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quarta-feira, 3 de julho de 2024

DEJETO

Trecho do livro “Museu de Arte Efêmera”, recém-lançado pela editora Laranja Original.


– Cutuca logo, vai.
– E se não estiver morta?
– É claro que está.
– Como você sabe?
– Eu sou mais velho. Eu sei.
– É minha varinha da Hermione. Eu não vou encostar nisso aí.
– Não vai estragar.
– Então, empresta a sua.
– A minha é de colecionador, custa cinco vezes o preço da sua. Em dólares!
– Ué, não vai estragar.
– Se não cutucar, como a gente vai saber que a água está envenenada?
– Você acha que isso aí bebeu e morreu?
– Se for veneno, a gente tem que nadar de boca fechada.
– Não vamos nadar!
– Não está verde que nem nos desenhos. Pode ter se afogado.
– Pode ter sido comida por um peixe gigante e depois vomitada aqui.
– Isto aqui não é mar, é uma represa. E não é história de criancinha. Aqui não tem peixe gigante.
– Pode ter sido vomitada no mar e veio boiando até aqui.
– É o rio que desce até o mar, não o mar que sobe o rio. Você não presta atenção nas aulas?
– Não tive essa matéria ainda.
– É só você pensar: o mar é salgado, o rio é doce. Se o mar escorresse no rio, ele também seria salgado.
– Se o rio caísse no mar, o mar seria doce!
– Sal é mais forte que açúcar. É por isso que a gente come a sobremesa depois.
– Hã?
– Cutuca logo, vai. Sem varinha.
– Não vou encostar nisso aí não.
– Medrosa.
– É você!
– A gente precisa resolver isso pra nadar.
– Você prometeu pra mamãe que só ia brincar na beiradinha.
– Eu sei nadar. Vamos procurar um galho.
– A gente devia falar pra mamãe.
– Ela tem coisa mais importante pra fazer.
– Mais do que isso?
– Mais. A gente devia procurar um jornalista.
– Você conhece um?
– Aqui no condomínio deve ter. Aquela ruiva da novela tava assinando autorização na portaria. Foi a mãe que disse.
– Eu não achei nenhum galho ainda.
– Continua procurando. A gente devia filmar com o celular, postar no YouTube, aí o jornalista vinha procurar a gente.
– Pra quê?
– Pra fazer entrevista. Foi a gente que encontrou ela primeiro.
– A gente ia ficar famoso.
– Pena que a mãe não me deixou trazer o celular.
– Você ia derrubar na água de novo.
– Na piscina, foi sem querer. E tem piscina e privada em casa, então lá também não é seguro.
– Nenhum galho. Desisto.
– Cutuca com a mão mesmo.
– De jeito nenhum! Vou pegar doença.
– Você perdeu no par ou ímpar.
– Eu disse que queria ímpar.
– Eu sou mais velho, eu escolho primeiro. Agora, cutuca.
– Quantos anos você acha que ela tem?
– Tava no máximo na segunda série.
– Tudo isso?
– Tem um pouco menos do que o meu tamanho.
– Certeza que não conhece ela?
– Lá na escola não tem ninguém com o cabelo enroladinho assim.
– Parece trombadinha. Será que pulou o muro?
– A mãe já disse mil vezes pra gente não falar essas coisas na frente dos outros.
– Mas ela tá morta.
– Ainda não temos certeza, você não cutucou. Deve ter sido a chuva de ontem.
– Será que veio de muito longe?
– Acho que sim. Tá cheia de lama.
– Como a gente vai descobrir a mamãe dela?
– A gente vai filmar e postar na internet. Alguém vai ver e marcar ela. Vou buscar o celular. Não sai daqui.
– Eu vou junto.
– Não, você corre muito devagar. Espera aqui.
– Você prometeu pra mamãe que ia cuidar de mim!
– É só você não sair daqui.

– Oi, menina. Eu sou a Alice. Qual é o seu nome? Que diferente! Eu também queria ter um nome assim. Tem quatro Alices na minha classe. Desculpa ter chamado você de trombadinha. Minha mãe disse que a gente só pode falar preconceito quando não tem ninguém por perto. Você mora onde? Nossa, verdade? Como você chegou na chácara do vovô? Vim aqui passar uns tempos. Eu queria muito mesmo era morar em Hogwarts e ter aulas de magia. Na minha escola, só tem português, matemática, ciências, geografia, história e ioga e expressão corporal. E inglês. Eu queria mesmo era ter uma capa invisível para estudar ali e ninguém ficar perguntando nada. Logo passa, não é verdade? Meu irmão disse que você se afogou na represa. Ele aprendeu a nadar, eu ainda não sei direito. Achei que era mais fácil. Por que você não fez natação? Não tem piscina no seu clube? Se tivesse feito, podia nadar melhor do que todo mundo da minha escola. Na festinha de formatura deste ano, vou de novo pra Disney. Minha mãe disse que vou aproveitar mais porque vou estar maior. Eu não sei… Nas outras vezes, papai estava junto. Se estudasse em Hogwarts como você, faria tudo num passe de mágica. Traria papai para morar de novo com a gente. Como você perdeu o tênis? Seu pé tá muito sujo! Se eu subir no sofá assim, mamãe dá uma bronca gigante. Outro dia, eu tirei o sapato pra brincar no jardim e mamãe disse que a princesinha dela não podia andar por aí de qualquer jeito. Se a sua mamãe deixa você andar descalça, é uma menina de sorte. Pois é! Seu cabelo parece muito com o da moça que trabalha lá em casa, o nome dela é Jeneci, você conhece? Vou perguntar pra Jeneci se ela conhece você. Ela fala de um jeito engraçado. A mamãe não gosta que eu conte muitas coisas pra ela porque nunca se sabe. Nunca se sabe o quê? Não sei, nunca se sabe! Mamãe também é engraçada, às vezes. Mas de um jeito diferente. E ela é muito brava quase sempre. Ontem, ela falou palavrão no telefone. Eu me escondi debaixo da escada, onde nenhum adulto me encontra. E ouvi. Meu irmão disse que era o advogado do papai que ligou. Ele disse que papai ia buscar a gente, mas não apareceu. Mamãe fez as malas rapidinho, saiu catando tudo das gavetas. E o seu, ainda mora com você? Eu queria perguntar quando o meu vai voltar de verdade, mas a mamãe não deixa porque vou deixar ele triste. Ele também não tem capa de ficar invisível. Até que você é uma menina legal! Quando meu irmão chegar, vamos juntar nossas varinhas e fazer você voltar a andar. Ou nadar. Daí, a gente pode até ser amigas. Qual é a sua feiticeira preferida? Que máximo, vai dar certinho pra gente brincar de Harry Potter, Hermione e Gina! Você sabia que o Harry Potter perdeu a mamãe e o papai quando era criança? A gente vai fazer de tudo para encontrar os seus, tá? Dá pra achar tudo na internet. O que é isso no seu bolso? Tá quase saindo. Aqui, ó, tá vendo? Não, obrigada. É. Tem certeza? Tá bem, dá aqui…

– Que triste! Foi você que escreveu?
– Você encostou nela!
– Não encostei!
– Encostou sim, eu vi! O que é isso?
– Nada. Um papel sujo. Vamos fazer o vídeo?
– A mãe não emprestou o celular. Ela tá a tarde inteira mexendo nele! Disse que alguém pode ligar e ela precisa atender.
– Você contou que é pra encontrar a mamãe da menina?
– Ela mandou a gente deixar isso aí e voltar pra casa logo. O pão de queijo tá quase pronto. A Jeneci fez suco de laranja também.
– Tá bem. Tchau, Gina! A gente volta amanhã pra brincar com você. Vamos ficar um bom tempo na casa do vovô.

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O trecho acima faz parte do conto “Museu de Arte Efêmera de Lethe”, que por sua vez compõe o livro Museu de Arte Efêmera, de Eduardo A. A. Almeida, publicado pela editora Laranja Original.


Sinopse

Um sujeito reinventa certo acontecimento de sua infância a cada vez que o relata, buscando entender como aquilo ainda o determina. Após um acidente de carro que vitima sua namorada, um corretor de seguros deve se reaver com o destino. Quando ninguém se lembra da criança afogada no rio, outras tragédias vêm à tona, e junto a indiferença de suas testemunhas.

Os três contos que compõem o acervo deste museu têm em comum a questão da memória. A memória como forma de elaborar a vida, como marca traumática, como resistência diante do esquecimento.

Com estrutura fragmentada, inspiração dramática e um complexo jogo de imagens e sensações, Museu de Arte Efêmera mostra como nossas histórias podem ser ao mesmo tempo frágeis e poderosas.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

MORRE UM JOVEM

Clique aqui para saber mais

Escrevi os versos abaixo quando soube do falecimento de Victor Heringer. Nos primeiros rascunhos havia uma menção a ele. Mas achei que, no livro que estou publicando agora, o poema poderia ser dedicado a todos que nos deixam ainda jovens. E à esperança que resiste. Por isso não há dedicatória alguma.

O livro em questão se chama Sutilezas, fins. É o quinto na minha trajetória de escritor, e o primeiro composto exclusivamente por poemas. Ele aposta na apreciação da sutileza, da delicadeza e da profundidade como saída para nossa condição contemporânea.

A pré-venda vai até 31 de maio no site da Loja Pedregulho. Como se trata de uma editora pequena e a tiragem é limitada, faz toda a diferença você encomendar seu exemplar. Clique aqui

Agora sim, o poema.

MORRE UM JOVEM

Morrem milhares
todos os dias dizem:
o país não se importa
exceto por este sujeito
ele se importa
e aquela moça mais aquele senhor e
assim por diante
morre um suposto país

É preciso matar muitos países supostos
para viver um
fresco rebelde ingênuo ousado delicado
desse tal jeito jovem
que outros tantos ajeitados
teimam em envelhecer
ao ponto em que a obsolescência
confunde-se com salvação.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

ALGUNS OLHARES PARA A ARTE DO PASSADO

Ao analisarmos uma pintura pelo viés da história da arte, vamos querer vê-la em seu tempo e seu contexto, tentando compreender o que representou para seus contemporâneos. A história de A noite estrelada, por exemplo, reconstrói a biografia de Vincent Van Gogh, sua internação voluntária no asilo de Saint-Rémy, na Provença, a janela do quarto por onde ele observava o céu noturno, a arquitetura dos vilarejos holandeses que o artista resgatou da memória e incluiu naquele vale iluminado pelo luar. Tudo isso por meio de documentos, como as cartas trocadas com seu irmão Théo, diários, registros variados deixados por pessoas próximas, relatos, análises técnicas da própria obra etc. A crítica de arte segue caminho semelhante, sendo por vezes indiscernível da historiografia. E tais narrativas se atualizam na medida em que novidades são descobertas e outras associações vão se produzindo. Mas estas não são as únicas formas de olhar a arte do passado.

No livro Studiolo, traduzido do italiano e publicado este ano no Brasil pela editora Âyiné, o filósofo Giorgio Agamben apresenta uma coleção de pequenos textos inspirados por trabalhos de arte que, conforme advertência do próprio autor, pretendem se colocar na tradição do comentário e não da crítica e da história. “Se chamamos de presente o instante em que uma obra chega à sua legibilidade, as obras comentadas no livro, ainda que compostas em um arco de tempo que começa em 5000 a.C. e chega até hoje, são todas igualmente presentes, convocadas aqui e agora em um instante eterno”, explica.

Ou seja, se a história e a crítica de arte leem as obras do passado sob a luz do nosso presente e contribuem, assim, para a elaboração de certa linha de tempo, a abordagem de Agamben é radicalmente outra: seu interesse nelas é ler o hoje sob a luz do passado, considerando que esse passado nunca se interrompeu. Afinal, de que maneira aquelas obras de arte impactam o entendimento de nossa época? Que heranças nos constituem enquanto seres humanos? Por que agimos como agimos e pensamos da maneira como pensamos?

A visão linear da história sempre foi um dos objetos da sua crítica, que desconstrói o formato cronológico ao investigar eventos que nunca cessam de acontecer. No caso da pintura de Van Gogh que citei antes, poderíamos pensar, talvez, na questão da loucura, na condição do olhar do artista, no imaginário e na memória, nas relações do sistema econômico com a organização social, na potência da criação artística e assim por diante. Todavia, A noite estrelada não é um dos trabalhos comentados em Studiolo.

O total de vinte e um textos – a maioria associados a pinturas de épocas muito diversas, desde a antiguidade clássica à modernidade – traça relações entre o próprio fazer artístico, observações acerca da imagem, história, literatura, filosofia, política, teologia, iconologia, entre outras áreas do conhecimento, como é comum nos escritos de Agamben. E, dada a sua extensão de, em média, apenas duas ou três páginas cada, eles se apresentam como lampejos; ideias pontuais, potencialmente muito maiores do que a forma concisa em que foram concebidos.

O título Studiolo remete ao gabinete particular onde os príncipes da Renascença se retiravam para meditar ou ler, rodeados pelas suas obras de arte favoritas. Agamben justifica, assim, a seleção das obras que comenta, as quais a princípio têm pouco ou nada em comum.

A respeito de Ninfa e pastor, pintura tardia de Ticiano, Agamben fala sobre a perda do mistério por meio da satisfação dos amantes e, assim, de certa inoperosidade da natureza humana, conceito já desenvolvido em outros livros seus. Ao dissertar sobre a janela de A noite, óleo sobre tela de Isabel Quintanilha, o autor trata dos limiares entre a realidade e a representação. Ao lermos seus escritos sobre o afresco pompeiano Aquiles renuncia a Briseida, aprendemos sobre certa condição do olhar. No comentário sobre Las hilanderas, de Velázquez, é colocada em questão uma possível ambiguidade entre o divino e o profano. Ao se debruçar sobre uma estatueta de traços femininos esculpida sete mil anos atrás, Agamben fala sobre a importância de entendermos o conceito de origem não como um ponto distante no passado, mas como a única via de acesso ao presente.

“A tarefa do pensamento”, escreve ele, “é arrancar os fenômenos da sua situação cronológica para restituí-los a essa dimensão de insurgência”. De modo que assim se sustente a inquietação causada pela distância temporal, ou seja, sem apaziguá-la por meio de uma consciência histórica que produz distanciamento confortável e se fazendo incapaz de enxergar a atualidade das obras do passado.

O pensamento, para Agamben, não pode ser apartado da forma. Ele jamais deixa de ser uma experiência de e com a linguagem. Por isso seu interesse na poesia e nas artes visuais. Por isso os comentários articulados com tamanho apuro. Se Studiolo não consta nas listas das obras fundamentais Giorgio Agamben, nem por isso deixa de ser uma leitura relevante para quem busca conhecer seus textos de teor estético e, claro, exercitar outras formas de olhar para a arte.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

LIVE DE LANÇAMENTO! O BELO E A BESTA

Estou feliz da vida por esta celebração em dose dupla: a live de lançamento do meu O belo e besta faz parte da programação do quinto aniversário da Editora Moinhos. 

Vou conversar com Darwin Oliveira, do canal Seleção Literária. E você pode acompanhar e participar ao vivo no canal de YouTube da Moinhos. Vamos? Vamos!

Se ainda não conhece o livro, clique e leia um trecho no site da editora. \o/

ATUALIZAÇÃO (17 de maio): Quem não conseguiu ver ao vivo pode assistir a gravação a qualquer momento clicando aqui.
 


quinta-feira, 15 de abril de 2021

O CAMINHAR NA HISTÓRIA DA ARTE RUMO A PAULO NAZARETH: ALGUNS PONTOS DE PARADA E OBSERVAÇÃO



Em 2019, tive o prazer de apresentar mais uma pesquisa no Seminário de Estética e Crítica de Arte provido pelo Grupo de Estudos em Estética Contemporânea da USP. 

Falei sobre a caminhada como prática artística, com destaque para uma performance do artista Paulo Nazareth (em especial no que dialoga com a história da arte e com transformações do olhar, identidade latino-americana e condição de estrangeiro na atualidade). 

O texto decorrente agora pode ser lido neste belo livro recém-publicado, disponível online gratuitamente, que você acessa clicando aqui >> Anais do IV Seminário de Estética e Crítica de Arte da USP: Políticas da Recepção

quinta-feira, 25 de março de 2021

DEZ (OU ONZE) LIVROS SOBRE HUMANIDADE E ANIMALIDADE

Clique aqui para encomendar o seu direto com a editora!

As afinidades e desavenças entre humanos e outros animais estabelecem um ramo extenso da literatura, desde as fábulas de Esopo a escritores contemporâneos. Fui me embrenhando por essa selva cheia de mistérios, encantos e absurdos enquanto escrevia meu livro mais recente, chamado O belo e a besta, que está sendo lançado agora pela editora Moinhos.

Talvez você já tenha lido uma porção de histórias sem se atentar a essa questão. Às vezes, a animalidade é apenas parte de uma obra mais complexa, como no caso das próprias fábulas, que trazem fundamentos morais implicados na relação entre animais falantes, cujo comportamento simula o dos humanos.

A seguir, dou dicas de livros que marcaram minha vida de leitor e que influenciaram a escrita de O belo e a besta. Estes não são necessariamente os melhores. Nem os únicos. Mas podem ser boas portas de entrada para quem se interessar pelo assunto, assim como foram para mim.

1. Em primeiro lugar, dois personagens que já na infância me fizeram perceber que a leitura podia ser tão prazerosa quanto crítica. Não falo de um livro específico, mas de toda a obra de Bill Waterson com Calvin e Haroldo. Se você nunca leu, precisa ler. Calvin é um menininho norte-americano com um tigre de estimação, que para os adultos é uma pelúcia, mas para ele é um animal de verdade. E o engraçado é que o tigre parece bem mais civilizado do que a criança.

2. Atualizando a tradição popular existe o sensacional A ovelha negra e outras fábulas, do escritor hondurenho Augusto Monterrosso. Com histórias repletas de humor, ironia e política, ele subverte a lógica e a moral das fábulas convencionais.

3 e 4. Dois escritores latinos criaram inventários de animais reais ou fantásticos, que nos lembram bestiários medievais e as descrições da fauna americana feitas durante a colonização, quando tudo aqui parecia selvagem e violento aos olhos estrangeiros. Refiro-me ao argentino Jorge Luis Borges, com O livro dos seres imaginários, e ao brasileiro Wilson Bueno, que publicou O jardim zoológico, entre outros títulos com a mesma temática. Em ambos, lemos o nome e uma descrição desses animais, que mostram até onde vai a nossa inventividade sobre a natureza.

5. Eu ia dizer “até onde vai nossa fantasia sobre a alteridade que os animais apresentam”, mas quem explora isso com mais afinco é Guimarães Rosa. A tal animalidade permeia boa parte dos seus textos, e talvez o ápice seja Meu tio o Iauaretê, publicado na coletânea Estas histórias. O conto mostra um matador de onças que vive na mata e que, vamos descobrindo aos poucos, descende das próprias onças; um homem-bicho cujas características correspondentes a um ou a outro são meio indiscerníveis.

6. Falando nisso, outro livro que marcou minha juventude é A revolução dos bichos, de George Orwell, que critica os regimes totalitários usando animais como metáforas de certas organizações sociais. É curto, impactante, e os governos atuais nunca o deixam envelhecer ou se tornar inoportuno.

7. Maus, de Art Spiegelman, tem com ele algumas semelhanças. Inspirado na experiência do pai do autor na Segunda Guerra Mundial, ali as nacionalidades ou etnias são representadas como animais. Os norte-americanos são cachorros, os alemães são gatos, os judeus são ratos e assim por diante. Mais interessante do que as questões de perseguição e dos campos de concentração, já bastante desenvolvidas em outras obras literárias, essa história em quadrinhos mostra como a experiência marca não apenas quem lá esteve, mas inclusive quem nasceu quando a guerra já tinha acabado.

8. Eu poderia citar vários outros títulos de ficção, mas quero aproveitar a oportunidade para compartilhar também três obras ensaísticas que ajudam a problematizar o assunto. A primeira delas é Literatura e animalidade, da brasileira Maria Esther Maciel, que me mostrou a possibilidade de realizar uma abordagem poética para além das alegorias do comportamento humano, por vezes baseadas em animais estereotipados. Boa parte do meu livro foi escrita em diálogo com suas análises.

9 e 10. Duas obras de leitura mais complexa são O que os animais nos ensinam sobre política, do canadense Brian Massumi, e O aberto: o homem e o animal, do italiano Giorgio Agamben. Ambos os filósofos expandem, pesam e cruzam os conceitos de humanidade e de animalidade, revendo-os historicamente, buscando outros sentidos possíveis advindos de diferentes áreas do conhecimento e mostrando como a nossa perspectiva sobre os animais quase sempre é estreita e preconceituosa.

Demais títulos de não ficção que eu poderia citar aqui foram encontrados nas referências bibliográficas desses três. Sugiro que você dê uma olhada, caso também se interesse. A lista é imensa.

Por fim, convido você a conhecer meu O belo e a besta. Ele propõe uma espécie de passeio por um jardim zoológico em que se pode olhar os animais e onde eles olham de volta. O livro é composto por cerca de setenta textinhos que buscam um tom entre a ironia e o bom humor, ou entre o natural e o bizarro. Foi escrito para ser divertido, causar espanto, inquietar. E eu espero que também possa sugerir o que os animais têm a dizer sobre a nossa humanidade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

TESTEMUNHO OCULAR AGORA EM EBOOK!


 Primeira boa notícia de 2021! Meu livro Testemunho ocular, esgotado na editora, acaba de ganhar uma versão digital. Dá para ler no celular, no computador e no Kindle. 

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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

[live] LANCEI UM LIVRO. E AGORA?

Participo desse bate-papo sobre publicação e divulgação de livros, que será transmitido ao vivo pelo Facebook da plataforma Vida de Escritor. Clique no link e acompanhe!