domingo, 13 de março de 2016

INFERNO



O fogo tem esse poder. Destrói a inocência inteira, bastam-lhe poucos segundos. As chamas a consomem, não importa o tamanho, não importa a idade, não importa a natureza. Diante de olhos arregalados resta a impotência de ser e de agir, a dimensão reduzida diante da claridade infinita; cinzas que mancham a eternidade da memória. Resta a certeza da punição desmedida. No terreno devastado brota a culpa. Só ela. A trajetória sem retorno, a rua sem saída. Reclusão, danação. O arredor se agiganta, as paredes se tornam muros, a fiação de arame farpado, as janelas têm grades. Através delas há a decepção do pai, o choro represado da mãe. A desconfiança dos vizinhos, a família que se recusa a acreditar. Dedos apontam em minha direção, ardentes como labaredas, famintos como o inferno. Atiçam-me a carne, açoitam-me a consciência; as bolhas estouram a pele, o sangue irrompe e se esvai de uma só vez na tentativa inútil de apagar a cena, abafar a tragédia, reverter a brincadeira inconsequente. Aquele eu não existe mais, nada dele sobreviveu. As asas queimaram, a queda iminente anunciada pelas sirenes cada vez mais altas. Nada direi em minha defesa. Não há palavra, tudo se foi. Queimei a língua, queimarei a alma. Nada se sustentará. Desabo diante da verdade. Desfaço-me em fragmentos minúsculos. Recolhem os indícios do que fui. Varrem o pó para o calabouço da humanidade. Frio. Faz muito frio aqui.

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