domingo, 22 de julho de 2018

ARTE COM "A" MAIÚSCULO

Durante a disciplina de pós-graduação em História da Arte que ofereci no semestre anterior, surgiu o debate sobre a arte dos índios, dos loucos, dos escravos do Brasil colonial, entre outros marginalizados em relação à instituição Arte, assim mesmo, grafada com A maiúsculo. A questão é recorrente, sinal de sua atualidade. E cada vez mais eu acredito que não devemos colocar tudo sob o mesmo guarda-chuva, ou seja, não devemos chamar aquelas produções de Arte.

Explico por quê. Em primeiro lugar, existe a idealização dessa Arte. Como se a pintura feita por um louco, uma cerâmica marajoara, uma tatuagem tribal, por exemplo, se tornassem “melhores” caso consideradas Arte. Como se precisassem desse rótulo para terem suas qualidades legitimadas. Não ignoro que, em muitos casos, elas precisam mesmo apelar a tal recurso para serem valorizadas, ganharem atenção e, principalmente, escaparem de rótulos pejorativos. Minha proposta é, no entanto, mudar a condição do preconceito, e não ocultá-lo sob o poder raras vezes questionado da Arte.

Em segundo lugar há a consequência da rotulagem, que é o enquadramento daquelas produções num registro construído ao longo de séculos e que reitera a própria colonização cultural ainda ativa. Isso porque a palavra Arte evoca um modo de fazer, uma história, políticas e valores estéticos fundamentalmente europeus, hegemônicos, brancos, falocêntricos. Submetê-las a esse modelo acaba por ignorar que elas têm suas próprias redes de significados, propósitos e funções em suas respectivas culturas – tal como os modernistas fizeram com as estampas japonesas e as máscaras africanas, por exemplo. Ficamos, pois, tentando encontrar nelas valores estéticos da Arte, que na realidade não existem, exceto quando tal estética é aplicada de maneira selvagem, forçada, colonizadora.

O que nos leva ao terceiro problema da questão, que é a apropriação ou, pior ainda, o domínio e o governo que a Arte passa a exercer sobre tais criações. Porque essa instituição, operando num sistema capitalístico, com rapidez captura produções desviantes e as coloca sob sua tutela, mantendo certa linha narrativa, de circulação e, claro, de consumo.

Arthur Bispo do Rosário com seu manto. Foto de Walter Firmo

Poderíamos pensar em vários exemplos em que isso ocorre de maneira menos ou mais grave. Um bastante conhecido é o caso de Arthur Bispo do Rosário, internado ainda jovem como psicótico na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde viveu ignorado durante cinco décadas. Acontece que Bispo criava objetos com os materiais encontrados nas celas, no lixo ou fornecidos pelos profissionais que cuidavam dele. O principal era seu manto, todo bordado com linha desfiada de outros panos, que ele vestiria durante seu encontro com Deus.

Pode parecer tocante dizer que Bispo era um artista injustiçado, revolucionário, a fazer Arte no hospício. Fato é que a Arte o descobriu e logo o enquadrou no registro maiúsculo. Quem olha de fora pode mesmo se enganar, acreditando que ele fazia Arte. Porém suas criações estavam mais próximas de um rito, memorialístico ou religioso, e o fundamento era mais místico do que estético. O que para nós era Arte, para Bispo era uma espécie de fé, como ele mesmo explicou.

Seus objetos foram apropriados pelo mundo da Arte e hoje se encontram em museus, são pesquisados por teóricos, críticos e historiadores, escreve-se um tanto a respeito de seu valor artístico. Não faz muito tempo a Bienal de São Paulo reservou a eles um espaço privilegiado, onde os visitantes podiam, inclusive, ver o manto, exposto com destaque.

Arthur Bispo do Rosário faleceu no hospital psiquiátrico onde viveu quase toda a sua vida adulta e foi enterrado sem o manto que criou para encontrar-se com Deus, e que nada queria com o mundo da Arte. Esse é o tipo de sacrilégio que a Arte comete quando se apropria das produções que lhe escapavam.

Por isso tenho pensado que dar o rótulo de Arte a certas criações é um perigo, uma distorção e até mesmo uma violência contra elas e seus criadores. Se por um lado há o ideal salvacionista da Arte, de outro existe perversidade, contradições e jogos de poder. Não porque a Arte é ruim ou má, mas pelo simples motivo de que ela não é diferente de nenhum outro campo da produção humana, neste regime de subjetividade em que vivemos e que colonizou quase o mundo inteiro. A Arte não está livre dos defeitos gerais, que devem ser considerados toda vez que se aposta nela como prática política, econômica, social etc. Trata-se de um agente de conhecimento da humanidade como outro qualquer, que apenas se organiza de maneira diversa para dar forma a significados, sentidos, ideias, sentimentos, símbolos, expressões, entre tanto mais que a Arte mobiliza. Não se trata de negar a Arte, que tanto me encanta, mas de saber ver seus limites.

As criações dos índios, dos loucos, dos negros escravizados que citei no início do texto, entre muitas outras, não deveriam depender da legitimação da instituição Arte para ter valor. Não deveriam ser apropriadas e, assim, colonizadas.

O que precisamos, nós e eles, é valorizá-las em si mesmas, em seus contextos originais, nessa condição de minúsculas onde toda a sua força se realiza. Talvez assim percebamos que a tarefa, da nossa parte, é fadada ao fracasso: somente o louco sabe o que sua obra significa, somente o índio ou o escravo é capaz de acessar o potencial de cada criação sua dentro da própria cultura. Nós podemos tentar aproximações, podemos tentar compreender qualquer coisa, só que a Arte quase sempre não nos permite, ela dificulta a tarefa, uma vez que fomos capturados e educados por ela desde o berço.

Poderíamos chamá-las de arte, assim, grafada com a minúsculo? Ainda que seja um começo, a mim parece insuficiente. Por que não perguntar seus nomes originais, se é que existem? O que devemos exercer, em todo caso, é certa ética do cuidado com o outro. O que já é muito, dada as circunstâncias nada animadoras.

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