sábado, 18 de fevereiro de 2017

QUE LEITURAS DAREMOS ÀS CRIANÇAS DESTE SÉCULO?

Numa oficina de criação literária, fui pego de supetão pela pergunta: que livro marcou a sua infância? Minha reação foi exatamente a mesma de todas as vezes em que me perguntam “Qual é o mais?” ou “Quem é o melhor”? Eu travei. Uma tormenta de títulos chacoalhava meu bote, até eu naufragar em paz, sem cometer a injustiça de salvar apenas um dentre os meus adorados companheiros. Foram diversos, desde enciclopédias à coleção Vaga-Lume, desde contos de fada aos personagens do Maurício de Sousa. O sentimento provocado por aquelas leituras ainda pulsa, mesmo sem que eu consiga lembrar os detalhes de cada uma. O menino maluquinho, O casamento da bruxa Onilda, O escaravelho do diabo, As viagens de Gulliver, as Fábulas de La Fontaine, os casos de Sherlock Holmes, o Almanaque Abril, Romeu e Julieta interpretados por Mônica e Cebolinha, Os meninos da Rua Paulo, Os saltimbancos. Até mesmo a saga de Harry Potter, que li poucos anos atrás, me fez avivar a faísca distante da infância. Foi também adulto que visitei o edifício Martinelli, no centro de São Paulo, e a todo instante pensava em O último mamífero do Martinelli, história que, quando criança, me deixou de olhos arregalados durante a madrugada. É por esse motivo que, quando nasce um bebê na família, e ao longo dos seus aniversários, eu dou livros de presente.


Fico abismado com a quantidade de brinquedos da meninada. Em uma única festa, meus sobrinhos ganham mais do que eu tive durante a infância inteira. Ganham também algumas roupas. E nenhum livro. Para mim, a balança está desregulada.

Convém esclarecer que, mesmo trabalhando como escritor, sou bastante cético – não penso que livro é melhor do que brinquedo ou que é a salvação da humanidade. Pelo contrário, o livro precisa ser como um brinquedo, ou seja, um objeto com o qual a criança interage e por meio do qual acessa um universo de imaginação. Se não é um objeto sagrado, tampouco deve ser colocado em termos de finalidade, como se a criança fosse obter dele um benefício pré-estipulado... Sabe aquele papo de ler para ficar inteligente, ser aprovado no vestibular e se destacar no mercado de trabalho? Dá arrepios só de pensar. Prefiro deslocar a leitura desse lugarzinho medíocre, dito “meritocrático”, criado pela ansiedade capitalista. Presenteio com livros porque sou apaixonado por histórias e pelas lembranças que algumas me trazem, e desejo proporcionar a alegria de ler pelo prazer da leitura, assim como se brinca pelo prazer da brincadeira. E tudo bem se algumas crianças não gostarem. Nem todo mundo precisa gostar. Embora todos deveriam ter acesso e oportunidade de escolha.

A propósito, o livro infantil está repleto de preconceitos. Cecília Meireles já alertava, no fim dos anos 1940: “Se bem que dirigido à criança, é de invenção e intenção do adulto. Transmite os pontos de vista que este considera mais úteis à formação de seus leitores. E transmite-os na linguagem e no estilo que o adulto igualmente crê adequados à compreensão e ao gosto do seu público”. Por mais que se queira evitar a “formação” – no sentido pejorativo do termo, que pretende modelar a partir de uma forma domesticada –, o livro infantil será ainda invenção e intenção do adulto. Assim como as roupas, os brinquedos, a escola... Não há escapatória. Haveria apenas um atenuante, sugerido pela própria escritora: oferecer livros variados e deixar que a criança selecione os seus favoritos. Ela amará uns, não dará bola a outros, conforme dialogarem com as suas questões, interesses e curiosidades. Com a abordagem adequada, todo assunto vale. Melhor ainda se esse objeto comum contar histórias estranhas, de maneira que não apenas reproduza os valores da sociedade atual. Mais ou menos como afirma a própria Cecília Meireles, adiantando em meio século uma ideia agambeniana sobre a contemporaneidade: “Nem há que temer o livro impróprio senão quando se apresenta como um potencial arrasador, difundido com veemência, e tão ajustado à época que a produz como se fosse o seu evangelho”.

Qual, entre as nossas crianças, não vive capturada pelos vícios da atualidade? Afluxo de imagens, convivência digital, merchandising... A sabedoria das narrativas vai sendo substituída pela demasia de informações meramente ilustrativas. Ficamos pobres em experiências, iludidos por um conhecimento que é somente casca; opinamos sobre tudo, somos donos da verdade porque temos argumentos, em geral, clichês, pré-programados e repetidos aos berros, como fazem os papagaios. Enquanto a arte da narrativa, justamente, quer evitar explicações. Ela se faz no registro da sensibilidade, não apenas no da razão.

Cecília Meireles defendia que, para suprir a falta das histórias compartilhadas nas conversas de família, podemos criar bibliotecas de livros infantis. Claro que uma coisa não substitui a outra. Ter livros à mão é fundamental, porém não é suficiente. Eu cresci encantado pela biblioteca de uma tia, organizada numa estante em seu quarto. A maior quantidade de livros que eu via, reunidos num mesmo lugar. Além da coleção, eu via essa tia e também minha mãe lendo toda vez que tivessem oportunidade. Elas conversavam sobre livros e liam para mim. Me deixavam folhear as páginas, mesmo que não houvesse ilustração, mesmo que eu não tivesse aprendido a ler. Foi essa proximidade que me abriu as portas da literatura.

Fico por aqui, com uma última consideração de Cecília Meireles, que confirmei na prática: além da decodificação dos signos linguísticos, “é preciso que a criança viva a influência da leitura, fique carregando para sempre, através da vida, essa paisagem, essa música, esse descobrimento”.

Passadas três décadas, os livros da minha infância ainda ressoam em mim. Por isso, tenho certeza de que o questionamento deixado pela nossa escritora, lá nos anos 1940, permanece imprescindível: que leituras daremos às crianças deste século?

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