terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A ÓTIMA ESQUISITICE DE KARINA BUHR



Na primeira vez em que ouvi Karina Buhr, achei bastante esquisito. Eu tinha lido uma nota sobre o lançamento do disco Longe de onde em uma revista especializada e fiquei curioso; afinal, é uma estreia que ganhou boas recomendações, que conta com patrocínio da Natura* e com as parcerias talentosas de Edgard Scandurra, Fernando Catatau e Guizado. Baixei o disco gratuitamente do site da artista, ouvi uma faixa ou outra cujo nome me chamou a atenção e fiz uma busca no Youtube para assistir ao clipe Cara Palavra; no geral, achei tudo bastante esquisito, como disse no início.

Comecei então a questionar o que me causava tanto estranhamento. À primeira ouvida, acho que foi o próprio corpo do som – quando soube de mais essa jovem cantora despontando, esperava que ela fosse justamente isso, mais uma como as outras. O que já seria um grande mérito, dada a boa fase da nossa cena musical. Porém, vieram aquelas batidas fortes de coração nordestino, junto com o sotaque que carrega sua origem na ponta da língua; aquelas guitarras distorcidas conectadas diretamente dos fones aos meus ouvidos, bagunçando tudo por ali; aquela mistura muito bem dosada de rock, punk e percussão… fui pego desprevinido. Era uma música diferente, forte e com vontade de expressão.

As letras também dizem muito, vide a própria Cara Palavra, que abre o disco explorando os significados das coisas quando elas mudam de contexto, ou quando as pessoas que as utilizam se transformam. Tudo vira outro, tudo se multiplica. Karina vai unindo palavras para construir novas, acentuando a sílaba errada para sugerir o significado correto. É uma experiência puramente lírica. E também bastante divertida, que vai se desvendando ao longo de uma faixa tão breve e ao mesmo tempo tão ampla.

Outro exemplo bacana é Cadáver, em que as palavras “em defesa” e “indefesa” soam praticamente idênticas, revelando-se somente no contexto (“Sua dúvida é produto da sua escravidão / Mantenha então / Sua sanidade em defesa do seu estômago. / Se você pensou que tinha solução / Mantenha então / Sua integridade indefesa.”).

Não dá para analisar o disco inteiro aqui, até porque cada faixa deve encontrar seu próprio ouvido-metade e sussurrar ali seus segredos mais intrínsecos. Talvez você não se identifique com nenhuma, o que eu acho difícil, mas vale a pena tentar mesmo assim.

Se a esquisitice de Karina Buhr incomoda, isso é bom, é sinal de que existe algo novo e interessante em seu trabalho, algo distante do lugar-comum e que lhe dá evidência nessa fase tão fresca da música brasileira. O disco exige que a gente vença o estranhamento aos poucos, sem apressar o tempo, sem pular as faixas. A cada repetição, ele fica melhor.

Agora, quero saber aonde Karina Buhr vai nos levar. Espero que para bem longe de hoje.

*Projeto selecionado no Edital Nacional 2010 do Natura Musical.


Conheça o site da artista e baixe o disco gratuitamente: www.karinabuhr.com.br

4 comentários:

  1. Poxa, Eduardo, que massa sua resenha! Emociona de ler. Suas sensações boas e estranhas, sem ditar regras e com uma sinceridade generosa comigo e com quem ouve o disco.
    Obrigada!
    Abraço,
    Karina

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  2. Que prazer enorme encontrar seu comentário, Karina. Fico muito feliz por a resenha ter agradado. Espero que logo venham mais músicas para a gente trocar ideias. Abraço!

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  3. Ótima resenha! Parabéns, Karina! Já tive a oportunidade de encontrá-la pessoalmente e ver que além de uma artista única, é também uma simpatia! Sua arte tão ampla e sui generis é algo muito corajoso no atual cenário fonográfico!

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  4. Também adorei a resenha, super divertida de ler e condizente com as sensações provocadas pela música da Karina. Arrasou, Eduardo. E Karina, sem palavras pra te exaltar, adorei teu cd também. Tá lindo, o trabalho! Estou ansioso por músicas novas, caso aconteça de elas quererem vir ao mundo pela suas mãos e mente e espressão.. e tudo isso mais que vc usa pra compôr e cantar! ;)

    Davi Padrão

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