuo para habitar a realidade profana. Quem somos diante da sua imortalidade? Uma existência finita, da qual pouco se preserva. Precisamos desaparecer suficientemente bem para que exista o movimento da vida e os momentos de suspensão que denominamos história.

Cansado, não posso controlar o sono e durmo com O museu do silêncio nas mãos. As páginas do livro aberto fazem as vezes de um portal por onde afluxos de sentimentos vêm e vão. Imagens. Palavras. Afetos. Tomo o mesmo trem que leva o museólogo à vila no interior do Japão; o trem que ele jamais pegará de volta. Parte de mim permanece com ele naquele lugar incrustrado nas montanhas e florestas. Parte de mim observa à distância a coleção de objetos que pretende rememorar cada vida extinta naquela comunidade. Outra parte não será vista novamente; esta última talvez seja a única verdadeiramente liberta.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

DERROCADA

Foto de Alexander Andrews em Unsplash


Eis que a árvore cede
arrancada de suas raízes
tomba na direção do muro
apoia nele seu derradeiro peso
escora num único abraço
sua ordem arruinada de tijolos e cimento,
a qual cederá
assim que a árvore for retirada.

É uma conjunção perdida
mantida por aparelhos enquanto
insistimos na preservação daquilo
que foi e não tornará a ser.

Há esperança, contudo
já não há árvore nem muro.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

TOMAR DISTÂNCIA


Photo by Andrew Buchanan em Unsplash

Des-ver
estranhar
excomungar
expatriar

ser um pouco estrangeiro
me perder no próprio mapa
tomar distância 
desconhecer melhor a vida 
dada de antemão

ver nessa vida o que
ela não é, vê-la
diversa de mim
e a abrir a vida, esgarçar
sua imagem, escancarar
o olhar para torná-la
imaginariamente
outra e em seguida outra
realmente

embriagar-me das falhas
até que estejam completas
de frescas ligaduras
que também cristalizarão,
desejantes de um olhar
fascinado e perigosamente
próximo.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

QUASE CIDADES


Foto de Issy Bailey em Unsplash

Existem cidades antigas
cidades futuristas
e existem as cidades
que eu conheço
como aquela
onde nasci
onde quase nada vale a pena ser guardado
nem aponta para um sonho
nenhuma utopia
um lugar que é só presente
para sempre, enquanto durar
poderia ser qualquer lugar do mundo
de alguma maneira é
sem graça
uma lembrança que não se assenta
nem aceita carinho
ou gratidão, tão banal
que é só uma cidade de sobrados gradeados
aos poucos derrubados para no lugar
erguerem prédios banais, também gradeados
com sacadinhas onde casais cansados de si
estiveram uma única vez
e prometeram voltar
falaram nisso, fizeram planos
ainda aguardam a oportunidade certa.

Não haverá
futuro ou memória
apenas este presente infinito
ínfimo, cuja intimidade já não tem mistério
ou sonho
– quem dera utopia
não existe
sequer afago que não seja burocrático, rotineiro
automático, não sei
dias iguais como cada andar do edifício parado
com suas sacadinhas estúpidas
sua disposição padronizada de cômodos
vizinhos, uns como os outros
tão semelhantes
que nem mesmo se cumprimentam
nas áreas comuns, no elevador
por exemplo
vizinhos sem passado ou futuro, gradeados.

Mas eu dizia cidades
onde quase nada vale a pena
– e o quase
faz toda a diferença
sinto que preciso buscá-lo, deve estar por aí
naquela luz acesa quando as demais já dormem
num elevador em que não se fala do calor
– dane-se o tempo presente, ainda dá para encontrar o quase
a falha na programação
fôlego retesado de surpresa
que irrompe da sacadinha e salta no vazio
escapa dos tentáculos mórbidos e
voa, enfim, para longe
àqueles lugares clássicos ou revolucionários
deslocados do agora que é igual ao ontem e à semana que vem
onde se pode experimentar um jeito outro
um pensamento fugaz, um desvio, um desejo
a fagulha que inicie o grande incêndio
das cidades onde nasci e conheci e das quais
sequer me recordo
porque nunca habitaram em mim.

sábado, 6 de junho de 2020

TOMAR DISTÂNCIA PARA DESCONHECER MELHOR

Carta ao pai (2015), de Élida Tessler

Para desgosto de meus pais, quando criança eu adorava desmontar objetos, sendo a caixa de ferramentas um dos meus brinquedos favoritos. Dos carrinhos de plástico aos rádios de pilha, do sifão do lavabo à base do liquidificador, tudo se reduzia às suas menores peças. Eu também misturava produtos de limpeza e às vezes ateava fogo numa coisa ou outra para ver o que acontecia. Tinha um profundo interesse pela estrutura desses objetos, aliado à curiosidade de saber como se transformariam quando submetidos a condições inusitadas. Hoje sei que fiz isso tudo movido também por outra vontade: a de estranhar aqueles objetos que me eram tão banais, dispostos no meu dia a dia como se estivessem ali desde sempre e para sempre. Desparafusando tampas, removendo fios, forçando lacres e depois remontando tudo numa nova composição disfuncional.

Certa vez, logo que saímos de uma exposição de Mira Schendel no MAM-SP, pedi aos estudantes de graduação que eu acompanhava para descreverem o que tinham visto. Nenhum foi capaz de se ater à elaboração mais fundamental: trabalhos de arte em sua maioria feitos com tinta e papel, dispostos em sequência cronológica nas paredes, as molduras todas na mesma altura média, poucas cores destacadas na brancura do museu etc. Eles logo saltavam às impressões que a exposição lhes provocara e às supostas intenções da artista. Apesar da minha insistência, parecia impossível limitarem-se à descrição formal sem significá-la.

Em oficinas de escrita, costumo propor um exercício: os participantes devem eleger um objeto comum de sua rotina e descrevê-lo como se nunca o tivessem visto. Isso que parece simples revela-se um transtorno. Em primeiro lugar porque, com o tempo, perdemos o hábito de apreciar as formas, os mecanismos, a complexidade, enfim, desses objetos com os quais lidamos invariavelmente. Em segundo lugar porque é automático irmos direto às experiências que nos proporcionam, quer dizer, ao seu uso, assim como às memórias a eles associadas. Objetos pessoais têm uma função e uma história; acontece que por vezes elas ocupam todo o lugar da sua existência. Essa proximidade prejudica nossa aptidão de vê-los como eram antes de terem se tornado familiares.

Na última vez em que fizemos o tal exercício, um dos presentes escolheu descrever um mapa. Foi engraçado porque o título já anunciava algo como: o mapa em cima da mesa. Quer dizer, o objeto já estava nomeado e sua condição, estabelecida, independentemente de todo o esforço que viesse na sequência do texto para apreciá-lo.

O mapa é um dos objetos mais complicados de descrever como se jamais o tivéssemos visto porque, em si, resume-se a cores e traços no papel. A representação que nos propõe exige um tanto de educação para ser decodificada. Somente assim sabemos, por exemplo, que o azul remete às águas; o verde, à floresta; o laranja, a certa topografia; a escala, ao tamanho real; além das direções, longitudes e latitudes, rotas, fronteiras geopolíticas etc. Sem compreendermos toda essa legendagem, o mapa é um desenho abstrato.

Se recusarmos essa intimidade imediata que nos faz perceber o mundo no mapa e tomarmos distância para desconhecê-lo; se negarmos nosso condicionamento e abrirmos sua imagem, desmontarmos seus dispositivos, talvez possamos nos tornar um pouco estrangeiros nesse mapa e questionar por que a Europa é o norte, por que muitas fronteiras na África são linhas retas, por que é tão difícil localizar países como Irã ou Vietnã, enquanto temos um imaginário tão detalhado de Nova York, entre outros inúmeros exemplos. Experimentar, portanto, um estranhamento que é também como uma expatriação, pois nos destitui de um território doméstico e de uma língua mãe.

A descrição, que implica distanciamento, interrupção, desmontagem e remontagem, deixa ver também um segundo ponto: o de que esses objetos todos ao nosso redor mantêm algo irreconhecível, que permanecerá desconhecido apesar de nossas tentativas para esclarecê-lo. Estranhá-los, ou seja, romper com sua aparente imobilidade e com essa familiaridade das relações já estabelecidas, é bem o contrário: conhecer obscurecendo. Tal como acontece quando a racionalidade ocidental, de herança iluminista, tenta lidar com conceitos orientais como wabi-sabi ou ma, que não se reduzem a uma definição e, no limite, são mesmo impossíveis de dizer; é necessário abandonar a linguagem para vivenciá-los em outros registros do sentido. O que nos leva ainda a um terceiro ponto do exercício: o de que escrever jamais será o mesmo que a aparência visual nem substituirá a coisa em si.

Para se consolarem por minha reinação incontrolável, que eventualmente trazia prejuízos de diversas espécies, inclusive financeiros, meus pais ora suspiravam que “ao menos” assim eu me tornaria cientista, ora diziam “inventor”. É verdade que trago ainda aquele ímpeto comigo. Apenas com ele posso inventar meu caminho nas artes e na vida, do mesmo modo como prossigo com minhas investigações nas ciências humanas.

No que diz respeito ao conhecimento, temos atualmente dois partidos muito em voga e não excludentes: aquele que aposta mais em armas do que na educação e outro que, por completa ignorância de como a humanidade é complexa, acredita que bastaria investir nas ciências exatas e biológicas. Todavia há questionamentos que só ganham forma em lugares menos precisos, talvez até menos dizíveis e, não obstante, vitais para o conhecimento de nós mesmos.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

TERAPIA INTENSIVA

Vista lateral leste do Palácio do Planalto (fonte: Arquivo Público do DF)

Por que falar agora (ou nunca)
ou num momento qualquer
suspender a voz, as tintas, o tônus
– o que temos, se nada resta
tão pouco que se torna impossível
“sobre”viver entre
residências
desistências
imobilidades
de corpos tão fragilizados, oscilantes, suspirados
como as pausas nas chamadas de vídeo
com seus espectros de aspecto pacato
absorvidos pela iluminação artificial das telas de LED.

Como é possível estabelecer conexão
à fria luz de maio
meia estação, relação entrecortada por
tudo que falha e só faz escancarar a ruína
abismal, escara de um estado de inexistência
falência múltipla de órgãos públicos
quando lá do alto
do planalto berra-se:
e daí?

De seu leito
há quem sinta que é possível ainda
falar porque é preciso
com a voz, as tintas, o ímpeto derradeiro
dar a ver e a ouvir os aflitos
a quem tal violência disparada a esmo
atinge o âmago como uma bala
nem tão perdida assim porque sempre 
fere o mais desprotegido
a existência mínima que só resta
falar e resistir, pois é fundamental
jamais calar diante das ordens de assassínio
e desaparecimento imemorável.

Enquanto houver voz, ouvirá vida.

Leia mais em: Cartas da pandemia

terça-feira, 5 de maio de 2020

O ESPAÇO ENTRE MIM E O OUTRO

Foto de Angèle Kamp em Unsplash
Ainda aprendo, com dificuldade e alguma curiosidade, esses sutis gestos de horror que dominaram o espaço entre mim e o outro. Se antes tal meio parecia esvaziado, agora acolhe a coreografia da tragédia que escapa à cena e se realiza no hall do condomínio, na calçada, nos corredores do mercadinho, onde cabe apenas uma pessoa por vez: devo olhar antes de avançar, ter certeza de que estarei só enquanto o outro, que também precisa fazer seu bolo, titubeia, dá um passo atrás, tenta não violar meu cordão imaginário de isolamento. E se por acaso erro o passo a dança desanda, como o creme que pretendia confeitar com este açúcar, essência, desejo. Os humores, vencidos, talham. A paranoia fermenta admiravelmente, por sua vez. Confunde-se com o cuidado comigo e com meus semelhantes, assassinos potenciais. Isolamento tornou-se atitude social. Cárcere privado eletivo. Os paradoxos não se eximem de aparecer para um café amargo. Dia desses, no trabalho, anunciou-se: ao manter distância você mostra ao colega que se importa com a vida dele. Não fosse terrível, seria divertido. Não fosse atroz, não sei. O tempo dirá. Espero. Mesmo os gestos mais estranhos, aos poucos, tornam-se banais. Há duas semanas eu diminuía o ritmo na calçada para observar meu reflexo mascarado nos vidros dos carros estacionados. Ontem fui beber água e a derramei por todo esse mesmo filtro que me cobre a boca, nariz, corpo, família, futuro.

Leia mais em: Cartas da pandemia

quarta-feira, 15 de abril de 2020

GUARDADAS

Foto de Melissa Paniagua Ponce.

as distâncias na fila
os vazios no horizonte
as câmeras no céu
os olhos na tela
os pássaros no aquário
as crianças no tédio
os pijamas no escritório
os silêncios no elevador
os medos no outro
as angústias no sofá
os amores na gaveta
as invisibilidades no catre
os monólogos na mudez
os ímpetos na despensa
as revoluções na panela
os sonhos no freezer
as vidas no microscópio
os desejos no exterior
as quebras na saída
as mordaças no app
os disfarces na rua
as esperanças na prateleira
os gelos na mão
os próximos na cova
as imprecisões no número
as imagens no obscuro
as sintonias no impossível
as violências no pronunciamento
bem embaladas e guardadas as
indevidas proporções.

domingo, 12 de abril de 2020

VANESSA VASCOUTO LÊ UM TRECHO DO "DIANTE DOS MEUS OLHOS"

Não é todo dia que recebo um presente desses: em plena quarentena, a escritora Vanessa Vascouto escolheu um trechinho do meu livro para compartilhar nas redes sociais. Aproveito para reproduzir o vídeo abaixo, caso você não tenha visto. E, se ainda não tem o livro, pode encomendar com frete grátis clicando aqui.

Daí vem a talentosíssima Vanessa Vascouto e me presenteia com a leitura de um trechinho do "Diante dos meus olhos". Difícil conter a alegria aqui neste canto da quarenta.
Publicado por Eduardo A. A. Almeida em Sábado, 11 de abril de 2020

quinta-feira, 9 de abril de 2020

DO ALTO DAS MINHAS JANELAS


Vejo nada e o nada me devolve o olhar, incorporado
nos demais moradores de apartamento alocados
diante de mim, atrás, ao redor, de esguelha
eles me olham do alto das suas janelas
não porque têm interesse, veja bem
na verdade eles não têm
nada melhor para ver, sou
o que lhes resta, o seu nada e
ao mesmo tempo tudo
o que resta
neste fim de mundo sem fim
nas alturas intermináveis, as horas
enquanto lá embaixo corre a imaginação
– o risco, o medo, o estranhamento
eles habitam algum lugar antes conhecido
onde estive sem saber, sem me dar
conta do que podia via a ser
hoje sei? espero
enquanto certa invisibilidade traiçoeira
aguarda, permeia, infiltra
não se deve agir como se nada estivesse acontecendo
e o nada acontece, de fato
realiza-se diante de mim
eu o vejo através das minhas janelas translúcidas
tão evidente que lá está
em algum lugar – quem duvida? daí
pretendo ver sem incomodar, ouso
ser visto para estar vivo, ser
reconhecido como um corpo
são – não apenas uma ameaça
eu que nunca liguei para isso, que preferi
passar despercebido, hoje me incomodo
com aquele que se oculta
nas cortinas para me evitar e evitar
cruzar os olhos comigo, mesmo
a uma distância segura, maior do que
os dois metros
os doze andares
as quatro semanas
a meio caminho do céu.

Leia mais em Cartas da Pandemia.

terça-feira, 7 de abril de 2020

+ E-BOOK GRÁTIS PARA SUA #QUARENTENALITERÁRIA

Deixo aqui uma nova contribuição à nossa #quarentenaliterária: meu livro Por que a Lua brilha está disponível para download gratuito no site da Amazon até o próximo sábado, 11 de abril. Clique aqui, baixe agora mesmo e me ajude a espalhar a notícia. :)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

E-BOOK GRÁTIS PARA SUA #QUARENTENALITERÁRIA


Uma dica de livro grátis para sua #quarentenaliterária é a 10ª coletânea do Núcleo de Dramaturgia do SESI - British Council, da qual participo junto com outros 11 autores. Uma oportunidade de ler e se deixar sensibilizar por estas peças incríveis. Aproveite!

Basta clicar e baixar os e-books, recomendo muitíssimo: Volume 1 e Volume 2

segunda-feira, 30 de março de 2020

VÍRGULAS FORA DO LUGAR, SENTIDOS FORA DE CENTRO

Logaritmosentido (editora Penalux, 2019), de Fernando Andrade, é composto por textos curtos, com uma ou duas páginas, a maioria deles em prosa. São, entretanto, exigentes, vão se deixando decifrar aos poucos e, para isso, pedem para ser lidos e relidos, buscando-se sentidos por meio de uma lógica que talvez não exista. Eles apresentam uma operação claramente linguística; um desafio ao leitor. Percebi, vez ou outra, que me debruçava sobre o livro como se lesse um caça-palavras. À procura de quê? Fiquei intrigado com inúmeras questões pontuais, mas para a entrevista a seguir mantive um plano mais geral, de modo que não nos prolongássemos demais e pudéssemos apresentar, a quem ainda não leu, uma primeira visão da obra.

1) Desde o título está anunciado o tensionamento entre a lógica matemática e o sentido, talvez entre a racionalidade e a emoção. Nos textos do livro, por vezes uma explicação de tom científico põe em jogo a própria ciência por trás das explicações. Como você entende essa relação entre a ciência e a literatura?

Na verdade tento colocar em jogo a racionalidade de uma sentença (tese) que às vezes chamo-a de nucleada. Nos meus livros de poesia, também, tento trabalhar a noção de núcleos que detém verdades ontológicas, certezas definitivas. Meu jogo com a matemática vem desta durabilidade infinita dos conceitos fechados (nucleados) ou binários. Portanto meu deleite com a ciência é partir do sentido de suas exposições, teses, para através do jogo lúdico das palavras na linguagem, deslizar a imanência do signo decifrável, criar uma interface de comunicação não unilateral. Quando ludico a palavra do conto Mark onde o próprio destino do personagem é sua língua, crio um efeito potencial, exponencial, de saber até onde os sentidos podem ir na frente de uma narrativa polissêmica.

2) Os títulos das seções que compõem o livro poderiam ser os de uma tese: Sentido exponencial, Infância e normatividade, Corpo poético, Teatralizantes, Ensaio, Paródicos, Gêneros. Mas o conteúdo que os segue não quer provar nada, apenas degustar certo apuro linguístico em cenas de enredo enxuto. Essas seções, curtas, com cerca de dois ou três textos cada, dão ao livro uma estrutura singular. Por que optou por essa forma?

Trabalho sempre com seções nos livros. Na primeira parte, os sentidos se desdobram em vórtices, passam pela palavra ideia e potencializam significâncias como a pedra do conto Petrificante (pedra de crack, pedra preciosa). Tinha alguns contos com teor de fatos sobre a infância e via que eles passavam por alguma função de nomear-normatizar. Aí fui colocando temas. Claro que na maioria das vezes o conteúdo do livro desnormatiza-se de classificações e rótulos. Mas não queria fazer a linha de costura do livro inteiramente solta sem um fio de caminho. Por exemplo o conto-poema Colher de chá colher de sopa poderia entrar em duas seções, tanto Infância quanto a própria seção Gêneros; aliás, ele fala e é da questão entre prosa e poesia, da questão do gênero biológico masculino e feminino.

3) A pontuação, o jogo de palavras, a alternância de narradores, a sonoridade e o retorno a elementos dos próprios textos, entre outros recursos típicos da poesia, produzem certo estranhamento da língua — e dos sentidos — convencionais. Como se você inventasse outra língua ou farreasse com esta nossa, estranhando-a, querendo-a incomum. Buscando, talvez, um “sentido exponencial”, como diz o título da primeira seção. Como este livro se relaciona com os seus anteriores, todos, até então, de poesia?

Acho que este último se relaciona muito com meu anterior de poemas, pois ambos são divididos em seções, parecidas. A perpetuação da espécie (editora Penalux) também tem Infância e gêneros, e nos dois pude trabalhar a questão do hibridismo de gêneros, formatando o meu texto entre a prosa e a poesia. Uma psicanalista do Sul (Porto Alegre), ao ler A perpetuação da espécie, comentou num texto dirigido a mim que ela via vários pequenos romances dentro da condução dos poemas, como se dentro de um subtexto eu falasse ou contasse um tipo de enredo de um homem e sua história de casamento/separação. Já em outros mais antigos há esta brincadeira com o som das palavras, sua grafia, resvalando para polissemia dos sentidos.

4) Há uma experimentação marcante ao longo do Logaritmosentido, com torções e provocações sofisticadas, que exigem do leitor o desejo de vivenciar algo diferente, apreço pela forma e por narrações desconstruídas, que às vezes partem de um ponto desconhecido e nada revelam, sustentando o mistério. Aliás, existe mesmo em alguns dos seus logaritmos essa espécie de problema sem solução, cujo sentido falta ou falha? Ou será que, em vez de sentido, que está mais próximo das sensações e dos sentimentos, deveríamos dizer que quem falta são os significados?

Não há nos contos uma solução para uma investigação sobre a linguagem. Até pela minha dificuldade com coisas fechadas e binárias, tento ir criando status de suspenses e pequenos enfrentamentos linguísticos para dosar forma e conteúdo, mostrando que ao utilizar bem as palavras e seus sentidos, até ocultos, podemos aumentar a rede de interpretações ou signos sobre uma arte literária. Trump e seu trumpete é o olhar semiológico do signo com sons próximos, parecidos, que faz aproximar mundos distintos do jazz ao da política; faz Trump, que é conservador, pois nunca deixo de referencializar ele no conto, até crio um verbete para isso, ser um trompetista de jazz e morar no Rio, na Lapa. Talvez a significação esteja no olhar do leitor que olha para um texto que se move, se pluraliza, busca o outro na sua referência tacanha.

5) Há no livro uma variedade de temas como humor, sonhos, erotismo, política, religião, entre outros. Há também citações mais ou menos explícitas a outros livros, personalidades, produtos culturais. Enquanto lia, voltaram-me os Cronópios, de Julio Cortázar, e o surrealismo de Boris Vian, por exemplo. Daí aquele livro curtinho começou a se desdobrar, como se eu abrisse um origami para conhecer sua estrutura, e assim ele se alongou no tempo e no espaço, também se adensou — como a pedra que afunda no rio, naquele continho “Atire a primeira pedra”, que mais parece um provérbio chinês. Como é possível juntar isso tudo numa obra com somente 82 páginas?

Este olhar quase de editor não tive, risos. Foi acontecendo pelas valises de conteúdo que ia depositando no fundo das páginas. A escrita é um pouco inconsciente, levamos talvez uma ordem de séries, objetos, deslizes, imitações, até porque estes contos foram escritos não para um livro direto e único. Foram traçados por temas e motes no Clube da Leitura de que participo desde 2013, aqui no Rio, e cujo exercício é de ler motes que levamos e escrever sobre o mote escolhido como referência da noite. Depois vem a escrita de até duas páginas de um conto levemente inspirado no mote. Estas narrativas, portanto, foram bailadas neste percurso de 7 anos a maioria delas, dos 18 contos, 14 são do Clube da Leitura.

domingo, 29 de março de 2020

VER APESAR DE TUDO

Já li uma porção de coisas sobre o holocausto judeu na 2ª Guerra Mundial, ou Shoah, em hebraico. Não porque sou aficionado pelo assunto, mas porque qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade e interesse histórico naturalmente se depara com livros, filmes, notícias, obras de arte, exposições, que de alguma maneira mantêm vivo aquele acontecimento. Há pouco li Cascas, misto de relato poético e ensaio produzido pelo filósofo e historiador da arte francês Georges Didi-Huberman após sua visita aos campos de Birkenau, hoje parte do museu de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, onde colheu fotografias, impressões – de início intuitivas – e cascas de bétulas. Essas árvores são as poucas testemunhas remanescentes do genocídio perpetrado pelos nazistas naquele empreendimento sociopolítico que perseguiu judeus, entre diversos outros povos, culturas e ideologias menos falados e, assim, menos conhecidos hoje.

Fotografia feita por um avião de reconhecimento da Força Aérea Britânica em 23 de agosto de 1944, que veio a público apenas em 2004. A fumaça provém de um dos crematórios. Na época, os Aliados não compreenderam as instalações de Auschwitz-Birkenau porque eram inimagináveis, apesar das imagens.

Didi-Huberman comenta uma história já bastante escrita e bem estruturada, que justamente por isso vem até nós sem que estejamos procurando por ela. O que ele faz no livro, porém, é colocar em questão os modos como essa memória vai se transformando em história, em vez de apenas a reiterar tal como se costuma contá-la. Em especial ali, no museu erigido sobre o antigo campo de extermínio, onde o ser humano foi capaz de matar vinte e quatro mil dos seus semelhantes num único dia de 1944 e, algumas décadas depois, abrir uma loja de lembrancinhas especializada no tema.

O autor fala dessa cultura capaz de realizar ambas as coisas. “A questão toda está em saber de que gênero de cultura esse lugar de barbárie tornou-se o espaço público exemplar”, diz. Sua observação parte das três cascas de árvore colhidas na ocasião da visita – “Birkenau” significa “campo de bétulas” –, que até a Idade Média eram usadas para registrar textos e desenhos. Para reescrever a história, por exemplo, o museu substituiu os velhos arames farpados da época por novos, que de artefatos de barbárie passaram a se apresentar como produtos culturais. Didi-Huberman observa transformações similares no “paredão das execuções”, restaurado feito um simulacro do original, e nos galpões 13 a 21, que abrigavam prisioneiros, agora “pavilhões expositivos”, cada um dedicado a uma nacionalidade vitimada.

Apaga-se assim uma memória para fazer dela história, a qual é fundamentalmente uma criação humana. Nas palavras do autor: “todos os centros culturais – bibliotecas, salas de cinema, museus – podem construir uma memória de Auschwitz. Mas o que dizem quando Auschwitz deve ser esquecido em seu próprio lugar, para constituir-se como um lugar fictício destinado a lembrar Auschwitz?”

Quando o fim da guerra era certo, os nazistas dedicaram todos os esforços à dita “solução final”, que pretendia exterminar o maior número possível de judeus. Com a impossibilidade de se fabricar suficiente Zyklon B, pesticida usado nas câmaras de gás para as execuções em massa, as vítimas eram atiradas ainda vivas nos fornos crematórios. Ler sobre isso me provoca uma sensação de abismo, um medo profundo porque real e possível, como um pesadelo inimaginável que se materializa. Volto à minha realidade deslocado, sem jamais poder recuperar o prumo ou conseguir olhar as pessoas com os olhos de antes.

“Isto é inimaginável, logo devo imaginá-lo apesar de tudo”, afirma Didi-Huberman num ato de resistência. Pois o “impasse da imaginação foi uma das grandes forças estratégicas – via mentiras e brutalidades – do sistema de extermínio nazista”. Com a aproximação do exército soviético, em 22 de janeiro de 1945 os administradores do campo dinamitaram os fornos para apagar as evidências do inferno, mostrando que sabiam da gravidade do que fizeram.

Daí o mérito desse novo ensaio sobre o holocausto que Didi-Huberman se propôs escrever. Como ele diz, “o fogo da história passou. Partiu como a fumaça dos crematórios, soterrado junto com as cinzas dos mortos. Isso significa que não há nada a imaginar porque não há nada – ou muito pouco – a ver? Certamente não. Olhar as coisas de um ponto de vista arqueológico é comparar o que vemos no presente, o que sobreviveu, com o que sabemos ter desaparecido”. Pois é a partir dessa suposta invisibilidade que ele vai revendo e problematizando o papel dos museus, das curadorias, das imagens e livros; das maneiras, enfim, como produzimos discursos na história e, no limite, a subjetividade do presente. Porque “a memória não requer apenas nossa capacidade de fornecer lembranças circunstanciadas”. Escavar esses apagamentos do passado é uma dívida inegociável que herdamos.

De minha parte, penso em como aquela estratégia nazista de impasse da imaginação via mentiras e brutalidade persiste em nosso dia a dia, nas grandes e nas pequenas mídias, nas redes sociais, na publicidade, nos discursos oficiais, em moralismos, nos gestos a princípio inocentes feitos em nome de um suposto bem. Penso nas histórias outras que ainda não conseguiram se estruturar como a da Shoah, ao ponto de permearem o imaginário coletivo com tamanha força, e que, ainda assim, lutam bravamente por visibilidade. O holocausto negro, o indígena, o feminino, o dos perseguidos políticos, o dos miseráveis, cujos escombros estão postos diante dos nossos olhos, convocando-nos a escavá-los, e muitas vezes nos recusamos a ver, apesar de todos os que ali sucumbem sem a dignidade que merecem na morte e, claro, na vida.

sexta-feira, 20 de março de 2020

#INDIEBOOKDAY 2020

Uma notícia boa, enfim! Durante todo o final de semana (21 e 22 de março), os livros da editora Reformatório estarão com descontos de até 70%! Então não compre carro hoje: gaste tudo em livros amanhã! Use este link para encomendar meu romance com desconto aqui >> Diante dos meus olhos

Gostou? Use a hashtag para compartilhar: #indiebookday

quinta-feira, 12 de março de 2020

ENTRE VISTAS: EDUARDO A. A. ALMEIDA E DIANTE DOS MEUS OLHOS

A entrevista abaixo foi concedida à escritora Renata Py e publicada originalmente em sua página no Medium. Você pode adquirir seu exemplar do romance Diante dos meus olhos na loja oficial da editora Reformatório, clicando aqui.



Eduardo, o seu romance apresenta uma trama psicológica entre pai e filho, com uma série de acontecimentos inusitados em uma viagem entre eles. O fato de eles terem passado aqueles momentos na vila militar me pareceu decisivo na relação, em muitos aspectos. Uma situação-limite que envolve lembranças, intimidade e até sobrevivência. Comente um pouco sobre isso.

A vila atua como uma catalizadora de emoções, trazendo à tona memórias, expectativas, traumas, desentendimentos, frustrações, enfim, todas essas experiências compartilhadas e de alguma maneira mal resolvidas entre o pai e o filho. Tudo que aguardava há tempos num estado de latência encontra na antiga vila o motivo para acontecer. O local se apresenta também como uma espécie de encruzilhada entre o passado e o futuro; é, portanto, decisivo em muitos sentidos para os dois personagens. Um mapa feito para que tudo se perca.

Como se deu a ideia de usar uma antiga vila militar?

A vila surgiu na medida em que eu criava o passado dos personagens e precisei de um local essencialmente estabelecido conforme a ordem. Era importante pelas contradições que produziria nas três gerações daquela família que se relacionariam com ela. O curioso é que eu, pretensamente, pensei ter inventado tudo aquilo. Foi durante uma conversa casual com um completo desconhecido que descobri que, de fato, aquele tipo de vila militar não apenas existiu como ainda resiste no Brasil, com as devidas adaptações trazidas pelo tempo. E que os conflitos entre os moradores não são tão diferentes do que imaginei para os personagens do livro.

Após a viagem, a relação deles ficou aparentemente definida, como se a partir daqueles acontecimentos eles não precisassem mais cumprir o protocolo da relação pai e filho, a ponto de o narrador só voltar ao encontro do pai em seu enterro. Você acha que, com a idade e obrigações da vida adulta, essa distância é mais comum do que imaginamos?

A tal viagem marcou uma passagem. Daí a importância de, no final, eles cruzarem o portal da vila, que funciona como um símbolo. A vida dos personagens mudou a partir daí, os conflitos ganharam outras formas e uma nova situação se criou. Eles continuaram a manter alguma relação, eu imagino, mas ela já foge da história que o livro pretende contar. Não acredito que o mesmo aconteça o tempo todo por aí, mas a vida adulta exige também uma passagem e um abandono dos pais para que o novo adulto encontre o seu lugar. Existe um distanciamento, uma transformação, uma necessidade de redesenhar as relações.

O livro nos prende, do começo ao fim, numa atmosfera psicológica muito interessante, incluindo acontecimentos que muitas vezes nos fazem perguntar se são meros devaneios ou realidades pra lá de inusitadas. Você acha que, quando se trata de memória, ela muitas vezes pode nos criar peças?

Desde o começo, me interessava questionar isso que a memória estabelece como uma espécie de fundação para o sujeito, quer dizer, como uma base firme sobre a qual podemos construir os nossos mundinhos particulares e coletivos. Não à toa a incerteza está presente o tempo todo na narrativa, não se pode acreditar sequer no que os olhos apresentam como real. Para mim, o passado é tão vivo quanto o presente e se modifica a todo instante. É fundamental preservar essa sua qualidade, de maneira que possamos sempre nos reinventar. Um passado cristalizado já não serve para nada, a não ser para sustentar dogmas, preconceitos, conservadorismos ingênuos e perigosos. Entrar no jogo impreciso da memória e deixar-se ludibriar é uma força, não uma fraqueza, como muitas vezes somos levados a crer.

Interessante o narrador, o filho, ter uma personalidade tão racional e ambientada no sistema externo. Geralmente, talvez por questões de geração, é o contrário que acontece. Por que você optou pelo filho ser o mais “conservador” da história?

Acho importante que a literatura ofereça outras perspectivas sobre as coisas e as pessoas. Um pai conservador com um filho revolucionário é um paradigma da humanidade. São também estereótipos por demais confortáveis para o escritor e para o leitor. Já basta disso em nosso dia a dia, nas rotulagens que predominam em nosso embate com o outro. A literatura tem aí uma potência crítica de mostrar que o conservador tem algo de revolucionário e o revolucionário verdadeiro, por sua vez, está a todo instante lutando com os seus próprios conservadorismos, entre tantos outros matizes que formam a complexidade do ser humano e que vão muito além dessa questão binária. Ainda que o personagem do filho, no romance, pareça mais conservador, ele não está satisfeito com isso, fica reafirmando-se como se precisasse se certificar de que as coisas permanecem no lugar, quando na verdade está vivendo uma revolução pessoal. Com o pai acontece o mesmo, mas num sentido inverso. E ambos precisam lidar com esses conflitos, pois são diferentes e ao mesmo tempo parecidos. Isso é literatura e é também a vida; elas extravasam a simplória polarização que hoje parece tão à flor da pele.

Sem querer dar spoiler, você pode comentar sobre os negativos que o pai achou na vila quando aparentemente encontrou um amigo fotógrafo?

Os negativos são mais um exemplo da imagem que não dá conta de apresentar a realidade. São a prova fatual de que os fatos são tendenciosos, manipuláveis, parciais. Essa cena é quase um resumo do romance, pois materializa as questões que antes talvez parecessem por demais metafísicas.

Os acrobatas encontrados na vila me pareceram personagens de Beckett, de tão inusitados, mas que, ao mesmo tempo, poderiam ser perfeitamente reais. Fale sobre eles. 

Sim, personagens de Beckett, sem dúvida. São esse tipo fantástico que, de tão real, faz com que a realidade se torne fantasiosa. Eles são contorcionistas, na verdade, justamente porque trazem essas torções e distorções na percepção dos personagens; têm uma função direta e outra parabólica.

O filho demonstra em muitos momentos uma frieza prática em relação a determinadas situações. Ele poderia ser quase um psicopata?

O filho tem um pragmatismo alimentado por uma subjetividade produtivista, muito parecido com o que vemos a todo instante no outro lado do balcão, em pé conosco no metrô, na propaganda de cursinho de vestibular. Hoje mesmo vi uma dessas notícias rápidas e desnecessárias que nos são lançadas até enquanto subimos cinco andares de elevador, como se todo o tempo precisássemos ser impactados, como se diz no meio marqueteiro. Ela falava sobre o prejuízo financeiro na Europa, que já não recebe turistas chineses por conta do coronavírus. Quer dizer, não bastasse a especulação, a espetacularização e a exploração engendradas com essa doença, lemos sobre um índice econômico que, no final, está associado a pânico, mortes, comoção social, sensibilidades das mais diversas, e que no entanto sequer nos afetam, exceto por nos colocar no mesmo buraco midiático. Acho um tanto perigoso esse tipo de diagnóstico das psiques. Se a frieza faz do filho um quase psicopata, vivemos todos num manicômio chamado civilização.

Uma das cenas que mais me despertaram curiosidade foi o encontro do narrador com a velha senhora. Você poderia falar mais sobre o impacto daquele encontro na vida dele? 

A velha senhora não é bem uma personagem, é uma entidade, como gosto de dizer. Está ali para evocar o tempo e as diferentes elaborações que ele exige; é quem alarga as noções do personagem, permitindo a ele novas possibilidades existenciais.

Eduardo, parabéns pelo livro. Extremamente intrigante e envolvente. Queremos saber sobre os novos projetos. Muito obrigada pela entrevista. Me despeço com uma última pergunta. Tem uma frase no livro que diz: “Aquelas lembranças pertenciam a ele. Eu teria me livrado delas na primeira oportunidade, só que não há mais como devolvê-las; nem como ignorá-las”. Você acha que a gente carrega o peso do passado dos nossos antepassados no nosso DNA ou realmente isso só seria possível se fosse vivenciado de alguma maneira, como foi o caso dos personagens de “Diante dos meus olhos”?

Somos ensinados a viver de determinado modo, a reproduzir maneiras e a programar inclusive as descobertas mais revolucionárias. Carregamos o passado como uma bagagem cultural que media nossas relações com todas as coisas. As plaquinhas de identificação, na vila, evocam essa mediação — de maneira alusiva, claro, mas elas põem em questão essa necessidade de legendar, proteger, explicar tudo com as palavras já conhecidas que nos foram ensinadas. Não acredito que seja possível fazer tábula rasa, nem devemos, mas é nossa tarefa colocar em questão essas formas que nos são dadas prontas, e nisso me parece que a literatura e as artes em geral são grandes aliadas. Somos, afinal, muito bem domesticados. Meu próximo livro, que deve sair no próximo semestre, investiga essa domesticação de maneira inusitada, num viés da animalidade e com um formato completamente diferente do romance: são textos curtos, humorados, que vêm provocar atrito entre a ideia de beleza e o abismo da nossa realidade diante da natureza.

segunda-feira, 2 de março de 2020

“TESTEMUNHO OCULAR” REFLETE OS ESTÍMULOS DAS IMAGENS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

A resenha abaixo foi publicada originalmente pelo escritor Fernando Sousa Andrade no portal Literatura & Fechadura. A primeira edição do Testemunho Ocular se esgotou na editora, mas ainda restam os últimos exemplares comigo. Se tiver interesse, mande e-mail para edualmeida@artefazparte.com e enviarei um para você com o maior prazer.


O eu e o objeto que lhe devolve o olhar. O objeto sorri, já que foi nutrição do olhar do outro. Não vamos aqui discursar sobre o efeito do sujeito. Pois aquele que olha (a sujeição do olhar) também pode virar uma imagem fremida dentro da retina de alguém.

Trocar efeitos de visão, ambos serem matéria concentrada do olho-entorno. Mas aqui situamos um narrador, aquele que conta uma ação sobre algo, e sua imagem toda serrilhada de sinapses, sensações que parecem que dão até arrepios em quem emite.

O que acontece quando procuramos o que não achamos? Não é somente a fuga, a falta de respostas. Um narrador precisa decifrar suas imagens, elas precisam ter receptores que encaixem na sua rede de quebra-cabeças. O que procura? Mas o objeto que procura também é seu desejo, que recebe estímulos de trocentas imagens por raios afora.

Diríamos que há uma poluição de imagens sem seu devido reconhecimento? Estas incitações, diríamos filosóficas, encontrei no livro Testemunho ocular, do escritor Eduardo A. A. Almeida, editora Lamparina Luminosa. São textos cujo arcabouço teórico investigam relações de causa e efeito das sondagens pelo que têm dentro de ações muitas vezes engendradas por enganos, cuja refração enganosa da imagem nos ofusca tal entendimento.

Se a paranoia é um delírio de uma imagem fabricada por uma fuga do real, inventamos narrativas para indexar o real de pura fantasia, assim como o medo de um urubu no conto Rapinagem, pode ter algum trauma oculto sob a ofensa da sua pulsão de morte. É como uma corrida atrás de algo como o pote de arco-íris atrás da montanha. E se este ideário fosse apenas um efeito de contraluz do que tem de estranho, oculto familiar, pela abordagem, aquele mesmo do caminho trilhado pelos arquétipos narrativos, um desejo, às vezes, é apenas seu medo camuflado.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

CERTO INCÔMODO, UMA IMPLICAÇÃO

Em seus últimos anos de vida, o escritor argentino Julio Cortázar revisitou a própria obra, organizando-a em “três etapas muito bem definidas”, como disse. A primeira delas recebeu a alcunha de estética, a segunda seria a metafísica e a terceira foi chamada de histórica. Já expressei aqui minha admiração por seus livros e, embora não tenha lido todos, conheço-os o suficiente para compreender essa classificação e para discordar de um argumento seu a respeito da própria trajetória, que, como vemos, vai da estética à política.

América Latina (1977), de Anna Bella Geiger

“Vivi meus primeiros anos de leitor e de escritor numa fase na qual o literário era fundamentalmente ler os melhores livros a que tivéssemos acesso e escrever com os olhos fixos, em alguns casos, nos modelos ilustres e, em outros, num ideal de perfeição estilística”, Cortázar explica em uma das aulas oferecidas durante sua curta temporada na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Ao comentar sua juventude em Buenos Aires, aponta para o seu raso conhecimento de mundo à época, basicamente restrito à realidade burguesa portenha. A distância que o separava de uma consciência sociopolítica mais profunda se refletia em personagens postos a serviço do fantástico: “o que realmente me importava”, disse ele, “era o mecanismo do conto, seus elementos finalmente estéticos, sua conjunção literária com tudo o que pode haver de belo, de maravilhoso e de positivo”.

Essa relação me parece um tanto problemática, assim como a diversos críticos que notaram, por exemplo, uma alusão à repressão argentina já no primeiro conto do primeiro livro de Cortázar – A casa tomada, na coletânea intitulada Bestiário. Mas faz sentido se considerarmos que, de fato, a estrutura daqueles textos está toda trabalhando para a irrupção de um fantástico. Voltaremos a isso adiante. Por ora, quero pontuar apenas que o escritor trata a estética num sentido restrito, que hoje se vê mais expandido e imiscuído numa ideia também ampliada de política.

O divisor de águas entre essa etapa da trajetória de Cortázar e a seguinte seria o conto O perseguidor, que compõe o livro As armas secretas. O exílio em Paris o levara a se “interessar cada vez mais pelos mecanismos psicológicos, os dramas de vida, de amor, de morte, o destino”.

O perseguidor é um mergulho às cegas na realidade de um músico de jazz negro, doente e viciado, que vive num descompasso em relação à previsível classe média compradora de seus discos. O autor esmiúça os conflitos do personagem por meio do embate com as expectativas do amigo – um crítico de música –, que narra a história segundo a sua perspectiva e consciente de que jamais chegará à intimidade do saxofonista, sobre o qual, ironicamente, até mesmo escreveu um livro.

Essa fase dita metafísica atinge o auge com o romance O jogo da amarelinha, após o qual sua obra começa a tomar uma forma mais engajada, por assim dizer. Ao se perceber além do contexto argentino, Cortázar assume a literatura como uma obrigação cívica: “eu tinha de investir nos termos e na condição de latino-americano, com tudo o que trazia de responsabilidade e dever, tinha de inseri-la também no trabalho literário. Por isso acho que posso usar o nome ‘etapa histórica’, ou seja, ingresso na história, para descrever essa última baliza em meu caminho de escritor”.

Eis que a literatura se revela para ele uma forma de participar dos processos históricos que “concernem a cada um em seu país”. Trata-se de um mecanismo não apenas estético ou psicológico, mas também – e em primeiro lugar – de atuação política. Como o próprio autor explica, “no decorrer das últimas três décadas, a literatura de tipo exclusivamente individual, essa literatura pela arte e pela literatura cedeu terreno a uma nova geração de escritores muito mais implicada nos processos de combate, de luta, de discussão, de crise de seu próprio povo e dos povos em conjunto”.

Cortázar expressou essas ideias no início dos anos 1980. Seu olhar aguçado para a produção contemporânea vislumbrou o que viria a constituir uma realidade do que hoje lemos, discutimos e premiamos, tanto em âmbito nacional quanto internacional. Seria uma questão inédita? Se lembrarmos das tragédias gregas, de Dante, Zola ou Mário de Andrade, veremos que não. Todavia, o que é próprio de Cortázar foi a tomada de consciência de seu papel de agente político por meio de literatura. Esse é o ponto que me parece contraditório na organização que faz da própria obra: a estética não deveria ser uma etapa anterior à política, que no caso ele associa à realidade histórica – ambas estão interlaçadas ao ponto de serem indiscerníveis e, por conta disso, sua atuação se dá por meio da escrita literária.

Tal impossibilidade de discernimento também pode ser vista no sentido inverso: toda ação política se dará por meio de uma elaboração na linguagem que, no limite, será uma criação estética. Essa noção talvez não estivesse clara para Cortázar, mas com ela podemos retomar sua obra hoje e perceber algo deveras político naquilo que para ele possuía zero engajamento, como em A casa tomada.

É vital que a arte dê lugar a vozes emudecidas e a existências ocultadas na realidade comum. Para isso ela não precisa ser declaradamente engajada, como alguns exemplos que vez ou outra esterilizam discursos de resistência e menosprezam o potencial contestatório da criação ao confundi-la com panfletagem. Ainda que a primeira literatura de Cortázar não tenha a consciência de seus últimos escritos, já havia implicado nela um autor incomodado com o seu tempo e a sua realidade. Já estava constituída, portanto, uma política, que se transformou e persistiu até o seu ponto final.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

ENTREVISTA: COMO EU ESCREVO (PARTE 2)

Há pouco mais de um ano, José Nunes me convidou para falar sobre meu processo criativo, entre outros assuntos relacionados ao ofício.

Seu projeto, intitulado Como eu escrevo, tem agora um desdobramento: novas perguntas com o objetivo de compartilhar ideias e contribuir com os desafios de quem se põe a lidar com as palavras.

Deixo abaixo a segunda rodada de perguntas que respondi, publicadas originalmente junto com as anteriores na página do projeto: comoeuescrevo.com/eduardo-a-a-almeida

Ficou com curiosidade de ler os livros que menciono? Clique nos títulos para saber mais: Testemunho ocular (contos) e Diante dos meus olhos (romance).

Foto: Edi Rocha

11. Ao dar início a um novo projeto, você planeja tudo antes ou apenas deixa fluir? Qual o mais difícil, escrever a primeira ou a última frase?

Normalmente o projeto se forma a partir do que estou escrevendo, não é premeditado. Experimento formatos sem grandes pretensões, anoto ideias, escrevo alguns parágrafos. Um dia olho para aquele amontoado de coisas e percebo uma linha condutora, um interesse em comum, talvez. Foi o caso do Testemunho ocular, livro publicado em 2018 pela Lamparina Luminosa: eu tinha alguns contos e percebi que havia em todos eles uma inquietação de natureza similar. Comecei a retomar textos antigos, engavetados, e aquela inquietação também aparecia neles de uma maneira ou de outra sem que eu tivesse me dado conta disso até então. O conceito do livro surgiu daí. Para dar a forma que pretendia, acabei por editar alguns textos, escrever outros e criar um projeto editorial. Não gosto de pensar em meus livros como meras coletâneas; é preciso haver uma amarração, um conceito, um ponto central que possibilite outras camadas interpretativas.

O caso do Diante dos meus olhos, publicado no fim de 2019 pela Reformatório, não foi muito diferente. Comecei por tomar notas de um sonho, ainda de madrugada, porque eu não podia voltar a dormir e correr o risco de esquecê-lo. Na manhã seguinte, ainda sem saber bem a razão, percebi que a ideia tinha um potencial a ser explorado. Escrevi um pouco mais, o texto foi criando corpo, passou de uma cena curta a um conto longo. E não parava, era incontrolável. Segui nesse ritmo por bastante tempo, até ter em mãos um pequeno romance. Ele foi publicado dez anos depois do primeiro esboço.

Em meio a esses processos mais "espontâneos", por assim dizer, o difícil não escrever a primeira nem a última frase, mas identificá-las para que, entre elas, exista um projeto literário.

12. Como você organiza sua semana de trabalho? Você prefere ter vários projetos acontecendo ao mesmo tempo?

Eu não diria que prefiro assim, mas vários projetos acontecem ao mesmo tempo, é uma maluquice. Tenho trabalhado em tempo integral num escritório, escrevendo textos para outras pessoas e empresas. Também atuo como revisor e preparador de textos. Minhas criações pessoais muitas vezes são resolvidas na hora do almoço, no metrô, nos minutos em que minha filha dorme e eu consigo permanecer acordado, nas brechas dos finais de semana, entre os compromissos familiares e os afazeres de casa. Tenho escrito pouca literatura de ficção. Inclusive porque uma série de outras tarefas me convocam a todo instante, requisitando prioridade: as atividades do coletivo Discórdia (encontros, feiras, rodas de leitura e debate, cursos etc.) e do GEPPS - Grupo de Experimentações Poéticas e Políticas do Sensível, minha coluna no jornal Correio Popular, aulas, oficinas, pareceres, palestras, compromissos da academia (ainda tenho para resolver várias reminiscências do doutorado, que defendi em 2018). A literatura de ficção vai forçando espaço em meio a esse entulho todo, é uma sobrevivente. Fico muito agradecido por ela não desistir de mim. Mas, para ser mais concreto, organizo minha semana anotando as tarefas e compromissos numa agendinha de bolso, de papel mesmo. A meta é chegar até a página seguinte, de preferência ileso.

13. O que motiva você como escritor? Você lembra do momento em que decidiu se dedicar à escrita?

Não é que eu tenha de uma hora para outra decidido me dedicar à escrita, quer dizer, isso jamais ocorreu de forma tão dramática. Mas eu me lembro da primeira vez em que me assumi escritor, e nem faz tanto tempo assim. Foi há uns cinco ou seis anos, durante um curso sobre práticas artísticas comunitárias no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em São Paulo. Eu deveria me apresentar para a turma e disse: meu nome é Eduardo, sou escritor. Uma amiga estava junto e, quando a aula terminou, veio falar comigo. Escritor é? Que vitória! Eu ainda gaguejava um tanto. Escrevia profissionalmente há mais ou menos quinze anos, mas até então me intitulava publicitário, redator, pesquisador. Nessa ocasião, eu tinha deixado a publicidade de lado, precisava assumir um "eu" que de fato me desse orgulho. Ainda assim demorei para dizer "escritor" em bom tom. Houve um dia, eu estava num cartório fazendo sabe-se lá o que, e o atendente preenchia um formulário. Ele perguntou: profissão? E eu disse. Ele tirou os olhos do papel e quis saber: é sério? Balancei a cabeça, afirmando que sim. Esse sujeito virou para os colegas e falou bem alto: gente, tem um escritor aqui! Foi bizarro, ninguém deu a mínima, mas o atendente estava animado. Imagino que tivesse os escritores em boa conta. Talvez seja esse o tipo de coisa que me motiva: produzir algum estranhamento no banal. Como dizia Michel Foucault, os textos são formas de inscrição no mundo. São meios de existência. Escrevo por muitos motivos, alguns ainda indiscerníveis, mas com certeza uma motivação é produzir essa inscrição que inquieta, que abre uma fenda na normalidade e chama atenção para algo que sempre esteve ali, mas nunca foi olhado por aquele ângulo. Escritores me motivam, artistas visuais, o teatro, filósofos, entre vários outros agentes do conhecimento que me provocam a pensar diferente, profanar verdades, manter a curiosidade viva.

14. Que dificuldades você encontrou para desenvolver um estilo próprio? Algum autor influenciou você mais do que outros?

Não me sinto muito à vontade com a ideia de ter um estilo próprio. Tenho, sim, interesses que vão se destacando pela recorrência. O maior deles talvez seja a questão da visualidade, já que o mundo que existe para cada um de nós quase sempre se resume naquilo que vemos, que se põe diante dos nossos olhos. E ele é tão ficcional quanto qualquer outro: são convenções, contextos culturais, perspectivas sociopolíticas etc. que produzem entendimentos sobre o mundo, no limite, inventados. A realidade é simplesmente imaginada. Daí eu acreditar que algumas imagens inusitadas, operando num sentido de deseducação do olhar, têm força estética e política capaz de produzir deslocamentos e sugerir outros pontos de vista. São capazes de dar a ver o que sempre esteve ali e até então não podíamos encarar. Isso não é um estilo propriamente dito. Na realidade, isso só acontece por meio de muitos atravessamentos, diferenciações, vertigens. Alguns escritores me ajudaram a trilhar esse caminho, sem dúvida. Mais do eles, foram livros específicos que me marcaram. O som e a fúria, de William Faulkner. O estrangeiro, de Albert Camus. A espuma dos dias, de Boris Vian. Bestiário, As armas secretas e Histórias de cronópios e de famas, do Cortázar. As cidades invisíveis, do Calvino. Na colônia penal, de Franz Kafka. Os contos de Murilo Rubião. Para fugir dos clássicos, cito ainda Pássaros na boca, de Samanta Schweblin. Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas. Li há pouco o Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk, recém-Nobel de Literatura, e de fato é incrível, eu gostaria de escrever um pouco como ela, com toda aquela empatia, profundidade psicológica e riqueza de detalhes. E não foram apenas esses autores e livros, claro. Além de outros ficcionistas há todos aqueles da filosofia, das artes, da estética. Eu poderia continuar por muitas linhas.

15. Você poderia recomendar três livros aos seus leitores, destacando o que mais gosta em cada um deles?

As cidades invisíveis, de Italo Calvino, é um dos livros mais lindos que já li. Existe nele tanta poesia que transborda em aspectos sociais, políticos, afetivos. É daquelas leituras imprescindíveis. Sempre que o retomo é com um prazer singular, como se lesse um texto sagrado, capaz de falar por meio de simbologias com qualquer pessoa em qualquer lugar e em qualquer época.

O som e a fúria, de William Faulkner, foi um livro que me exigiu um grande esforço, e assim conquistou um lugar muito especial em minha bibliografia. Ele tem inúmeras camadas, preciosidades, lições de literatura. Mas o destaque fica com a capacidade de o autor "outrar-se", como costumo dizer na tentativa de explicar essa maneira como ele escreve numa espécie de devir outro (retardado, pobre, mulher, negro etc.). É sem dúvida uma obra de mestre.

Fiquei tentado a recomendar outro daqueles clássicos que citei na resposta anterior, mas acho importante lermos contemporâneos nossos que apresentam problemáticas urgentes. Nesse quesito, todos precisamos ler os poemas de Um útero é do tamanho de um punho, da Angélica Freitas, que usa um humor perspicaz para criar versos arrebatadores sobre feminilidade, condição da mulher, intolerância, entre vários outras questões. Seu livro é uma lindeza, impossível parar de ler e de, com ele, repensar toda essa realidade que construímos.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

LITERATURA E IMAGENS: DESEDUCAÇÕES

Um texto requer imaginação tanto para ser escrito quanto para ser lido. E o que significa “imaginar” senão dar forma imagética a ideias e sentimentos? Daí não ser absurdo dizer que uma obra literária também se faz por imagens, algumas descritas com minúcia, outras apenas sugeridas, que o leitor complementa à sua maneira. Essa capacidade de sugestão e abertura é sem dúvida uma qualidade da escrita, na medida em que confere ao leitor alguma liberdade de criação. Ainda que duas pessoas leiam o mesmo romance, por exemplo, cada uma o imaginará a seu modo, e isso vale para personagens, ambiente, situações etc. Ao ponto em que algumas imagens sejam mais marcantes em nossa memória do que o texto propriamente dito. Lembro-me de cenas muito especiais dos livros que li sem ter certeza de como e com quais palavras foram escritas. O comandante sendo morto pela própria máquina de sacrifício em Na colônia penal, de Franz Kafka. O estupro no Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Os soldados bebendo vodca sob a radioatividade em Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch. A lista seguiria até o fim do artigo. Tenho certeza de que cada leitor também pode fazer a sua sem dificuldades.

Esse debate remonta à máxima “ut pictura poesis”, de Horácio, no século 1 a.C. “Tal como a pintura, assim é a poesia”, com o que ele propunha a equivalência – ou correspondência e similitude – entre essas artes. O poeta se referia à possibilidade de se representar e reconhecer o real na poesia do mesmo modo como os pintores faziam, ainda que esse real fosse imaginário como o escudo de Aquiles (na Ilíada) ou o drama de Laocoonte e seus filhos (na Eneida). A questão não é recente, portanto.

Podemos levar em conta ainda a inserção literal de imagens no livro, que em sua maioria obedece a três modos de relação, por vezes difíceis de discernir:

Narrativas visuais: aquelas em que o texto, quando aparece, serve apenas de suporte às imagens, as quais contam a história por si mesmas.

Ilustração: aqui o peso se inverte, pois é o texto o principal narrador, e as imagens apenas conferem uma camada de visualidade a esta ou àquela cena. A própria capa do livro muitas vezes ilustra a história que guarda.

Histórias em quadrinhos (ou similares): embora possam ser semelhantes às narrativas visuais ou às ilustrações, a maior força dessa relação entre imagem e texto está nos casos em que ambos narram a história e se apoiam mutuamente, sendo impossível retirar um dos elementos sem que o sentido pretendido se desconstrua.

Com isso chegamos a uma última relação, que tem instigado minhas investigações mais recentes. Ela vale tanto para imagens inseridas de forma literal quanto para as sugeridas pelas palavras. Refiro-me às obras em que imagem e texto não se complementam, simplesmente, mas se atritam, como se sustentassem um desajuste imprescindível para a apreciação estética da obra. Uma inquietação em vez do conforto que quase sempre advém da capacidade de visualizar com clareza a cena descrita pelo autor.

Essa relação entre imagem e texto é comum em obras surrealistas e fantásticas, que mais explicitamente ferem o senso comum e disparam certo inusitado. Desde o Peixe solúvel, título do livro de André Breton, ao coelhinho Teleco, de Murilo Rubião, que se transforma em outros animais ao longo de sua convivência com o humano narrador da história. Cito ainda o conto Simulacros, de Julio Cortázar, em que uma família entediada decide construir um patíbulo, entre outros instrumentos de tortura e morte, em seu jardim, apenas com propósito de passar o tempo, o que instaura uma verdadeira celeuma na vizinhança.



Com as pequenas experiências chamadas de Isso não é literatura, no coletivo Discórdia, buscamos explorar formatos inusitados capazes de apresentar narrativas fora do livro. Meu primeiro projeto ali foi um poeminha estampado num filtro de café, que se refere à característica da pele de controlar fluxos entre o corpo e o mundo exterior.

Aqui já não se trata de ilustrar ou de elucidar nada, mas de tensionar os limites semânticos e sugerir diferentes possibilidades interpretativas. Como se alargássemos o significado imediato com um rolo de macarrão. Ao longo da vida somos educados a aceitar algumas relações entre texto e imagem como legítimas, as quais vão se acumulando como clichês da compreensão. O clichê é muito amável com o leitor, que não precisa de grande esforço para entender; tudo na narrativa já está dado da maneira como ele conhece e reconhece. As conexões são as mesmas, os limites de significação e de abertura ao diferente permanecem intocados; o leitor apenas lê uma vez mais o que se acostumou a ler. Mas a apreciação estética de uma obra literária – e artística em geral – vai além. Ela opera numa deseducação desse olhar domesticado, levando-o a entrever outras formas de vida, trazendo à tona o que se faz invisível no cotidiano, fazendo-nos estranhar o banal. São imagens que rompem a ordem do dia, arejam palavras, pegam as expectativas com a calças na mão. Todavia, aí existe também um paradoxo: tais imagens deseducam o olhar ao mesmo tempo em que nos ensinam a ver por outra perspectiva. Tudo bem, pois ainda assim ampliam, em complexidade, a visão de mundo.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

ENTREVISTA

O escritor Fernando Sousa Andrade me convidou para uma linda entrevista sobre meu romance Diante dos meus olhos (Editora Reformatório, 2019). Ela acaba de ser publicada na revista portuguesa InComunidade. Você também pode ler aqui:


Diante dos meus olhos tem tantas camadas, como pinceladas de tinta sobre um plano branco, e elas parecem que se mexem, sugerindo nuances novas e paletas policromáticas. Você levou três anos para fazer uma primeira versão, é isso? Como era seu trabalho de escrita ou reescrita durante esse tempo? É um romance em que o leitor imerge na história completamente. Como foi lapidá-lo?

Preciso dizer que você fez uma leitura muito especial do meu livro, que transparece na qualidade das perguntas. Fico lisonjeado e agradecido. Diante dos meus olhos foi sendo criado mais ou menos como você descreveu sua sensação de lê-lo: com pinceladas. Começou com um conto de quatro páginas, escrito na madrugada, logo que despertei de um sonho. Ali estavam esboçados o que viria a ser a vila militar onde a trama se passa e um ou dois personagens. Essa história continuou viva, pedindo para ser contada, e aos poucos desenvolvi o enredo. O conto curto passou a ser um conto longo, que depois ganhou corpo de romance. Cresceu demais, sofreu cortes; ao todo foram onze versões do livro realizadas durante uma década. Apesar disso, o enredo não teve mudanças drásticas, foi apenas se adensando no que diz respeito à psicologia dos personagens e aos pormenores da viagem que realizam. Com o processo pude conhecer melhor aquelas pessoas, o que me interessava na história, quais conflitos se apresentavam, qual deveria ser a linguagem e a forma mais adequadas para a narração. Eu queria obter essas nuances que não se deixam enrijecer nem capturar; que fossem complexas, ambíguas, paradoxais como o ser humano é e precisa ser compreendido — para além dos rótulos, das caixinhas, dos maniqueísmos etc. Parece que deu certo, pois outros leitores também me devolveram impressões semelhantes às suas, dizendo que ora sentiam apreço pelo pai e pelo filho, ora tinham raiva. Ainda assim eu não sabia bem o que tinha em mãos, muito menos o que fazer com o texto. Só tive coragem de buscar vias de publicá-lo quando ganhou menções honrosas no Programa Nascente USP 2015 e no Prêmio Sesc de Literatura em 2016, vários anos após o primeiro rascunho. Em 2019, o projeto foi selecionado num edital de publicação de livros promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Só então pôde chegar aos leitores.

2) Seu romance parece conter muitas pulsões que se veem na prática psicanalítica. O próprio enredo lida com projeções, relações entre o real e a fantasia, medos, luto. O narrador é carregado de afeto pelo pai, mas há sentidos ambivalentes no seu “narrar o pai”. A relação dos personagens parece colocar o romance numa espécie de suspensão, pois narrar é lembrar, mesmo que você escreva a partir do branco total (do esquecimento). E seu romance é tão alusivo à memória! Fale um pouco disso.

A memória é o tema principal do livro. E ela vem carregada de contradições entre as histórias de vida dos personagens, em especial a memória do filho, que narra o pai segundo o seu ponto de vista, a sua experiência, as suas angústias em relação a ele. O pai não tem direito de resposta; os papeis se invertem e ele acaba por se tornar uma espécie de criatura do filho. No fim das contas, não é assim que fazemos a história da humanidade, com os filhos narrando os pais, ou melhor, com as pessoas de hoje falando daquelas que já se foram? Mas há um paradoxo aí: fomos criados, educados, influenciados por nossos antepassados, que assim, por meio de nós, também conduzem a narrativa. No fundo, as questões que se colocavam para mim ao longo da escrita diziam respeito a como criamos essa realidade, que parece tão concreta, embora não seja mais do que uma invenção dentro de um contexto cultural. Os personagens tensionam esse fio, uma vez que a história se faz de memórias, e as memórias deles são elaborações de acontecimentos recentes ou muito antigos coexistindo meio misturados, indiscerníveis, que lutam para ter razão. A psicanálise atravessou o processo de criação do livro mais de uma vez. Tive meu primeiro contato com ela enquanto fazia as pesquisas para o mestrado em Estética e História da Arte, que coincidiram com a escrita de uma das versões iniciais do Diante dos meus olhos. Eu me debruçava sobre a Estruturação do self, trabalho derradeiro da artista brasileira Lygia Clark, ao qual ela dedicou seus últimos dez anos de vida e que se propunha como uma espécie de intervenção poético-terapêutica, por assim dizer. É um trabalho complexo, criado numa ambiguidade entre a arte e a clínica. Para me aproximar dele precisei conhecer um pouco da teoria psicanalítica, que é encantadora. Não parei mais. Li um tanto de Freud, Jung, Winnicott. Algo de Melanie Klein também, na medida em que a pesquisa requisitava. Em 2014 dei início ao doutorado, e por mais que relutasse tive que encarar alguns temas de Lacan, que me ajudaram a pensar essa relação entre real e ficção. Embora o livro não tenha um viés psicanalítico proposital, imaginei que essas aproximações logo surgiriam.

3) (Des)importar-se com a figura do pai, sua ação perene na vida, seu apego às imagens de uma infância na vila militar me fazem pensar como somos ainda uma projeção de quando fomos meninos, no caso do pai e filho. E como se no filho houvesse essas libações do corpo guardado e projetado à adultice. Isso é muito difícil de ser trabalhado no personagem-narrador?

O filho quer se diferenciar do pai para encontrar a si mesmo. Essa é uma questão-chave da existência humana, que tentamos explicar das maneiras mais diversas, entre elas a psicanalítica. Mas em um momento importante do romance o filho se dá conta de que, por mais que drene o sangue do pai de suas veias, seu corpo produzirá mais daquele mesmo sangue. Quer dizer, é uma desconexão impossível. Não importa o seu esforço em negá-lo e se afastar, o pai permanecerá seu ponto de referência; eles ainda estarão em relação. Eu queria que esse paradoxo e essa ambiguidade ajudassem a vermos as relações humanas de maneira mais complexa, mutante, impossível de determinar. Ao mesmo tempo acompanho meus amigos de infância envelhecendo e ficando cada vez mais parecidos com seus pais, os quais conheci com a idade que temos hoje. Essas histórias similares às do livro se contam a todo instante ao meu redor. Imagino que o leitor tenha aí um ponto em comum com o que se passa no Diante dos meus olhos.

4) A cena da velha na janela com a panela de pressão me chamou muito a atenção. O filho fica sozinho e há toda uma projeção cinematográfica sem o contato do pai, que se ausenta. Fale um pouco dessa cena.

Essa foi uma das primeiras cenas que imaginei, embora esteja mais perto do final do livro. Para mim, ela é uma espécie de contraponto à aparição anterior da velha — na janela da escola –, como se o público na plateia do teatro atravessasse o palco e chegasse às coxias. Na história da arte, até a irrupção do Modernismo, dizia-se que as pinturas são janelas para o mundo, ou seja, através delas é possível conhecer paisagens, objetos, gestos etc. No livro, a meu ver, essa cena que você mencionou sintetiza todo o embate entre real e ilusão vivenciado pelo personagem. É quando o problema se apresenta de fato, pois até então vinha apenas se sugerindo. E é o problema que ele carregará adiante. A panela de pressão marca essa ideia de tempo, e seus vapores tornam o ambiente nebuloso; mas apesar dessas evidências ela ainda é um mistério também para mim. Gostaria de saber o que está cozinhando, o que vai amolecendo em seu interior, desfazendo-se, talvez.

5) Eu tive certa visualização do seu romance com um filme chamado o Show de Truman. Passou pela sua cabeça esse filme enquanto estava escrevendo?

Esse filme foi bem marcante quando era mais jovem. Ajudou-me a pôr em crise meus afazeres de redator publicitário, que mal tinham se iniciado. Não me lembro de ter pensado nele, especificamente, enquanto escrevia o Diante dos meus olhos, mas sem dúvida a aproximação é plausível. Show de Truman também fala de desconstruir uma ilusão ao dar-se conta de que a realidade é criada como os cenários de um estúdio de cinema, embora naquele caso se trate de um espetáculo. Lembro-me de que, no filme, o personagem habita um reality show levado ao limite: o mundo acompanha cada etapa de sua vida, vivida desde o nascimento numa cidade cenográfica onde todos são atores. No final, quando percebe essa sua condição, ele abandona o espetáculo e se lança “no mundo real”. O que fico me perguntando, e isso sim tem a ver com meu livro, é: que mundo é este? Tem mesmo algo de real? Como se pode confiar?

6) Se fosse dar esse seu romance a alguém próximo e pedir um texto com comentários, quem você escolheria?

Tive o privilégio de receber algumas cartas de amigos que leram o livro e quiseram me escrever, algumas muito bonitas, escritas à mão, repletas de afeto. Uma delas me foi dada pela artista e terapeuta ocupacional Gisele D. Asanuma, que levou o livro para uma viagem e, enquanto lia, escreveu sobre as relações que estabelecia com os arredores, com as situações que encontrava pelo caminho, com reminiscências do passado, como se fosse se perdendo por aí com a ajuda desse mapa que escrevi justamente com esse propósito. Não sei se pediria a alguém para escrever sobre suas impressões de leitura porque um livro pode acessar lugares muito sensíveis, e o pedido talvez se tornasse invasivo. Mas sem dúvida um dos maiores prazeres em escrever é poder ouvir, depois, como cada leitor se deixou afetar pelo que leu. Essa troca é uma experiência incrível, que mexe bastante comigo, porque marca um momento em que o livro deixa de ser meu e ganha vida.

7) Diante dos meus olhos tem uma relação muito imagética com o cinema. A quem você entregaria seu livro para uma filmagem?

Eu tenho acompanhado pouco o cinema, o que é uma pena. Imagino que muitos diretores compartilhem comigo das mesmas questões sobre realidade e ilusão, uma vez que boa parte delas provém da força das imagens. Já tive oportunidade de ouvir Wim Wenders falar sobre o tema, acredito que o livro poderia interessá-lo, mas com certeza há outros cineastas talentosos que saberiam lidar com as indagações apresentadas ali a respeito do olhar, das memórias, das narrativas. Acredito também que, quando o livro muda de linguagem, torna-se uma nova obra, e tenho mais curiosidade para saber em que o transformariam do que desejo de controlar essa transformação. Prefiro que o cineasta trabalhe como preferir em seu campo de criação. O meu continua a ser a literatura.

Ficou com vontade de ler o livro? Clique aqui e peça seu exemplar!