terça-feira, 21 de maio de 2013

TESTEMUNHA AURICULAR

É um projeto curioso, literalmente e literariamente. Literal porque exige prontidão para capturar conversas alheias, descobrir nelas o que há de incompleto, ambíguo e intrigante, ser enxerido mesmo. Literário porque as falas, devidamente apropriadas e transcritas, rendem livro, tornam-se públicas, voltam às ruas em novo formato. Ora, se um mictório retirado do banheiro se fez arte ao ser levado à sala de exposição, algumas frases recolhidas diretamente da boca do povo podem seguir a mesma lógica e se transformar em literatura quando fixadas no papel. Refiro-me ao livro Delírio de Damasco, criado às orelhadas por Veronica Stigger, a partir de conversas entreouvidas nas ruas da cidade.

O projeto, como eu dizia, veio ao mundo pela primeira vez a convite do SESC São Paulo, na Mostra de Artes de 2010. A proposta era realizar uma intervenção nos tapumes da unidade 24 de Maio, em construção na época. Veronica colou cartazes com frases soltas que ouviu durante suas caminhadas pelo local, devolvendo às ruas o que nelas se originou. O que há de escritura aí?, vão perguntar. Com certeza, os ouvidos afiados e o cuidado com a seleção dos textos – mais do que as canetadas propriamente ditas –, que conferem legitimidade ao projeto, situando-o nesse limiar entre a arte e as letras.


Tem frases para todos os gostos e desgostos, minha senhora, é pegar e levar. Exagerada, irônica, erótica, engraçada, polêmica... Sim, houve quem se ofendesse e enviasse reclamação ao SESC – mensagens que a escritora fez questão de ela mesma responder. Frases do tipo: “Me diz uma coisa, ele é débil mental ou só feio mesmo?”, “Minha mãe rezava para que eu não namorasse uma negra”, “Um cara bacana. Mas ele não é normal. Se fosse, não dava o cu”. Conversas da vida privada, do baixo volume ou do baixo calão, que, escancaradas, ganham outra dimensão, expõem seus preconceitos, revelam sua violência disfarçada de intimidade. Por sob os panos, aceitamos numa boa a agressão que não nos atinge diretamente, somos capazes de nos divertir com ela e até de incentivá-la. Mas caem os panos e ninguém quer ser envolvido, ninguém sabe de nada, somos todos santos, com o livro do moralismo debaixo do braço.

De repente, aquilo que nos acostumamos a ouvir no dia a dia incomoda, provoca, nos força a recuar um passo. A piadinha fica séria, mordemos a língua. Somos levados a reagir, a refletir ou a tomar uma atitude qualquer. Esse é o fôlego do projeto de Veronica Stigger: revelar a violência implícita nas tagarelices por meio de outra violência, esta cometida sobre elas próprias, que consiste em arrancá-las da sua zona de conforto e explicitar seus significados mais secretos.


Tem ainda outra sequela. Ao menos aconteceu comigo. É prestar atenção no que se diz e também nas entrelinhas, naquilo que permanece subentendido. Desde o divertido contrassenso de “Você ouviu falar ou fui eu que disse?”, surgido num bate-papo com minha noiva, até a bronca meio paradoxal de um colega de trabalho que, louco da vida com a falta de respeito da equipe, gritou: “Vocês não têm educação, caralho?”. Sim, passei a dar trela à língua solta, a ouvir os palavrões que ela tem a compartilhar.

A multiplicidade de leituras daqueles textos é uma característica que os enriquece. Serve também de incentivo à criação espontânea, pois o que temos ali são pílulas ativadoras. A autora contou que leitores deram continuidade às frases, as quais também poderiam ser chamadas de Pré-Histórias, conforme as publicadas anteriormente na coletânea Os anões. Escrevendo começos, meios e fins no próprio livro, imaginamos quem proferiu, a quê se referia, com quem conversava, onde estava naquele exato instante. Em suma, completamos a cena, damos vazão à literatura que também nos cabe pró-criar.

“A minha língua é da boca pra fora”, diz o poema Língua Ordinária, de Davi Araújo. Concordo. É a língua que se ouve da boca do povo, que habita as ruas, que se faz comunicando, que beija mas também envenena, cuja vida imita a literatura e vice-versa, numa dialética apetitosa. A língua afeita a se perder por aí, a engolir seco, engolir sapo, enrolar-se em si mesma; língua que se fixa no muro ou no livro e muda de tom. O que você tem a dizer? Levante a voz!

A editora que publicou Delírio de Damasco não poderia ter nome mais pertinente: Cultura e Barbárie. Porque um pouco de cada – um pouco de cultura e um tanto de barbárie – apimenta nossa língua, arranca lágrimas, acentua o verbo, acrescenta um ponto de exclamação. Convém, portanto, prestar atenção ao que se diz. E também ao que se pensa antes de dizer, se for o caso, já que nem sempre isso acontece. Cuidado: a cidade tem ouvido!

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