domingo, 10 de abril de 2016

O CÃO


Às vezes eu acordava de madrugada e ia até o quarto de meus pais, querendo dormir com eles. Dizia ter pesadelos, de modo que me deixassem ficar. Nem sempre dava certo, mas tudo bem, custava apenas uma mentirinha e na maioria das vezes, exaustos, eles simplesmente se afastavam para os cantos, abrindo espaço onde eu me encaixava. A cama era pequena, porém suficiente para o meu tamanho.

Houve uma noite em que, no longo corredor que separava nossos quartos, deparei-me com um cachorro de olhos vermelhos e dentes tortos. Ele estava lá e rosnava, impedindo-me de avançar. Era pequeno, porém muito ameaçador. Fiquei paralisado, encarando o animal que brilhava, iluminado pelo luar da claraboia. Pensei em voltar a dormir. Ele anteviu meus movimentos e saltou para o ataque. Gritei.

Minha mãe abriu a porta do quarto na mesma hora, perguntando por instinto o que tinha acontecido. Meu pai saltou atrás dela e ambos se ajoelharam para me olhar nos olhos. Eu soluçava, sem fôlego.

Passado o susto, meus pais admitiram já não acreditar nesses pesadelos. Só me deixaram dormir na cama com eles quando perceberam a dentada profunda em minha canela, sangramento que demorou a estancar.

Passamos a noite seguinte juntos, numa cama de pensão. Voltei àquela casa apenas uma vez, acompanhado da equipe de mudança. Os carregadores estavam apressados e tremiam. Ouvi murmurarem que era por causa do cão. Para mim, estava evidente.

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