“Eu li o noticiário hoje, oh, garoto
Sobre um homem de sorte bem-sucedido
E embora a matéria tenha sido bastante triste
Bem, eu tive que rir.”
A day in the life (Um dia na vida), The Beatles, tradução minha
Como ler notícias sobre guerra, feminicídio, fome, corrupção, racismo, entre tantas outras catástrofes que nos atravessam diariamente, e seguir vivendo como se tudo estivesse normal?
Talvez essa violência banalizada seja a norma, ou talvez normal seja o anestesiamento da sociedade.
Intrigado com o que parecia ser uma insensibilidade generalizada me propus, uma vez por dia, a acessar um site específico de notícias e selecionar ali uma manchete, que anotava numa caderneta. A manchete deveria ser um exemplo de como toleramos o intolerável.
Tratou-se também de um exercício contra a minha própria apatia. Afinal, o que há de autoproteção nisso de eu não me deixar afetar o suficiente para tomar uma atitude? O que há de autossabotagem?
Mantive o projeto ao longo de um ano. Algumas vezes, foi difícil escolher uma única notícia. Em outras, difícil era encontrar notícia digna de nota, não por falta de desgraça, mas porque, contrariando o dito popular de que desgraça pouca é bobagem, desgraça muita também se torna ruído.
“Rússia derrubou avião da Malaysia Airlines que matou 298 pessoas, diz ONU”. Essa foi a primeira manchete que escolhi, em 12 de maio de 2025. A segunda: “Violência sexual infantil atinge 1 em cada 5 mulheres no Brasil, diz estudo”. A terceira: “PMs agridem pessoas em situação de rua em Florianópolis”. E ainda: “Influenciadora mexicana é assassinada durante transmissão ao vivo. Veja o vídeo do crime”.
Certas notícias apontavam para uma violência, até certo ponto, inacessível ao cidadão comum: “Militares abriram empresa para espionar e matar autoridades, diz PF”. Outras, traziam um sofrimento profundo, que só poderia ser apreendido por quem estava diretamente envolvido no acontecimento: “Estava destruída após um aborto, mas tinha medo de contar à minha chefe”.
Ainda não sei o que fazer com a caderneta. Tampouco procuro uma aplicação prática – nunca foi essa a minha intenção. Por ora, digo apenas que colhi resultados: meu olhar amadureceu, a passagem do tempo se lentificou, o mundo ficou maior. E o ser humano, ao contrário, ficou minúsculo. Foi a conclusão que me coube.
Por fim, compreendi também que minha caderneta registrava não apenas tragédias isoladas, mas estilhaços de um imaginário político mais amplo.
Em uma entrevista recente, o filósofo Vladimir Safatle explicou como a constatação de que “o sistema apodreceu” justifica a ideia defendida pela extrema-direita de compartilhar o espólio, como se a única possibilidade, para cada pessoa, fosse se apropriar de qualquer coisa que ainda tenha valor. Ele afirma ainda que talvez os adeptos dessa perspectiva política sejam os únicos realistas remanescentes. Pois, se excluirmos do horizonte a esperança de que ainda é possível lutar e criar outro sistema, o que sobra são as ruínas da humanidade.
Aquele meu exercício de sensibilização me fez perceber como esse discurso extremista é concreto. Também reforçou a importância de resistir, apesar de tudo; apesar, inclusive, do desgaste que esse verbo acumulou. Continuar resistindo, dia após dia, diante da degradação que as notícias retratam. E, nessa sobrevivência, preservar a capacidade de imaginar realidades dignas para todas e todos.
