sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CONJETURA DA IMPOSSIBILIDADE

muito possivelmente é
seria impossível ainda
que desejável seja,
por mais próximo esteja
ao alcance das mãos
atadas

improvável que pareça
a ciência exata joga a toalha,
cobre de artifícios
sua própria falta
de inventividade
criativa

ato possível sim
a imaginação não nega
tampouco arrega à regra,
permite-se a si mesma
sem medo de errar
aceita

o incerto do impossível
tão real quanto alguma ficção,
fixação que solta a mente
do concreto rés do chão

convém pesar a verdade
na não-escala da abstração

       [para o infinito]

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

"Em Kafka, a instituição é um mecanismo que obedece a suas próprias leis que foram programadas não se sabe mais por quem, nem quando, que não têm nada a ver com os interesses humanos e que são portanto ininteligíveis."

[Kafka só não é brasileiro porque é universal.]

"Os mecanismos psicológicos que funcionam no interior dos grandes acontecimentos históricos (aparentemente inacreditáveis e desumanos) são os mesmos que regem as situações íntimas (inteiramente banais e muito humanas)."

Milan Kundera, A arte do romance
sim, fui muito ridículo
poucas vezes
na vida
– fui suficientemente ignorante
quase sempre
motivo de conforto, frustração
às vezes dá raiva
assim
"O que nos salva da civilização ocidental?"

Georg Lukács [pensando nos possíveis resultados da 1ª Guerra Mundial]

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

SOU BENEDITO

"Se fiz bem, vamos manter silêncio;
Se fiz mal – vamos rir então
E fazer sempre pior,
Fazendo pior, rindo mais alto
Até descermos à cova.
(...)
Creiam, amigos, a minha desrazão
Não foi para mim uma maldição!"

       Entre amigos, Nietzsche, 1886


sou benedito
       pelo mau compreendido

uma vês que
       está

       falado mas não se houve
       ah mas não se tem
       dado que não cessente
       visto que não se crê

       fidedigno de ser
       não fosse feito
       – mesmo eu –
       safaria-o

amem! e até mais ver!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ANJO: DESTERRITORIALIZADO

ambíguo.
nem deus nem santo nem diabo
nem bom nem mau nem homem
nem carne nem sopro nem espírito
nem macho nem fêmea nem gênero

nem ser nem estar
sem eira nem beira

nem adulto nem criança
nem eros nem querubim

nem voo nem pé
tanto faz como tanto fez

nem meu nem seu
nem todos, imprecisão

nem guarda nem canta nem cai
nem lá nem cá nem acolá
nem céu nem inferno nem lugar
nenhum

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

a linguagem faz ser
o que não é
– definível, exata
sombra nem imagem
fora da linguagem
desformada está.

a linguagem facínora
obrigatoriamente é
sentido
contra o sensível,
dá forma
em troca da alma.

domingo, 14 de dezembro de 2014

descobri minha paranoia
finalmente!
há anos venho tentando
persegui-la
encontrá-la
defini-la
determiná-la
apreendê-la
cercá-la por todos os lados
para que seja só minha
– minha paranoia,
ademais ninguém


nãnãni nãnãnão

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Rooms by the Sea (1951), de Edward Hopper

incessante transgressão, ultrapassamentos
daquilo que somos, do humanismo
que nos cola a pele, gruda
como cracas no casco, dificulta
o movimento, atrasa
a navegação.
Como se desprender?
do que impregnou, da tradição
das águas que sustentam o
barco ao mesmo tempo em
que o mantém no lugar?, mesmo
com a sensação de que flutua livre-
mente? com sua carga histórica ativa
– histérica! – ainda
desconhecida? Pesada demasia-
damente pesada.

para Peter Pál Pelbart, pela aula de poesia.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

(Há pouco, no metrô:)

- Minha mãe disse, você lembra seu pai, com esse cabelo! Que ótimo, mãe, vou cortar, respondi.
- Ela gostou um dia.
- Gostou, mas hoje deve odiar.

(Pronto, pode continuar o romance.)

domingo, 7 de dezembro de 2014

SABEDORIA DO ROMANCE

É o que o escritor Milan Kundera defende, uma sabedoria própria do romance, percebida e contada por narrativas, quase sempre em desalinho com os grandes avanços científicos e muitas vezes mais pertinentes do que eles. Tal saber viria da observação do mundo e da perspicácia de captar nele não as luzes mas as trevas – para usar esta expressão do filósofo Giorgio Agamben. Ou seja, a sensibilidade do romancista seria capaz de apreender dilemas contemporâneos que ainda não vieram à tona, porém agem às escondidas e nos afetam sem que nós saibamos, sem que estejamos aptos para distingui-los.

"Descobrir o que somente ele pode descobrir é a única razão de ser de um romance". Essa ideia é desenvolvida nos diversos textos que compõem A arte do romance, primeiro livro de "não-ficção" de Kundera. Estão nele reflexões obtidas a partir da sua experiência como escritor, as quais não se propõem como teoria, mas como "confissões". Entre elas, a tal sabedoria do romance foi a que mais me chamou a atenção. Claro, olhando para minha biblioteca particular, dando-me conta de que dois terços de todos os livros que li são romances, não tenho como discordar, nem mesmo se quisesse.

Posso afirmar que foi com romances que descobri as coisas mais complicadas: a insuficiência das relações humanas; a inexatidão/enganação da História; a força transgressora, profanadora e transformadora do humor; a necessidade urgente da desmilitarização em todos os seus sentidos; o devir minoria; a penetração da política na banalidade da rotina; o fascismo da língua; a estrutura ficcional que sustenta a dita "realidade".

Nada disso é exclusividade da minha experiência como leitor – pelo menos da Modernidade em diante, boa parte dos pensadores se dedicam a analisar e até mesmo a produzir literatura, romances em especial. Filósofos, sociólogos, etnógrafos, educadores, políticos, psicólogos, artistas de outros campos – de alguma maneira eles flertam com a sabedoria possível daquela forma literária tão impregnada na cultura geral.

Uma das sabedorias que Kundera destaca é a da incerteza – a incrível capacidade que o romance oferece de contrariar a lógica e os dogmas, de mostrar que o julgamento e a busca da verdade se esfacelam perante a relatividade do mundo dos homens. É o que nos faz acreditar nas perguntas porém jamais nas respostas; a jamais sermos guiados apenas pela razão, uma vez que ela levará – necessariamente – a uma ilusão absolutista. Relatividade que manterá sempre em dúvida a moral de Anna Karenina, de Tolstói; K., de Kafka; Capitu, de Machado. E que colocará em questão a moral em si. "O romance é o paraíso imaginário dos indivíduos. É o território em que ninguém é dono da verdade". Ele dá a ver a ambiguidade de que somos feitos.

O romance oferece aberturas. Linhas de fuga. Desvios. Oferece a possibilidade de inventar lugares para que modos de existência de todo tipo ocupem, encontrem outros, dialoguem. Lugares oriundos de fraturas do mundo, para citar novamente Agamben, que por sua vez chega a essa ideia por um poema de Osip Mandelstam.

A vontade de abertura do pensamento caracteriza o romance como transgressor de uma ordem social pautada na obediência, na servidão e no assujeitamento; desse ideal iluminista que acredita cegamente na democracia da maioria e que pretende assegurá-la pelo terrorismo de Estado. Não à toa foi uma pilha de livros que vimos queimar toda vez que um regime totalitarista assumiu o poder.

A dissidência provém da sua inquietação. "O romance não pode mais viver em paz com o espírito de nosso tempo: se ainda quer continuar a descobrir o que não foi descoberto, se ainda quer 'progredir' como romance, ele só pode fazê-lo contra o progresso do mundo".

Vale ressaltar que o romance não se apresenta como manual, não tem a pretensão de salvar nem de corromper, por mais que algo consiga ser aprendido com ele. A noção de verdade lhe escapa. Sua memória falha. Seu sentido para a existência humana é irônico. Talvez por isso sua sabedoria é menosprezada quando comparada à ciência.

Kundera alerta que "não se pode julgar o espírito de um século exclusivamente segundo suas ideias, seus conceitos teóricos, sem levar em consideração a arte e especialmente o romance. O século XIX inventou a locomotiva, e Hegel estava certo de ter apreendido o próprio espírito da História universal. Flaubert descobriu a tolice. Ouso dizer que essa foi a maior descoberta de um século tão orgulhoso da sua razão científica".

A tolice que Flaubert denunciou permanece em nosso cotidiano. Uma tolice moderna que não significa ignorância ou falta de informação, mas o "não pensamento das ideias recebidas", ou seja, a nossa preguiça concordante, consensual, superficial, agressiva, confortável. Tolice que determina um padrão de comportamento dominante, que aceita esse padrão, independente de idade, gênero ou classe social.

Admiro o romance pelas suas tentativas de retratar um contemporâneo que não fica parado para ser observado em detalhes, portanto impossível de ser descrito com exatidão. Pelo contrário, ele jamais adquire forma verossímil.

Como Kundera explica, "o romance não examina a realidade mas sim a existência. A existência não é o que aconteceu, é o campo das possibilidades humanas, tudo aquilo que o homem pode tornar-se, tudo aquilo de que é capaz. Os romancistas desenham o mapa da existência descobrindo esta ou aquela possibilidade humana. (...) Existir, isso quer dizer: 'ser-no-mundo'. É preciso portanto compreender o personagem e seu mundo como possibilidades".

sábado, 6 de dezembro de 2014

O HOMEM PENSA, DEUS RI

"François Rabelais inventou muitos neologismos que em seguida entraram para a língua francesa e para outras línguas, mas uma dessas palavras foi esquecida e podemos lamentá-lo. É a palavra agélaste; ela é tomada do grego e quer dizer: aquele que não ri, que não tem senso de humor. Rabelais detestava os agélastes. Tinha medo deles. Queixava-se de que os agélastes eram tão 'atrozes contra ele' que esteve a ponto de parar de escrever, e para sempre.

Não existe paz possível entre o romancista e o agélaste. Não tendo nunca ouvido o riso de Deus, os agélastes são convencidos de que a verdade é inequívoca, de que todos os homens devem pensar a mesma coisa e que eles mesmos são exatamente aquilo que pensam ser. Mas é precisamente ao perder a certeza da verdade e o consentimento unânime dos outros que o homem torna-se indivíduo. O romance é o paraíso imaginário dos indivíduos. É o território em que ninguém é dono da verdade, nem Anna nem Karenin, mas em que todos têm o direito de ser compreendidos, tanto Anna como Karenin.

(...)

A erudição de Rabelais, por maior que seja, tem portanto um outro sentido que a de Descartes. A sabedoria do romance é diferente daquela da filosofia. O romance nasceu não do espírito teórico mas do espírito do humor. Um dos fracassos da Europa é jamais ter compreendido a mais europeia das artes – o romance; nem seu espírito, nem seus imensos conhecimentos e descobertas, nem a autonomia de sua história. A arte inspirada pelo riso de Deus é, por sua essência, não tributária mas contraditória das certezas ideológicas."

KUNDERA, Milan. A arte do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp. 147-148.