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sexta-feira, 15 de abril de 2011

O HOMEM INVISÍVEL*

Quando criança, ele via homens de terno e gravata e sonhava com trabalhar assim um dia. Eles estavam nos anúncios dos jornais, no Castelo de Caras, nos programas de entrevistas da TV. Quem usava terno e gravata parecia importante, tinha status, era bem sucedido. "Homens de caráter", bradava seu pai, enquanto apontava para o telejornal, "resistindo ao calor da guerra!" Terno e gravata compunham o uniforme dos homens que mandavam no mundo. Mesmo criança, mesmo sem compreender o significado e as consequências do poder, era fácil identificar seus símbolos. Poder é o que o homem almeja desde cedo. Ele passará a vida tentando dominá-lo, tentando compreendê-lo, tentando obtê-lo de algum jeito. Passará a vida inteira tentando exercê-lo, mas na maioria dos casos acabará vítima dele. São poucos os que podem de verdade.

Agora, caminhando sob um sol escaldante, obrigado a visitar bairros e mais bairros diariamente, ele se lembra de suas fantasias infantis. Não se arrepende, porém. Não se entristece. Reagir ao mundo pressupõe uma ação primeira, ação e reação, só que o mundo não sabe quem ele é, o que faz, o que pensa. Quando passa, o mundo vê através dele. Não reconhece em sua carne o mesmo estofo de que é feito. O mundo está em todo lugar, enquanto ele tem certeza de que não pertence a nenhum. Por isso anda. Simplesmente anda por aí.

Sobe a calçada, dirige-se a mais uma casa, toca o interfone, fala com a parede. Levanta sutilmente a pasta de couro sintético preto que carrega sempre consigo. Ajusta a gravata sem perceber que o faz. Tenta ignorar o suor que teima em escorrer da testa pela lateral do rosto. Muito suor.
  – Sim?
  – Bom-dia, senhora. Se puder me conceder cinco segundos do seu dia, eu tenho aqui uns catálogos de produtos muito
  – Ah, não, não, obrigada. Agora não dá.
  Bip.

A invenção do interfone dificultou ainda mais seu trabalho. Prédios e outros tipos de condomínios fechados também. Ele agora precisa percorrer distâncias maiores para cumprir as metas de sempre. Nada é como antigamente, pensa. Nem mesmo terno e gravata. Os dele vêm com o logotipo da empresa estampado no bolso do peito. Um bolso falso, diga-se de passagem, que apenas finge ser o que não é.

O sol continua forte. O dia está tão claro que mal se permite admirar. Não se tem mais como adivinhar, não existe mais primavera, verão, outono e inverno; não existe mais época do ano fria ou quente, todas são frias e quentes ao mesmo tempo, todas as estações acontecem num único dia, consecutivamente. Tudo muda muito rápido, não se tem como adivinhar. Nada é como antigamente, pensa. O sol continua a bradar e o homem de terno e gravata e pasta de couro sintético preto continua a resistir ao calor da guerra. Outra casa, outra campainha, outra pessoa que não tem cinco segundos de vida para lhe emprestar. Cinco segundos podem transformar uma vida. Às vezes, é tudo de que alguém precisa para não perder as esperanças. Cinco segundos de atenção.

Cinco segundos são também suficientes para destruir uma vida. O vendedor sabe disso e continua sua caminhada rumo ao improvável. Outra casa, outra campainha. Dessa vez nem o atenderam, fingiram que não tinha ninguém. Mas o vendedor percebeu a silhueta espiando por detrás da cortina. Ele está acostumado com essas coisas. Consegue enxergar a aura da casa. Sabe dizer que tipo de pessoa mora ali, o tamanho da família, os costumes... São ossos do ofício, como se diz. Existem muitas maneiras de saber esse tipo de coisa. Também se diz, por exemplo, que o lixo de uma casa revela tudo que acontece em seu interior. Têm pessoas especializadas em leitura de lixo. Ele é a marca que o homem deixa no mundo, o rastro de sua existência. Só que não é de lixo que o vendedor entende. Ele entende da casa em si, pode revelar seu conteúdo apenas observando a fachada. É um dom muito útil.

O vendedor vê a silhueta, porém não insiste. Prefere que seja assim. O que não percebe é que, sob aquele sol escaldante, morrendo de sede, enclausurado no terno e com a gravata a lhe irritar definitivamente o gogó; vermelho, suado, penitente ainda que aceitando aquilo tudo com discreta indiferença, ele começa a desaparecer. Sua pele fica translúcida, sua sombra se projeta com menos intensidade no asfalto tremeluzente. O sol, aos pouquinhos, também começa a enxergar através dele. A cada passo, a cada campainha, a cada "não" recebido sem que nem mesmo consiga terminar sua apresentação, o homem fica ligeiramente mais invisível.

O suor faz a camisa grudar em sua barriga. É uma camisa sintética barata, toda branca, menos suscetível a amassados. É uma camisa que não absorve o suor. A firma dá essas camisas a todos os vendedores, mesmo sabendo que eles irão transpirar horrores. É uma camisa mais barata, que compõe o uniforme dos vendedores com pretensões de conquistar o mundo por meio de recordes de venda. Se eles não gostarem, que comprem as suas próprias; é o que dizem sem dizerem de verdade.

Debaixo do terno, a sensação é estranha. De vez em quando, o calor fica surpreendentemente frio, quase gelado. O vendedor não sabe o que causa aquilo, talvez seja o corte da roupa, talvez seja o tecido sintético sobre seu couro, talvez seja o suor em contato com alguma área ventilada. Só que é um frio que passa logo e deixa uma sensação esquisita, que nem frio na barriga. O vendedor considera a possibilidade de estar passando mal, de algum problema de saúde ter se manifestado de repente; tipo pressão baixa, pensa, ou talvez alguma coisa mais grave. Não pode ser ventilação, pois o ar está parado, definitivamente. Ao caminhar, o vendedor percebe que o ar se agarra em seus braços e pernas e o obriga a arrastá-lo pelas ruas. O calor frio sobe por dentro da roupa seca molhada e fica preso no colarinho. Não há sombra que alivie aquela sensação. Ainda que o sol atravesse sua pele quase sem tocá-la, o vendedor sente calor. Muito calor.

Ao longe, no fim da rua, talvez a quatro ou cinco quarteirões, ele avista um carrinho de sorvetes. Seus olhos sorriem de leve e ele se propõe um prêmio: depois de percorrer as casas dali, merecerá um sorvete. Um sorvete de limão, bem gelado. Um sorvete que contrarie tudo aquilo que o mundo está lhe propondo, um reconhecimento singelo para mais uma batalha ganha pela força do caráter. Assim, o sorvete afasta todos os outros pensamentos.

O sorveteiro, entretido com uma revista e tentando se proteger do sol debaixo da sombra miúda de uma árvore só percebe a aproximação do vendedor de terno e gravata quando este o cumprimenta com um "bom-dia". Agora dá para ver melhor, não é uma revista, é um desses tabloides de esporte. Há um jogador de futebol bastante suado na primeira capa, sob a manchete que sensacionaliza: "O novo rei?" O jogador está sorrindo, acabara de marcar um gol ou de vencer um jogo. Talvez tenha vencido o campeonato todo. Não importa, aconteceu em outro mundo. O vendedor sorri em resposta. O sorveteiro, por sua vez, levanta as sobrancelhas sem tirar os olhos da matéria.
  – Sim?
  – Tem de limão?
  – Claro.
  – Quero um, por favor.

O sorveteiro continua a ler por um ou dois segundos. Então, levanta a tampa do carrinho junto com o jornal, pega o picolé e recoloca a tampa no lugar, dá o picolé ao homem, pega o punhado de moedas que recebe em troca, chacoalha a mão como se verificasse o peso ou o barulho que fazem e as joga no bolso do avental sem perder o ponto da leitura. Ele sabe que o valor está correto sem ter que conferir as moedas. É um dom muito útil, pensa o vendedor. São os ossos do ofício.

O sorveteiro faz tudo isso sem notar que o vendedor de terno e gravata logo à sua frente está desaparecendo. Ele só tem olhos para o jornal.
  – Obrigado.
  – Nada.

Sentado no banco da praça, em um dos poucos em que ainda se pode sentar, o vendedor de terno e gravata e pasta de couro sintético preto observa as próprias mãos. Ele as levanta contra o sol, mas elas já não bastam para protegê-lo. Os raios atravessam suas palmas e o atingem no rosto como se as mãos não existissem mais. O vendedor não precisa conferir o resto do corpo para saber que o desaparecimento não é uma exclusividade de suas mãos. Ele inteiro deve estar daquele jeito. Não se entristece, porém. Não reage. O mundo não sabe quem ele é, o que faz, o que pensa. Não vai fazer diferença. O mundo vê através dele.

O vendedor de terno e gravata olha para o sorvete, que sua e pinga no chão entre seus pés. Nem se deu o prazer de prová-lo. Ele próprio sua a ponto de pingar. Não há nada que possa fazer. Não dá vontade de fazer nada. Então, ele fica parado, com os olhos fixos no sorvete que desaparece pouco a pouco em suas mãos. Nem mesmo percebe quando começa a chover.


*O homem invisível não é exatamente um conto, mas um capítulo do livro Ninguém, que estou escrevendo em parceria com Eduardo Usignolo e que ainda não tem data de publicação. Qualquer reprodução, mesmo parcial, sem o consentimento dos autores é proibida. Os direitos autorais são reservados. Quanto à foto que ilustra esta publicação, trata-se de Downtown, New York (1947), de Henri Cartier-Bresson.