quinta-feira, 5 de agosto de 2010

JOSÉ, O CÃO, A ÁRVORE


Menino sentado (1945), de Cândido Portinari

Havia um homem que, também neste como em muitos outros contos, se chamava José, José Maria, irmão de Maria José, irmão de Jesus José-Maria, que não tinha sobrenome porque nada se sabia de seu pai ou dos pais de seus irmãos. Pois é, ao que parece, cada cria tinha o seu, já que iam do branquinho ao moreninho como cocada e pão francês, mas a mãe jurava de pés juntos que todos eram filhos de Deus e de ninguém mais, assim como juravam as mães da maior parte das crianças do morro. Em algum momento passou pela cabeça do menino que Deus deveria ter muito tempo livre para fazer filho daquele jeito, mas o pensamento se perdeu nos terrenos ermos da sua humildade. E assim ele cresceu, sem graça maior que coubesse nessas linhas. Espichou, esticou, ficou grande e só. Viveu no mesmo barracão sem número a vida toda, no mesmo morro, assim, sem mais nem menos. Um dia, morreu Jesus num tiroteio e José enterrou. Noutro, morreu a mãe de dor forte e José enterrou também. Então, quando a irmã casou com um outro José do morro vizinho e se levou com ele para lá, sobrou o barracão e sobrou este José, sozinho em seu canto, com os mesmos olhos vazios de sempre, a ver o nada acontecer. E, de nada em nada, foi indo. Não falava, não rezava, não trabalhava, não comia, não bebia, não ria ou se divertia, não amava, não xingava, não participava, nada, uma vida livre de excessos. José apenas existia. Caminhava de manhã cedinho pelas oscilações do morro e voltava a casa para restar a ver o nada. A vida ia e o José ficava. Mas, lá pelas tantas, quem diria, um cachorro apareceu no barracão, saído sabe-se lá de onde. Foi chegando, achou um pano velho na soleira da porta de entrada e ali ficou deitado, caído, largado, sei lá; também fazendo nada e fazendo tudo para que José desviasse dele todas as manhãs antes do seu passear. A criatura achara um irmão exatamente como ele. Será? José pulava e slap, slap, chinela de dedo, sola grossa, artigo bom que herdara de Jesus e que levava para cima e para baixo, sobe e desce morro, escada, vala, pinguela, indo e voltando, sem rumo maior que isso, ir e voltar, slap, slap, e o bichano, quem diria, vinha atrás, pata ante pata, orelha alerta, focinho fungando morro acima e morro abaixo. Slap, slap. O homem reaprendeu a falar, coisa que não fazia desde quando? desde sempre? Au, au, slap, slap, arf, arf, a conversa engatava e não parava mais, nem para pegar um fôlego aqui e outro ali, olhe lá, era fraternidade, José sentia, fraternidade, rabinho balançando, língua para fora, chinelas em ritmo de alegria. Os dois saíam cedinho e voltavam só de tardinha, todo dia o mesmo caminho, sem mudar para não embananar a cabeça. José ia de vara na mão para educar, quisera ele, mas o bicho era mais manso que o galho e o homem não precisava fazer cantar não, não se faz isso com família. Slap, slap, arf, arf, inham e vinham os dois. E foram indo, foram indo. Um dia, mais pra frente, tinha uma coisa nova no caminho, uma muda de folha larga que plantaram sabe-se lá quem e de que José queria fruta e de que o cão queria privada e lá já foi mijar. Foi essa então a primeira vez que a vara zap, slap, slap, au, au, slap, slap, arf, arf. Mijaí não, bicho. Deixa a planta em paz. É presente de Deus-Pai. E todo dia os dois chegavam na planta, José para imaginar fruta, o cachorro para mijar, slap, slap, au, au, zap, slap, slap, arf, arf, e a planta crescia e as chinelas gastavam e o homem curvava e o bicho mijava e a vara cantava e a planta crescia meio torta de tanto mijo fedido que o bicho dava. José esperava e esperava. Uns tempos depois, demorados, José já ia devagar, slap...slap, e o cachorro deu de cavar a muda, que já era arvorezinha, raquítica, sofrida, torta, e o velho tapava os buracos que ele fazia e que da planta judiavam ainda mais. Do jeito que ia, não ia dar fruta. Cava, cava, o bicho corria na frente, slap...slap, mija, zap, au, au, slap...slap, arf, arf. A planta cresceu fraca de tanto o bicho chafurdar a terra de seus pés. José tinha dó, e dó do bicho, e dó da planta. Zap. As chinelas afinavam. Árvore grande, Deus-Pai. Cadê as fruta? As caminhadas continuavam, dia a dia, até os dois serem surpreendidos por um chuvão que doía de tanta força e tanto vento, cada gota que lavava tudo que vinha embaixo!, e eles, banhados, corriam na rapidez das chinelas gastas de José, com cuidado aqui e ali para não escorregarem na lama dos degraus. O cachorro ia, sumia no desespero, voltava, latia, sumia de novo, apressava o velho, maldito, volta aqui, o santo é de barro e o barro é mole. A chuva não parava não, quem dera, a água não acabava mais. José precisava se proteger, slap...slap, para baixo da árvore que é mais seguro, dá de molhar menos, e ninguém bem fedia naquele dia, nem árvore nem cachorro, tamanho era o dilúvio. O velho enrrugava ainda mais. Berrava com o cão. Fica quieto, porquera. Aqui debaixo é melhor. Dá-lhe água, vento, folha, galho, telha. Era telha, bicho? Os dois nos pés da planta, que balançava e pelava, magra que era de mijo e de buraco. E não é que no meio da rinha, num sopro mais forte, ela resolveu partir e veio abaixo na cabeça de José, no meio do coco, que não agüentou o tombo e foi ao chão para não levantar mais. Pois ali ficou o velho, caído, com o cão a gemer e a lamber a água e o sangue ralo de seu rosto, sem nunca ter comido fruta daquele pé, caído e lambido do jeito que o acharam no dia seguinte, todo molhado por fora e seco por dentro. A irmã ficou sabendo. Foram lá perguntar o que fazer. Enterra, ué. Deixa ele encontrar o pai, vai saber, era bom o coitado, nunca fez mal a ninguém. Tava sempre batendo perna pelo morro e só fazia disso. Até mesmo enterraram o velho com as chinelas! E o cachorro voltou para casa, na soleira do barracão. No final das contas sobraram só os dois, o bicho e o barracão, sem José e sem árvore, e ainda ele caminhava pelo morro, pois é, mas fazia outro caminho para esquecer o slap, slap de José. O bicho dava dó e tinha dó também. Dó do velho que existia mas não vivia, como árvore, crescendo parado, só esperando as frutas surgirem. E dó da árvore, naquele lugar árido, que mal crescia e já estavam de olho no que tinha para dar. Dos zinhos do morro, os mais abusados se perguntaram se o cachorro sabia, se fez aquilo de propósito. Se derrubou os dois do sofrimento do morro, mijada mais mijada, buraco mais buraco. Se foi a causa. Se fez para ajudar. Porque achava melhor assim. Vai saber. O velho José não ligaria não, acabar com o nada da sua vida, não ficaria mais triste. Era bom. Deixa o cachorro em paz. Ele é esperto, o bichano. Sabe o que faz. Deixa ele caminhar e mijar num lugar melhor. José viveu ali tempo demais.

Agosto de 2007

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