segunda-feira, 3 de agosto de 2009

FRANCISCO B.

Eu gostaria que o nome Chico Buarque não significasse nada. Não que eu tenha algo contra ele, não é nada pessoal nem profissional. Meu problema é unicamente com o que representa. Quer dizer, hoje em dia, é impossível falar de sua obra sem que se associe a ela os milhares de preconceitos que fomos desenvolvendo ao longo do tempo. Podem ser preconceitos positivos ou negativos – você pode gostar ou não do Chico –, mas haverá alguma opinião sobre ele, e esta opinião vai influenciar tudo o que eu disser.

Ainda assim, insisto. Pois muito me surpreendeu que Budapeste tenha sido exibido em tão poucas salas de cinema. Tive que me empenhar bastante para ver. Puxa, o filme tinha tudo para ser um sucesso de bilheteria: foi baseado num best-seller do Chico, os protagonistas são atores famosos do porte de Leonardo Medeiros e Giovanna Antonelli, a produção é boa, o diretor Walter Carvalho tem um currículo exemplar e o enredo não trata nem de favela e nem de nordeste. Por que, então, ficou fadado a um circuito tão restrito?




Outro dia, um amigo estava revoltado com as pessoas que assistem a filmes alternativos e depois ficam falando mal dos blockbusters. Segundo ele, isso é coisa de quem quer bancar o intelectual. Mas o pior é que não tem jeito, é difícil fugir dessa discrepância. Quem busca filmes mais autorais, mais “artísticos”, mais experimentais ou simplesmente alguma coisa que faça pensar, para variar, provavelmente vai cair nos chamados cinemas “cult”. Budapeste seguiu por este caminho. E o resultado é maravilhoso, tem um toque ao mesmo tempo intenso e delicado que raramente se vê em grandes produções nacionais.

Para ter uma ideia de como ele nos atinge, quando as luzes do cinema se acenderam e os créditos começaram a subir na tela, olhei ao meu redor e estranhei o fato de que ninguém se levantou para atropelar os outros nas escadas enquanto desvia dos baldes de pipoca largados no chão e tenta ligar o celular. Não, ficaram todos sentados em seus lugares e me fizeram achar que teria outro filme na sequência. Foi quando percebi que estavam – pasmem! – discutindo o que tinham acabado de presenciar. Eu, que já estava contente por ter assistido a um filme sem ter ninguém matraqueando na orelha, achei aquele debate uma coisa de outro mundo. Pena que as redes mais populares de cinema deixaram esta grande obra de lado.

O filme fala justamente das incongruências entre o valor de uma obra e o reconhecimento de quem a criou. Li o livro quando foi lançado, há alguns anos, mas já nem lembrava mais do que acontecia, até porque a narrativa é o que menos importa. Bacana são as reflexões sobre autoria. Por exemplo, a obra pode existir sem seu criador? Em ordem de importância, qual deve vir primeiro? Quanto um influencia a apreensão do outro?



É a tal história do nome Chico Buarque. Quando se fala em Budapeste, o que vem em seguida? “Baseado na obra de Chico Buarque”. Supostamente, este nome deveria vender bilhetes a rodo. Não aconteceu com o filme, mas aconteceu com o livro Leite Derramado, seu romance mais recente. Quando se fala do livro, o que vem em seguida? “O novo romance de Chico Buarque”. Deve ser bom, né?



Sinceramente, eu li e não gostei. Enquanto o anterior, Budapeste, me deixou fascinado tanto pelas reflexões quanto pela engenhosidade com que foi construído, Leite Derramado foi difícil de terminar. Tive a impressão de que o Chico pegou uma fórmula corrente – do velho que, já meio biruta, começa a filosofar sobre a própria vida – para criticar a história do Brasil de um jeito confuso, cansativo, que mais complica do que explica. Claro que existem boas passagens, tais como esta breve referência ao ciúme: “Com o tempo, aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta”. Só que, de resto, fica apenas o velho a recordar e recontar o passado à sua maneira, repetidamente, como o seguinte trecho parece querer justificar: “Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço da alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar”. E, depois de tanta repetição, o que sobra? A sensação de que comprei gato por lebre.

Admiro a ideia de que a história é apenas uma versão do passado na qual decidimos acreditar, assim como a pertinência na escolha do título do livro, só achei que ele não precisava ser tão maçante.

Talvez eu tenha lido com preconceito. Afinal, é um livro do Chico, eu esperava que ele me fascinasse tanto quanto Budapeste. Fiquei me perguntando se apenas eu tinha achado o mesmo. E o que me deixou mais decepcionado foi perceber que as críticas, matérias e entrevistas sobre o lançamento mal falavam da obra. Só falavam do Chico. Que só o Chico entende as mulheres, que foi um músico importante, que sua mesa na FLIP seria a mais concorrida etc., todas essas ladainhas que estamos cansados de ouvir. Mas ninguém comentava o livro. Afinal, é um romance do Chico, quem se atreve a dar opinião? E basta citar o autor para vender bem.

Posso estar enganado, afinal, isso não aconteceu com o filme. Só gostaria de poder me distanciar do Chico e admirar sua obra como a de um Francisco qualquer, sem preconceitos.

Provavelmente há muito mais riqueza ali do que o mero lugar-comum deixa perceber. Enquanto algumas coisas me diriam que o Chico é deus, muitas outras mostrariam que ele não passa de um homem comum, repleto de talentos e defeitos para a gente admirar.s madrugadas de bebida, mxcesso. devo ofundas que nunca mais me deixaram em paz.

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