sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Vale-cultura, para mim, é escola decente. Havendo isso, não precisamos de nenhum "incentivo" paliativo.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

“Mesmo pais que em outros níveis tendem a ser satisfatórios, podem facilmente falhar na criação de seus filhos por não serem capazes de distinguir claramente entre os sonhos da criança e os fatos. Pode ocorrer de eles apresentarem uma ideia como se fosse um fato, ou reagir impulsivamente a uma ideia como se esta fosse um ato. Na verdade, é possível que eles temam mais as ideias que os atos. A maturidade implica, entre outras coisas, na capacidade de tolerar ideias.”

Donald W. Winnicott, Natureza Humana.

EXTRA–VAZAR

O tempo me escapa. Mais ou menos como se eu pusesse as mãos sob uma torneira e o tempo escorresse por ela. Escapa por entre os dedos, corre pelas frestas, não importa como eu tente contê-lo. Desajeitadamente. O tempo corre, escorre, escoa sem penetrar. Sem deixar vestígio.

Sinto-me ausente. Como se não pertencesse, como se não estivesse a par do aqui e agora. Inconsciente.

Passou, eu não vi. Foi pelo ralo, foi pelos ares. A ansiedade do início desembocou num desencontro. Sozinho. Na fossa. Suspiro. O último. Quando me dei conta, já tinha ido. Tinha acontecido. Pelas minhas costas, um golpe de vento, um arrepio, um piscar de olhos. A corrente levou. Onde eu estava?

Onde eu estava com a cabeça?
Lá se foi, uma vez mais, como sempre.
Ser sem estar, estar sem ser, não sei dizer.
Sinto. Muito.
É mesmo uma coisa sem sentido.
Por enquanto.

Agora e sempre. Aqui e afora.

O que aconteceria se eu fechasse a torneira? Se voltasse pelo cano, se explorasse a rede oculta nas paredes? Sumir também. Estar contido. Contente. Existe um submundo que percorre o edifício todo, a cidade inteira em conexão. Tudo corre, escorre, escoa.

Sem ver ou ser visto.

Desenhar um mapa no papel. Em branco. Fazendo. Criando. Existindo.

E eu incomodado com as gotas de água que me tocam sem molhar. A água que não me pertence. Que passa à toa. Que trans–borda.

Para além da fronteira do bem e do mal.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O CORPO DA LITERATURA

Aqui vão dois recortes de um texto ótimo que li no jornal Rascunho deste mês. A autora fala sobre as transformações proporcionadas pela escrita e pela leitura, experiências reservadas aos apaixonados por livros. Se você se empolgar, leia o texto completo aqui (edição 152).

“Só é escritor quem foi antes (e continua a ser) um apaixonado leitor, porque nos parágrafos que compõem a obra não há originalidade nem genialidade milagrosa, mas antes memória de tudo aquilo que se leu, e que, misturados às experiências e percepções do mundo também retidas na mesma memória, se remontam em uma obra nova, mesmo que se no momento do devaneio criativo essa memória não seja consciente. Mas de todo modo, a memória estará no corpo e a escrita, dizia Gonçalo Tavares, é uma atividade física. Não há dons inatos, nenhuma sorte genética ou espiritual. Há o narrador de Benjamin, o homem que viveu e se espantou com o mundo e que volta para contar suas histórias.”

“Não são só os olhos, doentes ou não, que se movem acompanhando as linhas de um livro. Move-se a vida toda e a que ainda virá. Porque depois de um grande romance, depois de ler Cem anos de solidão, por exemplo, já não será aquele que seria sem tê-lo lido. E essa descoberta é libertadora. Em potência temos tantas vidas quanto os volumes de uma biblioteca. Quanto mais se lê, mais é possível enredar e reorganizar todas as vidas (a que foi, a que está sendo e a que virá). E quando se estiver em outra vigília, diante do mundo, prático ou não, também ele será outro. E o mesmo mundo será vários, mesmo que a área em que circula não passe de dois ou três quarteirões. Porque tudo é movimento, tudo é duração e descontinuidades, sempre haverá algo a mais que se veja. E, insisto, esse ponto novo percebido só agora impactará toda a vida que foi (mas que se mantém na memória do corpo), a que está sendo e a que virá.”

Vanessa Carneiro Rodrigues
Memória e Movimento
Jornal Rascunho nº 152
(dezembro de 2012)

sábado, 8 de dezembro de 2012

O INFINITO EM CADA UM

"Escrevi um livro" é uma afirmação mentirosa. A gente publica livros, pois eles jamais terminam de ser escritos. As publicações são fases do texto. Digo isso porque, até algumas semanas atrás, eu achei que tinha escrito um. Um romance. Fresquinho, ainda sem previsão de lançamento, mas estava "finalizado", por assim dizer. Só que, então, comecei a ler Como viver junto, de Roland Barthes. Ele fala desse meu livro, parece até uma crítica direta. Ou uma devolutiva criativa. Eu não quero ser pretensioso e me comparar ao grande filósofo, não me entenda mal, por favor. É mais como se ele me desse conselhos, como se tivesse escrito especialmente para mim. Rolou uma sintonia: eu compartilho das suas afetações. Por consequência, vou reabrir meu livro "terminado" e recomeçá-lo (pela quarta vez). E assim ele não termina nunca. Pois "escrever é reescrever", disse certo autor um dia desses. Não me lembro quem foi nem onde li, mas não consigo esquecer a frase, tão bem escrita, tão pulsante, tão infinita.

"Na sociedade contemporânea, está em jogo a afirmação da transitoriedade como contingência ética de habitar o mundo. Ao escrever, não se busca edificar nem eternizar nada, pois a força deste gesto está no instante em que ele acontece e em sua eventual capacidade de produzir em seu entorno apenas deslocamentos, nenhuma fundação. Logo depois que se diz, aquilo já não é mais". Recortei este trecho de um lindo artigo chamado A pesquisa como prática estética, da amiga Renata M. Buelau, publicado no livro do VIII Congresso Internacional de Estética e História da Arte promovido pelo MAC/USP.

Espelho de teto criado pelo artista Olafur Eliasson na Pinacoteca de São Paulo

Eu queria saber por que as pessoas escrevem. Não acredito que haja uma resposta suficiente; ainda assim, a indagação em si parece promissora. Eu acho que escrevi o tal romance por dois motivos principais. O primeiro é "para colocar as ideias para fora", disponibilizá-las ao encontro, para que façam conexões e tentem sobreviver por si mesmas. O segundo motivo apresenta certa afinidade com o primeiro: "escrevi para me livrar dele". Nesse sentido, trata-se de uma espécie de psicanálise. Afinal, o método desenvolvido por Sigmund Freud baseia-se na verbalização como processo de investigação, ou seja, fala-se para trazer à tona (palavras de um leigo, meus amigos psicanalistas que não se ofendam). Não é necessário escrever tanto, claro. Pode ser uma página de diário, uma carta nunca enviada, uma nota no guardanapo, qualquer coisa. Por via das dúvidas, acho saudável ter sempre um caderno por perto para acolher pensamentos ou sentimentos que desejem se livrar de você. Porque o texto também precisa se livrar do autor, a rejeição é recíproca. Criador e criatura encontram no silêncio do papel um excelente psicanalista (sem ofensas novamente). É por isso que se publicam diários de grandes artistas. Eles costumam ser intrigantes.

Naquele mesmo artigo já citado, Renata Buelau explica que "os atos de pesquisar e escrever envolvem – ou deveriam envolver – uma disponibilidade para deixar algo de si para trás". Isso acontece quando se produz uma tese, uma obra literária, um e-mail sincero a um amigo, um cartão de Natal ou um parágrafo no diário. Algo de nós se vai com o texto, por isso se diz "criação". E que "nada se cria, tudo se transforma". Porque o texto é uma fração de nós mesmos que ganha vida própria e passa a se locomover por aí. Pelo mesmo motivo, não se deve confundir o texto com o seu autor. Ele já é outro. E a gente se livra dessa fração para conseguir cuidar das remanescentes. Senão, corre-se o risco de transbordar. Ou pior: de afundar devido ao excesso de si mesmo.

É bobagem escrever com intuito de produzir verdades sólidas, inéditas e que subjuguem, assim como acreditar que irá "fundar uma nova escola". Isso é coisa do passado, quando o tempo do mundo era outro, quando os interlocutores eram uns poucos ousados e/ou privilegiados. No contemporâneo, o dinamismo se estabelece como fundamento, e o potencial de uma obra está em produzir deslocamentos no entorno, como apontou Renata. "Transitório" é a palavra da vez. Entre tantas outras.

Os textos têm um caráter de infinitude, seja porque nos levam a um universo de significados, seja porque jamais encontram uma forma final, porque não sabemos por quanto tempo existirão ou porque não conseguimos enxergar além de seu horizonte, mesmo sabendo que existe algo ali. Às vezes, eu tenho a sensação de que passamos a vida a reescrever o mesmo texto, a pintar as mesmas pinturas, a fotografar os mesmos assuntos, a buscar uma nova perspectiva, a pensar e repensar "igual, só que diferente". Porque as inquietações não se esgotam com facilidade – se é que se esgotam.

Este texto que você lê agora surgiu de um post no Facebook, o qual se resumia mais ou menos ao primeiro parágrafo. A ele, o poeta Davi Araújo respondeu, citando Jorge Luis Borges: "publicamos para não passar a vida a corrigir rascunhos". Portanto, o que temos são pontos de virada, passagens que marcam o final de uma fase e o início da outra. Vivemos, em etapas, uma única longa vida. E só concebemos o infinito porque estamos sujeitos àquilo que termina, porém não nos conformamos. O fim não bastará.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012


Oscar Niemeyer faleceu aos 104 anos de idade, quase 105. Saber de sua morte é muito triste. Não o conheci pessoalmente, o que é uma pena, pois ele parecia ser um grande homem, talvez maior do que a própria obra. Jamais encontrei a “pessoa Niemeyer”, mas tive muito prazer ao descobrir as profundezas ocultas da OCA, a visão privilegiada do MAC de Niterói, as curvas insinuantes do Copan e o maravilhoso auditório do Ibirapuera, que se abre para fora e para dentro com uma tocante consciência social. Portanto, tínhamos alguma intimidade, e eu o admirava. Trata-se da perda lastimável de quem poderia ser herói do Brasil no lugar de muita gente que é sem merecer. De alguém que não apenas contribuiu para nossa formação cultural, mas que a construiu. Que inventou a arquitetura moderna brasileira e a tornou respeitada mundo afora. E, mais importante ainda, ao meu ver, Oscar Niemeyer foi um homem que possibilitou que pessoas comuns como eu, na banalidade do dia a dia, experimentassem uma nova relação com o espaço. O espaço como lugar que habitamos física e intelectualmente, pois sua arquitetura era ao mesmo tempo estrutura de concreto e de pensamento. Gente como eu, que poderia viver uma vida inteira sem perceber seu lugar na realidade compartilhada. Niemeyer abriu nossa percepção às potências do entorno. Por isso, dizem que desenhava o futuro. Mas ele desenhava, apenas, com olhar de menino curioso, sem medo de riscar no papel linhas tortas, livres de régua e de regras.

sábado, 1 de dezembro de 2012

QUESTÕES CRUCIAIS PARA O CAMPO DA PESQUISA NAS CIÊNCIAS HUMANAS*

1) A impossibilidade da transparência do olhar do pesquisador e a afirmação do perspectivismo. Em outras palavras, não existe ciência “pura”, e toda construção objetiva sofre interferência de uma cadeia de subjetividades. Afinal, os dados não significam nada sem alguém que os produza e interprete.

2) A crítica da separação entre o sujeito e o seu objeto. Porque nós e o mundo somos feitos da mesma matéria, e um está contido no outro assim como o outro está contido no um**.

3) A articulação do conhecimento com o desejo (vontade do pesquisador e/ou da coletividade) e a implicação (entender “implicação” como conhecimento intrínseco às coisas, portanto o movimento da pesquisa acontece tanto do observador para o assunto quanto – e talvez mais relevante – do assunto em direção ao observador).

4) A recusa da atitude demonstrativa em nome do construtivismo tido como experimentação de conceitos e novos dispositivos de intervenção. Afinal, como Adorno explicou***, a ciência não dá conta de todos os conhecimentos possíveis no mundo.

* Este post foi inspirado em um texto sobre Cartografia e Pesquisa-intervenção, se eu não me engano. Encontrei essas anotações num caderno antigo, mas não a fonte.
** Maurice Merleau-Ponty, O olho e o espírito, (1964).
*** O ensaio como método, de 1958 (?).