terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

ENTREVISTA

O escritor Fernando Sousa Andrade me convidou para uma linda entrevista sobre meu romance Diante dos meus olhos (Editora Reformatório, 2019). Ela acaba de ser publicada na revista portuguesa InComunidade. Você também pode ler aqui:


Diante dos meus olhos tem tantas camadas, como pinceladas de tinta sobre um plano branco, e elas parecem que se mexem, sugerindo nuances novas e paletas policromáticas. Você levou três anos para fazer uma primeira versão, é isso? Como era seu trabalho de escrita ou reescrita durante esse tempo? É um romance em que o leitor imerge na história completamente. Como foi lapidá-lo?

Preciso dizer que você fez uma leitura muito especial do meu livro, que transparece na qualidade das perguntas. Fico lisonjeado e agradecido. Diante dos meus olhos foi sendo criado mais ou menos como você descreveu sua sensação de lê-lo: com pinceladas. Começou com um conto de quatro páginas, escrito na madrugada, logo que despertei de um sonho. Ali estavam esboçados o que viria a ser a vila militar onde a trama se passa e um ou dois personagens. Essa história continuou viva, pedindo para ser contada, e aos poucos desenvolvi o enredo. O conto curto passou a ser um conto longo, que depois ganhou corpo de romance. Cresceu demais, sofreu cortes; ao todo foram onze versões do livro realizadas durante uma década. Apesar disso, o enredo não teve mudanças drásticas, foi apenas se adensando no que diz respeito à psicologia dos personagens e aos pormenores da viagem que realizam. Com o processo pude conhecer melhor aquelas pessoas, o que me interessava na história, quais conflitos se apresentavam, qual deveria ser a linguagem e a forma mais adequadas para a narração. Eu queria obter essas nuances que não se deixam enrijecer nem capturar; que fossem complexas, ambíguas, paradoxais como o ser humano é e precisa ser compreendido — para além dos rótulos, das caixinhas, dos maniqueísmos etc. Parece que deu certo, pois outros leitores também me devolveram impressões semelhantes às suas, dizendo que ora sentiam apreço pelo pai e pelo filho, ora tinham raiva. Ainda assim eu não sabia bem o que tinha em mãos, muito menos o que fazer com o texto. Só tive coragem de buscar vias de publicá-lo quando ganhou menções honrosas no Programa Nascente USP 2015 e no Prêmio Sesc de Literatura em 2016, vários anos após o primeiro rascunho. Em 2019, o projeto foi selecionado num edital de publicação de livros promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Só então pôde chegar aos leitores.

2) Seu romance parece conter muitas pulsões que se veem na prática psicanalítica. O próprio enredo lida com projeções, relações entre o real e a fantasia, medos, luto. O narrador é carregado de afeto pelo pai, mas há sentidos ambivalentes no seu “narrar o pai”. A relação dos personagens parece colocar o romance numa espécie de suspensão, pois narrar é lembrar, mesmo que você escreva a partir do branco total (do esquecimento). E seu romance é tão alusivo à memória! Fale um pouco disso.

A memória é o tema principal do livro. E ela vem carregada de contradições entre as histórias de vida dos personagens, em especial a memória do filho, que narra o pai segundo o seu ponto de vista, a sua experiência, as suas angústias em relação a ele. O pai não tem direito de resposta; os papeis se invertem e ele acaba por se tornar uma espécie de criatura do filho. No fim das contas, não é assim que fazemos a história da humanidade, com os filhos narrando os pais, ou melhor, com as pessoas de hoje falando daquelas que já se foram? Mas há um paradoxo aí: fomos criados, educados, influenciados por nossos antepassados, que assim, por meio de nós, também conduzem a narrativa. No fundo, as questões que se colocavam para mim ao longo da escrita diziam respeito a como criamos essa realidade, que parece tão concreta, embora não seja mais do que uma invenção dentro de um contexto cultural. Os personagens tensionam esse fio, uma vez que a história se faz de memórias, e as memórias deles são elaborações de acontecimentos recentes ou muito antigos coexistindo meio misturados, indiscerníveis, que lutam para ter razão. A psicanálise atravessou o processo de criação do livro mais de uma vez. Tive meu primeiro contato com ela enquanto fazia as pesquisas para o mestrado em Estética e História da Arte, que coincidiram com a escrita de uma das versões iniciais do Diante dos meus olhos. Eu me debruçava sobre a Estruturação do self, trabalho derradeiro da artista brasileira Lygia Clark, ao qual ela dedicou seus últimos dez anos de vida e que se propunha como uma espécie de intervenção poético-terapêutica, por assim dizer. É um trabalho complexo, criado numa ambiguidade entre a arte e a clínica. Para me aproximar dele precisei conhecer um pouco da teoria psicanalítica, que é encantadora. Não parei mais. Li um tanto de Freud, Jung, Winnicott. Algo de Melanie Klein também, na medida em que a pesquisa requisitava. Em 2014 dei início ao doutorado, e por mais que relutasse tive que encarar alguns temas de Lacan, que me ajudaram a pensar essa relação entre real e ficção. Embora o livro não tenha um viés psicanalítico proposital, imaginei que essas aproximações logo surgiriam.

3) (Des)importar-se com a figura do pai, sua ação perene na vida, seu apego às imagens de uma infância na vila militar me fazem pensar como somos ainda uma projeção de quando fomos meninos, no caso do pai e filho. E como se no filho houvesse essas libações do corpo guardado e projetado à adultice. Isso é muito difícil de ser trabalhado no personagem-narrador?

O filho quer se diferenciar do pai para encontrar a si mesmo. Essa é uma questão-chave da existência humana, que tentamos explicar das maneiras mais diversas, entre elas a psicanalítica. Mas em um momento importante do romance o filho se dá conta de que, por mais que drene o sangue do pai de suas veias, seu corpo produzirá mais daquele mesmo sangue. Quer dizer, é uma desconexão impossível. Não importa o seu esforço em negá-lo e se afastar, o pai permanecerá seu ponto de referência; eles ainda estarão em relação. Eu queria que esse paradoxo e essa ambiguidade ajudassem a vermos as relações humanas de maneira mais complexa, mutante, impossível de determinar. Ao mesmo tempo acompanho meus amigos de infância envelhecendo e ficando cada vez mais parecidos com seus pais, os quais conheci com a idade que temos hoje. Essas histórias similares às do livro se contam a todo instante ao meu redor. Imagino que o leitor tenha aí um ponto em comum com o que se passa no Diante dos meus olhos.

4) A cena da velha na janela com a panela de pressão me chamou muito a atenção. O filho fica sozinho e há toda uma projeção cinematográfica sem o contato do pai, que se ausenta. Fale um pouco dessa cena.

Essa foi uma das primeiras cenas que imaginei, embora esteja mais perto do final do livro. Para mim, ela é uma espécie de contraponto à aparição anterior da velha — na janela da escola –, como se o público na plateia do teatro atravessasse o palco e chegasse às coxias. Na história da arte, até a irrupção do Modernismo, dizia-se que as pinturas são janelas para o mundo, ou seja, através delas é possível conhecer paisagens, objetos, gestos etc. No livro, a meu ver, essa cena que você mencionou sintetiza todo o embate entre real e ilusão vivenciado pelo personagem. É quando o problema se apresenta de fato, pois até então vinha apenas se sugerindo. E é o problema que ele carregará adiante. A panela de pressão marca essa ideia de tempo, e seus vapores tornam o ambiente nebuloso; mas apesar dessas evidências ela ainda é um mistério também para mim. Gostaria de saber o que está cozinhando, o que vai amolecendo em seu interior, desfazendo-se, talvez.

5) Eu tive certa visualização do seu romance com um filme chamado o Show de Truman. Passou pela sua cabeça esse filme enquanto estava escrevendo?

Esse filme foi bem marcante quando era mais jovem. Ajudou-me a pôr em crise meus afazeres de redator publicitário, que mal tinham se iniciado. Não me lembro de ter pensado nele, especificamente, enquanto escrevia o Diante dos meus olhos, mas sem dúvida a aproximação é plausível. Show de Truman também fala de desconstruir uma ilusão ao dar-se conta de que a realidade é criada como os cenários de um estúdio de cinema, embora naquele caso se trate de um espetáculo. Lembro-me de que, no filme, o personagem habita um reality show levado ao limite: o mundo acompanha cada etapa de sua vida, vivida desde o nascimento numa cidade cenográfica onde todos são atores. No final, quando percebe essa sua condição, ele abandona o espetáculo e se lança “no mundo real”. O que fico me perguntando, e isso sim tem a ver com meu livro, é: que mundo é este? Tem mesmo algo de real? Como se pode confiar?

6) Se fosse dar esse seu romance a alguém próximo e pedir um texto com comentários, quem você escolheria?

Tive o privilégio de receber algumas cartas de amigos que leram o livro e quiseram me escrever, algumas muito bonitas, escritas à mão, repletas de afeto. Uma delas me foi dada pela artista e terapeuta ocupacional Gisele D. Asanuma, que levou o livro para uma viagem e, enquanto lia, escreveu sobre as relações que estabelecia com os arredores, com as situações que encontrava pelo caminho, com reminiscências do passado, como se fosse se perdendo por aí com a ajuda desse mapa que escrevi justamente com esse propósito. Não sei se pediria a alguém para escrever sobre suas impressões de leitura porque um livro pode acessar lugares muito sensíveis, e o pedido talvez se tornasse invasivo. Mas sem dúvida um dos maiores prazeres em escrever é poder ouvir, depois, como cada leitor se deixou afetar pelo que leu. Essa troca é uma experiência incrível, que mexe bastante comigo, porque marca um momento em que o livro deixa de ser meu e ganha vida.

7) Diante dos meus olhos tem uma relação muito imagética com o cinema. A quem você entregaria seu livro para uma filmagem?

Eu tenho acompanhado pouco o cinema, o que é uma pena. Imagino que muitos diretores compartilhem comigo das mesmas questões sobre realidade e ilusão, uma vez que boa parte delas provém da força das imagens. Já tive oportunidade de ouvir Wim Wenders falar sobre o tema, acredito que o livro poderia interessá-lo, mas com certeza há outros cineastas talentosos que saberiam lidar com as indagações apresentadas ali a respeito do olhar, das memórias, das narrativas. Acredito também que, quando o livro muda de linguagem, torna-se uma nova obra, e tenho mais curiosidade para saber em que o transformariam do que desejo de controlar essa transformação. Prefiro que o cineasta trabalhe como preferir em seu campo de criação. O meu continua a ser a literatura.

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