segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SÃO PAULO

Estive andando pelo centro de São Paulo. Queria aproveitar os últimos instantes das férias, pois só me restavam aquela sexta-feira e o final de semana subsequente. Fui com objetivo de visitar uns pontos turísticos que, confesso, ainda desconhecia, mesmo tendo nascido aqui – e permanecido desde então. Se fosse rápido o bastante, sobraria tempo para uma passada pelo Mercado Municipal e um café antes de recomeçar o rush do metrô. Então almocei cedo e, lá pelas 13h, desembarquei na Estação Sé.
     O tempo estava bom, com céu azul e calor, aquele típico tempo que só me agrada quando estou em férias, livre dos trajes sociais. Porque no trânsito, a pé ou espremido nos trens, prefiro um friozinho nublado, bem comum ao longo do ano. Gosto até das garoas repentinas, que, ultimamente, só dão as caras quando tocam, nos bares, músicas saudosistas a respeito de uma cidade que a maioria não conheceu.
     Visitei a catedral e a praça, o Pátio do Colégio, o calçadão do ouro, o Mosteiro São Bento e uma porção de outros lugares de que nem me lembro mais. Tudo fica bem perto, a quadras de distância. Comprei uma garrafa de água gelada para beber no percurso. Foi uma tarde gostosa, andando livre por entre os prédios históricos, cruzando com ternos e gravatas sem vestir as suas preocupações e sem me contagiar com seu ritmo afobado. Eu tinha poucas horas, mas elas eram imensas.
     As ruas estavam cheias, assim como as lojas. Nunca tinha visto tudo funcionando daquele jeito, uma vez que só vou ao centro aos sábados e domingos, o que é bem diferente. Aquela era uma São Paulo no esplendor, intensa, coração pulsando acelerado e as pernas, desbaratadas, tentando alcançá-lo. Era uma cidade tão ocupada que não tinha consciência de si mesma.
     Parei numa banca de jornais para ler manchetes. Não passou nem um minuto, uma mulher apareceu e perguntou:
     – Oi, por favor, qual é o edifício Martinelli?
     – Esse da esquina –, respondeu o jornaleiro de modo automático, como quem ouvia aquela pergunta dezenas de vezes por dia.
     Pus um pé para fora e olhei para o alto. Tive que cobrir o rosto com a mão por causa do sol. Aquele era o famoso Martinelli?
     Estava rodeado por essas proteções de madeira que se colocam em prédios em construção. Elas ficavam no último andar, bem acima da rua, restaurando a coroa do rei deposto.
     Havia luzes acesas nos pavimentos inferiores, pelo que pude observar, inclusive no térreo, onde diversos estabelecimentos tinham as portas abertas para a rua.
     – Está em reforma? –, perguntei ao jornaleiro. A mulher já tinha mergulhado de volta na multidão.
     – Parece que sim. Mas ainda dá para fazer a visita.
     – Eu achei que estivesse fechado – na verdade, achei que estivesse abandonado ou demolido, mas seria ignorância demais para demonstrar naquele momento; assim, preferi amenizar. Até porque eu já tinha passado anteriormente por ele e nem sabia que se tratava do Martinelli. – Quer dizer que posso subir lá?
     – Sim, até onde eu sei.
     O jornaleiro nunca tinha subido, ainda que sua banca estivesse ali há décadas. Talvez o fato de os turistas virem lhe importunar o tempo todo tivesse gerado algum tipo de ressentimento, ou talvez a proximidade do edifício tivesse banalizado a relação. Fosse o que fosse, não era o meu caso.
     De volta à rua, procurei uma entrada entre as lojas. Poucos metros adiante, me deparei com um balcão e duas recepcionistas. Perguntei da visita, recebi um ticket e um aviso para me apressar, pois o grupo já estava saindo e o próximo ainda demoraria outra meia hora, no mínimo.
     A entrada ficava na rua lateral, número 35. Dobrei a esquina com passos largos e, no local indicado, dei num portão fechado. Forcei a maçaneta e a estrutura inteira rangeu. Era um portão de metal bastante antigo, todo ornamentado, enferrujado aqui e ali. Para minha sorte, o barulho chamou a atenção do segurança. Falei da visita, ele me deixou entrar e passou um rádio para o guia que acompanhava os turistas. Ouvi o rádio responder: “Manda ele aí”.
     Foram vinte e seis andares no elevador expresso, que, de tão rápido, fez meus ouvidos entupirem. Quando parou, um bombeiro me aguardava.
     – O grupo já está adiantado. Vou começar com você e alcançamos eles no caminho.
     Era um senhor barrigudo, de bigodes e jeito nervoso de falar. Bem diferente do que vem à cabeça quando penso em bombeiros.
     Saímos para o terraço por uma porta de madeira. Porta antiga, com janelinhas de vidro. Dava para ver a cidade toda. Quer dizer, essa era a sensação que eu tinha.
     Meu companheiro contou a história do prédio, que foi o primeiro arranha-céu de São Paulo e testemunha de muitos momentos marcantes. Explicou a ambição ousada do empreiteiro, um imigrante italiano que resolveu duplicar o número de andares enquanto o levantava; falou do assombro que a obra causou na população da época e revelou por que existe uma casa de quatro andares lá em cima, que parece ter levantado voo nas proximidades e pousado ali, no topo do Martinelli. Sem nenhum morador propriamente dito, a tal casa abriga hoje uma secretaria da prefeitura.
     Depois, o bombeiro apontou lugares-chave dos arredores e deu informações específicas sobre eles, tais como altura, número de freqüentadores e ano de inauguração. Dados que o turista ouve com espanto e esquece no minuto seguinte. Ele dominava o assunto e falava com peito inflado. Deveria trabalhar ali há um bom tempo, pois fornecer aquelas informações não era tarefa sua.
     Lá do alto, vi o Vale do Anhangabaú, a Estação Júlio Prestes, as serras do Mar e da Cantareira, as antenas da Avenida Paulista e, atrás de um prédio mais alto ainda, ele apontou minha casa. Ficava naquela direção e daria para vê-la, não fosse o gigantesco obstáculo. Comecei a puxar assunto, o bombeiro se entusiasmou e, em consequência, o grupo a que deveríamos nos juntar acabou se afastando ainda mais.
     Contornamos todo o lugar, concluindo um giro de trezentos e sessenta graus sobre a cidade. Deve ter levado uns quinze ou vinte minutos. Eu continuava curioso, principalmente a respeito de um assunto. Quando estávamos terminando, perguntei qual era o papel do Corpo de Bombeiros ali, uma vez que havia um guia turístico para realizar o passeio.
     – É segurança. Segurança dos visitantes. Ninguém pode subir aqui sem estar acompanhado por um de nós. Não podemos deixar que ninguém debruce no beiral, e nem tente outra coisa, você sabe.
     – Imagino – Não falei nada por educação, mas achei bem desnecessário mobilizar um oficial para aquele trabalho aparentemente tão simples. Anos de treinamento para evitar que as pessoas se debrucem no beiral?
     – É, isso virou obrigatório desde que uma turma de faculdade veio aqui e um dos garotos subiu na mureta, se agarrou no pilar e ficou pendurado ali, do lado de fora, para se exibir. Já pensou se o infeliz cai? É por isso que, agora, os bombeiros acompanham todas as visitas, e se o secretário vê alguém sozinho aqui, liga lá embaixo e dá uma bronca na gente.
     Foi assim, ele leu meus pensamentos. Tentei me redimir, embora ainda não tivesse captado a gravidade da mensagem:
     – Só vocês mesmo para proteger esses malucos.
     – Pois é, pois é. Tem pior. Lá no edifício Itália acontece direto. O sujeito janta, fica no bar bebendo, criando coragem, sabe?, e depois se atira lá de cima. No Banespa é a mesma coisa. E, no Viaduto do Chá, eles se jogam para os carros passarem por cima. Acontece direto. A gente fica aqui para evitar.

Voltei ao hall do elevador ainda estupefato com a revelação. Era tão absurdo que jamais passaria pela minha cabeça, por isso demorei a entender o que tinha sido sugerido no início do papo. Fiquei imerso uns instantes, tentando digerir a nova informação. Isso era comum na minha cidade e eu não sabia? Já tinha ouvido falar, mas sempre achei que fosse uma dessas lorotas locais. Vez ou outra, quando o assunto surgiu, eu encarei como bobagem sensacionalista. Então era verdade? Quer dizer, o bombeiro não mentiria. Não ganharia nada mentindo para mim. Bateu uma vertigem repentina.
     A campainha me pôs de volta no chão. As portas do elevador se abriram e meu colega fez um gesto para eu entrar. Pus um pé para dentro e estendi a mão com propósito de cumprimentá-lo.
     – Vou descer com você –, respondeu.
     Fiquei um pouco sem graça. Recolhi a mão e a coloquei no bolso da calça. Talvez tenha sido medida de segurança, ou talvez ele tivesse que buscar o próximo grupo de turistas. O fato é que o bombeiro não me deixou descer sozinho. Fiquei pensando se eu parecia um potencial suicida, se ele suspeitara de mim, com todo aquele interesse pelo local. Voltaria enquanto ele não estivesse olhando e saltaria de lá?
     Descemos em silêncio. Durou um minuto, acho, tão rápido quanto a subida, embora eu não prestasse a mesma atenção. Vinte e seis andares abaixo, com os ouvidos entupidos e um frio na barriga, apertamos as mãos, finalmente. Agora sim, agradeci e perguntei seu nome.
     – Paulo.
     Voltei às ruas e me dirigi imediatamente ao metrô, pois já eram quase 17h e o aglomerado começava a se formar. Um pouco daquilo permaneceu em minha cabeça. O trabalho esquisito daquele bombeiro, esperando o próximo suicida chegar, prestando atenção em cada um para, se for o caso, frustrar seus planos. Não para salvar a vida; quer dizer, acho que essa não era a prioridade, sabe-se lá qual o tipo. Era mais para não sujar a reputação do lugar. Não sei, não sei. Se os bombeiros têm reputação de santos, à toa não é. Talvez aquele fosse um homem bom, salvando suicidas que, se estivessem certos do que desejavam, rumariam para outro edifício tão alto como aquele ou optariam por uma caixa de comprimidos. Ou um revólver, se fosse fácil obtê-lo. Os bombeiros não estão em todos os lugares ao mesmo tempo, como os suicidas, convivendo perto de mim, habitando os mesmo bares, as mesmas ruas, talvez ali mesmo, no metrô, pensando no assunto, considerando o que valia mais a pena. Fiquei ruminando aquilo durante a viagem de volta. Queria contar aos amigos, mas caí na rotina outra vez e acabei esquecendo. Só me dei conta da coincidência do nome muito tempo depois.

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