sexta-feira, 25 de novembro de 2016

TODO OUVIDOS


Fico intrigado ao ver tradutores de libras num show de música. Bem ali no palco, ao lado do Nando Reis. Não entendo os sinais, que às vezes se assemelham a uma palavra, outras vezes parecem uma dança. Como funciona essa linguagem? Traduz algo além dos versos e eventuais comentários do artista? Será que dá sugestões do som? Tais sugestões fariam sentido a alguém que nunca ouviu, portanto não tem referências para entendê-las? Não tenho amigos nem parentes surdos, sou leigo no assunto. Sentado na plateia, observando aquelas pessoas se desdobrarem em gestos que nada dizem para mim, fico a pensar um amontoado de questões.

A mais evidente delas é: por que um deficiente auditivo viria a um show de música? Não se trata de um espetáculo pirotécnico, não há quase nada interessante para ver. Há o Nando Reis e o seu violão. E só. Quero acreditar que o tradutor não está ali obrigado por uma lei esdrúxula, gesticulando para ninguém. Quero acreditar que está li porque existe demanda, ou seja, porque os surdos frequentam shows de música e devem ser acolhidos conforme for mais conveniente a eles. Se essa conveniência inclui a libras, que seja a libras.

Agora, se os surdos vão aos shows apesar de seus ouvidos não perceberem a sonoridade, será que “ouvem” de alguma outra maneira?

Presto atenção às vibrações produzidas pelas caixas sonoras. É alta e faz tudo vibrar junto, o copo em minha mão, a poltrona, o ar. As ondas reverberam na pele, na carne, nos ossos. Além da música tocada, há essa música que nos toca, como se fôssemos seus instrumentos.

Observo a plateia, imaginando uma imensa orquestra a produzir música em seus próprios corpos, cada qual com seu timbre singular. Entretanto o que vejo não são instrumentos nem ouvidos, mas celulares. Centenas de telinhas brilhantes a competirem com as luzes do palco. Tenho assim a segunda revelação da noite: estes espectadores, tanto quanto os deficientes auditivos, ouvem mal, talvez nada ouçam com os seus ouvidos. Talvez ouçam com os olhos, através da tela. Fotografam, gravam, postam imediatamente nas redes sociais. Quem é surdo, afinal? Quem não pode ouvir ou quem pode mas não ouve realmente, ocupado que está com os olhos, os dedos, a comunidade digital?

Neste momento Nando Reis se distanciou, preciso fazer um esforço para reencontrá-lo. Fecho os olhos, procuro, sim, aqui está ele, dedilhando o violão, cantando no tom.

Lembro das minhas próprias aventuras musicais, tocando contrabaixo com amigos num estúdio, pura diversão. Quem tem ou já teve banda sabe o que digo a respeito de uma qualidade chamada entrosamento. Para a qual não há explicação lógica, é uma espécie de sentimento coletivo que produz um dissenso harmonioso, com notas diferentes que por alguma desrazão torcem o tempo. É uma qualidade que possibilita antecipar o movimento do colega, oferecer suporte para que tal movimento se realize ou apoiar nele a sua própria ação, conforme o andamento da música.

Todos os membros da banda podem tocar as notas certas no momento certo e ainda assim não estarem entrosados. Nessas horas a música soa correta, porém sem cor. O entrosamento de uma banda soa diferente. Como uma tessitura irregular que se adapta às imperfeições do espaço. Quando a banda entra em sintonia, a música atravessa o corpo de todos; ela é mesmo incorporada, ou seja, expande-se para além dos ouvidos, da racionalidade das escalas, da teoria e do metrônomo; ao ponto de ser tocada pelo corpo inteiro da banda e por reger o corpo de cada músico individualmente. Quem tem ou já teve banda sabe o que eu digo. Quem nunca teve talvez não entenda. Não é fácil por em palavras. É uma espécie de sensação que precisa ser experimentada.

Ouvir a música apenas com os ouvidos e tocá-la apenas de acordo com os ouvidos, obedecendo à matemática musical, rende um som artificial, quase uma aberração mecânica. Você pode tocar o instrumento com perfeição técnica, porém sua música não tocará ninguém. É preciso avançar esse estágio se quiser ser um músico que toca as pessoas, mais do que toca o próprio instrumento; é preciso sentir a música como uma entidade que o envolve por completo, que para o tempo e coloca você em afinidade com um presente contínuo. Todo o tempo da vida está naquele instante. Suponho que seja por esse motivo que as horas voam quando fazemos música.

Nando Reis pausa o violão e diz que tem um irmão surdo. Que nasceu sem audição e não aprendeu a língua dos sinais; ele lê os lábios. As pessoas ao meu redor tiram fotos e gravam vídeos e compartilham suas imagens nas redes sociais enquanto o músico conta suas histórias de juventude. Eu fico curioso, imaginando como deve ser, para um artista famoso como ele, crescer na companhia de um violão e de um irmão surdo. Como será que essa experiência afetou sua obra? Que Nando Reis é esse que somente aquele irmão ouve? Qual é a semelhança e a diferença entre ele e esse outro Nando Reis que nós ouvimos, fotografamos e compartilhamos? Será que o irmão toca algum instrumento musical? O que será que os deficientes auditivos da plateia teriam a dizer, que histórias teriam a contar? Eu adoraria conhecê-las.

Outra canção já começou e eu nem mesmo percebi.

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