sexta-feira, 27 de maio de 2011

SOBRE ARTISTAS E MALUCOS

É verdade que muito se discute sobre o grau de maluquice dos artistas. Em parte, creio eu, porque a maioria de nós não pertence àquele mundo, e é muito difícil compreender um mundo do qual não se toma partido. Por outro lado, a maluquice serve muito bem ao preconceito, no sentido de que, sendo os artistas todos malucos, eles não merecem atenção.

Puro engano. Artista de verdade, seja ele fotógrafo, pintor, músico ou escritor, entre tantos outros, de maluco não tem nada. Bom, talvez tenha um pouquinho, mas em nível saudável e recomendado. Pois artista profissional precisa ser muito consciente de seu trabalho, mesmo que, às vezes, a gente não consiga compreendê-lo de imediato.

Recolhi o trecho abaixo de um texto muito bacana do filósofo francês Gilles Deleuze. Ao analisar a relação entre literatura e vida, ele destaca a "indiscernibilidade" como um dos principais sintomas do mundo contemporâneo, ou seja, a sensação de não pertencer a um lugar específico. Tudo é transitório, tudo está sempre se transformando a vida, em si, nada mais é do que um processo. O eterno devir.

Não há nada de maluco nisso, muito pelo contrário. Inclusive, se você permitir, a arte pode chegar até a curar suas neuroses:

"Não se escreve com as próprias neuroses. A neurose, a psicose não são passagens de vida, mas estados em que se cai quando o processo é interrompido, impedido, colmatado. A doença não é processo, mas parada do processo (...). Por isso o escritor, enquanto tal, não é doente, mas antes médico, médico de si próprio e do mundo."

Gilles Deleuze, em A literatura e a vida (ensaio reunido no livro Crítica e clínica)

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