domingo, 17 de outubro de 2010

A RAIVA DO FILÓSOFO


O arremessador de flores, de Banksy

Quando algum imbecil fechar seu caminho no trânsito, pense em Sêneca. Quando lhe deixarem horas esperando em pé na fila do banco, pense em Sêneca. Quando lhe enviarem um cartão de crédito não solicitado ou aumentarem as tarifas telefônicas, pense em Sêneca também, para variar. Não que o velho filósofo tenha sido bom motorista, cidadão ou consumidor, mas porque já na Roma antiga ele percebeu que a raiva não leva a lugar algum, exceto à cova, e normalmente mais cedo do que gostaríamos.

Falar é fácil, difícil é se controlar na hora H. Mas compreender esse sentimento segundo o ponto de vista de Sêneca nos ajuda a lidar com ele e, consequentemente, com as situações desagradáveis que a vida impõe.

Isso porque grande parte dos acontecimentos estaria sob o controle da deusa Fortuna, administradora do destino dos homens, e desafiar o poder divino estava fora de cogitação. Não restava nada a fazer, exceto se consolar com a ideia de que, se não podemos mudá-los, temos ao menos a liberdade de determinar a maneira como reagimos a eles. Afinal, "tudo depende do conceito que temos das coisas", ou seja, da maneira como as enfrentamos.

Por que deixamos os problemas do dia a dia nos irritar? De acordo com Sêneca, porque criamos muita expectativa a respeito deles. Depois, quando a realidade dá as caras e carrega nossos desejos para o ralo, não sabemos responder filosoficamente à frustração decorrente.

Quer dizer, o trânsito nos irrita porque, cada vez que tiramos o carro da garagem, acreditamos, ainda que inconscientemente, que ninguém cometerá barbeiragens pelo caminho. O aumento das tarifas nos tira do sério porque estávamos seguros de que nenhuma empresa teria a ousadia de planejar a exploração de nossos bolsos enquanto aguardávamos pacientemente a conta chegar; enquanto a fila do banco nos deixa com vontade de xingar todos em voz alta porque, em nossa vã ingenuidade, ninguém teria pensado em levar a cabo seus afazeres financeiros exatamente no mesmo instante que nós, por mais que seja hora do almoço do dia trinta.

A filosofia, no entanto, está aí para nos ensinar a sermos felizes, mesmo que isso signifique encarar a vida com um pouquinho de pessimismo. Se assumirmos que o mundo não é perfeito e não deixarmos as expectativas nos iludirem, as situações que fogem ao nosso controle serão aceitas mais facilmente.

É um exercício que vale a pena experimentar. Pela manhã, antes de sair de casa, pense em tudo que pode dar errado: o trânsito, a xícara de café derramada na calça, as reuniões intermináveis, o almoço engolido em cinco minutos, o telefone que não para de tocar, o salto alto quebrado, o banco lotado, o chefe mal humorado e a necessidade súbita de fazer hora extra durante a novela ou o campeonato brasileiro. Pense também que não há nada que você possa fazer para impedir esses desastres. Assim, tudo o que sobrar será lucro.

Parece uma maneira por demais melancólica de encarar a vida, lembra até aquela hiena dos desenhos animados que vivia resmungando "Oh, vida. Oh, azar". Só que o segredo é não exagerar, afinal, trata-se de um exercício filosófico cujo objetivo é mostrar que não temos controle sobre tudo e que, portanto, ninguém precisa sofrer com isso. Talvez o termo exato nem seja "pessimista", apenas "racional" ou mesmo "realista".

Sêneca também dizia que sofrer por antecipação nos faz perder o presente por medo do futuro. "Somos, no mais das vezes, mais vítimas do nosso terror do que dos perigos reais, e sofremos mais com a ideia que fazemos das coisas do que com as próprias coisas". Ele ainda nos aconselha a não sermos infelizes antes da hora, porque os perigos que tememos talvez nunca cheguem.

Era um homem que sabia das coisas. Escreveu mais de vinte livros inspirado no que acontecia ao seu redor, o que nos permite supor que a vida não era fácil naquela época. Em 49 d.C., só para citar um exemplo, o filósofo recebeu a ingrata tarefa de educar um menino rebelde, metido a dono do mundo, que mais tarde se tornaria o temível imperador Nero e o condenaria ao suicídio induzido.

Portanto, quando alguma coisa tirar você do sério, pense em tudo que Sêneca aprendeu e que ainda hoje nos serve de lição. E, quando alguém quiser lhe consolar dizendo que "vai ficar tudo bem", não se iluda. Considere apenas que, se não ficar tudo mal, já será um ótimo resultado.

Um comentário:

  1. Era exatamente o que eu precisava ler nesse comecinho de semana.
    Muito bom, Edu! bjos

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