segunda-feira, 26 de junho de 2017

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Norwich (2013), de Ed Fairburn


A lei do ventríloquo livre
é só encenação?

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Largar tudo e pé na estrada. Sonho clichê, mas a intenção era boa. Liberdade, enfim. Das amarras do capitalismo produtivista, dos imbróglios sociais, das normas e regras e leis, do machismo branco europeu dominante e também do feminismo regurgitante, do moralismo cristão, do controle e blá e blé e blue. Eu avisei: um sonho clichê. De intenção sincera. Assim foi, pé na estrada. Não cabe a mim julgar. Parece sonho de juventude fora de época, enraizado lá nos anos retrôs, desculpe, não cabe a mim julgar. Que outro sonho poderia ser? Como se sonha hoje? No que você está pensando? Compartilhe suas experiências num clique. Conte-me como foi! Conte-nos do que mais gostou! Viu os lugares que todos pre-ci-sam ver, comeu nos restaurantes que você pre-ci-sa comer, fotografou a estátua mais fotografada do mundo. Parece maior do que ela, né? Cabe na palma da mão! Não, não, me poupe! Não queria nada disso, queria deixar a estrada guiar sua fuga, vida leva eu; a sorte – não o destino, mas a sorte – mostrar a verdade lá fora. Reencontrar a liberdade perdida quando: nasceu, foi à escola, parcelou o smartphone, criou perfil na rede social, conquistou o cargo promissor. Quando tudo deu certo. Fez por merecer. Sim, sim, abriu mão disso tudo. Pode julgar, a pessoa não liga! Muito bem resolvida, partiu sem rumo, não precisou dar satisfação a ninguém, entende? Lugar maravilhoso, lugarzinho terrível, sujeito incrível, sujeitinha medíocre, longe, muito longe. Sabático. Caiu na estrada, foi para todos os cantos do mundo. Foi a todos os cantos onde tem estrada, jamais se arriscou fora dela. Liberdade assistida? Falei que era sonho clichê, que o inferno está cheio de intenções assim. Quem sou eu para julgar?

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Livre para falar o que quer
Quando quer como quer.
De onde vem tanto querer?
O que ele quer de mim?

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O suspeito foi identificado antes que a polícia terminasse de contar os mortos. O número crescerá até o jornal da noite; com sorte, amanhã já teremos outra notícia no lugar. Um recado antes de sair! Não estamos aqui para falar das vítimas, e sim do algoz: um menino. Tão jovem! Como pode uma coisa dessas? Tinha tudo na vida: dinheiro, família, futuro. Tudo! Imigrado para um país livre, moderno, cheio de oportunidades. Foi se meter com aqueles malucos? Fizeram lavagem cerebral, certeza. Os pais não sabiam de nada, o governo não sabia de nada, teriam intervido. Foi pela internet. Como monitorar quem nunca deu motivos para suspeita?, pronunciou-se o primeiro ministro. Todos abriremos mão das nossas confidencialidades em prol da segurança do país? Abriremos mão dos nossos direitos, das nossas liberdades? Todos abriremos, amém. Bomba caseira, feita com ingredientes de supermercado. Clique agora para utilizar seu cupom de desconto! Um menino tão jovem, assassino cruel. Podia escolher o que quisesse, por que não fez a escolha certa? Juiz, empresário, senador, latifundiário, investidor, não. Escolheu um fundamentalismo outro.

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“O senhor fala como se fosse fácil, questão de escolha. Que tá o certo e o errado na frente e a gente vai lá e segue por um caminho. Não to falando que não tem opção, é que a porta do certo tá muito mais estreita que a do errado. O senhor tá falando de vislumbre. Eu falo de necessidade.” (trecho do livro Em conflito com a lei, de Lucas Verzola.)

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Liberdade é uma estátua.
Sim, precisa pagar pra ver.

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Por quê?
Porque tenho o direito.

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A ideia era criar um filho com total liberdade de pensamento. Que pudesse exercer sua autonomia desde o berço. Que fosse inteligente e capaz de fazer escolhas e arcar com consequências individuais ou coletivas. Começaram muito bem. Até comprarem para ele o primeiro livro infantil. Onde estava velada, sob disfarce de coelho, uma cartilha da vida adulta.

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