quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

HÁ TEMPOS

Ano novo, novos tempos. Pode o tempo ser novo ou antigo? Ou somos nós que envelhecemos e rejuvenescemos? Parece que há uma inversão de lugares. Afinal, o tempo foi inventado como método de organização das nossas atividades, só que na maioria dos casos é a vida que acaba por ser formatada de acordo com uma escala de tempo exterior a ela. Ficamos escravos da própria criação. O feitiço se volta contra o feiticeiro. Ora, não se trata de feitiço e sim de relógio, agenda, prazos a cumprir. Uma rigidez antinatural que se impõe, com toda a sua ordem racionalista, em busca do progresso da nação, da evolução do homem. É assim que deve ser? Espero que não. Melhor continuar esperando.

Dear Photography - Molly
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O último romance que li em 2013 foi Barba Ensopada De Sangue, escrito por Daniel Galera. Demorei quase seis meses até terminá-lo, e nesse meio-tempo li outros livros. No início, a demora incomodou, fazendo acreditar que nada acontecia na história. Foi após cem ou duzentas páginas que entendi: estava acontecendo sim. Estava acontecendo nada. O que é muito diferente. O nada já é alguma coisa. Na correria do contemporâneo, o nada irrita, mais do que entedia. A hora que não passa.

A propósito, a história trata do tempo lento de um personagem que deseja escapar das grandes ondas que carregam todo mundo junto para um buraco perigoso à beira-mar, onde ocorre a rebentação. Um tempo individual de solidão, reflexão, revelação. Quando percebi isso, aceitei. Logo depois, o nada encontrou um rumo. E as últimas cem ou duzentas páginas foram alucinantes. É mesmo um ótimo livro, muito bem escrito. Cheio de pulso vital.

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Meus melhores textos – ou ao menos aqueles de que gosto mais – não são escritos num ímpeto criativo, num único afluxo de inspiração. São aqueles que de início eram notas esparsas, sem qualquer relação proposital, e que vão aos poucos se aglutinando, ganhando consistência, tomando jeito. Na sequência, são revisitados uma porção de vezes, escritos e reescritos, cortados e acrescidos. Palavras sobrevivendo ao tempo, produzindo sincronia.

Os textos que me agradam mais são aqueles que jamais deixam de serem escritos. Se fosse necessário classificá-los, esse seria o critério.

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Dear Photography - Dawn
"Lá em casa tem um poço. Mas a água é muito limpa."

Letristas como Renato Russo fariam do Brasil um país melhor. Nem precisaríamos de muitos; dois ou três já seriam uma diferença enorme.

John Lennon é outro exemplo. Minha música favorita dos Beatles chama-se A Day In The Life. Um dia na vida. Caso houvesse um disco apenas com ela, seria completo. Mas eles gravaram o maravilhoso Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band para acompanhá-la – não satisfeitos, foram além da expectativa. É por esse motivo, entre outros, que permanecem relevantes. Que perduram.

Sinto falta de vozes sensíveis, sinceras, desbocadas. Fora de protocolo. Que se fazem música pela potência poética/política dos seus dizeres.

Gosto da expressão Há Tempos, que dá nome a uma canção famosa da Legião Urbana. Porque ela traz uma ideia imediata de passado distante, e acaba por bagunçar essas relações. Gosto também porque sugere a existência de tempos diversos, muitos deles consecutivos, acontecendo ao mesmo tempo. Como as estrelas, que morreram há uma infinidade de anos e ainda são vistas no céu. Porque sua luz chega a nós apenas agora. Observá-las é o mesmo que observar o passado acontecer bem diante dos nossos olhos.

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Escrevo com caneta-tinteiro em época de wi-fi e tablets. Deus, como sou retrógrado! Escrevo com pena e observo a tinta, ainda líquida, na superfície do papel. Ela demora a ser absorvida. Parte evapora e se perde no mundo; parte fica retida, incorporada. Assim é o tempo da descoberta, do aprendizado, do conhecimento. Tempo de apreensão.

Uma terceira parte daquela tinta é entrevista quando viro a página e começo a escrever do outro lado. Onde as sombras do que já escrevi me espreitam. Não consigo compreendê-las direito, já não me pertencem mais.

Se derramo água, o texto borra e se mistura, transborda, espalha pela mesa, mancha tudo o que toca. Está sempre à disposição do acaso para resignificá-lo. E para ser resignificado.

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Meus pais fizeram o pedido na lanchonete de uma pequena cidade de Minas Gerais. Talvez por acaso, ouviram o garçom gritar ao cozinheiro: vai rápido porque o cliente é paulista!

O tempo corre diferente em diferentes lugares. Em alguns ele anda. Em outros se espreguiça e dorme.

Dear Photography - Rebecca

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O relógio é um acordo entre os homens. Quando a maioria concorda, adiantamos ou atrasamos uma hora de verão. Para criar ou dispensar tempo. Acho isso incrível.

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Se o tempo não for exato, cronológico, na medida do relógio, como será? Sensível, na medida do homem. Na medida do ser. Claro, a tarde demora a passar para o entediado, porém é curta demais para o atarefado. Os minutos sofridos na angústia, o deleite da infância que já não fazem mais.

Se não estivermos em acordo com o tempo, estaremos em desalinho. Deslocados, de modo que se possa olhar para ele e perceber o que ainda opera e o que já não serve mais. Melhor assim. Ao invés de inseridos numa escala de tempo exterior, podemos nos posicionar com o tempo; estar sem a ele pertencer. Com-temporâneos.

Não ser sujeitos do tempo. O tempo é nosso, é de cada um à sua maneira. O tempo nos pertence e com ele fazemos o que convier. Ou assim seria.

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Tive um professor baiano na faculdade que dizia: tudo que é gostoso é pra ser feito devagar. Eu ria, na época. Precisei de mais de década para compreendê-lo.


Obs.: As fotos que ilustram este texto foram surrupiadas do site Dear Photography, que reúne imagens do passado sobrepostas a cenas do presente feitas por quaisquer pessoas. Em outras palavras, trata-se de um site colaborativo. Você também pode participar com suas fotos. Basta acessar o link para verificar o procedimento.

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