sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

ETERNIDADE

Aos trinta e dois anos de idade, não tenho mais avô ou avó. Essa frase seria um bom início de conto, pois só é verdade no sentido da fabulação. A realidade é que carrego meus avôs e avós junto comigo; estão vivos em mim. Se acredito em alguma vida após a morte é nesta: a vida que se dissolve em outras, que toma nova forma para permanecer existindo. Dezenas, depois centenas, depois milhares de dissoluções naqueles que nascem, até que perdemos a conta e passamos à eternidade. Passar à eternidade significa permanecer a existir em infinitos outros.

Carrego comigo não apenas parcelas dos meus avôs e avós, mas também os ascendentes de gente que sequer conheci. Que se legaram à posteridade e hoje constituem o eu, o eles, o nós. Por vontade própria ou contra a própria vontade, com ou sem intenção de deixar heranças boas e ruins, sempre boas para uns e ruins para outros. Já não lembramos deles de tanto que se pulverizaram sobre o campo fértil da humanidade; a cultura em que fui cultivado.

Lembro bem apenas dos mais próximos, na medida em que é possível lembrar bem de algo. Porque na maior parte do tempo lembramos muito mal. Avivamos uma cena, um cheiro, uma frase, um beijo. E nos iludimos com esse pouco, acreditamos assim lembrar muito bem daquele passado que hoje é uma reminiscência. Não lembro bem porque meus avôs e minhas avós não cabem na memória, eles foram muito maiores, mais complexos e mais vivos do que qualquer memória poderia guardar, inclusive a deles mesmos. Quem dera a minha pudesse!

Também as lembranças são verdade apenas para a fabulação. Ou, melhor dizendo, elas são fabulações enquanto as consideramos verdadeiras. Tudo o que trazemos na memória tem algo de inventivo. Um recorte do passado, uma narrativa, uma ficção feita de substantivos, adjetivos, imagens e afetos. Existiu de fato? Impossível afirmar. Mas agora existe, pois me recordo. Existe numa forma outra. Existe enquanto parte de mim. Parte que trago comigo, inclusive as lembranças que não são minhas, as memórias compartilhadas em volta do fogo, ao redor da mesa; um saber ancestral.

Sou uma tartaruga que carrega no casco a memória da terra. Ao mesmo tempo em que pisa a terra, ao mesmo tempo em que habita a sua própria casa que não é a terra mas dela se originou e a ela voltará um dia, como se um incrível paradoxo conectasse a nós todos. Voltaremos um dia à terra onde nascemos. Mas hoje não. Hoje a tartaruga não se lembra muito bem. Apenas algumas cenas se apresentam a ela.

Lembro-me de meu avô, que se sentava no sofá com um volume de enciclopédia sobre a fauna do mundo. Apontava os animais coloridos nas páginas e contava suas histórias. O rinoceronte, o lince, os pássaros todos; sim, ele era apaixonado pela liberdade dos pássaros. Ainda muito pequeno, recém-saído do ovo, aprendi a ler a vida naquelas fotografias fantásticas. Mesmo sem compreender uma letra sequer.

Essa mesma tartaruguinha se lembra do outro avô, forte como uma árvore. Seus bracinhos não bastavam para contorná-lo, suas patinhas não se encontravam do outro lado. Seu rostinho se perdia naquele tronco tão antigo, que cheirava a sabão em pedra. Que tinha uma textura áspera de algodão muito usado e muito lavado. Esse avô sentava-se na escada do quintal, onde picava fumo numa lata tão enferrujada quanto o hábito. Demorava-se na tarefa, a tarde inteira se fosse preciso. Era também tartaruga, sem pressa nem ansiedade; era sábio porque vivido. Depois lambia a seda, enrolava o cigarro e tragava uma fumaça acre que jamais poderia lhe fazer mal, tão lindo aquele rito.

Das avós a tartaruguinha lembra mais e melhor. Uma delas fazia farofa e se atrapalhava toda na cozinha, comprava presentes na feira e se atrapalhava toda nos tamanhos; os médicos diziam que seu sangue ia mal, ela se atrapalhava na dieta. Porém tinha bom coração. Fazia a família rir e ria junto, estourava numa gargalhada saudável que curava todo o restante. E seguia feliz da vida, mesmo sem jamais ter ganhado na Tele Sena.

Essa avó teve um cunhado de quem gostava muito. Ele havia casado com uma das suas irmãs. Depois de viúvo, casou-se com outra. Faleceu no mesmo dia de minha avó, e ambos me deixaram essa história incrível do homem que se casou com duas irmãs e foi-se embora com a terceira.

Restou a última vovó. Que era ligeira, inquieta, estava sempre de ouvidos atentos às novidades da tartaruguinha. Decidiram viajar juntos para desvendar as origens da família. Todo aquele esforço, todo aquele passado revisitado foi necessário para compreender que a origem é pura fabulação. A família se fazia ao longo dos dias, das trocas, da própria viagem. Nos pés inchados pelas caminhadas, nos castelos antigos tanto quanto nas ruas mais modernas, no pêssego mais gostoso que já foi partilhado um dia. Na satisfação de viver uma experiência junto de quem se ama. Nos encontros, no prato favorito, na vontade de que tudo jamais termine. Nas histórias que se pode contar. Nos gestos que repito e só então percebo como somos parecidos.

As lembranças são várias, ainda que insuficientes. São o que resta, afinal. Jamais trarão de volta os vovôs e as vovós da tartaruguinha, por mais intensa que seja a memória, por mais intenso que venha o desejo. Ainda assim as lembranças pulsam, sugerindo que todos eles sobrevivem em mim. As lembranças preenchem o vazio. Ao ponto de que neste casco não haja solidão.

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