quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O VÍNCULO URGENTE

Sem título (da série "Droguinhas"), Mira Schendel, cerca de 1965

A vida contemporânea carece de afetividade, basta folhear este jornal* para verificar como estamos distanciados do sentido profundo das notícias (digo "sentido" pensando em "sentimento", não em "significado"). Lemos sobre violência, abuso de poder, destruição da natureza, miséria e logo retomamos nossas atividades ordinárias como se nada tivesse acontecido, isso praticamente não nos toca. Claro que é possível estabelecer relações interpessoais hoje em dia; ninguém vive isolado por completo e, no limite, mesmo o isolamento implica uma relação, seja de afastamento, ignorância, recusa etc. Então, se de alguma forma nos relacionamos com os demais, por que nem sempre criamos vínculo? Aliás, qual seria a natureza desse vínculo e por que ele seria tão urgente?

Algo que falta às sociedades de hoje, de modo geral, é disposição ao vínculo. Digo isso não num sentido moralista, mas porque essa falta provoca sofrimentos de diversas ordens, inclusive morais. Digo também que falta disposição porque vínculo não é algo que se adquire – não compramos vínculo no supermercado, não o encomendamos pela internet, não cozinhamos alimentos ricos em vínculos. Eles se constituem a partir da disposição das pessoas. Portanto não é pela lógica do capitalismo que detemos vínculos – o máximo que podemos fazer é nos abrir ao outro e sustentar a natureza vincular que porventura desperte desse exercício. O que não é pouco – exige uma complexa transformação de comportamento, de sentimento e de pensamento sobre as coisas do mundo, sobre o que está do lado de fora e tudo o que está dentro de nós.

"O tecido do vínculo é o real entre dois organismos. (...) Uma realidade feita de 'sentires', emoções em sua maioria inconscientes, mas também conscientes (...). O que faz o vínculo entre dois humanos são os alicerces de uma presença", a psicanalista Radmila Zygouris explica no ensaio O vínculo inédito.



Sem título (da série "Droguinhas"),
Mira Schendel, cerca de 1965
Durante uma consulta recente com minha endocrinologista, falávamos sobre como mudou a relação entre médico e paciente – ou como deveria mudar – nestes tempos em que a informação não procede mais de uma única fonte. Se antes o "doutor" era o detentor oficial do conhecimento científico – e por vezes abusava do poder a ele associado –, hoje é diferente: o paciente chega já sabendo pormenores da sua saúde e requer cuidado especial. Deseja ser ouvido, deseja que seu corpo seja analisado como um ser inteiro – não somente resultados numéricos de exames laboratoriais –, deseja ser acolhido naquele momento de intimidade e no espaço-tempo do seu histórico pessoal. Deseja vincular-se, talvez. O que contraria a lógica produtivista dos convênios médicos, que cobram caro, pagam pouco, recusam-se a oferecer planos particulares (porque o governo regulamenta o serviço), são coniventes com corrupções diversas – veja a quantidade de obstetras que tem solicitado remuneração à parte daquela que o convênio lhes concede para realizar partos – e alimentam um sistema de atendimento automatizado, insensível e rápido, muito rápido, que nada tem de saudável – o paciente nem se acomodou na cadeira e as guias de exames são chacoalhadas na sua frente, junto com meia dúzia de receitas farmacêuticas, algumas de antidepressivos.

Algo semelhante ocorre nas salas de aula. Cada vez mais cheias e administradas por professores desestimulados, sua forma não incentiva qualquer vínculo que leve a conhecimento consistente ou que permita ao aluno buscar emancipação. Todos os anos inúmeros estudantes saem da faculdade sem habilidade intelectual, crítica ou analítica; passaram duas décadas copiando o conteúdo exposto pelo professor sem apreendê-lo adequadamente ou, pior ainda, ficaram esses anos todos a ignorar o que lhes era oferecido. São pessoas que chegam ao mercado de trabalho justamente como produtos – ofertados, patéticos, nada profissionais e ainda assim responsáveis por levarem o país adiante, seja no setor público ou privado.

Citei esses exemplos para mostrar que a questão do vínculo não é puramente abstrata – ela implica sofrimentos de diversas ordens, como vimos. Para pensá-la, vale retomar algumas ideias de Zygouris. Embora ela trate de uma relação oriunda da experiência analítica, acredito que provoque também uma reflexão sobre as demais relações experimentadas em nosso cotidiano. Podemos traçar um paralelo e, dessa maneira ampliada, destacar os seguintes pontos:

– O vínculo pertence ao território, não ao mapa. É da ordem do vivido, uma experiência que se vive em relação ao outro. Ele não se sustenta como teoria, é necessário vivenciá-lo na prática, no contato, no contágio.

– Não se interpreta o vínculo, ele não tem razão de ser, não há metáfora que dê conta da sua potência. Trata-se de um lugar de sentimentos, de silêncios; ele estabelece um plano de sensibilidade, um não-verbal que existe enquanto pessoas estão juntas – é o encontro em si.

– Sua natureza é fisiopsíquica. Isso quer dizer que não se basta numa afetação racional, ele é também visceral, vivido nas diferentes profundidades do corpo. Um vínculo "musical", que nos toca em tonalidades diversas.

– Ele requer implicação dos envolvidos, o que é mais do que participação. O vínculo exige que o "eu" esteja liberto para ser formado a partir do encontro. Não pelo poder, ao contrário; para ser formado por dissociação.

– A experiência vincular nunca se repete, ela é um fluxo sempre atual e cativante. Até ser interrompida e deixar de existir.

Antes de racionalizar, analisar ou criticar, é necessário sentir o outro na questão. Porque o "pensamento é, em primeiro lugar, um sentir que precede a linguagem e a formatação pela linguagem", diz Zygouris. Toda pessoa que pretende assumir a responsabilidade de oferecer um pensamento à sociedade precisa saber que "pensar é antes de mais nada fazer a experiência sensível do pensamento" – isso é muito grave e muito urgente, veja quantas agressões trocamos cotidianamente sem afeto algum, sem qualquer cuidado com o outro. Enquanto não desenvolvermos a sensibilidade, que é vital ao humano e imprescindível ao convívio, continuaremos com medo, isolados e infelizes, desvinculados inclusive de nossa própria potência de ser juntos.

*Este texto foi publicado originalmente no Caderno C do Correio Popular.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

SOBRE A POLÊMICA DE VENDER "MEIN KAMPF"

Algumas livrarias têm anunciado que não venderão o livro "Mein Kampf" (Minha Luta), de Adolf Hitler, que recentemente se tornou domínio público e está recebendo novas edições em português. Ora, por quê?


Em primeiro lugar, isso parece uma censura ingênua, uma vez que é possível obter o texto na internet com facilidade, basta digitar no Google. Depois, que história é essa de a livraria selecionar o que podemos ou não comprar (ok, todo comércio é assim, eu sei, mas normalmente a escolha não se dá por moralismo e sim por capitalismo, o que é bem diferente)!?

Tem outra coisa: estão com medo de quê? De produzir nazistas? É assim, como ignorantes ou como potenciais ignorantes, que as lojas veem os clientes leitores? No contexto de hoje? Como se todos aqueles nazistas dos anos 1930 tivessem lido o livro e se "transformado" com a leitura! Ou como se não existissem outros livros de conteúdo muito mais perigoso sendo vendidos aos montes por aí. Essa linha de raciocínio é tão tola quanto dizer que "vira terrorista quem ler o Alcorão" ou vira "cozinheiro quem ler a Dona Benta".

Há quem diga que um dos problemas éticos seria "lucrar com as ideias de Hitler". Eu fico me perguntando em que mundo essa pessoa vive. Porque tudo aqui envolve ganho ou perda de dinheiro, infelizmente essa é a lógica que nos conduz. Trata-se de um produto editorial e será comercializado como produto editorial. E daí? Eu adoraria implementar estratégias de desvio à lógica capitalista, mas boicotar o Hitler e continuar a vender os demais livros não parece muito eficaz.

Na minha opinião, a melhor forma de combater fascismos de todo o tipo é não agir como fascista. Nem agir "em nome do bem estar social", o que na prática dá quase sempre no mesmo. Política se faz de muitas formas, inclusive mais inteligentes. Com educação, por exemplo. Com acesso à cultura e liberdade de expressão também.

Torço para que muitas livrarias disponibilizem o título a quem desejar lê-lo, ao invés de quererem ocultar esse capítulo da história (como se fosse possível) ou de quererem ditar como a cultura deve ou não deve ser (como se fosse possível).

(Queridos livreiros, por favor, que tipo de política bárbara é essa que estão promovendo?)

Momento curiosidade: Esse episódio me fez lembrar de outro recente, quando as produtoras de DVD e Blu-Ray do Brasil se recusaram a distribuir o filme "Azul é a cor mais quente", num descarado ato de homofobia. Pode?

Saiba mais: Livro escrito por Hitler volta às livrarias brasileiras em meio a polêmicas

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

CARNICEIROS

a cultura requer todo
poder de pensamento
desgasta, desbasta
o corpo largado a
ser devorado
na jaula dos leões

medo terrível
do absoluto
fechado
feito barbárie

poderes que se pegam
numa rinha
ali, trancafiados
excessos
num depósito
de vazios

Varal (1993), de Adriana Varejão

A LENTIDÃO DO VERBO

"Pensar é antes de mais nada fazer a experiência sensível do pensamento. Para tanto, é preciso dar o salto e admitir como premissa que o pensamento é, em primeiro lugar, um sentir que precede a linguagem e a formatação pela linguagem. À questão: Como sei que penso? Respondo: Sei porque sinto que penso antes de conhecer aquilo que penso. Quando Isso pensa, é o inconsciente que se apodera do intelecto e do já aí com a rapidez de um raio: é o insight, ou o Einfall do qual falava Freud. É algo que despenca sobre nós, uma experiência fulgurante. Prefiro traduzir o termo freudiano Einfall por "pensamento-raio". A tradução por "associação livre" é ruim: diria que se trata mais de uma dissociação, já que o insight chega dissociado do contexto. Chega como uma faísca, com a rapidez de um raio. Depois é preciso passar dessa velocidade para a lentidão do verbo. O verbo nos impõe a resistência de nossos órgãos submetidos ao desenvolvimento sequencial da linguagem. O Einfall, a coisa encontrada na rapidez de um raio, força a dizer e dizer obriga a amortecer, para que possam se formar as palavras, as frases, a lógica do discurso."

O vínculo inédito, Radmila Zygouris

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

YOU DON'T SAY!


Qual é o meu segredo? Estou sempre ocupado com alguma coisa, seja ler, pensar, rabiscar papel, matar tempo, responder email, levantar e sentar na cadeira, coçar a orelha, esfregar as mãos nos olhos, sorrir maliciosamente para o espelho, lembrar de alguém de que gosto e sentir saudade, cantarolar melodias, ouvir o vizinho martelar algo no andar de cima pela terceira semana consecutiva, roer unhas, guardar no armário as roupas penduradas nas maçanetas, empilhar livros sobre a mesa do escritório, bocejar, atualizar a agenda, recarregar canetas-tinteiro, beber a água do copo, encher o copo com água mais uma vez, olhar para o relógio, ouvir o tique-taque do ponteiro que marca os segundos, fazer xixi, passar café, comer biscoitos com o café, pagar contas, renomear arquivos no computador, considerar tudo o que preciso ler ainda esta semana, tomar notas, passar notas a limpo, riscar tarefas cumpridas, jogar notas velhas no balde de lixo reciclável, comer uma fruta, lavar as mãos, dedilhar um acorde qualquer no violão, dormir em pé e sonhar alto, escrever rascunhos, desesperar-me com tudo que prometi e ainda não cumpri, imaginar a mim mesmo numa outra vida em outro lugar com outras pessoas, ler uma frase qualquer no livro mais próximo, fingir que trabalho, esquematizar um capítulo da tese, lavar a louça, checar mensagens no celular, deixar as respostas para depois, pesquisar o preço de um livro na internet, comprar livros por impulso, esquecer de ler notícias, sentir-me só, jogar uma fase no videogame, beber suco, colocar o notebook para recarregar, esquecer de almoçar, publicar um poema no blog, surpreender-me com o ronco do estômago, abrir o armário, esquecer o que procurava, fechar o armário sem pegar nada, atender telefone, revisar manuscritos antigos, recortar imagens de folhetos que peguei outro dia já não lembro onde, guardar as imagens para quem sabe usar numa possível oportunidade, cortar um fio solto da camiseta, arranjar desculpa para sair de casa, fazer compras no supermercado, esquecer de responder as mensagens que tinha deixado para depois, perceber a preguiça acontecendo, fazer corpo mole, buscar uma encomenda na portaria, beber outro café, lembrar dos milhares de problemas que precisava resolver, reclamar que não tenho tempo para nada, passar a tarde inteira sem fazer nada útil, prometer a mim mesmo que amanhã isso não vai se repetir, sentir vergonha, maldizer o produtivismo capitalista, inventar polêmicas e teorias da conspiração, acreditar nelas por um instante, rir de mim mesmo, ignorar bobagens de Facebook, não planejar o futuro, desejar um prazo motivador e estimulante, nem que seja apenas um!, apaixonar-me por algo inesperado, esquecer todo o restante, escrever esta nota nesta caderneta, refletir. Para que serve este meu segredo tão sem graça? Para nada, segredos não ajudam nada, não existem segredos a não ser no plano ideal, claro, quando os descobrimos eles já deixaram de ser segredos. Sobra apenas mais uma anotação a ser reciclada. Assim, espero.