quinta-feira, 21 de maio de 2009

CONFORTAVELMENTE APÁTICO*

O conto que cito nesta crônica já foi publicado no Brasil por diversas editoras. Atualmente, creio que há edições da L&PM e da Cosac Naify. Esta última é especialmente interessante, pois obriga o leitor a interagir com o livro para revelar a história. Isso acontece da seguinte maneira: as capas vêm costuradas e quem quiser ler precisa descosturá-las, para então descobrir que as páginas também estão seladas, sendo necessário rasgá-las com uma espátula. Entre elas, a única imagem que se vê é a de um muro, cujo significado se revelará mais tarde. A proposta é muito bacana e a recomendo a todos que tenham vontade de experimentar uma leitura diferente. (Se quiser visualizar melhor o processo que descrevi acima, clique aqui.)


A recente adaptação para o teatro de Bartleby, o escrivão, conto de Herman Melville publicado pela primeira vez em meados de 1850, fez com que eu pinçasse minha edição da prateleira e a folheasse na tentativa de reavivar antigas sensações. Como tenho hábito de sublinhar e escrever pelas páginas dos livros, era bem provável que algumas impressões provocadas pela leitura ainda estivessem por ali. Lembrava que, na época, descobri em Bartleby um sujeito estranho, deslocado da sociedade e vivendo uma história esquisita, meio atemporal, meio metafórica, meio difícil de definir. Havia algo filosófico ali. Algo moderno e crítico. Eu só não dispus prontamente de uma opinião clara sobre o assunto, sentindo apenas certo incômodo pelos modos pouco convencionais do personagem. Ao mesmo tempo, porém, não conseguia repeli-lo, quer dizer, não podia deixar de pensar em sua história e simplesmente ignorá-lo, mais ou menos como sucedeu com seu patrão.

Para quem não conhece o enredo (e provavelmente não entendeu nada do que leu até aqui), as coisas acontecem assim: o dono de um escritório de advocacia que lida com hipotecas e títulos de propriedade contrata Bartleby com objetivo de aumentar sua equipe de escriturários. O novo empregado é calado, de hábitos simples e, nos dois primeiros dias, realiza seu trabalho sem incomodar ninguém – muito próximo do que ainda hoje se entende por funcionário ideal. Até que ele se recusa a cumprir algumas tarefas, deixando todos atônitos. Sua justificativa é sempre a mesma: “Acho melhor não”. Acha melhor não fazer, acha melhor não ajudar, acha melhor não falar etc. E só. Bartleby se torna assim um estorvo. Passa o dia recluso em seu canto, atrás de um biombo, olhando através de uma janela que dá para a parede do prédio vizinho. Recusa-se até mesmo a explicar essa sua atitude esdrúxula. O patrão, no entanto, sente pena do coitado, uma vez que se trata de uma pessoa humilde, sem família, sem passado e visivelmente perturbada. Para usar suas próprias palavras: “Apesar de ofendido pelo seu comportamento e resolvido a demiti-lo quando chegasse ao meu escritório, sentia uma espécie de agouro invadindo o meu coração, que me impedia de cumprir o meu propósito, dizendo-me que só um canalha se atreveria a pronunciar uma palavra amarga contra o mais desamparado dos homens”. E assim Bartleby vai ficando por ali, assumindo cada vez menos funções até cair na mais completa apatia.

Quantos desses a gente não conheceu ao longo da vida? Quem já trabalhou em empresas grandes, onde o caso é mais comum, deve se lembrar de pelo menos um nome que estava sempre circulando por entre os diversos setores, sem função determinada, enquanto os outros se perguntavam por que ninguém o riscava do quadro de funcionários. A maioria deles sobrevive inclusive a períodos de crise, como o atual. Será que a chefia não enxerga tamanho ostracismo?

Pois Bartleby, apesar de tudo, caíra nas graças do patrão. Ele estava sempre por perto e não precisou de muito empenho para se tornar parte do escritório, como objetos de que não conseguimos nos desfazer, por maior que seja sua inutilidade – e a nossa vontade lógica. Talvez eles sejam responsáveis por manterem a estabilidade de nosso estado mental, proporcionando conforto, segurança e sensação de normalidade, garantindo que tudo continua do jeito que sempre foi. Uma espécie de porto seguro onde atracar, no geral, inconscientemente. Assim diz o patrão de Bartleby: “A sua disciplina, a sua temperança, o seu trabalho sistemático (exceto quando se perdia em devaneios atrás do biombo), a sua tranquilidade e a sua conduta inalterável em todas as circunstâncias, faziam dele uma valiosa aquisição. O principal é que ele sempre estava ali (...). Eu tinha uma confiança especial na sua honestidade. Sentia que meus documentos mais preciosos estavam absolutamente seguros nas suas mãos”.

Fazendo uma aproximação com a realidade de hoje, vejo que existem aqueles que vivem em constante competição consigo mesmos e com os outros, esforçando-se para alcançar algo maior, aprender coisas novas, mostrar serviço etc. Aqueles que encaram tudo como desafio e se propõem a vencer. Existem também, por outro lado, os que passam pela vida sem deixar que ela passe por eles, totalmente alienados em seus mundos particulares e satisfeitos com olhar eternamente para uma parede porque o simples fato de saber que ela está lá já é suficiente – a parede impede de enxergar além, porém a visão dela comprova que o mundo é real e concreto. Entre um tipo e outro, existem milhares de meios-termos nos quais a maioria de nós se enquadra. Como diz uma música do Pink Floyd – Comfortably Numb –, a apatia se torna confortável com o tempo, e a juventude passa levando nossos sonhos com ela.

Não é uma perspectiva muito feliz. O oposto completo tampouco. Por isso, ainda acredito no ponto-chave da filosofia oriental: o equilíbrio de forçar, ou seja, a harmonia.

Em um mundo em que a norma manda as pessoas serem sempre melhores do que as outras, levando vantagem em quantas ocasiões puderem para provar seu valor, começo a entender por que a leitura de Bartleby, o escrivão me incomodou tanto. Para explicar melhor, faço minhas as palavras de Herman Melville: “(...) havia algo em Bartleby que não apenas me desarmou, como também me comoveu e desconcertou, de maneira assombrosa. Pus-me a raciocinar com ele”.

*A crônica publicada no jornal foi reduzida por limitações técnicas. Aqui você encontra a versão integral, sem cortes.

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