Um grupo de peregrinos parte de uma estalagem rumo ao túmulo de São Tomás Becket, na Catedral da Cantuária, Inglaterra. Para passar o tempo, lançam um desafio: quem contar a melhor história de aventura ganhará uma refeição paga pelos demais. Essa é a premissa de uma das obras mais importantes da literatura em língua inglesa, chamada Contos da Cantuária (Canterbury Tales), escrita na segunda metade do século XIV.
Fiquei curioso para conhecer a Idade Média por uma voz de seu próprio tempo. Também queria fechar uma lacuna em meus estudos sobre a evolução do conto. O receio de ser um livro difícil logo se desfez: as histórias são instigantes, irônicas, quase sempre bem-humoradas. E as surpresas estavam só começando.
O autor, Geoffrey Chaucer, é também um dos personagens viajantes. Ele cria assim um artifício para coletar narrativas da tradição oral e recontá-las em diversos estilos usando pontos de vista de classes sociais distintas, o que colabora para a riqueza da linguagem. A peregrinação funciona como eixo comum: reúne esses contos, confere coesão ao livro e o estrutura.
Consegui identificar ali características que mais tarde seriam associadas ao conto moderno, tal como teorizado por Edgar Allan Poe, Julio Cortázar e Ricardo Piglia. Refiro-me, especialmente, às histórias de curta extensão, lidas “de uma só assentada”, que capturam o leitor nas primeiras linhas e o conduzem com intensidade crescente até um desfecho de efeito premeditado.
Isso era algo que eu já esperava. O que me surpreendeu foi encontrar no livro ideias tão atuais sobre o convívio social, que me deixaram com a sensação de termos avançado bem pouco desde então.
Dentre as ideias positivas, destaco as personagens mulheres que não se deixam reprimir, inclusive em relação à sexualidade. Como a Mulher de Bath, narradora que se casou cinco vezes para satisfazer seus desejos. Ou, no lado oposto, a dama do primeiro conto, narrado pelo Cavaleiro, que não quer saber de seus pretendentes. Ela diz: “quero viver pura / E virgem, sem esposo nem amante. / Das mãos dos homens quero estar distante. / […] A caça eu amo, ao bosque, à montaria; / […] Não quer carregar filhos no ventre, / Mas correr livre, agreste pelos bosques”.
Mensagem mais direta ainda se encontra no final do Conto do Erudito, em que os versos convocam: “Esposas nobres, cheias de prudência, / Evitem a humildade que apaspalha! / […] Repliquem, dando troco e represália! / […] Dominem, afiadas qual navalha! / Mulher, segue essas dicas, e assegura / Que tua legião vença a batalha!”
Enquanto essa afirmação da autonomia feminina – ou feminismo, como o nomeamos atualmente – parece ser coisa antiga, há no livro inúmeras velharias que, infelizmente, permanecem nos nossos dias. São estruturas sociais e lugares-comuns como o patriarcado, antissemitismo, golpes e traições pelo poder ou o preconceito do casamento como destino infeliz para ambos os cônjuges. Há também tipos amplamente explorados ainda hoje, como o cobrador de impostos corrupto, religiosos devassos e autoridades imorais.
No ensaio que acompanha a edição brasileira da Penguin, o crítico Harold Bloom destaca ao menos dois temas bastante próximos entre Chaucer e os Estados Unidos contemporâneos: a insistência na guerra e os atritos com a Igreja. Suponho, assim, que meu encanto com a atualidade dos Contos da Cantuária tenha fundamento. E não tenho dúvidas de que essa capacidade de continuar dialogando com questões humanas essenciais é o que assegura a perenidade de todo clássico.
O autor, Geoffrey Chaucer, é também um dos personagens viajantes. Ele cria assim um artifício para coletar narrativas da tradição oral e recontá-las em diversos estilos usando pontos de vista de classes sociais distintas, o que colabora para a riqueza da linguagem. A peregrinação funciona como eixo comum: reúne esses contos, confere coesão ao livro e o estrutura.
Consegui identificar ali características que mais tarde seriam associadas ao conto moderno, tal como teorizado por Edgar Allan Poe, Julio Cortázar e Ricardo Piglia. Refiro-me, especialmente, às histórias de curta extensão, lidas “de uma só assentada”, que capturam o leitor nas primeiras linhas e o conduzem com intensidade crescente até um desfecho de efeito premeditado.
Isso era algo que eu já esperava. O que me surpreendeu foi encontrar no livro ideias tão atuais sobre o convívio social, que me deixaram com a sensação de termos avançado bem pouco desde então.
Dentre as ideias positivas, destaco as personagens mulheres que não se deixam reprimir, inclusive em relação à sexualidade. Como a Mulher de Bath, narradora que se casou cinco vezes para satisfazer seus desejos. Ou, no lado oposto, a dama do primeiro conto, narrado pelo Cavaleiro, que não quer saber de seus pretendentes. Ela diz: “quero viver pura / E virgem, sem esposo nem amante. / Das mãos dos homens quero estar distante. / […] A caça eu amo, ao bosque, à montaria; / […] Não quer carregar filhos no ventre, / Mas correr livre, agreste pelos bosques”.
Mensagem mais direta ainda se encontra no final do Conto do Erudito, em que os versos convocam: “Esposas nobres, cheias de prudência, / Evitem a humildade que apaspalha! / […] Repliquem, dando troco e represália! / […] Dominem, afiadas qual navalha! / Mulher, segue essas dicas, e assegura / Que tua legião vença a batalha!”
Enquanto essa afirmação da autonomia feminina – ou feminismo, como o nomeamos atualmente – parece ser coisa antiga, há no livro inúmeras velharias que, infelizmente, permanecem nos nossos dias. São estruturas sociais e lugares-comuns como o patriarcado, antissemitismo, golpes e traições pelo poder ou o preconceito do casamento como destino infeliz para ambos os cônjuges. Há também tipos amplamente explorados ainda hoje, como o cobrador de impostos corrupto, religiosos devassos e autoridades imorais.
No ensaio que acompanha a edição brasileira da Penguin, o crítico Harold Bloom destaca ao menos dois temas bastante próximos entre Chaucer e os Estados Unidos contemporâneos: a insistência na guerra e os atritos com a Igreja. Suponho, assim, que meu encanto com a atualidade dos Contos da Cantuária tenha fundamento. E não tenho dúvidas de que essa capacidade de continuar dialogando com questões humanas essenciais é o que assegura a perenidade de todo clássico.
