segunda-feira, 7 de setembro de 2009

HENRI MATISSE E A COR DO SENTIMENTO


Retrato com risca verde (senhora Matisse), de Henri Matisse

Rosas são vermelhas e violetas são azuis? Não necessariamente, diria o pintor francês Henri Matisse (1869-1954). A escolha das cores está sujeita à expressividade que se pretende obter delas. Tudo contribui para a composição de um quadro. Tudo está interligado. O desenho se relaciona com o formato do papel, um ponto fortalece ou enfraquece o outro, as cores somam-se ou se subtraem umas às outras. Portanto, “tudo o que não tem utilidade no quadro é, por isso mesmo, prejudicial. Uma obra comporta uma harmonia de conjunto: qualquer detalhe supérfluo ocuparia, no espírito do espectador, o lugar de outro detalhe essencial”, como escreveu o artista em Notas de um pintor (1908).


Matisse viveu em busca da essência de sua arte. E, para isso, sabia que não poderia pintar as coisas como elas são, mas como gostaria que o espectador as visse. Em suas palavras: “não me é possível copiar servilmente a natureza, a qual sou forçado a interpretar e submeter ao espírito do quadro”.

O que seria esse espírito? Aparentemente, para Matisse, trata-se daquilo que mantém o quadro vivo no coração do espectador e, consequentemente, na história da arte. É a tal expressividade, que continua falando conosco mesmo depois que deixamos o museu. É também o sentimento do artista, que se manifesta por meio de traços, formas e, principalmente, cores.


Mesa posta (harmonia em vermelho), de Henri Matisse

Sim, rosas podem ser pretas. Violetas podem ser amarelas. Quando o objetivo é comunicar um sentimento exato, o pintor tem total liberdade para modificar a realidade como bem entender. “A própria teoria das cores complementares não é absoluta. (...) poderíamos definir melhor alguns pontos das leis da cor, ampliar os limites da teoria das cores tal como ela é atualmente aceita”, diria Matisse.

As cores conversam conosco de maneira quase instintiva. Podemos nos sentir bem vestindo roupas brancas num dia e, no seguinte, preferir outras vermelhas. Por quê? Não é algo fácil de explicar, mas, no momento da decisão, faz todo o sentido. As cores expressam sentimentos às vezes tão subjetivos que sequer podemos compreendê-los. Matisse, no entanto, fazia isso maravilhosamente bem. Ele dominava a expressividade das cores e dizia que as sensações podem mesmo variar, o que importa é a intenção do pintor ao aplicá-las sobre a tela: “o outono pode ser suave e tépido como um prolongamento do verão ou, pelo contrário, fresco com um céu frio e árvores amarelo-limão que dão uma sensação frígida e já anunciam o inverno”.

A obra, para ele, deveria transmitir a emoção do pintor com muita precisão. Os gênios fazem isso sem que o espectador note seus meios. “Trata-se apenas de canalizar o espírito do espectador, de maneira que ele se apóie no quadro, mas possa pensar em outra coisa diferente do objeto particular que quisemos pintar: retê-lo sem prendê-lo, fazê-lo sentir a qualidade do sentimento expresso. (...) O ideal é que o espectador se deixe tomar, sem consciência disso, pela mecânica do quadro. Pode-se recear que ele tenha um movimento de surpresa e, por isso mesmo, escape: deve-se esconder o artifício ao máximo”.

Não existem regras para tanto, apenas estudos rigorosos e a difícil tarefa de manter as portas abertas para o sentimento do mundo. Com um sarcasmo peculiar, Matisse completaria: “Eu bem que gostaria que elas [as regras] existissem, mas se fosse possível aprendê-las, quantos sublimes artistas teríamos!”


Nu azul (IV), de Henri Matisse

A pintura de Matisse, como bem definiu Teresa Camps, professora titular de História da Arte na Universidade Autônoma de Barcelona, “é um presente para quem sabe perceber a inteligência e a sensibilidade além da pureza e da clareza das cores”. É cem por cento sentimento. Um presente do artista para nós, seus humildes espectadores.

Tudo isso pode ser visto na primeira individual do artista no país. “Matisse Hoje”, em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo até o dia 1º de novembro, traz cerca de 80 obras do pintor, o que a caracteriza como um dos eventos mais importantes das comemorações do Ano da França no Brasil.



MATISSE HOJE
De 5 de setembro a 1 de novembro, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Mais informações: www.pinacoteca.org.br

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