segunda-feira, 22 de junho de 2026

ESCREVER COM A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Foto de Markus Spiske


O clichê do escritor solitário não tem mais lugar com a inteligência artificial. Se a novidade vem sendo encarada como tabu por muitos, outros entendem que recusá-la não é diferente de manter-se fiel à máquina de datilografia após o advento do computador.

Fato é que não se pode ignorá-la. Enquanto ainda há escritores receosos, a tecnologia já dominou inúmeros setores da economia. E ela tem sido usada, veja só, para auxiliar na redação de e-mails, relatórios, apresentações, entre outras finalidades. Qual empresa abre mão dessa ferramenta?

Tenho me impressionado a cada dia com os recursos incríveis da inteligência artificial. Seu uso também me mostra que, quanto melhor você domina o ofício da escrita, mais consegue obter dela. É assim que busco acalmar os apocalípticos (e alguns utópicos) que preveem o fim do trabalho: o ser humano ainda é necessário para operar a máquina. Quando a tecnologia prescindir dessa supervisão, bom, precisaremos reavaliar a crise. No momento, só podemos levantar hipóteses. E eu não sou especialista em TI nem em bola de cristal.

Meu ofício é a escrita. No que já pude experimentar da novidade, notei, entre ótimas sugestões de edição, que a tecnologia tende a trazer soluções contra o propósito do texto. Ela não tem limites, quer sempre mostrar serviço. Quanto menos repertório o autor tem, mais difícil se torna perceber defeitos naquilo que a máquina propõe, ao ponto em que ela talvez destrua o seu texto. E o pior: você achará o resultado excelente.

Isso porque a IA alucina. Suas soluções, muitas vezes, não têm o menor cabimento. E mesmo quando não acontece, sempre há um tanto a melhorar depois da sua contribuição.

Por sua vez, há falhas sutis. São elas que costumam escapar aos olhos menos treinados. No caso da escrita, elas aparecem como problemas de voz, ritmo, originalidade, profundidade psicológica, coerência, entre outros.

Tem muita gente se deixando enganar – no geral, quem vê o trabalho criativo de maneira simplista. Insisto: é preciso conhecer o ofício para usar a ferramenta a seu favor. Escritores que a invocam sem cautela não conseguem ir além dos seus próprios limites individuais. A IA é bastante perspicaz nesse sentido: ela opera com as aptidões que você tem. Mas faz você achar que está rumando para o Nobel.

No que diz respeito às carências particulares do meu processo, a tecnologia preenche uma lacuna importante: é uma leitora rigorosa, uma pesquisadora ágil e uma interlocutora que me ajuda a pensar mais a fundo sobre a minha obra. Cá entre nós, que autor dispõe de leitores-beta bem preparados, ou editores com tempo disponível para discutir cada vírgula do texto?

A IA analisa com frieza e distanciamento, critica sem amaciar, levanta questões que eu não tinha considerado. Ela amplia minha capacidade de compreender meus escritos, sem com isso substituir minha capacidade de criação. E sem que eu precise incomodar outros colegas de carne e osso com favorzinhos camaradas. Ela se tornou uma assistente capaz, que me ajuda a tomar decisões melhores.

Verdade que, aqui ou ali, ela tenta participar dos meus textos. “Você quer que eu sugira um conflito, uma cena, um diálogo?”. Eu não quero. Não porque ache errado dar essa liberdade para ela – quem quiser agir assim, que aja, eu nem teria como impedir. Mas, qual a graça?

Eu não aceito tal colaboração porque o propósito da minha escrita é, justamente, escrever. É assim que obtenho o meu prazer. No embate com as palavras, no imaginar situações e personagens, no limar as frases.

Claro que há questões graves envolvidas. Entre elas, as jurídicas, como o treinamento da IA usando obras protegidas por direitos autorais. Questões econômicas, como a inundação do mercado por livros gerados automaticamente. Trabalhistas, como a concorrência desleal em alguns segmentos. Entendo que cabe às áreas competentes analisar cada um desses aspectos. E aos demais cidadãos, manter a orelha em pé.

Por fim, há a questão da homogeneização estética. Que tampouco surpreende; ela já existia no mercado cultural e a IA apenas a amplifica. Afinal, quando olhamos para uma seção de romances água-com-açúcar best-sellers, a homogeneização não está evidente?

“Cultura é a regra, arte é a exceção”, já dizia o filme do Godard em 1993. Cabe ao leitor escolher o que deseja: há uma imensidão de matizes entre o livro produzido pela monocultura transgênica e o cultivado de maneira orgânica e sustentável em uma pequena propriedade intelectual. No debate sobre a produtividade da IA, quase sempre desprezamos esse poder de decisão do consumidor.

Os problemas não são pequenos nem simples. Voltando ao meu labor de escriba, pondero que uma coisa é a tecnologia me ajudar a apurar as ideias e o texto, como faziam os editores de livros e de jornais antes que eles próprios tivessem tantas outras atribuições. Outra, bem diferente, é ela pensar ou escrever por mim.

Esse é o meu ponto de corte. Se a IA passar a redigir meus textos, troco o teclado por uma bicicleta de uma vez por todas. Pedalar no meu lugar, por enquanto, ela ainda não pode.