terça-feira, 31 de maio de 2011

A PALAVRA A SERVIÇO DE UM RIO


Era manhã de domingo, mal passava das oito horas, íamos nos reunir no terraço de um prédio – aproximadamente quinze expedicionários às margens do rio. A previsão do tempo era pouco encorajadora: frio e chuva forte, com possibilidade de vendaval. Chegamos todos encapotados, preparados para apelar ao plano B caso fosse necessário. Estávamos armados até os dentes, como se diz por aí, embora eu nunca tenha visto um dente armado para entender o verdadeiro significado dessa expressão. Em resumo, portávamos cadernos, canetas e laptops, entre outros apetrechos do tipo, pois aquela seria uma missão especial: uma oficina literária com objetivo de salvar o rio Pinheiros da degradação e do descaso.

A oficina era apenas um dos trinta grupos que a Associação Águas Claras do Rio Pinheiros conseguiu reunir em prol da recuperação deste que é um dos principais afluentes do Tietê e um dos mais importantes canais com potencial hidroviário do país, hoje em lastimável estado de conservação. Ao todo, éramos em torno de mil pessoas, participando das mais variadas atividades, tais como caminhadas, pedaladas, expedições fotográficas por terra e pelo topo dos prédios ao redor, caçada fonográfica a canais subterrâneos – isso mesmo, com microfones! –, incursões na mata em busca de nascentes, visitas guiadas a represas, a hidrelétricas e também a estações de tratamento de esgoto. Teve até acrobacia aérea sobre o rio, realizada por um comandante da aeronáutica, com direito a piruetas e rastro de fumaça branca. O princípio de tudo, no entanto, era o mesmo: reconciliar os cidadãos e o Pinheiros, chamando a atenção para um problema que, na maior parte do tempo, permanece confortavelmente ignorado. Pois se acredita que o contato com o rio e o reconhecimento de sua importância gera valorização, e quem valoriza cuida.

Entre as aventuras propostas, a nossa era, de longe, a mais imaginativa. Sob coordenação do escritor Marcelino Freire e minha monitoria, o grupo aderiu à causa, empunhou as palavras e comprovou que a manifestação literária pode obter um resultado tão revolucionário quanto o de uma luta armada.

A ideia era bastante simples: deveríamos pensar no que encontraríamos no lugar do rio Pinheiros se, de repente, num dia qualquer, ele secasse. A partir desse estímulo, cada participante desenvolveu seu texto com total liberdade de forma e conteúdo. Havia uma base conceitual, claro: queríamos retomar a posse do rio, transformá-lo em território comunitário e assumir a responsabilidade por sua conservação. Como? Incentivando a consciência das pessoas a respeito do mesmo, ou seja, mostrando que ele está vivo e que faz parte da cidade. Foi assim que brotaram contos maravilhosos, crônicas e até uma letra de música.

Para nossa sorte, a previsão dos meteorologistas falhou e o domingo permaneceu ensolarado durante toda a manhã, permitindo que observássemos a rotina do Pinheiros e encontrássemos nela a inspiração adequada. Foi uma missão bem sucedida, e parte do resultado dela pode ser conferida no site da associação, basta procurar por "Expedição Rio Pinheiros Vivo". Além do mais, posso afirmar que foi uma experiência bastante divertida.

Isso porque realizamos um encontro entre desconhecidos que, em comum, tinham basicamente a vontade de escrever e de transformar o mundo ao redor, nem que fosse só um pouquinho. Parece ingenuidade, afinal, éramos quinze pessoas refletindo sobre a relação de pelo menos outras vinte milhões com um rio do qual ninguém sabe nada, nem onde nasce, nem para onde corre, nem qual é a profundidade. Só que as grandes mudanças começam assim mesmo, com uma ideia ou uma vontade que, colocada em prática, começa a contagiar. Pode ser um poema, uma música, uma fotografia ou até mesmo um sorriso. Toda manifestação vale, pois as maiores revoluções partem sempre das menores atitudes.

No caso de nossa breve expedição literária, estou certo de que algumas palavras ficaram marcadas, como uma sutil nota de rodapé que provoca o leitor-cidadão da seguinte maneira: o rio Pinheiros existe mesmo, vimos ele lá do alto do prédio, uma longa linha de história já começada. Como vamos escrever o restante, antes que ele seque de verdade?


Ps.: A foto que ilustra esse texto foi tirada na represa Billings durante uma das expedições do evento Rio Pinheiros Vivo, só não sei o nome do autor. Se por acaso alguém souber, deixe um comentário que eu atualizo o post.

Ps. 2: Leia o conto que eu escrevi durante essa experiência com Marcelino Freire: O ACHADO DO SUMIÇO DO RIO

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