sábado, 3 de abril de 2010

BASTARDOS INGLÓRIOS



É fácil reconhecer a relevância de um fato histórico, basta verificar por quanto tempo se fala dele. A começar pela Guerra de Tróia, narrada por Homero na Ilíada, que aconteceu mais de mil anos antes de Cristo e ainda hoje é estudada no mundo todo. Depois, tivemos os Césares gregos, a ascensão e a queda do Império Romano, as Cruzadas, a Revolução Francesa, a Revolução Russa, a Crise de 1929 etc., só para citar alguns. Mas, sem dúvida alguma, o acontecimento mais comentado da história da humanidade é a Segunda Guerra Mundial. Filmes sobre ela ainda são produzidos aos montes, por exemplo, mesmo passadas mais de cinco décadas do término do conflito, e todos os números relacionados são assombrosos. Pois fica a pergunta: como reconhecer a relevância dessas obras?

A resposta provavelmente é o tempo que dará, assim como aconteceu com o poema de Homero. Parafraseando Marcel Duchamp, no final, é sempre a história que decide quem sobreviverá e quem desaparecerá do universo artístico. Isso não significa, é claro, que não possamos influenciar o veredicto, mantendo em pauta algumas produções realmente interessantes. É o caso do longa Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino.



Famoso por reunir diálogos inteligentes e violência banalizada, o diretor norte-americano tratou da Segunda Guerra Mundial de maneira, no mínimo, irreverente. Seu mérito fica por assumir o lado ficcional do cinema e recontar o evento de acordo com sua própria imaginação, inventando uma equipe de nove soldados americanos de origem judia que aterroriza as tropas alemãs e que, no final, mata Hitler e sua turma com rajadas de metralhadora, fogo e dinamite.



No filme de Tarantino, a guerra acaba um ano antes da data oficial, em 1944, durante a estreia de um filme-propaganda nazista num teatro parisiense que ninguém pensou em vigiar ou, melhor ainda, revistar. Todas as principais figuras do partido se reúnem inocentemente na plateia e acabam mortos de uma só vez graças à traição de um soldado alemão e à vingança atrasada de uma garota judia, naquilo que poderia ser considerado um grave erro de enredo justamente se o diretor não tivesse deixado muito claro sua falta de compromisso com a história.



Mantendo a tradição dos filmes anteriores – vide Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Kill Bill –, os diálogos continuam afiadíssimos, já começando pelo primeiro deles, em que o antagonista compara o povo alemão à águia e o judeu ao rato, demonstrando assim por que o Holocausto não precisou de justificativa para ser aceito. Segundo ele, o desprezo pelo próximo mora dentro de nós e pode dar às caras a qualquer instante; ninguém se importará com as consequências disso, contanto que não seja envolvido e, ainda que provem a faltam de lógica, ninguém falará contra.



As "marmeladas" pop de Tarantino também marcam presença, assim como os clichês muito bem aplicados. Como exemplo, podemos citar a superioridade norte-americana, que Hollywood adora afirmar sempre que pode. No caso de Bastardos Inglórios, temos de um lado o herói alemão que venceu trezentos soldados inimigos sozinho e, de outro, o grupo de elite americano que assassina Hitler junto com trezentos e quarenta e nove companheiros. Este último número poderia ser qualquer um, mas... por que menor do que o primeiro? São os toques de gênio do diretor que vão surgindo ao longo do filme. A vingança judaica agradece.



Na cena final, quando o personagem de Brad Pitt diz com ironia: "Acho que esta é minha obra-prima", na verdade é a voz do próprio Tarantino falando de seu filme. Mais uma vez, ele mistura realidade e ficção, colocando-se dentro e fora da tela, posicionando-se como artista e crítico ao mesmo tempo. Eu discordo, não diria que Bastardos Inglórios é a sua obra-prima, mas trata-se sem dúvida de um ótimo filme. Não sei se sobreviverá ao crivo do tempo, se continuará sendo assistido pela posteridade; entretanto, neste instante, eu recomendo a todos.

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