domingo, 28 de junho de 2015

MAIS EDUCAÇÃO, MENOS ARMAS

Resolvi trazer um ponto de vista diferente sobre o que Bene Barbosa escreveu no Correio Popular de 24 de junho passado. Talvez porque eu tenha me identificado com o que ele chama de “desarmamentistas, profetas do caos”, nessa sua lógica paradoxal. Ao contrário de Bene, não sou especialista em segurança pública, e mesmo assim não é difícil mostrar outras perspectivas sobre o assunto. Afinal, aquela sua opinião acaba restrita a uma única maneira de pensar, tanto que não se sustenta se considerarmos:

1) O objetivo final da arma de fogo é provocar tragédias (guerras, mortes, ataques, violências de diversos gêneros). Ela não é fabricada para evitá-las e, ainda que alguém as empunhe com esse propósito, só poderá fazê-lo por meio de tragédia similar a qual combate. Porque é assim que as armas de fogo funcionam. Elas sustentam a própria lógica da violência.

2) Bene afirma que, quando os seguranças de shopping center passaram a portar armas, os assaltos deixaram de existir. Se seguirmos o mesmo raciocínio, nunca deveria ter ocorrido assalto a bancos ou carros-fortes, uma vez que seus seguranças sempre estiveram armados. Sabemos que isso é absurdo. E sabemos que um ambiente armado necessariamente implica maior risco potencial do que um ambiente livre de armas. Em outras palavras, o risco de consumidores tomarem um tiro no shopping é maior quando o número de balas e armas naquele ambiente aumenta. Se o tiro é disparado ou não, isso não depende somente de os seguranças apresentarem maior ameaça aos bandidos. A análise de um contexto como esse é muito mais complexa do que o fato de os seguranças estarem ou não armados. É difícil aceitar um argumento tão reducionista.

3) Acharia até engraçado, se não fosse lamentável, alguém chamar de “profetas do caos” aqueles que desejam viver num mundo sem armas. Quem seriam os armamentistas, então? Profetas da ordem? Ora, a ordem mantida pela ameaça é sempre impositiva, repressiva, violenta. Vide as ações do Estado Islâmico e dos soldados norte-americanos. Vide todas as ditaduras estabelecidas mundo afora. Vide nosso próprio dia a dia, a realidade dos morros brasileiros, a realidade das nossas ruas etc. Cada um deles impõe sua ideia de ordem à sua própria maneira.

4) Bene parece ter uma visão distorcida sobre educação. Pois, ao citar um segurança de shopping com quem conversou – e fazer questão de explicitar a pronúncia errada do sujeito (como forma de menosprezá-lo?) –, ele defende o argumento de que “os bandos de moleques que gostavam de fazer arruaça” deixaram de agir assim porque ficaram mais educados. Não, claro que não. Eles ficaram acuados porque os seguranças apresentaram maior poder. Isso não é educação, é coerção. Enquanto desconhecemos limites da educação, sabemos que a coerção sobrevive somente até que um poder maior se apresente. Em suma, acho impossível concordar com seu argumento final, de que armas nas mãos certas significariam mais educação.

Este é o texto que originou o meu. Clique na imagem para ampliá-la.

Não bastassem esses argumentos, compartilho ainda uma inquietação que me atravessa. Pois a conclusão lógica para todos esses meus pontos seria: vamos proibir o porte de armas. Porém eu não posso defender a proibição de algo como solução. Entendo que proibir é sempre uma forma de exercer violência, ainda que “cidadãos de bem” a façam com “a melhor das intenções”, conforme alguns discursos falsamente moralistas que observamos com frequência em relatos de confrontos. O mesmo vale para suprimir direitos que os cidadãos têm de agir conforme suas crenças, dentro de um limite socialmente saudável, com vontade libertária, respeito pelo outro e conduta ética. Direto de fazer suas escolhas e assumir as consequências. Talvez seja esse o único ponto em que concordo com as propostas da ONG presidida por Bene. Conforme li no site do Movimento Viva Brasil, “Não defendemos de que a população deva se armar indistintamente, mas tomamos por inaceitável que lhe seja retirado o direito de escolha em o fazer ou não”.

Entre o sim e o não, eu acredito, acima de tudo, no investimento em educação. Acredito que uma sociedade culta, capaz de refletir por si mesma e também de aceitar suas diferenças não recorreria às armas. E quem acredita em educação não aposta em armas de fogo. Simplesmente porque, em essência, as duas coisas são diametralmente opostas. Uma deseja a emancipação, a outra propõe a morte.

Não quero armas nas mãos de “pessoas certas”, até porque é o fato de estarem armadas que costuma dar razão às pessoas que as portam. Quero, sim, uma sociedade sem armas. Que não se exponha aos riscos desse porte.

Bene considera excelente um artigo do major norte-americano L. Caudill, intitulado “A arma é civilização”. Admito que sim, infelizmente. A nossa civilização acolhe violências de muitos tipos. Então, de alguma maneira, arma e civilização compartilham características que as aproximam. Só não podemos confundir, nesse caso, civilização com civilidade. Porque a arma pode ter alguma relação com o modo como a civilização se constitui. Mas portar armas jamais será uma atitude de civilidade.

domingo, 21 de junho de 2015

PALAVREADO SOBRE A LÍNGUA

Achei graça quando vi Inês Books falar sobre A desumanização, romance de Valter Hugo Mãe que ainda não li. Foi num vídeo de Youtube, numa das experiências de leitura que ela compartilha com o mundo a partir de Portugal, onde vive. Inês conta que a história se passa na Islândia, e que a presença da ilha é tão forte quanto a de outras personagens, a ponto de considerar ela própria uma espécie de protagonista. A ilha influencia o comportamento de seus habitantes e o desenrolar da narrativa, portanto o autor teria conseguido dar vida àquela porção de terra isolada no oceano, a qual sobrevive em meio ao antagonismo do gelo glacial e o fogo dos vulcões. Para Inês, é como se a lava pulsasse sob o chão, temperamental; como se corresse nas entranhas do lugar, provocando a sensação de que "a qualquer momento a ilha se vai a zangar e vai deitar tudo cá pra fora".

Foi essa sua expressão, em particular, que me fez sorrir. Acho divertido o que chamamos popularmente de "sotaque lusitano", e que a meu ver está além de uma sonorização diversa: é mesmo uma dobra na língua, uma espécie de marca territorial que se abre a outro campo de exploração. Um convite para desvendar um novo mundo. Quer dizer, o "português de Portugal" não seria somente questão de entonação, mas uma maneira própria de cuidar das palavras, constituir frases, construir sentidos, pronunciar e se expressar pelo verbo.

Admito que desconheço a teoria, e o que escrevo aqui diz mais respeito ao sentimento de ler e ouvir os portugueses do que a um estudo linguístico ou algo similar. Esse sentimento sugere que os portugueses utilizam a língua de maneira diferente de nós, brasileiros, seja nosso sotaque paulista, carioca, baiano ou gaúcho. Empregam palavras incomuns, expressões locais, contorções ou desvios, estruturas de diálogo que obedecem a outra lógica. Mais que isso: exploram demais sentidos das palavras que usamos corriqueiramente por aqui, e acho linda essa ampliação do campo semântico, que revela certa elasticidade da nossa língua comum.

Ao ler e ouvir o português de além-mar, sinto como se os territórios da língua se alargassem, como se cada termo operasse mais potência. A ponto de, em muitas ocasiões, a comunicação ser ininteligível: ainda que reconheça as palavras, não consigo acessar o significado maior do enunciado; ouço eles conversarem porém não apreendo com exatidão o que é dito, como se ouvisse mesmo uma língua estrangeira. Resta me aproximar aos poucos, com cautela e disposição, deixando que sons e letras indiquem um caminho.

Não me entenda mal: defendo que o português seja um só; abomino a ideia de segregar nossa língua, chamando-a de "brasileirês" ou qualquer bobagem do gênero. O que eu mais gostaria de ver são livros publicados em Portugal e nos outros países lusófonos circulando livremente por aqui, sem amarras jurídicas, mercadológicas e políticas, nem adaptações lexicais – todos só teríamos a ganhar com isso, tanto autores e leitores quanto a própria literatura e, claro, a língua portuguesa em si.

Daí a estupidez de ignorar as variações do português com um acordo ortográfico internacional, como se a norma fizesse a língua e não o contrário. Acentuação, hifenização, trema... que sejam diferentes como costumavam ser em cada canto destas terras! Não são as regras que aproximam as "línguas portuguesas", mas o incentivo à leitura e às trocas culturais; o acesso, o conhecimento e o respeito pelas diferenças; a livre circulação das publicações; a oportunidade de emergir o comum por meio do dissenso – em vez deste consenso artificial.

Admiro a resistência do jornal Rascunho, dedicado à literatura, por publicar mensalmente suas edições sem obedecer ao tal acordo ortográfico de 1990, embora pareçam ter abdicado dessa atitude há pouco tempo, não sei por qual motivo. Assim como admiro também José Saramago, que, se não me engano, não admitia a adaptação de seus livros para o "português brasileiro", sendo todos eles publicados aqui exatamente como em Portugal. Pois acredito que é pela possibilidade de exercer diferença que a língua amplia seus limites; é por causa disso que permanece viva e pulsante. Pode assim – se Inês me permite parodiar sua simpática expressão – a qualquer instante se enraivecer e irromper em verborragias sobre nossas ilhotas particulares.