sexta-feira, 24 de maio de 2013

UNIDADE E DIVERSIDADE DOS SENTIDOS

"Um cego sabe exatamente pelo tato o que são galhos e folhas, um braço e os dedos da mão. Após cirurgia [que o faz enxergar] ele se espanta ao encontrar "tanta diferença" entre uma árvore e o corpo humano."

Maurice Merleau-Ponty
(1945, p. 259)


"Interrogando as coisas à sua maneira, cada um dos órgãos dos sentidos realiza uma síntese própria: é a diversidade dos sentidos. (...) No entanto, menos óbvia do que a diversidade é a unidade dos sentidos. Se, por um lado, as diferentes modalidades perceptivas nos dão diversos aspectos do mundo, constituem diferentes vias de acesso a um mesmo mundo. (...) E é necessário que todos os sentidos se abram ao mesmo mundo, do contrário os seres sensíveis com os quais eles nos põem em contato só existiriam para aqueles que os interrogam. Faltar-lhes-ia a plenitude do ser e não haveria condições para os percebermos como seres verdadeiramente existentes."

João A. Frayze-Pereira em Arte, Dor 
(2010, p. 175)

terça-feira, 21 de maio de 2013

TESTEMUNHA AURICULAR

É um projeto curioso, literalmente e literariamente. Literal porque exige prontidão para capturar conversas alheias, descobrir nelas o que há de incompleto, ambíguo e intrigante, ser enxerido mesmo. Literário porque as falas, devidamente apropriadas e transcritas, rendem livro, tornam-se públicas, voltam às ruas em novo formato. Ora, se um mictório retirado do banheiro se fez arte ao ser levado à sala de exposição, algumas frases recolhidas diretamente da boca do povo podem seguir a mesma lógica e se transformar em literatura quando fixadas no papel. Refiro-me ao livro Delírio de Damasco, criado às orelhadas por Veronica Stigger, a partir de conversas entreouvidas nas ruas da cidade.

O projeto, como eu dizia, veio ao mundo pela primeira vez a convite do SESC São Paulo, na Mostra de Artes de 2010. A proposta era realizar uma intervenção nos tapumes da unidade 24 de Maio, em construção na época. Veronica colou cartazes com frases soltas que ouviu durante suas caminhadas pelo local, devolvendo às ruas o que nelas se originou. O que há de escritura aí?, vão perguntar. Com certeza, os ouvidos afiados e o cuidado com a seleção dos textos – mais do que as canetadas propriamente ditas –, que conferem legitimidade ao projeto, situando-o nesse limiar entre a arte e as letras.


Tem frases para todos os gostos e desgostos, minha senhora, é pegar e levar. Exagerada, irônica, erótica, engraçada, polêmica... Sim, houve quem se ofendesse e enviasse reclamação ao SESC – mensagens que a escritora fez questão de ela mesma responder. Frases do tipo: “Me diz uma coisa, ele é débil mental ou só feio mesmo?”, “Minha mãe rezava para que eu não namorasse uma negra”, “Um cara bacana. Mas ele não é normal. Se fosse, não dava o cu”. Conversas da vida privada, do baixo volume ou do baixo calão, que, escancaradas, ganham outra dimensão, expõem seus preconceitos, revelam sua violência disfarçada de intimidade. Por sob os panos, aceitamos numa boa a agressão que não nos atinge diretamente, somos capazes de nos divertir com ela e até de incentivá-la. Mas caem os panos e ninguém quer ser envolvido, ninguém sabe de nada, somos todos santos, com o livro do moralismo debaixo do braço.

De repente, aquilo que nos acostumamos a ouvir no dia a dia incomoda, provoca, nos força a recuar um passo. A piadinha fica séria, mordemos a língua. Somos levados a reagir, a refletir ou a tomar uma atitude qualquer. Esse é o fôlego do projeto de Veronica Stigger: revelar a violência implícita nas tagarelices por meio de outra violência, esta cometida sobre elas próprias, que consiste em arrancá-las da sua zona de conforto e explicitar seus significados mais secretos.


Tem ainda outra sequela. Ao menos aconteceu comigo. É prestar atenção no que se diz e também nas entrelinhas, naquilo que permanece subentendido. Desde o divertido contrassenso de “Você ouviu falar ou fui eu que disse?”, surgido num bate-papo com minha noiva, até a bronca meio paradoxal de um colega de trabalho que, louco da vida com a falta de respeito da equipe, gritou: “Vocês não têm educação, caralho?”. Sim, passei a dar trela à língua solta, a ouvir os palavrões que ela tem a compartilhar.

A multiplicidade de leituras daqueles textos é uma característica que os enriquece. Serve também de incentivo à criação espontânea, pois o que temos ali são pílulas ativadoras. A autora contou que leitores deram continuidade às frases, as quais também poderiam ser chamadas de Pré-Histórias, conforme as publicadas anteriormente na coletânea Os anões. Escrevendo começos, meios e fins no próprio livro, imaginamos quem proferiu, a quê se referia, com quem conversava, onde estava naquele exato instante. Em suma, completamos a cena, damos vazão à literatura que também nos cabe pró-criar.

“A minha língua é da boca pra fora”, diz o poema Língua Ordinária, de Davi Araújo. Concordo. É a língua que se ouve da boca do povo, que habita as ruas, que se faz comunicando, que beija mas também envenena, cuja vida imita a literatura e vice-versa, numa dialética apetitosa. A língua afeita a se perder por aí, a engolir seco, engolir sapo, enrolar-se em si mesma; língua que se fixa no muro ou no livro e muda de tom. O que você tem a dizer? Levante a voz!

A editora que publicou Delírio de Damasco não poderia ter nome mais pertinente: Cultura e Barbárie. Porque um pouco de cada – um pouco de cultura e um tanto de barbárie – apimenta nossa língua, arranca lágrimas, acentua o verbo, acrescenta um ponto de exclamação. Convém, portanto, prestar atenção ao que se diz. E também ao que se pensa antes de dizer, se for o caso, já que nem sempre isso acontece. Cuidado: a cidade tem ouvido!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

"É da dialética entre o indivíduo e a obra que nascem os significados, e é no corpo como aparato de percepção e significação que essas relações são reveladas."

Maria Alice Milliet
(em Lygia Clark: Obra-Trajeto, p. 92)

sábado, 4 de maio de 2013

HOFESH SHECHTER


"Arrebatador" é a palavra que melhor resume o espetáculo Political Mother, da companhia inglesa comandada por Hofesh Shechter, que assisti ontem no Auditório Ibirapuera. Com música ao vivo - das pancadas heavy metal aos violinos clássicos -, a banda dividia a atenção do público com os bailarinos, e todos dançavam juntos sob a opressão do totalitarismo. Havia momentos de escuridão, sentimentos de dor e compaixão, manifestação e repressão popular, tudo pura dicotomia, pontos de vida completamente apartados e extremistas. Lembrei o tempo todo do romance 1984 (George Orwell), daquele clima de sociedade vigiada e controlada, sobrevivendo à repressão. Pensei em campos de extermínio, em refugiados de guerra e também nos momentos singulares de força que surgem ali com objetivo de tornar a existência suportável. Tudo ilusão. Essa história toda sem narrativa, sem verbo, somente linguagem corporal e música, muita música alta para impulsionar os corpos e fazê-los falar. Foi lindo. O auditório estava lotado de uma maneira que eu jamais imaginaria. Se me perguntassem quantos brasileiros se interessariam por dança contemporânea, eu responderia "poucos". Mas seria uma resposta errada. Juntos, aplaudimos a companhia por longos e entusiasmados minutos. Saí de lá arrebatado.

Aqui tem mais informações sobre o festival: O Boticário na Dança

sexta-feira, 3 de maio de 2013

"A ilusão não se opõe à realidade, ela é uma outra mais sutil, que envolve a primeira com o signo do seu desaparecimento."
Jean Baudrillard

quinta-feira, 2 de maio de 2013

É QUANDO/ONDE AINDA

Algo cresce na fenda do concreto. Em meio à rigidez árida da certeza brota uma forma de resistência. Forma frágil. Ela discorda do entorno, sente que não se enquadra. Cresce assim, sem saber por quê; sem objetivos definidos, o sentido da sua existência surgirá no/do processo, ao longo dos embates, tanto das boas experiências quanto das ruins. Sempre uma nova hipótese brota entre as milhares que abandonamos pelo caminho.

O que cresce ali, afinal? Não se sabe dizer, não há nada igual ao redor, apenas semelhanças e diferenças. Não há sinônimo. Comparação indefinida/inexata. Invenção. Não é exatamente nada, está deslocado do eixo pressuposto. Mas ainda assim é alguma coisa. Um ser. Não se pode negá-lo, não se consegue ignorá-lo. Ele incomoda/provoca. Mesmo quieto, inquieta. Estranhamente familiar. Por quê?


Uma das sensações mais angustiantes de se colocar entre territórios emparedados, estruturas estabelecidas e rótulos é a falta de chão. Viver na fenda, na heterotopia, quase sem apoio, sempre ameaçado pela altura do penhasco e a gravidade da queda. Estar sem pertencer. Não ser um exímio isso ou aquilo, o especialista mais especializado, a precisão mais precisa, a referência. Beber do múltiplo o seu desejo de completude. Ser um pouco de cada coisa e um monte de nada. Oscilar entre a ilusão e a desilusão por tudo aquilo que poderia ter sido. Assumir a indefinição como possibilidade de vida. O inacabamento. O caminho sem fim. O universo.

Parece fácil. Vão dizer que tudo pode, que é covardia, que o difícil é conviver com as restrições. Mas no lugar da cobrança exterior surge uma enorme exigência própria. É de fato mais difícil, convoca um olhar desautomatizado, atenção redobrada. Procurar a sombra onde a maioria se encanta com a luz, onde o excesso cega e ludibria. Caminhar por um piso que não se reconhece, sempre um novo passo no desconhecido. Deixar-se afetar e criar a partir das afetações. É bem mais sincero assim.


Transitar entre mapas. Transpassá-los. Saltitar aqui e ali, habitar e mudar, procurar sem saber o quê. Manter o compromisso com o projeto, seja ele nítido ou não; permitir que se transforme ao seu bel-prazer. É o que resta. Perceber as fronteiras como ligações, locais de troca e passagem; interlocuções ao invés de limites/barreiras. Vizinhança. Estar no meio é, na realidade, estar conectado a tudo/todos. Almejar a liberdade, buscá-la, mesmo que ela desapareça ao toque mais sutil, mesmo que evapore quando se tenta agarrá-la.

É diferente de ficar em cima do muro. Estar no “entre” é um posicionamento político, o limiar entre a vida e a arte. Não se encaixar, não se enquadrar, não se encaixotar, não se enquadradar. Existir num lugar inexistente. Onde ainda. Posicionar-se na fenda entre os partidos é diferente de não tomar qualquer partido. Livre de dualismos, dogmas, maniqueísmos. Livre da verdade/mentira, certeza/fé, certo/errado, é/não é, realidade/ficção, consciência/inconsciência, corpo/mente, permissão/proibição, meu/seu, individual/público, bem/mal...

Viver o outro como si mesmo. Superar os condicionamentos a que estamos acostumados, recusar a ideia de “normal”, como se o normal existisse absolutamente. Posicionar-se num outro plano é, ainda assim, compreender que existe relação; o pertencimento surge da exclusão, o reconhecimento se dá pela diferença. Tudo condiz, convive, coincide. A questão é aceitar, acolher, positivar.

Reconhecer a ambiguidade. Experimentá-la. Vê-la acontecer por aí. Perceber que tudo tem de assim e assado, um pouco de cada; valorizar isso, aprender a lidar com as emoções sem precisar traduzi-las verbalmente. Nem sempre a palavra dá conta da emoção de lidar.


Viver a multiplicidade dos sentidos, os significados que atravessam as coisas e as resignificam. As transformações constantes, sempre necessárias. As diferentes camadas de significado implicadas na mesma coisa. A poética da obra aberta, a vida como ser vivo, cada dia com um humor. Assumir a imprecisão. Do tempo, das narrativas, dos eixos, das categorias, dos métodos. O esgotamento impossível. Retirar tudo das gavetas e mandar pelos ares. Jogar, brincar. Demolir a pretensão de verdade e não erigir memorial no lugar, não eleger substituto. Ver a roda girar como fizeram Marcel Duchamp e John Lennon, enquanto os loucos tentam provar sua razão, justificar a existência com importâncias. Os loucos com quem convivemos cotidianamente; deixá-los para lá. Inventar com as sombras projetadas nas paredes, divertir-se com a maleabilidade delas.

Quando o sabor da carne ainda não foi estragado pela salmoura do dia a dia; é quando ainda se choca, é quando ainda se revolta, é quando ainda – poetizou Paulo Leminski. É onde ainda. Sim. Sonhar acordado. Viver a fantasia da realidade; o real de estrutura ficcional. Manifestar-se. Narrar a própria história nas entrelinhas. Mas não é exatamente disso que se trata.

Obs.: Este texto jamais seria escrito sem as conversas com a amiga Renata Monteiro Buelau e sem o grupo de pesquisa que se reúne, sob orientação da profa. Dra. Eliane Dias de Castro, no Laboratório de Estudos e Pesquisa Arte, Corpo e Terapia Ocupacional (FM/USP).